sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Valdir Appel: na boca do gol


Quando um goleiro sofre o que na gíria do futebol batizou-se de “frango”, pode-se colocar toda uma carreira profissional no lixo. Por mais que eles, os goleiros personagens desta fatalidade, digam se tratar de um “acidente de trabalho”, jamais serão vistos pelos torcedores ou pela mídia com os mesmos olhos.

Entre tantos “frangos” espetaculares, existe um que marcou definitivamente a carreira do goleiro Valdir Appel. E o lance inusitado não aconteceu com a camisa de um clube peladeiro qualquer, mas com a camisa do titular do Vasco da Gama. Foi em 1969, quando Appel, após defender um chute disparado por um atacante do Bangu, acabou, na reposição da bola, arremessando-a para o próprio gol.

Muito mais do que simples fatalidade, Valdir Appel serve como exemplo de superação para muitas pessoas (sejam elas ou não atletas profissionais). 

Enfrentou o drama de cabeça erguida. Seguiu a carreira profissional, mas sabia que teria de sempre ser lembrado pelo frango histórico e não pelo que realizou com perfeição debaixo das traves de vários clubes brasileiros.

O bom humor pode ser definido por uma frase cunhada por ele após as insistentes perguntas sobre a trágica jogada: “...Uma vez disse a um repórter que o Pelé fez mil gols para ficar famoso e eu só fiz um”.



O gol contra de Appel.
A “tragédia” de Appel pode ser vista nas centenas de entrevistas que já foi obrigado a dar para recontar seu drama pessoal. Na internet, são várias as fontes (uma delas, essa que vale a pena ler http://globoesporte.globo.com/sc/noticia/2012/09/goleiro-famoso-por-gol-contra-no-maracana-da-forca-michel-alves.html), e até mesmo um documentário já foi feito onde o goleiro reconta passo a passo o que aconteceu naquele dia de 1969.


Outra entrevista interessante foi feita por um blog que o Literatura na Arquibancada recomenda, o www.ultimadivisao.com.br (histórias a contar, personagens a descobrir). O autor do bate-papo é Matheus Trunk. Na conversa com o ex-goleiro, Trunk nos revela que uma das formas de Valdir Appel suportar as eternas cobranças foi escrever, mas não escrever somente sobre o lance fatídico, mas também sobre as histórias positivas e curiosas vividas dentro dos gramados. Tem dois livros publicados: Na boca do gol e O goleiro acorrentado, ambos da S&T Editores.


Na Boca do Gol:
primeiro livro escrito por Valdir Appel
Última Divisão: Seu primeiro livro (Na Boca do Gol) contém diversas histórias que o senhor testemunhou como jogador profissional. Qual é a principal diferença deste para o segundo (O Goleiro Acorrentado)?

Valdir Appel: Basicamente, O Goleiro Acorrentado segue a mesma linha do primeiro. 

São crônicas bem humoradas sobre os bastidores do futebol, profissão que exerci durante vinte anos. 

Tenho um acervo de fotos, livros, revistas que ajudam na pesquisa e na ilustração dos textos.

UD: Num dos melhores capítulos do Na Boca do Gol, há  uma história de eliminação que o senhor viveu jogando pelo Alecrim. Parece que você tinha feito inclusive uma promessa para conseguir a vaga. Como foi isso?


Valdir Appel defendeu o Alecrim (RN) no
Campeonato Potiguar de 1974.
VA: O Alecrim foi um divisor de águas na minha carreira. Após a cirurgia que custou minha saída do Vasco, joguei pelo CEUB de Brasília ainda com os reflexos de uma má recuperação. Em Natal, recuperei meu joelho totalmente nas águas potiguares. Para ficar bom ficar bom e levar o Alecrim às finais do campeonato deixei até de beber cerveja.

UD: De todos os técnicos que o senhor teve qual foi o melhor?

VA: Conheci vários técnicos competentes: gosto de citar Elba de Pádua Lima (Tim), Zezé Moreira e Paulinho de Almeida. O primeiro um senhor estrategista; o segundo um conhecedor profundo do futebol, educadíssimo; Paulinho herdou do Zezé a disciplina, a rigidez e era extremamente imparcial nas decisões.

UD: O senhor jogou numa época em que o Campeonato Brasileiro era longo e com diversas equipes. Quais as vantagens e desvantagens de jogar uma competição dessa maneira?

VA: No passado, as viagens longas e cansativas contribuíam muito para o desgaste das equipes, somando-se a isso os campos ruins e pequenos, que fortaleciam os esquemas das equipes do interior. Numa época em que nenhum clube ia jogar fora com o argumento de que o empate era um bom resultado.

