segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Zé Lins do Rego: Flamengo até morrer !


No terceiro artigo da série especial sobre o aniversário do Flamengo (15/11) e o centenário do primeiro jogo disputado pelo rubro-negro (1912), uma homenagem dupla, ao autor do texto e ao personagem. O autor é Edilberto Coutinho, advogado, jornalista, professor, escritor que escreveu nos principais jornais e revistas do Brasil e durante algum tempo, foi correspondente, na Europa, do Jornal do Brasil e da Revista Manchete e, nos Estados Unidos, dos Diários Associados (O Jornal e O Cruzeiro).

Edilberto Coutinho foi o primeiro brasileiro a ganhar o prêmio "Casa de Las Americas", de Havana, com o livro Maracanã, adeus: onze histórias de futebol (1980). Com o mesmo título, em 1986, obteve a primeira colocação no Grand Prix de la Traduction Cultura Latina, realizado em Paris, ao ser traduzido para o francês.

É autor de um livro raríssimo, considerado referência e documento histórico para a literatura esportiva: “Nação Rubro-Negra” (1990, Fundação Nestlé). 

Mas, agora, vamos retratar outra obra histórica de Edilberto Coutinho e que nos remete ao personagem homenageado do Flamengo: “Zelins – Flamengo até morrer” (1982). 

Neste livro, Edilberto nos revela as melhores, entre as mais de mil crônicas escritas por Zé Lins, entre 1946 e 1957, na histórica coluna, Esporte e Vida, publicada no Jornal dos Sports, do Rio de Janeiro.

Livro da coleção do editor César Oliveira,
do www.livrosdefutebol.com.
O texto abaixo é absolutamente genial. Do autor e personagem. 

Uma história que todo amante da boa literatura esportiva e, especialmente, torcedor do Flamengo, deve ler e guardar no coração. 

Um verdadeiro “documento histórico” que resgata a importância que um dia a literatura esportiva teve no Brasil.












Zelins – Flamengo até morrer
Por Edilberto Coutinho

"Zé Lins, então como é Deus?"
"Em forma de esfera, uma bola de futebol, do Flamengo"
Murilo Mendes

Para muitos amigos, ficou esta imagem de José Lins do Rego, na miniatura do amigo Murilo Mendes que é parte de sua Prosa portátil, quando fala de alguns ausentes de presença permanente na sua afeição, lembranças e admiração. Seus mortos-vivos, como os chama o poeta Murilo Mendes, um dos quais Zé Lins, para quem Deus é uma esfera, uma bola de futebol... Do Flamengo, é claro.

Murilo exagera? Mas o próprio Zé Lins era - não poucas vezes – o alegre exagero, ao falar do Flamengo. Irá, assim, causar escândalo ao afirmar que o tricampeonato do Rubro-Negro carioca, em 1944, é mais importante, 'para o povo brasileiro, do que as batalhas de Stalingrado". E isto em plena Segunda Guerra Mundial. Mas, ao mesmo tempo, lembrava – em conversas e nas suas crônicas da rubrica Esporte e Vida, no Jornal dos Sports do Rio de Janeiro, onde escreve nas décadas dos 1940 e 50 – que o Flamengo "estava na Guerra da Europa". Inclusive, acrescentava, tendo dispensado para isto seu principal artilheiro, seu canhão, seu tanque de guerra... como era referido, nas charges da época o comandante-de-ataque flamengo, Perácio (tipo inesquecível do folclore esportivo e um dos chutes mais potentes da história do futebol brasileiro).

Para Zé Lins, não havia dúvida: consagrou o termo flamengo – com inicial minúscula – para designar o atleta ou torcedor, qualquer pessoa e qualquer coisa ligadas ao Flamengo (assim, as modalidades esportivas praticadas: futebol flamengo, basquete flamengo, etc.); e, em maiúscula, o Clube. Aquele tão seu Flamengo. Flamenguista era pejorativo, e não se devia dizer (como não se diz fluminensista, exemplificava).

