domingo, 9 de dezembro de 2012

94 anos de Clarice Lispector


Duas efemérides de Clarice Lispector. Duas datas próximas e distintas. Alegria e tristeza. Clarice faria 94 anos no dia 10 de dezembro. E no dia 9 de dezembro de 1977, Clarice partiu. Em 2011, Literatura na Arquibancada destacou o projeto “Dia de Clarice Lispector” organizado pela Editora Rocco. A mesma editora organizou ainda um belo site de Clarice:www.claricelispector.com.br . 
Há ainda a página do Projeto Clarice, no facebook que pode ser acessada neste link:

Literatura na Arquibancada colabora de maneira simples, destacando o interesse de Clarice também pelo mundo do futebol, quer dizer, pelo seu clube de coração, o Botafogo do Rio de Janeiro. Em 1968, Clarice escreveu uma crônica dirigida ao jornalista Armando Nogueira, companheiro de página no Jornal do Brasil. Um texto raro e belo.

O texto “Armando Nogueira, futebol e eu, coitada”, foi publicado no JB no dia 30 de março de 1968, mas também pode ser lido em um dos diversos livros de Clarice, “A descoberta do mundo” (Editora Rocco, 1984). 

O livro reúne crônicas de Clarice Lispector publicadas aos sábados, no Caderno B, do Jornal do Brasil, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973.

Na crônica, Clarice revela ser torcedora do Botafogo, clube também chamado de “Estrela Solitária”. 

Parece ironia que uma das grandes obras de Clarice tenha recebido o título de “A hora da estrela” (Editora Rocco, 1977) embora não exista qualquer menção ao futebol neste livro.

Clarice voltaria ao tema futebol, de maneira transversal, no conto “A procura de uma dignidade”, parte do livro “Laços de Família” (Editora Rocco, 1960). 

O cenário da passagem, o estádio do Maracanã que ela confessa ter visitado muito pouco, no texto dedicado a Armando Nogueira:

A Srª Jorge B. Xavier simplesmente não saberia dizer como entrara. Por algum portão principal não fora. Pareceu-lhe vagamente sonhadora, ter entrado por uma espécie de estreita abertura em meio a escombros de construção, como se tivesse entrado de esguelha por um buraco feito só para ela. O fato é que quando viu já estava dentro.

E quando viu percebeu que estava muito, muito dentro. Andava interminavelmente pelos subterrâneos do estádio de futebol do Maracanã, ou, pelo menos, pareceram-lhe cavernas estreitas que davam para salas fechadas, e quando se abriam as salas só havia janelas que davam para o estádio. Este, àquela hora torradamente deserto, reverberava ao extremo sol dum calor inusitado que estava acontecendo naquele dia de pleno inverno”.

Crônica:
“Armando Nogueira, futebol e eu, coitada”

E o título sairia muito maior, só que não caberia numa única linha. Não leio todos os dias Armando Nogueira – embora todos os dias dê pelo menos uma espiada rápida – porque “meu futebol” não dá para entender tudo. Se bem que Armando escreve tão bonito (não digo apenas “bem”), que às vezes, atrapalhada com a parte técnica de sua crônica, leio só pelo bonito. E deve ser numa das crônicas que me escaparam que saiu uma frase citada pelo Correio da Manhã, entre frases de Robert Kennedy, Fernandel, Arthur Schlesinger, Geraldine Chaplin, Tristão de Athayde e vários outros, e que me leram, por telefone. Armando dizia: “De bom grado eu trocaria a vitória de meu time num grande jogo por uma crônica...” e aí vem o surpreendente: continua dizendo que trocaria tudo isso por uma crônica minha sobre futebol.

Meu primeiro impulso foi o de uma vingança carinhosa: dizer aqui que trocaria muita coisa que me vale muito por uma crônica de Armando Nogueira sobre digamos a vida. Aliás, meu primeiro impulso, já sem vingança, continua: desafio você, Armando Nogueira, a perder o pudor e escrever sobre a vida e você mesmo, o que significaria a mesma coisa.

Mas, se seu time é Botafogo, não posso perdoar que você trocasse, mesmo por brincadeira, uma vitória dele nem por um meu romance inteiro sobre futebol.

