sábado, 15 de dezembro de 2012

Megafone do Esporte: 20 anos sem Kanela

Arte: Zuca Sardan

A partir de hoje (15/12), um espaço nobre dentro do conteúdo do Literatura na Arquibancada. Deixa Falar: o megafone do esporte surgiu da cabeça de um mestre, o historiador e apaixonado pelo esporte (especialmente quando o tema for o seu querido Botafogo), Raul Milliet Filho.

Deixa Falar: o megafone do esporte é um espaço que estará aqui no Literatura na Arquibancada , no blog do Juca (http://blogdojuca.uol.com.br/ ) e na Carta Maior (http://www.cartamaior.com.br ) quinzenalmente, sábado sim, sábado não, debatendo o esporte em geral e o futebol em particular, dialogando com a História, Política, Música, Economia, Literatura, Cinema, Teatro, Humor etc.

O Megafone do esporte não tem medo de bola dividida e não vai tirar o pé diante de fatos cotidianos polêmicos, como a privatização do Maracanã e os mandatos quase vitalícios de cartolas em seus cargos.

Arte: Zuca Sardan

Mas tudo sempre pautado pelo bom humor e aberto ao contraditório, pois Megafone que se preze não é dono da verdade: Deixa Falar.

O time do Deixa Falar: o megafone do esporte tem treze participantes (confira no final o time de craques). O grupo é plural, com opiniões diferentes nos assuntos, nas ideias e também nas idades de seus componentes, que variam dos 30 aos 80 anos.

Nesta primeira edição, um tributo a Togo Renan Soares, Kanela, o maior técnico da história do basquete brasileiro, nos 20 anos de sua morte.



Kanela
por Raul Milliet Filho.


Arte: Zuca Sardan

Togo Renan Soares, o Kanela, não foi apenas o maior técnico da História do basquete brasileiro ou do basquete mundial como declarou esta semana Rubén Magnano. Foi um homem à frente do seu tempo. Maior do que os números impressionantes de sua ficha técnica. 

Dirigindo a seleção masculina, conquistou o bicampeonato mundial (1959 e 1963), a medalha de bronze nas Olimpíadas de Roma em 1960, foi decacampeão carioca pelo Flamengo, dentre vários outros títulos.

Kanela era eclético, inquieto, disciplinado e explosivo.

Técnico de futebol (Botafogo, Bangu, E.C.Brasil e Flamengo) e de remo, sua vida se confunde com a História do esporte brasileiro na transição do amadorismo para o profissionalismo.


Estrategista brilhante, metódico, um líder à beira da quadra e do campo, respeitado por atletas e dirigentes. Sem saber nadar, foi técnico de water polo, campeão pelo Botafogo em 1944. 

Paraibano, nascido em 1906, muda-se para o Rio de Janeiro com 11 anos, ingressando no Colégio Militar, instituição que lhe apresentou o mundo dos esportes. 

Em 1921, torna-se sócio do Botafogo, onde pela sua canela branca e fina, ganha o apelido que o acompanhou para sempre.

“Eu comecei minha vida esportiva jogando e torcendo para o Botafogo...eu entrei para sócio-atleta, mas praticava futebol muito mal, era um mau atleta em questão de habilidade.  A minha vida era: de manhã, o Botafogo de Regatas, e à tarde, o Botafogo de Futebol.” (Depoimento a Pedro Zamora- em “A Era Kanela”)


Em 1925, Kanela é convidado por Carlito Rocha, então diretor geral dos esportes do clube, para dirigir o time juvenil de futebol do Botafogo, conquistando naquele mesmo ano, aos 19 anos, o título de campeão carioca invicto.

Começava ali sua carreira vitoriosa de técnico.

Poucos sabem, mas ele foi o responsável por revelar Domingos da Guia para o futebol. No início da carreira, Domingos jogava no meio campo do Bangu.  O centro-médio da época. Kanela convenceu-o a recuar e jogar como zagueiro de área. Domingos tornou-se o maior zagueiro da História do futebol brasileiro, um dos grandes do futebol mundial.

No ano de 1984, em uma longa conversa/entrevista que tivemos, puxei o assunto sobre Domingos da Guia. Kanela lembrou-se das afirmações de Gilberto Freyre em seu prefácio ao livro clássico de Mário Filho, “O negro no futebol brasileiro” O escritor fala do estilo “um tanto álgido” do futebol de Domingos, quase sem floreios e jogadas de efeito.  Para ele, e para o próprio Kanela, Domingos da Guia tinha as qualidades da moderação, sobriedade, sem perder a criatividade.

Domingos da Guia

Pude perceber que a definição de Gilberto Freyre para Domingos da Guia caía como uma luva em Kanela: “Um apolíneo entre dionisíacos”.

Em outro texto, Gilberto Freyre lembra as características dos apolíneos, relativas a Apolo, deus grego caracterizado pelo equilíbrio, disciplina e comedimento. E dos dionisíacos, de Dionísio, deus grego dos ciclos vitais, do entusiasmo, da alegria e da inspiração criadora.  Dionísio ou Baco, para os romanos. 