Foi nisto - no uso do termo flamengo como uma espécie de adjetivo gentílico, próprio dos que são parte, do que é parte da Nação Rubro-Negra – seguido por outros escritores como Paulo Mendes Campos, Mário Filho, José Honório Rodrigues, etc. e seu amigo Aurélio Buarque de Holanda – o Aurelião Dicionário – deu ao verbete flamengo (entre outras, é claro), oficialmente, a acepção de adepto do Flamengo, clube ou time de futebol do Rio de Janeiro.

Futebol e Literatura

É José Lins do Rego, sem dúvida, a figura de intelectual brasileiro mais exemplar para se estabelecer a união de nossa literatura com o futebol. Pode-se falar de futebol na poesia de poetas poetíssimos como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto (este, inclusive, tendo sido jogador, nos tempos de estudante no Recife...) Aparece o tema em contos de Lima Barreto, Alcântara Machado, Orígenes Lessa, Rubem Fonseca e tantos outros. Em romances de Monteiro Lobato – de parceria com Godofredo Rangel – Gilberto Amado, Thomas Mazzoni, Carlos Heitor Cony e Macedo Miranda, sendo tratado com o mais completo conhecimento especializado por Zé Lins em Água-mãe, seu romance do futebol, livro que para muitos – Rachel de Queiroz e Valdemar Cavalcanti o dizem – verdadeiramente introduz o tema na ficção brasileira.

Na verdade, ninguém viveu o futebol como José Lins do Rego. E ninguém escreveu mais e melhor sobre o futebol, entre nossos escritores mais representativos que esse bravo filho de Pilar, Paraíba, um quase  carioquizado pelo amor ao Flamengo. (Não fosse a paraibanidade, nele, essencial; jamais abrindo mão de ser um nordestino de boa cepa paraibana.)

A força maior da literatura de José Lins do Rego parece vir do contato direto com o povo, que nunca deixou de manter. Os caminhos da ficção que nos legou passam pelo eito dos engenhos-de-cana da várzea do Paraíba (seu rio mítico), da mesma forma que pelos vestiários dos clubes de futebol.

Zé Lins abraçado ao Manto Sagrado.
"Vou ao futebol e sofro como um pobre-diabo". Nesta frase, de José Lins do Rego, está todo o fundamento popular do brasileirismo que o anima, e uma síntese admirável de sua perfeita integração ao ambiente e com o povo da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Sobretudo, porque a causa maior do sofrimento, referido, eram as campanhas do Flamengo.

Por que o Flamengo? "Há no Flamengo" – escreve Zé Lins – "esta predestinação para ser, em certos momentos, uma válvula de escape às nossas tristezas. Quando nos apertam as dificuldades, lá vem o Flamengo e agita nas massas sofridas um pedaço de ânimo que tem a força de um remédio heroico. Ele não nos enche a barriga, mas nos inunda a alma de um vigor de prodígio".

Mas não é só de Flamengo, que trata o cronista de Esporte e vida. Louva o Vasco, por exemplo, quando merece ser louvado. Como se verá nesta crônica publicada na terça-feira, 27 de novembro de 1952 (do Jornal dos Sports, p. 11) sob o título "Grande vitória do Vasco".
                                                                
1952
3 feira, 27-Xl.p.5.
                                                          GRANDE VITÓRIA DO VASCO
O alto conselho vascaíno conferiu a Rachel de Queiroz e a Gilberto Freyre, os títulos de sócios honorários do Vasco. Sócios do Vasco, os dois maiores escritores do Brasil. Rachel, a cronista que é um manancial de vida, romancista que arranca das pedras e das caatingas do seu Ceará, tipos humanos que abafam pela sua realidade pungente, a grande Rachel.
E o mestre Gilberto Freyre, o verdadeiro criador de uma forma literária, o gênio que deu, aos nossos estudos sociológicos, uma verdadeira importância mundial. Grande vitória do Vasco.