Deixe eu lhe contar minhas relações com futebol, que justificam o coitada do título. Sou Botafogo, o que já começa por ser um pequeno drama que não torno maior porque sempre procuro reter, como as rédeas de um cavalo, minha tendência ao excessivo. É o seguinte: não me é fácil tomar partido em futebol – mas como poderia eu me isentar a tal ponto da vida do Brasil? – porque tenho um filho Botafogo e outro Flamengo. E sinto que estou traindo o filho Flamengo. Embora a culpa não seja toda minha, e aí vem uma queixa contra meu filho: ele também era Botafogo, e sem mais nem menos, talvez só para agradar o pai, resolveu um dia passar para o Flamengo. Já então era tarde demais para eu resolver, mesmo com esforço, não ser de nenhum partido: eu tinha me dado toda ao Botafogo, inclusive dado a ele minha ignorância apaixonada por futebol. Digo “ignorância apaixonada” porque sinto que eu poderia vir um dia apaixonadamente a entender de futebol.

E agora vou contar o pior: fora as vezes que vi por televisão, só assisti a um jogo de futebol na vida, quero dizer, de corpo presente. Sinto que isso é tão errado como se eu fosse uma brasileira errada.

O jogo qual era? Sei que era Botafogo, mas não me lembro contra quem. Quem estava comigo não despregava os olhos do campo, como eu, mas entendia tudo. E eu de vez em quando, mesmo sentindo que estava incomodando, não me continha e fazia perguntas. As quais eram respondidas com a maior pressa e resumo para eu não continuar a interromper.

Não, não imagine que vou dizer que futebol é um verdadeiro balé. Lembrou-me foi uma luta entre vida e morte, como de gladiadores. E eu – provavelmente coitada de novo – tinha a impressão de que a luta só não saía das regras do jogo e se tornava sangrenta porque um juiz vigiava, não deixava, e mandaria para fora de campo quem como eu faria, se jogasse (!). Bem, por mais amor que eu tivesse por futebol, jamais me ocorreria jogar...Ia preferir balé mesmo. Mas futebol parecer-se com balé? O futebol tem uma beleza própria dos movimentos que não precisa de comparações.

Quanto a assistir por televisão, meu filho botafoguense assiste comigo. E quando faço perguntas, provavelmente bem tolas como leiga que sou, ele responde com uma mistura de impaciência piedosa que se transforma depois em paciência quase mal controlada, e alguma ternura pela mãe que, se sabe outras coisas, é obrigada a valer-se do filho para essas lições. Também ele responde bem rápido, para não perder os lances do jogo. E se continuo de vez em quando a perguntar, termina dizendo embora sem cólera: ah, mamãe, você não entende mesmo disso, não adianta.

O que me humilha. Então, na minha avidez por participar de tudo, logo de futebol que é Brasil, eu não vou entender jamais? E quando penso em tudo no que não participo, Brasil ou não, fico desanimada com minha pequenez. Sou muito ambiciosa e voraz para admitir com tranqüilidade uma não participação do que representa vida. Mas sinto que não desisti. Quanto a futebol, um dia entenderei mais. Nem que seja, se eu viver até lá, quando eu for velhinha e já andando devagar. Ou você acha que não vale a pena ser uma velhinha dessas modernas que tantas vezes, por puro preconceito imperdoável nosso, chega à beira do ridículo por se interessar pelo que já devia ser um passado? É que, e não só em futebol, porém em muitas coisas mais, eu não queria só ter um passado: queria sempre estar tendo um presente, e alguma partezinha do futuro.

E agora repito meu desafio amigável: escreva sobre a vida, o que significaria você na vida. (Se não fosse cronista de futebol, você de qualquer modo seria escritor.) Não importa que, nessa coluna que peço, você inicie pela porta do futebol: facilitaria você quebrar o pudor de falar diretamente. E mais, para facilitar: deixo você escrever uma crônica inteira sobre o que o futebol significa para você, pessoalmente, e não só como esporte, o que terminaria revelando o que você sente em relação à vida.

O tema é geral demais, para quem está habituado a uma especialização? Mas é que me parece que você não conhece suas próprias habilidades: seu modo de escrever me garante que você poderia escrever sobre inúmeras coisas. Avise-me quando você resolver responder a meu desafio, pois, como lhe disse, não é todos os dias que leio você, apesar de ter um verdadeiro gosto em ser sua colega no mesmo jornal. Estou esperando.

                                                                          *****

Para saber mais sobre Clarice Lispector, acessar: www.claricelispector.com.br .

Outro link já destacados aqui, no Literatura na Arquibancada, sobre a ligação de Clarice Lispector com o tema futebol.





Um comentário:

  1. Oi André.
    Caramba! Eu não havia estabelecido esta conexão: O Botafogo com a Hora da Estrela, belíssimo e triste romance, interpretado no cinema pela magistral Marcela Cartaxo.
    Bem, se estive viva, hoje, estaria feliz em saber que o Bota ficou bem na fita ao término do Campeonato Brasileiro.
    Belo artigo. Bonita homenagem.
    Obrigada por nos dar mais essa pérola de texto.
    Beijão.

    ResponderExcluir