O ex-goleiro atuou por equipes menores do
futebol brasileiro como o Bonsucesso do RJ.
UD: O mercado editorial está expandindo o espaço para obras literárias sobre futebol. Por quê poucos ex-atletas resolvem lançam livros como o senhor?

VA: Mesmo não tendo lançado meus livros como uma biografia – já que passeio pelo tema futebol, contando causos e histórias, presenciadas à beira do gramado, dentro ou em torno dele. Meus livros falam de momentos, lances curiosos, atletas folclóricos e todos aqueles que estão nos bastidores de um time de futebol (médicos, roupeiros, massagistas, dirigentes, torcedores, jornalistas, etc…) e jogos inesquecíveis; é impossível não deixar nas entrelinhas o perfil do escritor. O atleta dedica-se integralmente ao futebol e pouco tempo sobra para estudar. São praticamente dez anos em busca da independência financeira. Irá sentir a falta dos estudos após o termino da carreira. Por isso não poucos se sentem preparados para escrever suas memórias.

UD: O senhor jogou por diversas equipes tidas como menores. Quais eram as principais dificuldades em atuar por esses clubes?

VA: Salários baixos, atrasados, que dificultavam o dia a dia do atleta e da família. Mesmo sabendo que o jogador no dia do jogo esquece os problemas e procura dar o máximo (porque sabe que se não fizer o máximo a tendência é piorar), leva dentro dele os problemas da semana, não resolvidos no clube e na família, que refletem no seu desempenho.

Valdir Appel pelo Goiânia, em 1978.
UD: O senhor jogou pelo Goiânia. Atualmente, o clube está disputando a segunda divisão estadual. Para o senhor é muito triste ver o atual momento do time?

VA: Tenho o Goiânia no coração, praticamente encerrei a minha carreira no Galo. Engraçado (é uma longa história) é que joguei praticamente de graça por lá, dei meu passe de presente ao clube e depois dei lucro ao ser vendido ao Atlético. Em contrapartida, após abandonar o futebol fui convidado e fui treinador das equipes de juniores e juvenis por um período de um ano. Descobri que não nascera para o cargo e me demiti ao final da temporada, mesmo deixando bons resultados. Gostaria de vê-los de volta a elite. Sempre que vou a Goiânia procuro pessoas envolvidas com o clube.

Valdir Appel percorreu o Brasil jogando pelo Volta Redonda
no Campeonato Brasileiro de 1976.
UD: O senhor ficou conhecido por um gol contra num jogo Vasco e Bangu pelo Campeonato Carioca de 1969. O lance foi parecido com o lance do goleiro Michel Alves do Criciúma no jogo contra o América de Minas. Esse episódio marcou a carreira do senhor?

VA: Marcou, mas não encerrou a minha carreira. O mesmo acontecerá com o Michel, que tem o beneficio da imagem para mostrar que já superou o episodio.

UD: Como ex-atleta experiente, o que o senhor diria para o Michel?

VA: Que tenha muita paciência com os torcedores porque irá contar este momento pelo resto da sua vida. Eu já conto há 43 anos.

UD: Na sua opinião, quais são os grandes goleiros brasileiros na atualidade?
VA: Gosto muito do Rafael do Santos. Ele é jovem ainda, mas revela uma personalidade marcante. É um atleta discreto, seguro e tem tudo para se firmar entre os melhores da posição. Jefferson, Felipe, Victor e Diego Cavalieri são bons goleiros. Mas podem render mais.

Literatura na Arquibancada agradece duplamente a Matheus Trank, porque abaixo você pode ler a crônica onde o goleiro descreve o gol que o marcaria para sempre, publicada no livro de Valdir Appel e transcrita em partes por ele.

Trechos da crônica publicada no livro Na Boca do Gol
Por Valdir Appel

A massa vascaína tomava conta praticamente de todo o estádio, contrapondo-se a pequena torcida do Bangu.

O jogo foi equilibrado até os 19 minutos, quando o goleiro Devito cometeu duas falhas consecutivas. Na primeira, atrapalhou-se num cruzamento do nosso ponta direita Nado, largando a bola nos pés de Adilson, que não perdoou: 1 a 0. Logo em seguida, cometeu um pênalti desnecessário. Pênalti mal cobrado por Buglê, que conseguiu a proeza de mandar a bola quase nas arquibancadas do Maracanã.

