quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Marcos: o goleiro das asas invisíveis


Marcos, goleiro do Palmeiras e Seleção Brasileira, despediu-se oficialmente dos gramados em festa realizada no estádio do Pacaembu, no dia 11 de dezembro. Quase 40 mil torcedores foram reverenciar o goleiro, em fato que entra para a história do futebol brasileiro, quiçá mundial. E tudo tem uma razão de ser. Marcos é adorado, não somente pela torcida palmeirense, mas por quase todos adversários que passaram a admirá-lo não apenas por suas fantásticas atuações, mas pelo jeito simples e sincero de agir, dentro e fora dos gramados.

Tudo isso, e muito mais, pode ser conferido na bela biografia escrita pelo jornalista e historiador Celso de Campos Jr. (Editora Realejo). 

A começar pelo prefácio da obra, assinado por um “cobra” do jornalismo esportivo brasileiro. E logo a seguir, pelo texto de abertura, escrito pelo autor.






O goleiro das asas invisíveis
Por Alberto Helena Jr

Celso de Campos Jr., logo ao invadir essa área escorregadia das letras tão traiçoeiras, marcou um gol histórico: a biografia de Adoniran Barbosa, um exemplo bem-acabado da combinação de meticulosa pesquisa e apuro jornalístico e seu desdobramento num texto cativante e bem elaborado.

Agora, volta a campo trazendo nas mãos e na imaginação a figura ímpar de Marcos, o São Marcos, cujos milagres defendendo as metas do Palmeiras e da Seleção Brasileira foram além da realidade – o goleiro transfigurou-se numa lenda viva, ainda em atividade.

E o que têm em comum Adoniran, o genial cronista musical de São Paulo, e o arqueiro de defesas impossíveis?

Bem, ambos vêm do interiorzão paulista, onde se impregnaram daquela falsa ingenuidade na qual se esconde uma sábia malícia destinada muito mais a divertir do que a espicaçar – atributo que ganha um certo ar cosmopolita com a vinda para a cidade grande.

Seu Barbosa e Marcão têm algo mais em comum, além daquela capacidade rara de ver a vida com um humor saudável: talvez sejam as personagens da cena paulista mais amadas e menos rejeitadas.

Num tempo em que a disputa regional entre cariocas e paulistas era acirrada, Adoniran foi aplaudido em pé, durante uma eternidade, pela plateia carioca presente no auditório do antigo Cine Astória, ao cabo de sua interpretação de Trem das Onze, uma de suas antológicas composições.

E que falar de Marcos, esse eterno meninão de fala frouxa, que diz o que o coração lhe dita a cada vitória, a cada derrota? Não há um corintiano, um tricolor, um peixeiro, um lusitano que não lhe renda a homenagem sincera do respeito e da admiração.

Quanto aos alviverdes, nem é preciso dizer. Marcos será para sempre lembrado e reverenciado como o goleiro das asas invisíveis, que lhes abriu as portas do céu ao fechar a meta na histórica conquista da Libertadores de 1999.

E olhe que alcançar essa posição de destaque no olimpo palmeirense é uma verdadeira façanha, pois o clube, desde os tempos de Palestra, foi sempre uma escola de arqueiros inesquecíveis.

Uma história que começa por Primo, nos anos 1920, de feitio um tanto similar a Marcos, segundo as poucas fotos que nos restaram.

Aymoré Moreira
A sucedê-lo, há um rol de goleiros lendários, como Aymoré Moreira, que se transformou num dos mais inventivos técnicos do nosso futebol, campeão mundial em 1962; Nascimento, pai de Angelita, a mais esbelta e desejada de nossas vedetes nos anos 1950 e 60; Jurandyr, execrado por ter levado, certa vez, seis gols do São Paulo, mas craque de Seleção; até chegarmos a Oberdan Cattani.

E aqui vale uma pausa, pois, se Marcos merece uma comparação com algum dos antigos ídolos da meta palmeirense, esse é Oberdan.

Massudo, não tão alto quanto Marcos, mãos que pareciam duas pás, chegou ao Parque Antarctica no início da década de 1940, vindo também do interior paulista, mais precisamente de Sorocaba. E foi logo fechando o gol.


Oberdan Cattani
Produziu, por mais de uma década, jogo após jogo, milagres dignos de um São Marcos. Lá pela metade dos anos 1950, foi vítima de uma dessas perversidades típicas dos dirigentes, e transferiu-se, já veterano, para o Juventus. Pois, num Palmeiras e Juventus, pegou tanto, até pênalti, que o remorso dos cartolas levou-o de volta ao seu clube de coração, onde dignamente encerrou sua carreira.

O Verdão, então, viveu um período de incertezas. Chegou a ter onze goleiros – Inocêncio, Fábio, Doly, Herrera, Furlan, Cavani e...Rugilo, um argentino de fama internacional.

Era chamado de o Leão de Wembley, não apenas por suas feições leoninas – cabelos e bigodão fartos –, mas principalmente porque pegou tudo num célebre e raro, na época, confronto entre argentinos e ingleses no mitológico estádio de Wembley.

Pois o Leão de Wembley não poderia ter sido um fracasso maior no Palestra Itália. Somou tantos frangos em tão poucos jogos que logo foi despachado de volta para a Argentina.

Valdir de Moraes
A honra e a tradição da meta verde foram repostas por Valdir de Moraes, um gaúcho vindo do Renner em 1958. 

