terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Marighella e o Grêmio Atlético Brasil


4 de dezembro. Terça-feira “gorda” ou terça-feira "marighellista"! A definição é do jornalista e escritor Mário Magalhães, autor da espetacular biografia sobre o guerrilheiro Carlos Marighella. “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo” (Companhia das Letras) levou 10 anos para ser concluído, uma pesquisa de fôlego, um trabalho magnífico feito por quem trata informação e estética literária com respeito e qualidade. Um livro que, certamente, deve faturar diversas premiações literárias pelo país.  

E por que hoje, dia 4, é a terça-feira “marighellista”? Porque hoje também é dia do lançamento nacional do CD "Abraçaço", de Caetano Veloso, com a música "Um comunista", dedicada a Marighella. Porque, em São Paulo, Isa Grinspum Ferraz também lança em DVD o filme "Marighella". Porque, em Salvador, terra do biografado, Mário Magalhães está lançando sua biografia "Marighella" (a partir das 19h, na Livraria Cultura do Salvador Shopping).

Mas a razão maior deste post é que 4 de dezembro é, sobretudo, véspera de aniversário dos 101 anos do nascimento de Marighella. Mário Magalhães, jornalista esportivo de primeira – autor de um dos livros mais sensacionais da literatura esportiva, “Viagem ao país do futebol” – não poderia deixar de fora da vida de seu biografado histórias ligadas ao futebol. E elas existiram. Mário descobriu que o guerrilheiro Marighella montou um time de futebol quando esteve preso na ilha de Fernando de Noronha. 

E no capítulo batizado com o apelido do “boleiro” Marighella, Mário Magalhães nos revela quem era o “Bicão Siderúgico”. Um aperitivo desta obra imperdível...    

Bicão Siderúrgico
Por Mário Magalhães

Revolucionários sem fortuna não eram passageiros estranhos ao Almirante Alexandrino. O navio conduzia-os entre portos nacionais e levava alguns para a Europa. Em 1936, o governo Getúlio Vargas expulsara duas dezenas de estrangeiros do Brazkor, organização político-assistencial da comunidade judaica vinculada aos comunistas. Acusou-os de perigosos à ordem pública e de nocivos ao país. Os romenos Waldemar Roitberg e Moises Lipes atravessaram o oceano na embarcação. Roitberg graduou-se capitão das Brigadas Internacionais na Espanha e, de acordo com o camarada Apolônio de Carvalho, foi fuzilado em Paris quando combatia pela Resistência francesa. É possível que Lipes tenha lutado contra os franquistas, mas os voluntários brasileiros não tiveram certeza do seu destino.

Presos em Noronha
O de Marighella foi uma ilha do Atlântico na qual desterrados eram comuns à paisagem como os as coreografias dos golfinhos. No século XVIII, tinham sido enviados para Fernando de Noronha os ciganos que as autoridades perseguiam por vadiagem. No século XIX, desembarcaram os conjurados alfaiates da Bahia, capoeiristas reprimidos como desordeiros e o líder farroupilha Bento Gonçalves. Os criminosos Pirão Escaldado, Cão do Mercado, Caveira, Tripa Oca e Pé de Cabra haviam pontificado nas primeiras décadas do século XX. O jornalista Amorim Netto a visitara em 1931 e a pintara com tintas trágicas: “Ilha do sofrimento, da dor e da expiação”. Não era sua vocação – ao dar com ela no século XVI, depois de batizar a baía de Todos os Santos, Américo Vespúcio tinha suspirado: “O paraíso é aqui”. O naturalista inglês Charles Darwin o conhecera e fizera coletas botânicas em 1832. O arquipélago – 21 ilhas, ilhotas e lajedos – de origem vulcânica e a ilha maior receberam o nome do seu donatário, um fidalgo português. Holandeses e franceses o ocuparam antes da restauração do domínio lusitano.

Presos em Noronha
Quem mandava lá em 1940 era um veterano da Coluna Prestes, o coronel gaúcho Nestor Veríssimo da Fonseca. No ano anterior, seu sobrinho Erico Veríssimo lançara Saga, romance ambientado na Guerra Civil Espanhola. O escritor se inspiraria no tio para compor um personagem da trilogia O tempo e o vento: o major Toríbio, irmão do dr. Rodrigo Cambará, que se junta à Coluna Invicta. Para Erico, Nestor era “vigoroso como um touro”, tinha “um tremendo apetite pela vida” e demonstrava “coragem cega”. O coronel Veríssimo só abandonara a marcha de Prestes depois de colecionar incríveis 27 ferimentos. Dirigia o presídio político, instalado em 1938, sob controle da União. Na sua gestão, não se empregava os grilhões e gargalheiras esquecidos pela ilha – os castigos físicos eram vergonha do passado. Os presos antifascistas já haviam feito um acordo com o diretor quando o Almirante Alexandrino se aproximou dos 3 50’ ao sul do equador e 32 25’ a oeste de Greenwich, embicou na enseada de Santo Antônio e uma balsa carregou os novos hóspedes à terra firme: em troca do direito de administrar suas vidas e andar livremente, comprometiam-se a não fugir.

