domingo, 18 de novembro de 2012

Veríssimo e o seu Time dos Sonhos


Ele é torcedor assumido do Internacional, de Porto Alegre, e um dos craques da literatura brasileira que nunca escondeu sua paixão pelo futebol, dentro e fora dos gramados. Luis Fernando Veríssimo tem vários livros onde o esporte aparece como tema, mas um, em especial, é dedicado inteiramente a paixão número um do brasileiro: Time dos Sonhos – Paixão, Poesia e Futebol (Editora Objetiva, 2010). Time dos Sonhos é diversão garantida, cortesia do maior craque do humor brasileiro.

Sinopse (da Editora)

Em uma das crônicas reunidas aqui, Luis Fernando Verissimo fala de mais uma criação memorável sua, o Marciano Hipotético. O alienígena visita a Terra de tempos em tempos e costuma ficar perplexo com o que vê. Ao lermos os textos de Verissimo, nos sentimos um pouco como o Marciano. Isso acontece por que o autor tem o dom de nos surpreender sempre, mostrando o mundo de ângulos inusitados.

Aqui, ele lança seu olhar astuto sobre o universo futebolístico, tão caro a nós brasileiros. Com o seu texto enxuto e elegante, ele examina os paradoxos do esporte, que vai do épico ao mundano no tempo de duração de um passe. Algumas crônicas nos colocam para pensar, como a que afirma que o futebol é uma mistura de xadrez com boxe. Outras nos arrancam risos, como a que abre o livro, sobre um coração que vai parar na Copa do Mundo. A maioria delas provoca as duas reações.

Para que serve o futebol

Meu coração

No fim, desculpe a literatura, é tudo entre nós e o nosso coração. Depois do dito e do feito, depois da paixão e da razão, depois da vida das células e da vida social e da vida cívica e das idas e das voltas, e da História e da biografia, e do que os outros fizeram conosco e do que nós fizemos com os outros, é tudo entre nós e ele. Segundos fora. Nós e ele. A única conversa que vale, a única intimidade que conta.

O coração não tem nada a ver com nada, fora a sístole e a diástole e a sua fisiologia medíocre. Ele nem nos daria conversa, se não dependesse de nós, se não precisasse da embalagem, dos terminais e de alguém que cuide dele. Tudo que lhe atribuem, do mais romântico ao mais calhorda, é falso. Trata-se de um mero músculo, e de um músculo egoísta, que só quer saber da sua própria sobrevivência. Da qual, por uma cruel coincidência, depende a nossa.

Fala-se do “time do coração”. Mentira. O coração não tem time. O coração não se interessa por futebol. Só hoje, por exemplo, o meu se deu conta de onde estava. Paris, Nantes, Marselha ou qualquer outra cidade, é tudo o mesmo para ele, desde que ele tenha um lugar seguro onde possa bater e cuidar da sua vidinha. Mas de repente ele se deu conta e pediu satisfações.
Para onde eu o tinha trazido?

Expliquei. A França, a Copa, o Brasil, os jogos, a beleza dos jogos...

Meu coração não quis ouvir falar da beleza dos jogos. Ele não tem nenhum senso estético. Quis saber que história era aquela de morte súbita.

— É uma maneira nova de decidir as partidas que acabam empatadas. Há uma prorrogação e o primeiro gol quem marcar ganha.
Meu coração não quis acreditar.

— Quer dizer que, se esse time pelo qual você torce, como é mesmo o nome?
— Brasil.
— Quer dizer que se o Brasil empatar com algum outro time, tem prorrogação com morte súbita?
— É...
— Você sabia disso quando me trouxe para cá?
— Sabia.
— Você deliberadamente me trouxe a um evento em que eu posso parar de repente, mesmo não tendo nada a ver com isso? Não era para ser um campeonato de futebol, um esporte, um divertimento, enfim, nada que me dissesse respeito?
— Desculpe. Eu tentei substituí-lo pelo distanciamento crítico, mas...

— Só me diz uma coisa. Se a prorrogação terminar sem que ninguém marque gol, o que acontece?
— Aí decidem nos pênaltis.
— Me leva pra casa.
— O quê?
— Me leva pra casa imediatamente. E pare de me envolver nos seus divertimentos. Você parece que não tem coração.
— Mas nada disso vai acontecer com o Brasil. Prorrogação, pênaltis, nada disso.
— Quase aconteceu contra a Dinamarca!
— É, mas...
— Me tira daqui!

Sobre Luis Fernando Veríssimo:
É gaúcho de Porto Alegre, filho do grande escritor Érico Veríssimo. Tem dezenas de livros publicados e com o tema futebol é autor, entre outros, de O cachorro que jogava na ponta esquerda (Editora Rocco), Time dos Sonhos – Paixão, Poesia e Futebol (Editora Objetiva) e Internacional - Autobiografia de uma paixão (Ediouro).

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