Pequeno reparo ao copidesque (haveria?) da época quanto aos nomes dos dois então mais novos sócios beneméritos do Vasco, saudados por José Lins do Rego na crônica publicada em 27 de novembro de 1952. Rachel, com ch e não qu (assim saiu na coluna) é a grafia que a autora adota, conforme se vê impresso em seus livros, inclusive nos cinco volumes da obra reunida publicados em 1989 pela editora José Olympio; e quanto a Gilberto Freyre, todos sabemos que fazia questão do y no sobrenome, trocado por i na redação do Jornal dos Sports (pois José Lins terá certamente grafado de forma correta o nome do amigo, sem troca de grafema).

Rachel de Queiroz
Rachel e não Raquel, é ainda como encontramos o nome da autora no Anuário (1978-1980), da Academia Brasileira de Letras, organização de Nair Dametto. Em crônica do livro Mapinguari (inserido no volume 5 da Obra reunida, juntamente com as peças de teatro Lampião e A beata Maria do Egito), Rachel de Queiroz se mostra uma psicóloga das boas – aspecto já destacado em resenha para  O Globo – nos retratos breves, mas agudos, de figuras como Getúlio Vargas e Jango Goulart, quando usa imagens do futebol: "Getúlio era como um gato, fazia-se adormecido até no momento de dar o bote. E sabia dá-lo. Liquidava com tudo e não ficava ninguém. Esse aí é como juiz de futebol quando dá sururu em campo: apita, mas de que vale o apito?"

Esporte e Vida

Nas crônicas para o Jornal dos Sports, quando falava de uma vitória do Flamengo, Zé Lins não dizia, como qualquer outro: a vitória do Flamengo; mas se assumia, inteiramente, torcedor, passionalmente flamengo...era "nossa vitória". Quem quisesse fosse achar ruim. Aos que exigem, se explica: "Sou imparcial nestes meus artigos esportivos. Procuro ser. Analiso a coisa esportiva da maneira mais serena possível. Acontece que, de vez em quando me inclino um pouco para o Flamengo, que é meu time". Com o ar mais caviloso do mundo, concluía: "Não sei como é que isso acontece"."

Caviloso, aliás, foi palavrinha que deu o maior fuzuê, rebu dos diabos, quizumba feia quando usada por Zé Lins com referência ao técnico Ondino Vieira, do Vasco. Valeu vaia e briga. Uma vaia unânime e colossal da galera do Vasco. Ossos do ofício de escurecer laudas. O colunista recordou, em sua rubrica do Jornal dos Sports: "A primeira vaia de minha vida conquistei por causa de uma palavra mal interpretada, numa crônica de bom humor. E a experiência da vaia valeu o caviloso pouco conhecido." Zé Lins prossegue: "A um escritor muito vale o aplauso, a critica de elogios, mas a vaia, com a gritaria, as laranjas... os palavrões, deu-me a sensação da notoriedade verdadeira. Verifiquei que a crônica esportiva era maior agente de paixão que a crítica literária ou o jornalismo político. Tinha mais de 20 anos de exercício de imprensa e só com uma palavra arrancava, de uma multidão enfurecida, uma descarga de raiva como nunca sentira.

Ondino Vieira
"Zé Lins jura que, ao chamar de caviloso ao técnico do Vasco, quis apenas dizer que era "um manhoso, fingido nos agrados", pois esta é a acepção no Nordeste. Mas a galera vascaína fora convencida de que o termo significaria capcioso, fraudulento e, suprema injúria, colocava em dúvida a própria virilidade do acusado. No Rio Grande do Sul, chegou a garantir um dirigente gaúcho do Vasco, o termo queria dizer o mesmo que maricas, afeminado. Daí a vaia, as agressões no campo de São Januário. Zé Lins passou a ser visto por alguns como inimigo do Vasco. No entanto, acompanhando-o no Jornal dos Sports, veremos que muitas vezes e muito bem fala do Vasco.

