segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Décio Pignatari Futebol Clube


Há dois anos Décio Pignatari (02/12/2012) nos deixou. Filho de imigrantes italianos, poeta, ensaísta, tradutor, contista, romancista, dramaturgo, advogado e professor, aos 85 anos de vida, ele era um dos criadores do movimento da poesia concreta. Décio Pignatari também era um dos maiores especialistas no estudo e análise dos meios de comunicação de massa, especialmente a televisão. 

E poesia concreta dava rima com o futebol? Décio Pignatari, boleiro que era durante quase 30 anos na várzea paulistana, não só jogava como escrevia sobre o esporte. Mas a “aventura” durou pouco. Durante entrevista do programa Roda Viva, da TV Cultura, Décio respondeu à pergunta do jornalista esportivo Alberto Helena Jr sobre o que de fato ocorreu:

Décio Pignatari: Foi uma jogada engraçada! [risos] O Cláudio Abramo [(1923-1987) jornalista que foi secretário de redação do Estado de S. Paulo em 1953 e que em 1963 passou a ser chefe de reportagem e parte do conselho editorial da Folha de S.Paulo] que estava lá e tal, soube que eu gostava muito de futebol - joguei 30 anos de futebol na várzea -, me chamou e falou:  “Eu quero alguém que venha de fora e fale do futebol, mas faça uma ligação com outras coisas” e tal. E foi realmente muito interessante. Durou exatamente 26 dias, era fevereiro [risos] e, num dado momento, eu escrevi uma crônica onde eu imaginei o Pelé ensinando alguns lances de futebol para umas moças suecas que queriam aprender futebol. Então ali eu usava termos estritamente de descrição futebolística e aquilo, claro, tinha todo um lado erótico, maroto, não é? “Não fazer cruzamentos pelo alto à boca da pequena área”, essas coisas... E o negócio de... Usando todo o jargão da narração futebolística com um sentido ambíguo e dúbio. Isso foi escandaloso naquele tempo – que era impossível em 1965, né? -... “Matar a bola no peito”, essas coisas desse tipo e criou-se um problema lá dentro e eu, quando fui um dia entregar minha crônica, estava cortado, eu estava despedido.

Décio era fá ardoroso do futebol e, em 1973, um de seus livros, “Contracomunicação” (Editora Perspectiva) revela toda essa sua paixão pelo esporte. 'Contracomunicação' é uma coletânea de entrevistas, textos e ensaios divididos em quatro entrevistas, seis ensaios sobre Comunicação, cinco sobre Literatura, três textos - Tripé, onze crônicas sobre futebol e mais cinco ensaios sobre Artes.

Décio Pignatari também falou sobre o futebol em seu primeiro romance, “Panteros”, história de uma juventude com cinema, futebol, sexo e poesia. Como o próprio Pignatari afirmou: “Uma autobiografia não autorizada”.

Só mesmo Pignatari para escrever uma crônica inspirada em Homero, o maior poeta da Grécia Antiga, autor do poema épico Ilíada, 15.693 versos que narram os acontecimentos do último ano da Guerra de Tróia, e é associada a reflexões sobre a vida do homem e sua relação com os deuses. E numa noite de quarta-feira comum no futebol, Pignatari criou a sua “Guerra”...

500 a.C
Por Décio Pignatari

“Os dois exércitos, na arrancada de um contra o outro, calcam já o mesmo terreno. Os guerreiros defrontam-se, afrontam-se, baralham-se. Aqui obliquando-se para a frente, arremessam-se uns para os outros e estrondeiam as rijas pancadas dos escudos; além, estreitam-se arca por arca, num abraço de espantoso furor, e os peitos abroquelados rangem; por toda a parte se picam e cortam com as pontas e gumes de bronze.