A decisão de Kanela de recuar Domingos da Guia para a zaga revela sua ousadia e criatividade, próprias de um dionisíaco e abre caminho para conhecermos outra história, ainda mais desconhecida.

Uma história que diz respeito à marcação da defesa no início dos anos 30. Só o espírito observador e inquieto de Kanela poderia explicar porque ele foi um dos primeiros a estudar e aplicar no Brasil a segunda lei do impedimento de 1925. Ele e Gentil Cardoso.

Kanela, no Flamengo (1º a esquerda), o vice de futebol
Francisco de Abreu, Esquerdinha, Walter Miraglia,
presidente Dario de Melo Pinto e Juvenal.

Esta mudança da lei do impedimento representou um divisor de águas no futebol mundial, tornando este esporte mais interessante, rápido e alegre.

A partir daí, era imprescindível recuar mais um jogador e formar uma linha de 3 na zaga. No Brasil poucos enxergavam isso. 

Ao recuar Domingos da Guia, Kanela foi profético e certeiro, não só revelando um grande craque, mas dando um passo decisivo para modernizar taticamente o nosso futebol.

Ao tomar esta atitude, Kanela teve a frieza e o equilíbrio de um apolíneo e a inspiração criadora de um dionisíaco. E ninguém melhor do que Domingos da Guia para executar esta função até então desconhecida no futebol brasileiro.  Frio, conhecia como ninguém a arte da colocação em campo, dono de passes precisos e antecipações quase perfeitas.  

Em 1925, os times europeus começaram a jogar no 1-3-2-2-3, o famoso WM, inventado por Herbert Chapman, treinador do Arsenal. 

No Brasil, continuamos por mais de 10 anos jogando no antiquado 1-2-3-5.  Perdemos alguns títulos importantes, como o da Copa do Mundo de 1938, por este atraso tático.

Kanela e Gentil Cardoso foram pioneiros e dirigiram o Bangu e o Bonsucesso, respectivamente, no esquema tático inovador. Embora não tenham tido força e prestígio para implantar esta nova filosofia de jogo no país, abriram e pavimentaram o caminho para o técnico húngaro Dori Kurschner realizar esta e outras mudanças a partir de sua passagem pelo Flamengo e Botafogo, entre 1937 e 1940.

Kanela e o Botafogo campeão na excursão de 1935/1936.

No futebol juvenil do Botafogo, Kanela foi campeão em vários anos.  Em 1935-1936 dirigiu o time principal do clube em uma excursão ao México e EUA, voltando invicto. Em 1942, ainda no Botafogo, o técnico Kanela inicia a jornada do tricampeonato de futebol amador, com um time que fez história. Atuaram craques como Paulo Tovar, Otávio de Morais e Augusto Willemsen. Cabe lembrar a grande popularidade e importância do futebol amador e de seus campeonatos no Rio de Janeiro nas décadas de 1930 e 1940. 

Em 1933 assume o basquete do Botafogo, em paralelo às suas funções de técnico do futebol juvenil. Foi tricampeão carioca de basquete (1935-1937), campeão em 1939 e tetracampeão de 1942 a 1945. 

Assim como nos outros esportes, Kanela afirmava que foi um bom técnico, mas um péssimo jogador de basquete.

Togo fica no Botafogo de 1921 até 1947, quando após mais uma de uma série de desavenças com Carlito Rocha, abandona o clube e vai para o Flamengo. 

Esta mudança será decisiva para a sua vida e para o basquete brasileiro.

Enquanto no Botafogo, como era comum naqueles tempos de amadorismo (só o futebol se profissionalizara em 1933), Kanela se dividia entre o futebol, water polo e basquete; no Flamengo, a partir de 1950, passa a dedicar-se quase que exclusivamente ao basquete.


Revolucionou o treinamento do basquete brasileiro, valorizando os contra-ataques e introduzindo os arremessos da “zona-morta”. Decretou o fim da “zona-morta”, fazendo seus atletas executarem esses arremessos à exaustão.

A preparação física, o condicionamento atlético e as inovações no campo tático eram observados atentamente por Kanela, que foi precursor do treinamento seriado no basquete nacional.

Foi um ídolo mesmo numa época em que a seleção brasileira era composta por craques como Algodão, Wlamir Marques e Amaury Passos.

No Flamengo era comum o ginásio – que hoje leva seu nome – ficar lotado para ver o time de Kanela treinar.

Respirava basquete o tempo todo. Era daquele tipo de técnico com estilo professoral, que a toda hora parava o treino para explicar o jeito certo de executar determinada jogada. Como no caso do jump, principalmente após as mudanças das regras limitando a posse de bola até o “chute”.

Estreou como técnico da seleção brasileira de basquete em 1951. Dirigiu a seleção em quinze competições: sete vezes campeão; três vezes vice; quatro vezes terceiro lugar e uma vez sétimo lugar.


Em 1954, concentra a seleção brasileira de basquete durante três meses na fase de preparação para o campeonato mundial no Rio de Janeiro, na inauguração do Maracanãzinho. O Brasil conquista o vice-campeonato.

Ele considerava este momento como uma virada nos rumos desse esporte. 