Paulo Mendes Campos registrou em crônica o entrevero Vasco versus Dr. José Lins do Rego: "Uma vez, no campo do Vasco, durante um sururu, a Polícia Especial atirou o corpulento romancista por cima do aramado, Zé Lins costumava dizer, depois disso, que passou a ser o homem mais valente do Rio de Janeiro, pois, no inquérito policial, figurou como agressor da Polícia Especial".

Nenhuma agressão fará o homem afastar-se de sua postura, mantendo-se sempre – conforme escreve em Esporte e Vida, "com o mesmo ânimo, com o mesmo flamenguismo, com a mesma franqueza," O cronista do Jornal dos Sports diz como será seu comportamento na folha que o acolhe e divulga: “Nada de fingir neutralidade e nem de compor máscara de bom moço. Mas só direi a verdade. E este é um compromisso que estará acima do meu próprio coração rubro-negro. Sou tão amigo de Platão como da verdade. Mas espero que o meu caro Platão esteja sempre com a verdade".

O amor à verdade determina que, centenas de vezes, o cronista reconheça que foi justa a vitória de um adversário do Flamengo. E defende os jogadores rubro-negros, quando acusados por falharem numa partida, se a acusação lhe parece injustiça: "Sofreu a torcida do Flamengo uma amarga decepção"; mas, "O que houve foi uma tarde de infelicidade"; e, "não houve frango de espécie alguma. Os que lá estiveram viram muito bem a queda do goleiro, acidente imprevisto na intervenção e infeliz. Não adianta chorar".

Mas, em outra crônica – esta, comentando uma vitória do Flamengo – Zé Lins lembrará que "o pranto é livre"; e, portanto, a torcida adversária pode chorar à vontade: "Podem chorar, porque ainda é o pranto uma das coisas livres neste mundo de Deus. Chorar, choraram os judeus, no muro das lamentações, há dois mil anos, e as lágrimas compridas dos filhos de Jeovah nunca secaram em seus olhos. E nem pelo choro foram queimados. Podem chorar, e fazem muito bem, porque o choro alivia as dores, todas as dores, as da cabeça e as dores de cotovelo.

"Que chorem, e chorem muito. Que as lágrimas rolem como no samba, que as lágrimas desçam da face abaixo, como torrente. Mas chorem. Deus gosta dos que derretem suas iras na água salgada que salta do peito. Que chorem. Chorar, chorei há sete anos. E nem por isto hei de me irritar com os soluços dos que padecem com a derrota. Chorem muito, chorem demais, chorem como um bezerro desmamado. Mas chorem, meus amigos, que o pranto é livre."

Leônidas X Dostoievski

Leônidas da Silva, o Diamante Negro.
Silviano Santiago, no romance Em liberdade, se mete na pele de Graciliano Ramos, que – saído da prisão – se hospeda em casa de José Lins do Rego e escreve um livro que seria a continuação de Memórias do cárcere. Graciliano não entende esse louco amor do amigo e anfitrião pelo futebol rubro-negro: "Leónidas é um ídolo maior do que Dostoievski nesta casa. E Diamante Negro a qualquer momento da conversa. ( ... ) De vez em quando Zé Lins fica o dia inteiro em casa trabalhando no seu novo romance e só sai à tardinha. Perguntei-lhe um dia se ia trabalhar àquela hora: respondeu-me que ia assistir a um treino do Flamengo". Comenta Graciliano Ramos (o personagem de Silviano Santiago) que Zé Lins sempre se refere ao Flamengo como o time do povo e ao Fluminense como o time pó-de-arroz. Entrega-se assim à dramatização de uma luta entre os pobres do subúrbio e os ricos das Laranjeiras. No campo do futebol, ele só podia ser a favor do povo. Como filho de coronel, era a favor dos moleques da bagaceira". E o ranzinza Graciliano, recém-saído do cárcere do Estado Novo getulista, comentaria: "Assim é fácil".