Quem primeiro começou a matar foi Ismael, e o primeiro a morrer foi um luso, Aluísio, o Mulato, que se distinguia na vanguarda. Ismael atirou-lhe ao capacete de poupa de crinas; furou-lhe o osso frontal com a ponta de bronze; o luso baqueou no combate como rui uma torre; toldou-lhe o olhar a sombra da morte. E o poderoso Mengálvio o tomou pelos pés e o ia arrastando debaixo dos dardos, desejoso de lhe arrebatar as armas; mas frustou-se-lhe o intento, porque o generoso Ditão, vendo-o curvado a puxar o cadáver e que o escudo lhe deixava descoberto o flanco, meteu-lhe pelo vazio o pique de bronze e o matou. Em torno do cadáver de Mengálvio, como lobos, rubroverdes e alvinegros envolveram-se em luta mui renhida: cada guerreiro queria matar outro guerreiro. Foi nesse lance que Lima atacou o famoso jovem Ivair. Não chegou o infeliz moço a realizar as esperanças e amorosas vistas de seus pais, porque pouco tempo viveu, morrendo trespassado pela hasta do animoso Lima. Ferido no peito, junto do mamilo direito, a ponta do bronze saiu-lhe pela espádua.

Pelé e Coutinho.
Sobre Lima correu Edilson, revestido de esplêndida couraça, e arremessou um acerado virotão; não acertou em Lima o virote, mas de Coutinho furou a virilha: puxava Coutinho o cadáver de Ivair quando se lhe meteu e subiu por entre as pernas o dardo; escorregou-lhe das mãos o cadáver, e caíram lado a lado dois cadáveres. Era Coutinho de Pelé grande amigo. Mui sentido e exasperado com a morte do camarada, investiu Pelé com grande fúria a multidão de lusos; relampejava-lhe sobre a fronte o capacete de bronze e na mão vigorosa refulgia a lança.

Rodopiaram num instante os lusos, mas nem todos fugiram a tempo. A lança de Pelé apanhou Vilela. Foi este a quem Pelé, enfurecido pela morte do amigo, matou, e a morte do homem foi assim: a lança entrou por um lado da cabeça e saiu pelo outro.

Grande surriada fizeram os de Vila Belmiro ao inimigo, e férvidas aclamações aos seus heróis; retiraram do campo de batalha os mortos; depois correram para a frente e ganharam muito mais terreno.

Mas Aimoré estava a ver do alto de Pérgamo tudo que se passava, e não lhe agradava nada o que via. Por isso, começou a gritar aos rubroverdes:

– Para a frente, lusitanos! Quem cavalos doma fugir não deve! Não cedais em ofensiva aos peixeiros! Tampouco deles a pele é pedra ou ferro insensível aos golpes do cortante bronze!
Então o destino apoderou-se de Edílson: ficou com o tornozelo direito esmagado por uma angulosa pedra que lhe arremessou Olavo; a bruta pedra empastou totalmente os dois tendões e os dois ossos. Expirando, Edílson caiu de costas na poeira, estendendo ainda as mãos para os companheiros. Saltou sobre ele o mesmo que o tinha ferido e com a lança furou-lhe o ventre pelo umbigo; as tripas desatadas saíram, desenrolaram-se, correram e alastraram pela terra; os olhos velaram-se de sombra”.

Eis como, provavelmente, Homero teria descrito a pugna Santos F.C. vs Portuguesa de Desportos, ferida dentro dos muros do Pacaembu, na última quarta-feira . Tudo mais ou menos de acordo com fragmentos do Livro IV, da Ilíada, na horrível tradução do, digamos, bondoso padre M. Alves Correia, para a coleção “Clássicos Sá da Costa”, Lisboa, 1951.

João Mendonça Falcão
Décio Pignatari também sabia ser duro em suas críticas, especialmente, com os dirigentes do futebol. No texto abaixo, um dos onze publicados na coletânea Contracomunicação, Décio Pignatari destila humor e crítica ao cartola paulista, João Mendonça Falcão, presidente da Federação Paulista de Futebol. E tudo isso, no início da Ditadura, onde falar sobre comunismo era praticamente inaceitável. Os jogos amistosos contra a União Soviética a que se refere Pignatari, ocorreram, respectivamente, nos dias 04 de julho (em Moscou, vitória brasileira por 3 a 0) e 21 de novembro de 1965, no estádio do Maracanã (empate em 2 a 2). Observação: os jogadores paulistas acabaram participando dos dois jogos.



Bolítica
Por Décio Pignatari

Há dez anos atrás, no começo da primavera, atravessei a Mancha rumo à Inglaterra, em companhia de um inglês e um israelense. Este lutara contra os nazistas, no exército de sua majestade britânica, e perdera as duas pernas dando combate aos árabes, nas lutas pela independência de seu país. Não era judeu – era israelense, fazia questão de frisar, mostrando um certo orgulho e uma certa irritação na necessidade que sentia de afirmar sua nova nacionalidade.