“Em 1954 é que a coisa começou a mudar. Nós trouxemos oito cariocas, oito paulistas, dois gaúchos para um treinamento sério. Neste treinamento apareceram Wlamir e Amaury.” (Entrevista concedida ao Projeto Memória do Esporte)

Amaury tinha apenas 19 anos e formou, ao lado de Wlamir, uma dupla de ouro para o basquete. 

O basquete masculino brasileiro conquistou três medalhas de bronze em olimpíadas: em Londres (1948); Roma (1960) e Tóquio (1964). Embora só tenha sido técnico em Roma, o talento de Kanela esteve presente tanto em Tóquio (a base da seleção de basquete tinha sido montada por ele no bicampeonato mundial de 1963) quanto em Londres.


Se nos treinamentos era um estrategista, dentro de quadra ele se transformava. Com um temperamento explosivo, envolvia-se constantemente em brigas e confusões, principalmente com árbitros, dirigentes e torcedores adversários.

Foi um personagem retratado pela pena privilegiada dos maiores cronistas esportivos brasileiros.

Nelson Rodrigues, em O Tapa Cívico, exaltou a bofetada de Kanela no árbitro uruguaio, durante o jogo histórico contra a União Soviética em pleno Maracanãzinho, no Mundial de 1963.

Em 2006, o centenário de nascimento de Kanela quase não foi lembrado. Agora, no dia 12 de dezembro: 20 anos do seu falecimento.

Deixa Falar: o megafone do esporte não poderia deixar de reverenciar Togo Renan Soares.

Sobre o autor:

Raul Milliet Filho – é botafoguense, mestre em História Política pela UERJ, doutor em História Social pela USP. Como professor, pesquisador e autor prioriza a cultura popular. Gestor de políticas sociais, idealizou e coordenou o Recriança, projeto de democratização esportiva para crianças e jovens. Escreveu Mario Monicelli e o samba carioca: um diálogo possível e irreverente, para o  XXVI  Simpósio Nacional da Anpuh( Associação Nacional de Historia) em 2011 e que pode ser acessado aqui http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1308100822_ARQUIVO_MarioMonicellieosambacarioca.pdf.






Integrantes do Deixa Falar: o megafone do esporte


Ademir Gebara – graduado em História e Educação Física, mestre em História pela USP, PH D em História pela London School of Economics and Political Science., ex-diretor e coordenador de Pós da FEF Unicamp, professor visitante Universidade Federal da Grande Dourados. 


Antonio Edmilson Rodrigues – é América, livre docente em História, professor da PUC-RJ, pesquisador de História do Rio de Janeiro, escritor de temas vinculados à história urbana, coordenador do projeto Conversa de Botequim e autor de João do Rio, a cidade e o poeta.


Bernardo Buarque – professor da Escola Superior de Ciências Sociais (FGV) e pesquisador do CPDOC/FGV. `É editor da coleção Visão de Campo (7 Letras). Em 2012, publicou o livro ABC de José Lins do Rego (Editora José Olympio).


Flavio Carneiro – é botafoguense, além de escritor, roteirista e professor de literatura na UERJ. www.flaviocarneiro.com.br.


José Paulo Pessoa – é botafoguense, ator, advogado, que achava o Didi mais impressionante que o Garrincha (que foi o maior que já vi!). Diretor, cantor e compositor do Bloco das Carmelitas, de Santa Teresa (RJ).


José Sebastião Witter – é torcedor do São Paulo, professor emérito da USP e professor normalista.


Luiz Carlos Ribeiro, professor de História da Universidade Federal do Paraná e coordenador do Núcleo de Estudos Futebol e Sociedade.


Marcelo W. Proni – economista, doutor em Educação Física pela Unicamp, professor do Instituto de Economia da Unicamp, torcedor do Botafogo de Ribeirão Preto.


Marcos Alvito – é carioca de Botafogo e Flamengo até morrer.  É um antropólogo que dá aula de História na UFF desde o longínquo ano de 1984.  Perna-de-pau consagrado, estuda um jogo que nunca conseguiu jogar direito: o futebol. Mas encara qualquer um no futebol de botão.


Ricardo Oliveira – é Vasco, jornalista, educador da prefeitura do Rio de Janeiro e pesquisador da História do futebol. Coordenador da pesquisa do livro Vida que Segue: João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970.


Wanderley Marchi Jr – doutor em Educação Física e Sociologia do Esporte e professor da Universidade Federal do Paraná/BRA e da West Virginia University/USA.


Zuca Sardan (Carlos Felipe Saldanha) – Nasceu no Rio de Janeiro em 1933, mas vive em Hamburgo. Estudou arquitetura, mas fez diplomacia. Estudou desenho, mas fez letras. Hoje dedica-se a desenhos, vinhetas, poesias e folhetins. Entre seus livros, estão: Ás de colete, poesias, desenhos e Osso do Coração.








Deixa Falar: o megafone do esporte (apresentação)
http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/12/deixa-falar-o-megafone-do-esporte.html 

Um comentário:

  1. Muito bom! Kanela merece esse respeito, é digno de ser lembrado e exaltado, de fato o m maior técnico do basquete brasileiro de todos os tempos..

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