O Flamengo era povo e o Flamengo foi o Brasil, muito especialmente, no ano de 1951, para José Lins do Rego. Nesse ano, preside uma delegação do Rubro-Negro, em memorável excursão à Europa. O Flamengo, então, de certa forma, vinga o desastre da Seleção, no ano anterior. Na volta ao Rio de Janeiro, o time é recebido com verdadeiro fervor cívico. Como se fosse a própria Seleção que voltasse vitoriosa. E Zé Lins comemora, como rubro-negro roxo: "Chego da Suécia convencido de que o futebol' é hoje produto tão valioso quanto o café para nossas exportações. Vi o nome do Brasil aclamado em cidades longínquas do Norte, vi em Paris aplausos a brasileiros com o mais vivo entusiasmo. Disse-me o meu querido Ouro Preto: 'Só Santos Dumont foi tão falado pela imprensa desta terra, sempre distante de tudo que não é europeu, quanto os rapazes do Flamengo".


"E, de fato, os milhares de franceses que permaneceram, no estádio, mesmo com o término da partida, aplaudindo nossos rapazes, queriam demonstrar uma quente admiração por essa turma de atletas que tinham feito uma exibição primorosa. E nossa bandeira tremulava no mastro do estádio, naquela noite quente de primavera. O futebol brasileiro deu aos mil brasileiros, que ali estavam, a sensação de que éramos os primeiros do mundo. Para mim, mais ainda, porque ali estava o meu Flamengo".

Se ocorre a Graciliano Ramos juntar o jogador Leônidas a Dostoievski, cobrando as admirações do amigo Zé Lins, também muito se espantaria se o ouvisse chamar outro craque de sua mais exaltada admiração – o zagueiro Domingos da Guia – de "Goethe do futebol", com seu absoluto "domínio de nervos e de músculos que nos deixa orgulhosos da espécie humana" (grifado agora). E arremata Zé Lins, escrevendo sobre os dois [dolos máximos do Flamengo no final dos anos 1930 – começos dos 40, numa aproximação, agora, entre os esportes que para espanhóis e brasileiros são também arte e religiosidade (não é à toa que Da Guia, o Domingos, será chamado pela galera de Divino Mestre): "Os espanhóis fizeram de suas touradas uma espécie de retrato psicológico de um povo. Ligaram-se com tanta alma, com tanto corpo aos espetáculos selvagens, que com eles explicam mais a Espanha que com livros e livros de sociólogos. Os que falam de barbarismo em relação às matanças de touros são os mesmos que falam de estupidez em relação a uma partida de futebol.

"E então generalizam. (...) ironizam os que vão passar duas horas vendo as bicicletas de um Leônidas, as tiradas de um Domingos. Para essa gente, tudo isso não passa de uma degradação. No entanto há uma grandeza no futebol que escapa aos requintados".

Para José Lins do Rego, o futebol não era somente o espetáculo que embriaga e arrasa, muitas vezes, os nervos da torcida. Via, na batalha dos 22 homens em campo, uma verdadeira exibição da natureza humana submetida a um comando, ao desejo de vitória. Adverte aos que estão de fora gritando, vociferando, uivando de ódio e de alegria, que os heróis da tarde estão dando muito mais que pontapés, carga de corpo, pois – e nisto Zé Lins insiste – estão, na verdade; "usando a cabeça, o cérebro, a inteligência". E: "para que eles vençam se faz necessário um domínio completo de todos os impulsos".

Leônidas e Domingos – Dostoievski e Goethe do futebol, para Zé Lins – são personagens de várias crônicas, assim como outro craque negro dos mais gloriosos, que o Flamengo jamais escalou, Fausto, o Maravilha Negra: "Vi Fausto, aquele que o povo chamava de Maravilha Negra, dentro de um campo, com 30 mil pessoas, com os olhos em cima dele, vencendo adversários, distribuindo passes com o domínio de um mágico. Era um rei no centro do gramado, dando-nos a impressão de que tudo corria para seus pós e para sua cabeça".