O jogo estava difícil, bem disputado, e eu fazendo boas defesas e transmitindo confiança ao time. Aos 44 minutos da primeira etapa, o centroavante adversário Dé dominou uma bola, de costas para a minha baliza, entre a marca do pênalti e a risca da grande área; girou o corpo e desferiu um sem-pulo espetacular no meu canto baixo, à direita.

Realizei um salto perfeito e encaixei firme a pelota!
Deu pra ouvir o comentário zangado do Dé:
“Filho da puta! Como é que pega uma bola dessas?!”
Um longo aplauso veio das arquibancadas.

Ergui-me do gramado, com a bola nas mãos. Observei a saída da zaga e as colocações de Ebeval e Silvinho, pelo setor esquerdo da minha área. O primeiro tempo estava para acabar, e decidi repor a bola nos pés de Silvinho.

O braço fez a alavanca e a bola saiu forte de minhas mãos. Perdi o equilíbrio: as pontas dos meus dedos tocaram de leve a bola, que mudou sua trajetória, indo chocar-se com força no meio do poste esquerdo do meu arco, morrendo no fundo das redes.

Apoiado em um dos joelhos, me senti impotente, com vontade de sair correndo pra buscar a bola, fazer voltar o lance, apagá-lo da minha mente!


Silêncio total no maior estádio do mundo...

Eu me senti profundamente envergonhado. Mesmo quando Mário, do Bangu, e meus companheiros, foram me consolar.

Arnaldo César Coelho encerrou o primeiro tempo sem sequer dar nova saída de bola.
Preparei-me para iniciar o que seria a maior travessia do Maracanã. Estava no gol, à direita da tribuna de honra, e meu vestiário estava do lado esquerdo.

Antes mesmo de chegar à linha da grande área, um batalhão de repórteres, empunhando seus microfones, já me cerrava perguntando:
“O que é que houve?”
Minha resposta saiu rápida e definitiva, detendo outras perguntas:
“Um acidente de trabalho”.

Continuei em frente. Aplausos tímidos da minha torcida tentavam me consolar; os colegas faziam o mesmo.

Fiquei entorpecido. Minha cabeça não parava de pensar nas consequências que poderiam advir daquele gol absurdo. Tinha que reagir ou poderia ser crucificado.

Cheguei próximo ao banco de reservas. Pinga, Evaristo Macedo, doutor Arnaldo Santiago e Carlos Alberto Parreira me aguardavam. Apressaram minha descida para o vestiário.
“Espero que ninguém esteja pensando em me sacar por falta de condições psicológicas”, disparei.

Pinga respondeu, tranquilo:
“Apenas desça, pra evitar maiores assédios”.
Nos vestiários, Parreira, que também era treinador de goleiros, tomou uma providência importante: pediu para que eu fosse me refrescar, trocasse a camisa, e o acompanhasse.
Enquanto os demais jogadores relaxam em suas cadeiras e ouviam novas orientações do treinador, passei o intervalo inteiro batendo bola com Parreira.

Desta forma, ele tentava impedir que eu parasse pra pensar no desagradável episódio.
Como se isso fosse possível!

Na volta pro segundo tempo, Alcir me perguntou se eu estava tranquilo quanto aparentava. Respondi que estava bem e que iríamos ganhar o jogo.

Dentro do túnel, uma surpresa: o repórter volante de uma emissora de rádio me perguntou:
“Valdir você vai voltar?”.
“Não! É sua mãe que vai pro gol, seu filho da puta!”.
Já no gramado, outro repórter me abordou. Colocou um fone de ouvidos em mim e me botou em contato com o goleiro Barbosa, que estava nas tribunas. Barbosa tentou me incentivar, dizendo que eu levantasse a cabeça, e que com ele havia sido pior: uma falha havia custado ao Brasil o título da Copa do Mundo de 1950.

Agradeci ao grande goleiro. Se bem que a última coisa em que eu estava interessado naquele momento era com comparações. Minha preocupação era fechar o gol e não permitir suspeitas sobre o meu equilíbrio emocional. Eu sabia que um segundo tempo ruim poderia significar o fim da minha carreira.

Joguei bem, mas o placar permaneceu igual. Nos vestiários, tive que dar mil entrevistas, repetindo sempre como a bola me escapara das mãos ao arremessá-la. À noite eu estava parcialmente refeito. Pesava um pouco o fato de o Vaso ter perdido um ponto – e por causa daquele gol.

Sobre Valdir Appel, vale acessar o blog criado pelo ex-goleiro:
http://valdirappel.blogspot.com.br/


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