O outro era um operário de volta das férias, velho e bem humorado militante do Partido Comunista inglês. Com não menor orgulho, exibia sua carteira de filiação, datada de 1935.

No meio da travessia, a barcaça começou a jogar; o israelense não podia manter-se de pé, no convés: penoso demais. Ajudamo-lo a descer para o bar, com as suas três pernas mecânicas (uma sobressalente que carregava numa caixa) e voltamos para cima, o inglês e eu, rumo a um estranho bate-papo, entre solavancos e bacias desbeiçadas, lascadas, de ágate, espalhadas pelo chão, sinistramente convidando a embrulho-de-estômago e a vômitos.

Rui Barbosa
O velho súdito de Sua Majestade era uma bola. Passou o tempo todo contando piadas mais do que irreverentes sobre o casal real e – a certa altura, a uma observação minha, de cujo teor não me recordo – respondeu:
– Não adianta: você dorme, você come, você ama...tudo é política!
Por motivos óbvios, coloco “ama” onde ele, em inglês, colocou a palavra certa e concreta – o desbocado. Retribuí o prazer da companhia e a lição cedendo-lhe os meus direitos sobre a garrafa de uísque a baixo preço, na hora do desembarque. A última visão que tive dele, já na Victória Station, foi a de duas saliências nas nádegas rebolando no meio da multidão: duas garrafas de um-quarto, uma em cada bolso traseiro da calça.

Sabemos todos que o trivial da vida esportiva é condimentado por fofocas, futriques, politiquices, politicagens e politicalhas – como dizia mestre Ruy Barbossa; digo – o dr. Ruim Verbosa; melhor – o dr. Rui Barbo Ousa; isto é – o eminente Rio Barbosa; vale dizer – o legalíssimo Rui Barbosa; enfim – o Águia de Haia e Mucama.

Já o sr. Medo da Onça Faisão: digo – o nobre deputado Emenda Onça Falação: enfim – o dr. Mendonça Falcão prefere librar-se nas altas esferas do que ele julga ser a política internacional. E acaba de comunicar ao dr. João Havelange, presidente da CBD, que não cederá jogadores paulistas para o selecionado nacional que deverá enfrentar o da União Soviética nos dias 4 de julho e 14 de novembro próximos. Alega o referido mentor da FPF que não pode alterar a tabela do campeonato paulista e, portanto, não pode encontrar datas que permitam a cessão dos craques paulistas para aqueles compromissos.

Mendonça Falcão (centro)
Isto significa que a seleção brasileira terá de se apresentar desfalcada naqueles importantíssimos ensaios internacionais (o time da URSS pode ser um sério desafiante às nossas tripretensões), simplesmente porque o dr. Falcão não encontra novas datas para um XV de Novembro vs Esportiva, ou um Juventus vs Ferroviária – sem falar nos grandes clássicos, que são transferidos, por acordo mútuo, assim que chova um pouco mais!...

O caipirismo mental – político e esportivo – conduz ao caiporismo. Se as coisas começam desse jeito, nada mais dará sorte nem certo, em nosso futebol. Afinal de contas, ninguém tem culpa se o dr. Mendonça já teve a sua oportunidade de conduzir a nossa delegação numa excursão que ficou famosa pelos resultados deprimentes.

Imaginem agora se calha de o Brasil vir a ser derrotado pela URSS, na Inglaterra, em 1966 – já pensaram no bode que vai dar? Será um tal de IPMs para cima de jogadores, preparadores, massagistas e roupeiros, um tal de futebol “altamente comunizante”, um tal de “em defesa dos mais altos princípios morais e cristãos da família brasileira” – e um tal de reeleições, quivoticontá.

O tempo de fazer média com a bandeira nacional já passou. Pode ser um patriótimo. Isto não nos obriga a ser patriotários: mandaremos brasas, brasões e brasis toda vez que joões- mendonças-falcões se afoitarem a rasteiríssimas bolitiquices.

Pode ser que o meu anônimo amigo comunista inglês não tivesse razão de todo: mas tinha senso de humor. O dr. João Mendonça Falcão não tem nem uma, nem outra coisa.

Para saber sobre a vida e obra de Décio Pignatari, acessar:

   

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