Há Mais Tempo

Zé Lins nos traços de Baptistão.

O Flamengo fazia Zé Lins tão alegre, que ficava triste de não ser "flamengo há mais tempo". Foi só em 1938 que começou a se interessar por futebol. Até então, fora "mais ou menos indiferente". Nascido na Paraíba, José Lins do Rego estudou Direito no Recife e se fez funcionário público federal em Alagoas e Minas Gerais. Talvez por isto – ou esse nomadismo constituísse também razão – não se havia vinculado a nenhum clube. Mas, em 38, se sente fascinado por Leônidas, o Diamante Negro, que assombra o mundo na copa da França. Zé Lins está ao pé do rádio torcendo pelo Brasil. E por Leônidas. O Brasil não chega ao título máximo, mas o Diamante é consagrado como o Craque da Copa e seu artilheiro, com oito gols. Zé Lins, então, é Leônidas, começando por isto a amar o Flamengo, o time carioca do grande ídolo.
A primeira anotação sobre José Lins do Rego no Flamengo é de 1939, como sócio-contribuinte. Depois, vamos encontrar em arquivo do espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa, o registro de que passara a sócio-proprietário, categoria em que se regozija de ser admitido em 30 de junho de 1948, "por proposta do amigo Silvestre Leite, que juntara posse às de outros amigos para a aquisição do custoso título”.

Na presidência de Gustavo de Carvalho (1942), Zé Lins começa a trabalhar pelo Flamengo. E um ano glorioso para o time da Gávea, em sua arrancada para o tricampeonato de 1944, tão hiperbolicamente comemorado pelo cronista de Esporte e Vida. Zé Lins é lembrado como um dos primeiros que, de manhã bem cedo, chegavam à sede, assumindo para valer suas funções de Secretário Geral do Clube de Regatas Flamengo.

Foi Zé Lins um cartola? Valdemar Cavalcanti – amigo de toda a vida e datilógrafo do primeiro romance, Menino de engenho (Maceió, 1932), confidente e companheiro do Maracanã, como da Livraria José Olympio Editora – era veemente na resposta (que registra em artigo feito logo em seguida à morte do amigo): "Foi o anticartola, isto sim". Ia ao clube muito à vontade, em roupa esportiva. Não se servia do clube, para fins eleitoreiros ou negociatas, como dizem que faz o cartola da cartolagem malandra. "Zé Lins" – afirma Valdemar Cavalcanti – "serviu ao Flamengo, verdadeiramente. E por extensão ao futebol brasileiro, sempre que podia e onde podia".

Foi Zé Lins quem conseguiu verba para o Brasil ir à Copa do Mundo de 1954, na Suíça. Depois da tarde tenebrosa do Maracanã, em 16 de julho de 1950, teve que gastar muito tutano, para garantir que não deixássemos de disputar aquele campeonato. O Brasil foi mal, mais uma vez. Todos sabem. Mas participou. Zé Lins fez parte da delegação e chorou, como todos, a nova derrota. (O pranto era livre.)

Zé Lins e o amigo Jorge Amado, na ABL.
José Lins do Rego podia ser o mais alegre como o mais triste torcedor diante de um placar. Como qualquer autêntico galera, fanático ou sofredor do jogo de bola. E foi uma personalidade importante do mundo esportivo. Convidado pelo então ministro da Educação, Gustavo Capanema (que tinha como Chefe de Gabinete seu amigo Carlos Drummond de Andrade), Zé Lins integra o Conselho Nacional de Desportos. Chefia a delegação brasileira ao Campeonato Sul-Americano de 1953, em Lima, Peru. Faz-se Secretário da Confederação Brasileira de Desportos, que chegou também a presidir (em 1950, substituindo interinamente o presidente, Mário Polo). Os funcionários do CBF, à época em que Zé Lins andou por lá (anos 1940-50) dizem que era um excelente Secretário, e que exerceu a Presidência de forma esplêndida. Aí provou, de fato, ser o anticartola, o oposto do amigo das mordomias e inimigo do trabalho. Zé Lins foi um autêntico trabalhador do futebol. E tudo fez pelo esporte brasileiro.

