quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Tostão: trocando os pés pelas mãos


É uma triste realidade, mas infelizmente, no jornalismo esportivo, não existem mais cronistas que refletem sobre o tema futebol de maneira diferenciada do noticiário do dia a dia. Para quem um dia teve os irmãos Mario Filho e Nelson Rodrigues, o gênero crônica esportiva praticamente desapareceu nas páginas dos principais jornais brasileiros. São raríssimas as exceções. Uma delas não é um grande escritor ou jornalista esportivo, mas um ex-campeão mundial de futebol. Trata-se de Tostão, o craque que abandonou o futebol precocemente no início da década de 1970 e somente vinte anos depois começou a refletir sobre as “coisas” do futebol. Bom para o torcedor leitor amante da literatura esportiva.

Um dos livros interessantes sobre o ex-craque cronista foi fruto de um trabalho acadêmico (TCC – Trabalho de Conclusão de Curso) produzido pelo jovem Gilson Yoshioka, em 2008, na Faculde Cásper Líbero. Dois anos depois, aperfeiçoado, o trabalho acabou se transformando no livro “Trocando os pés pelas mãos – Futebol e a vida n as crônicas de Tostão” (Editora Maquinaria).

O livro é simples, como o personagem biografado, mas bem escrito. Dividido em três partes: “A trajetória de um cronista”, “Bate-Bola com Tostão” e o “Dicionário Tostão de futebol – Conceitos e Reflexões”.

Literatura na Arquibancada traz abaixo um dos capítulos da obra, um bom “aperitivo” do que o livro oferece sobre esse personagem fantástico, do futebol e da crônica esportiva brasileira chamado Tostão.

O início no mundo das letras

“Todo encontro é um reencontro com algo que perdemos ou que sonhamos, ou que está na nossa imaginação ou na nossa memória, sem necessariamente estar presente na nossa lembrança.” (Tostão)

Da época de jogador, Tostão trouxe, para o ofício de cronista, o apelido de infância inspirado na moeda de menor valor, a rigorosa autocrítica e a capacidade de resolver as jogadas com o mínimo de gestos. Por mais que atuasse bem, costumava pensar que devia ter realizado muitas coisas de forma diferente. “Nos textos, costumo encontrar um ou dois defeitos depois da publicação. Sempre acho que poderia ter feito um trabalho melhor”, diz. Além disso, faz conexões com a história do futebol e usa a vivência em campo para derrubar falácias e mentiras do dia a dia do esporte e seus bastidores.

Da experiência como aluno e professor na faculdade de medicina, após pendurar as chuteiras em 1973, vem o cuidado na elaboração dos escritos e o gosto pela explicação para facilitar a compreensão do leitor.

Com as técnicas e táticas em primeiro plano, suas colunas são marcadas pela preocupação em transformar a opinião em argumentos consistentes, ao contrário de muitos que se valem apenas de exames pontuais e do achismo. Tostão transita da simples observação para a interpretação das partidas, garantindo, assim, uma visão científica do esporte.

Já a formação em psicanálise proporcionou o melhor entendimento das particularidades e imperfeições do ser humano para, a partir delas, fazer suas abordagens psicológicas. “Além de uma disputa técnica e física, o esporte é uma catarse emocional. Os sentimentos passam primeiro pelo corpo, antes de serem estudados e racionalizados. O corpo fala primeiro e não mente, ele é a sombra da alma.”

As pessoas falam com o olhar, as poses, as entonações diferentes e, às vezes, até pelos cotovelos. No entanto, a pressão para vencer, a ansiedade, o excesso e a falta de confiança, a concentração e a desconcentração são ponderados com o cuidado de não cair no psicologismo”, uma espécie de análise rasa que costuma atribuir as vitórias e derrotas a esses fatores emocionais.

De Belo Horizonte, sua cidade natal, ele traz também a inclinação à crítica e à desconfiança para os jornais. Entretanto, ao contrário da crença popular, não costuma ficar em cima do muro.

O mineiro, mesmo quando sensato e equilibrado – o que muitas vezes não é, faz questão de frisar –, é rotulado como alguém que não toma partido. A zona de conforto e a cautela, sua prima-irmã, nunca o impediram de deixar o palco, sair de cena, nem abafaram os anseios que o levaram a mudanças de rumo profissional e a novos estágios de sua evolução. É a partir de sua aldeia que ele penetra surdamente no reino das palavras, onde estão os textos que esperam ser feitos. As lembranças escorrem, a tarde pode ser triste e os jogos de doer, mas a linguagem na ponta da língua, tão fácil de falar e de entender, é sua matéria-prima, a senha do mundo.

Tostão já questionou se alguns atletas transferidos para a Europa deveriam começar em times modestos até se adaptarem aos costumes, à vida e ao estilo de jogo local. A mudança para um grande clube como o Milan, Barcelona ou Real Madrid é o sonho da maioria, o caminho mais rápido para o título de melhor do mundo. Mas aqueles que atingem esse objetivo têm ao mesmo tempo maior projeção e cobrança por parte de torcedores, dirigentes e mídia. Os ex-craques que se tornam treinadores também deveriam começar em equipes pequenas para crescerem e chegarem mais preparados nas de ponta. Muitos, todavia, fazem o caminho inverso valendo-se do passado bem-sucedido e fracassam por se tratar de uma função distinta no mesmo esporte.