O presídio em Noronha
Se tentassem, teriam chances reduzidas: Natal, a 360 quilômetros, e Recife, a 545, estavam longe demais para uma aventura a braçadas ou em um barquinho improvisado. Arriscavam-se a ser degustados pelos tubarões cuja gula apimentava os casos narrados pelos moradores permanentes da ilha. Marighella viu poucos habitantes pelos quatro quilômetros percorridos a pé do desembarque no nordeste de Fernando de Noronha até a Vila dos Remédios, onde se fincava o prédio principal do presídio.

Sem considerar os minoritários presos comuns mantidos para prestar serviços à administração, os condenados se apartavam em dois grupos: por volta de noventa integralistas e 180 militantes de esquerda, quase todos da extinta ANL, com hegemonia comunista. Não se misturavam: camisas-verdes se acomodavam num prédio, aliancistas em outros – no alojamento maior, em duas edificações médias também de alvenaria e em casas nas quais cabia meia dúzia de pessoas. As casinhas se erguiam com pedras, cobriam-se de palha de coco e tinham chão de terra. Em uma delas, Marighella dormia numa cama patente, de espaldar alto de madeira e molas de arame sob o colchão.

Marighella (abaixo, 2º da esq para dir)
Um mutirão levantou mais duas construções: uma que servia como dispensa e uma para sede do Grêmio Atlético Brasil, o clube desportivo que os aliancistas fundaram. Eles aprimoraram a cancha de futebol já existente e fizeram uma quadra de vôlei. Com a orientação do comunista Soveral Ferreira de Souza, oficial do Exército da arma de engenharia, eliminaram declives e introduziram um sistema de drenagem com a alternância de camadas de pedras graúdas e pequenas sob a superfície de terra batida. Podia cair um dilúvio, mas não alagava.

Marighella nunca fez chover no vôlei, esporte do gosto do tenente José Guttman e do sargento Gregório Bezerra. Nenhum dos dois jogava futebol, a modalidade que empolgava o companheiro civil. Ele brincava dizendo que era bom de bola por ter se empanturrado de chocolate na infância. Enquanto alguns peladeiros calçavam chuteiras, despachadas por parentes no continente, Marighella atuava de pés descalços. Seus chutes impressionavam pela potência. Batia de bico, e seu pé direito parecia moldado em ferro. Como dera uma palestra sobre siderurgia, apelidaram-no de Bicão Siderúrgico. Todos o queriam em seu time. Ele era beque, anglicismo para zagueiro. Exibia mais força que técnica, embora não fosse um perna de pau no trato com a pelota ou a canela dos adversários. Colega de prisão a partir de 1942, Noé Gertel o elogiaria como beque “impenetrável” e o melhor futebolista ilhéu. Marighella perfilou na equipe que derrotou a dos presos comuns, no único confronto entre elas. Para evitar arranca-rabos com os integralistas, os rivais ideológicos se desafiaram só uma vez, no vôlei. Os vermelhos bateram os verdes.

Sobre Mário Magalhães:
Nasceu no Rio de Janeiro na primeira semana de abril de 1964. Formou-se em jornalismo na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). É jornalista desde 1986. Trabalhou na "Tribuna da Imprensa", em "O Globo" e "O Estado de S. Paulo" antes de ingressar na Folha, em 1991. Na Folha, foi editor-assistente do "Folhateen", repórter, editor-assistente e colunista de Esportes, repórter da Sucursal do Rio e repórter especial. Deixou o jornal em 2003 para escrever a biografia do guerrilheiro Carlos Marighella (1911-69), livro que será lançado pela Companhia das Letras em 2012. Voltou em 2006 como repórter especial, baseado no Rio. Entre prêmios e menções honrosas, recebeu duas vezes o Prêmio Folha de Reportagem, duas vezes o Prêmio da Sociedade Interamericana de Imprensa, o Grande Prêmio Esso de Jornalismo, o Prêmio Lorenzo Natali (da União Européia), o Prêmio Vladimir Herzog, a Medalha Chico Mendes de Direitos Humanos e o Prêmio Direitos Humanos-RS.
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Um comentário:

  1. Este blog é simplesmente maravilhoso...
    Um abraço.

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