No Flamengo e na Academia

No Flamengo, José Lins do Rego deixou a imagem de um homem calmo, meio parado, com ar beirando à melancolia. Mas quando se tratava de resolver problemas do clube, viam que se transformava em dinâmico, exultante, febril. E não parava nem dava tréguas aos que estivessem no assunto com ele, enquanto o problema não fosse resolvido de modo satisfatório para o Rubro-Negro.

Ganhou fama de líder, de comandante, com a vitoriosa campanha do Flamengo na Europa em 1951, já referida. Por delegação da Fifa, presidiu a comissão formada para escolher os melhores trabalhos de publicidade do campeonato mundial de 1950. (E aquele que perdemos em casa, mas passemos sobre este assunto).

Ao eleger-se para a Academia Brasileira de Letras, Zé Lins teve o jantar de posse oferecido pelo Flamengo, na sede do clube, com direito a champanha francesa e violinos ao luar. E quando, verdadeiramente se imortalizou, em 12 de setembro de 1957, tomando-se definitivamente integrante do time da saudade, o Flamengo decretou três dias de luto. Então, Zé Lins partiu para a última e misteriosa viagem coberto pelo Manto Sagrado, como sempre chamou à Bandeira do Rubro-Negro.

Seis anos antes, se declarara – é o título de uma das crônicas da rubrica Esporte e Vida, no Jornal dos Sports – um "Escravo do Flamengo". Fora, como preconiza a célebre marchinha-hino de Lamartine Babo, 'Flamengo até morrer". E estas coisas escrevia, agradecendo a indicação do presidente de seu Clube para chefiar a grande excursão de 1951: Escravo do Flamengo.

"Escolheu-me Gilberto Cardoso para a chefia da delegação do Flamengo à Suécia, e o gesto me comoveu profundamente. Foi como se me chamasse para chefiar uma missão de meu país em terra estrangeira, uma honra que me encheu o coração de alegria e confortou a vida.

"Tenho o Flamengo no sangue (não fosse este vermelho como uma de nossas cores), e desde que me chamam para seu serviço, não sou mais do que seu escravo, 'Admirável paixão que nos arrasta aos entusiasmos mais extremos e às tristezas profundas, mas paixão que nos ajuda a viver, que nos congrega em torcidas que não temem a chuva e o sol, que se sobrepõe aos nossos interesses particulares, para ser somente um flamengo, um simples homem de arquibancada, disposto a tudo.

Sou grato ao Flamengo, e por ele darei tudo o que puder”.

Assim foi. Popularíssimo em vida, Zé Lins poderia ter sido eleito deputado ou senador. Não lhe faltariam os votos da galera. E seria um Homem de Estado. Preteriu, singularmente, conforme disse com tanta graça seu amigo Ledo Ivo, ser Homem de Estádio.


Para saber mais sobre Edilberto Coutinho, acessar:

Para saber mais sobre José Lins do Rego, vale a pena assistir ao documentário “José Lins do Rego – Engenho e Arte”: http://www.pactoaudiovisual.com.br/mestres_final/joselinsdorego/documentario.htm



3 comentários:

  1. Oi André,
    Bela matéria.
    Compartilhada.
    Um abraço.

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  2. Eu teria um desgosto profundo...
    Vencer, rumo a mais um título: Copa do Brasil! rsrs
    Beijão.

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  3. Achei uma cronica de Rachel sobre o Vasco. Te interessa?

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