O pontapé inicial na atual profissão seguiu receita semelhante: estreou no jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, em 1996. Os primeiros textos serviram como a primeira bola recebida do pai quando tinha cinco anos ou como aquelas de borracha e de couro vazias usadas nos cabeceios dos treinos leves e progressivos devido ao descolamento da retina esquerda, nos treinamentos para o Mundial do México.

Contudo, a coluna logo começou a ganhar destaque e foi estendida a publicações de circulação nacional, como o Diário da Tarde, Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo. Depois de mais três anos, o camisa 8 do Cruzeiro mudou de time – ao qual permanece fiel até hoje – e os textos passaram a ser veiculados na Folha de São Paulo e em outros 12 estados. “Tive um crescimento gradual”, declara. Assim como tirou de letra a pergunta de um jornalista – “A camisa da Seleção Brasileira pesa para um jogador mineiro?” – durante os exames médicos para a Copa de 66, ao colocar o uniforme numa balança e dizer que não, Tostão não se intimidou e expôs suas ideias para todo o país. “A crônica ainda é resistência de leitores que gostam de refletir, de filosofar, de teorizar. O resto é show. Eu me orgulho de estar nessa seleção no maior jornal do Brasil.”

Por conta do tempo que ficou afastado dos gramados, assistiu a alguns filmes das Copas do Mundo para observar o aprimoramento tático das equipes. Outro motivo para o mergulho no passado é que, durante o período estudado, ele não possuía o mesmo olhar de hoje, já que estava entre alunos e professores, aulas e provas, leituras e plantões na faculdade de medicina. “Tenho uma deficiência na hora de fazer uma análise da evolução técnica e procuro corrigi-la assistindo aos teipes. Antes, via os jogos só como apreciador do espetáculo, aos domingos e nos dias de folga”, explica. Apesar do afastamento, ainda sonhava que estava dando passes, fazendo gols e sendo campeão.

Mesmo com um olhar mais tímido, esporádico, distante, ele não se contentava com as publicações e as partidas televisionadas, e isso já o fazia acreditar na possibilidade de um dia também marcar alguns gols de placa – ou melhor, de letras – com suas críticas. “A maior parte das transmissões do futebol é lugar-comum, maçante, chata.”

No entanto, anos depois, ficou “doido com o enorme esforço” para controlar a tensão e a timidez – com ajuda de terapia – e colocar para escanteio o “jeito mineiro de falar, engolindo palavras”, que tiravam a naturalidade do comentarista da TV Bandeirantes na Copa de 94
e, depois, da ESPN. Também foram decisivas para a desistência do cargo as propagandas durante os jogos e o esforço e a preparação que não proporcionavam um prazer íntimo, uma satisfação pessoal, uma recompensa maior ao final das gravações após enfrentar a ponte aérea Belo Horizonte–São Paulo.

Porém, sempre existe um porém, foi um bom treinamento para o futuro cronista, porque, tal qual os técnicos, era obrigado a enxergar o conjunto dos times e a tirar conclusões rápidas. Apesar de ser uma mídia com linguagem e exigências distintas – mais concisão e menos descrição –, Tostão era um dos poucos que se valia de análises estruturais, e sua originalidade e a independência faziam com que destoasse de muitos que recorriam a elogios fáceis ou bajulação aos jogadores devido à falta de informação e poder de observação. Além disso, viveu com emoção e saudade o clima da mais importante competição do esporte, teve contato com a imprensa de todo o mundo e conheceu um de seus ídolos enquanto comia sozinho um sanduíche no centro de imprensa de Dallas.

O homem mais velho, gordo e careca, humildemente, pediu permissão para se sentar ao seu lado e se apresentou. Era o argentino Di Stéfano. A longa prosa foi um de seus momentos mais marcantes nos Estados Unidos e uma chance de relembrar a poesia dos campos dos velhos tempos. Quando voltou para o Brasil, falou do encontro ao Sr. Osvaldo, seu pai, que ficou emocionado e lamentou a falta de coragem do filho para pedir um autógrafo daquele que, para o primeiro, era, ao lado de Zizinho e Ferenc Puskas, o melhor do mundo nos anos 50, o único jogador que conseguia ser um supercraque de uma área à outra. “Pelé era o maior, mas reinava do meio para frente.”

No entanto, treino é treino, jogo é jogo, e o craque ainda não tinha encontrado o seu espaço, a posição ideal em campo no jornalismo esportivo. Não rendeu tudo o que podia. O mesmo ocorreu quando atuou fora da posição de origem, de centroavante, fazendo o pivô entre os zagueiros e não participando individualmente de tantas jogadas como de costume, para conseguir uma vaga ao lado de tantos craques – também não isentos de adaptações – na Copa de 70. Ainda assim, a paixão pela bola renascia, aumentava cada vez mais, proporcionalmente ao surgimento de novos talentos no país. E isso começou antes mesmo de ele reencontrar os heróis de 70 e fazer novas triangulações com Gérson e Rivellino fora dos gramados, nos estúdios, 24 anos depois.