Apesar da altura mediana, era um mestre em colocação e nos segredos da sua posição – tanto que, depois da aposentadoria, tornou-se o pioneiro na preparação específica de goleiros, criando um método até hoje adotado por seus seguidores.

Para substituí-lo, veio também do interior paulista, no finzinho dos anos 1960. 

Emerson Leão, que, com 19 anos de idade, já foi para a Seleção e sagrou-se campeão do mundo no México, em 1970, na reserva de Félix.

Leão
Leão disputou quatro Copas do Mundo, duas como titular, e deixou seu nome marcado na história da Seleção e do Palmeiras.

Em seguida, surgiram, da escolinha de Valdir de Moraes, Zetti e Velloso, na década de 1980, e, finalmente, nos 1990, Marcos.

Mas essa história quem conta, tintim por tintim, é Celso de Campos Jr., nas páginas seguintes deste relato adorável. Se o senhor não está lembrado...



A noite de São Marcos
Por Celso de Campos Jr.

Derby do Século. Duelo Histórico. Jogo da Vida. Não faltavam nomes fantasia para aquele Palmeiras e Corinthians de 5 de maio de 1999, o mais importante confronto em oito décadas de intensa rivalidade entre os dois maiores clubes de São Paulo. Alviverdes e alvinegros, claro, já haviam protagonizado batalhas eletrizantes, como a final do Campeonato Paulista de 1954, que deu ao time da Fazendinha a faixa de Campeão dos Centenários, ou a decisão do Paulista de 1993, triunfo que redimiu o Verdão de uma fila de 17 anos sem conquistas. Pela primeira vez, porém, o Derby deixava os redutos do Brás, Bixiga e Barra Funda para ganhar ares e dimensões internacionais: Palmeiras e Corinthians digladiavam-se em uma fase eliminatória da Copa Libertadores da América, e apenas o vencedor poderia saciar a obsessão latina que tomava conta de ambas as torcidas.

Em jogo, estava uma vaga na semifinal do mais prestigiado torneio do continente. Mas diante do alto poder de fogo das duas equipes, o clima era de final antecipada: quem sobrevivesse ao combate estaria com uma mão na taça. A conquista da América era o objetivo traçado pelo Palmeiras desde o momento em que o técnico Luiz Felipe Scolari desembarca no clube, um ano e dez meses antes. Igualmente hipnotizado pela competição, depois de vencer o Brasileiro de 1998, o Corinthians confiava no entrosamento do elenco campeão nacional para superar o rival.

Além da tradicional atmosfera de guerra, contudo, um curioso aspecto místico pairava sobre a peleja daquela quarta-feira à noite, no Morumbi, o primeiro capítulo da série de das partidas entre os inimigos mortais. Enquanto os alvinegros caprichavam nas promessas a São Jorge, padroeiro do clube, e o meia Marcelinho Carioca, vulgo Pé de Anjo, revelava na véspera uma conversa com Deus para vencer o jogo, os palestrinos direcionavam suas orações à Nossa Senhora de Caravaggio, de quem Felipão era devoto fervoroso, e ao recém-contratado Santo Expedito – o patrono das causas impossíveis virou o mais novo reforço do time depois que o sargentão creditou uma parcela da vitória contra o Vasco, pelas oitavas de final da Libertadores, à intercessão de uma estatueta do mártir, levada à Academia de Futebol por uma torcedora na véspera do duelo.

Depois que a bola rolou, no entanto, não sobrou espaço para suposições sobrenaturais. Houve milagres, sim. Mas eles foram operados por um só homem, diante do olhar incrédulo de 30 mil testemunhas.

Em uma das atuações mais espetaculares de um goleiro na história da cristandade, Marcos, do Palmeiras, fez coisas de que até Deus duvidou. Segurou, de todas as formas, o ataque do Corinthians que bombardeou a meta alviverde sem clemência durante os 90 minutos. Ricardinho, Marcelinho, Edílson e Fernando Baiano se revezavam nas investidas – neutralizadas pelas mãos, pelos pés, pelo peito e até pelas costas do arqueiro do Palestra.

Multiplicando-se na pequena área, o camisa 12 se manteve intransponível, para desespero dos alvinegros. Ao final da partida, as estatísticas eram inacreditáveis. O Corinthians finalizou 32 vezes contra o gol de Marcos, sem conseguir marcar. Já o Verdão chutou apenas dez bolas em direção às traves de Nei – e anotou dois tentos.

O atacante Oséas e o volante Rogério foram os autores dos gols da vitória, mas, já nos vestiários, poucos se lembravam disso. A noite era de Marcos. Sorriso aberto e corpo fechado, o rapaz de 25 anos atendia pacientemente aos repórteres ávidos por ouvir suas palavras, transferindo para terceiros, com humildade franciscana, os louros da vitória. “Senti a mão de Deus em cada defesa que fiz. Ele é o grande responsável por esse momento, junto com meus companheiros”.

Não era essa a opinião da torcida. Ao apito final do árbitro, dispensando o longo e burocrático processo do Vaticano, palmeirenses de pouca e de muita fé já haviam canonizado o goleiro.
Nascia, naquela noite, a lenda de São Marcos – parábola celestial iniciada sete anos antes, no inferno das alamedas do Palestra Itália.

Sobre o autor
Celso de Campos Jr.
Nasceu em São Paulo em 1978. 

Formado em Jornalismo pela Cásper Líbero e em História pela Universidade de São Paulo, é autor de Adoniran – Uma biografia (Editora Globo) e coautor de Nada mais que a verdade – A extraordinária história do jornal Notícias Populares (Editora Summus).

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