Os filhos André e Mariana o levaram à Copa de 90, na Itália, onde, emocionado, retomou o interesse pelo jogo. O caçula também foi o responsável pelo retorno do maior ídolo do Cruzeiro de todos os tempos a um jogo no Mineirão, em 1993. O objetivo? Ver um dos principais destaques do campeonato regional daquele ano: o garoto Ronaldo, de apenas 16 anos. Franzino, leve e rápido, ele recuava ao meio campo para receber a bola, driblava e trocava passes até fazer o gol.

Afirmou que o adolescente só não seria titular no Mundial dos Estados Unidos porque o Brasil já tinha Bebeto e Romário, dois excepcionais atacantes. Alguns dias depois, a repercussão da declaração promoveu o encontro dos craques de gerações distintas para a realização de uma matéria na residência de Tostão. O artilheiro perguntou ao veterano se o imóvel tinha sido comprado com o dinheiro ganho no futebol. “Ele já demonstrava ser um jovem sonhador e ambicioso, como são os grandes campeões. Certamente, não imaginava que anos depois ia faturar em um mês o preço do apartamento.” Após a entrevista, o menino foi embora, mas esqueceu a carteira, talvez motivado pelo desejo inconsciente de retornar. Voltou e conversaram mais um pouco sem os repórteres, e ainda ouviu o conselho para preservar a intimidade, porque, no mesmo dia, tinha aparecido deitado na cama numa foto de um jornal. “Não deve ter escutado. Os jovens, com razão, estão preocupados com coisas alegres e imediatas. Ele nunca soube separar a vida pública da privada. Não estava preparado para a fama. Ninguém está.”

A experiência como cronista esportivo deu a Tostão a possibilidade de conhecer de perto os novos talentos do futebol e também de encontrar e conviver com pessoas queridas que ele não via há muito tempo. Era poder falar de um assunto de que gosta e que compreende. “Voltar ao futebol é reencontrar-me comigo mesmo, com meu passado, apagar as mágoas, decepções que tive durante a minha carreira. Eu tinha uma imagem preconceituosa, a de que o esporte cultivando o corpo é um assunto menor, não intelectual, primário, popular. Saindo dele faria uma carreira maior, mais importante, mais culta. Estava enganado. É uma atividade humana altamente criativa e principalmente rica em emoções.” Era também a oportunidade de esclarecer de vez uma série de versões sobre seu afastamento radical do universo do futebol após a aposentadoria precoce devido à contusão no olho. Uma reportagem da revista Placar sobre a situação dos tricampeões após o título, contribuiu para alimentar os boatos crescentes em relação a uma suposta amargura com a bola, o mundo e o novo ciclo em sua existência.

“Não dá entrevista, pouco vai a campo: quer matar o próprio mito. A barriga é respeitável e a calvície se acentua a cada dia. Sinais de um desleixo talvez premeditado que serve muito bem aos propósitos de Tostão. Desde que abandonou o futebol, o ‘Mineirinho de Ouro’ se dedica com afinco à tarefa de destruir a imagem do mito Tostão. Foge como pode da imprensa esportiva, à qual detesta dar entrevistas. Raramente vai ao Mineirão e, de seus antigos companheiros de Cruzeiro, mantém contato apenas com Piazza.”

A publicação acrescentou ainda que Tostão provavelmente se especializaria em oftalmologia, motivado pelo acidente. Algumas tevês divulgaram que tinha queimado e jogado fora todos os troféus e que não gostava mais de ser chamado de Tostão, e sim de Eduardo e, depois de formado, de doutor Eduardo. Alguns anos depois, ele desmentiria tudo isso, sem muito sucesso, é verdade. “Eu só tinha medo de que as pessoas confundissem o ex-jogador com o médico que estava nascendo.”

Mas, graças aos dias de glória, com sangue, suor e lágrimas, ele pôde realizar o antigo sonho de se tornar um profissional liberal, podendo assim voltar a estudar sem trabalhar. Passou a ter uma vida simples, mas confortável, diferente da humilde infância, quando era esnobado por garotos mais ricos devido ao costume do pai de distribuir bananas para os times. Após dez anos longe das salas de aula do colégio estadual considerado por ele o melhor da cidade, entrou num cursinho e, com um grande esforço, foi aprovado no vestibular para a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (sua primeira opção) e, em primeiro lugar, para fisioterapia, na Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte.

A típica família de classe média do menino era encabeçada por Osvaldo, bancário e jogador amador do América-MG, e Oswaldina, mãe e auxiliar de tesoureiro no Ministério da Fazenda, além dos irmãos mais velhos Célio, Carlos Alberto e José Osvaldo, que começaram a trabalhar aos 13 anos de idade. Os dois primeiros ainda chegaram às categorias de base do Atlético-MG e do Cruzeiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário