quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Parabéns, Flamengo (parte 2)


No segundo artigo da série especial sobre o aniversário do Flamengo (dia 15/11) e o centenário do primeiro jogo do rubro-negro, em 1912, Literatura na Arquibancada resgata abaixo um livro fundamental para aqueles que se dizem verdadeiros rubro-negros.

Trata-se do Manual do Rubro-Negrismo Racional (Editora 7 letras, 2009). O autor, Arthur Muhlenberg, um rubro-negro apaixonado, é dono de um texto crítico e divertido, não por acaso, é um dos recordistas de acessos no blog que mantém no globoesporte.com, o Urublog.

O nome de seu blog tem explicação simples. Uru, de Urubu, o mascote adotado pelo Flamengo muitos anos atrás. E essa é uma das muitas e boas histórias contadas por ele em seu Manual do Rubro-Negrismo Racional. Uma história que nem todos da imensa torcida do Flamengo conhecem.

Por Arthur Muhlenberg

Equipe do Flamengo, campeã brasileira de remo em 1953.
“Todo mundo concorda que o Flamengo não é um clube como os outros. E que o Flamengo se diferencia de todos os outros no mundo porque nele nada é por acaso. Absolutamente tudo no Flamengo tem uma razão de ser. Desde os nomes dos barcos da nossa flotinha de remo (sempre batizados em tupi-guarani, conforme reza nosso estatuto) ao número de estrelas no Manto Sagrado, nada no Flamengo é feito porque vai ficar bonitinho ou porque está na moda. Tudo no Flamengo tem um sentido, encerra um significado maior. Por isso, quando a era Popeye (nosso mascote anterior) já entrava em seu ocaso, o quê ou quem seria o novo mascote do Mengo permanecia uma incógnita. Fosse animal, mineral ou vegetal, para ser mascote do Mais Querido o troço tinha que ter substância, fazer por merecer. No democrático Flamengo mascote nenhum ia ser imposto à base da canetada.

O urubu que deu origem a mascote
E foi a torcida mesmo que decidiu a questão. O urubu tornou-se nosso segundo e definitivo mascote na tarde épica de 1º de julho de 1969, quando uma solitária ave da ordem dos falconiformes decolou das arquibancadas à esquerda das tribunas de honra e sobrevoou altaneira, com uma pequena bandeira vermelha e preta atada aos pés, o gramado do Maior do Mundo. Era um domingo de sol e neste mesmo gramado dentro de minutos Flamengo e Botafogo se enfrentariam em mais uma edição de um clássico que o Fla não vencia há quatro anos. A ornitologia nunca foi um hobby popular no Brasil, mas naquele inesquecível tarde/noite no Maracanã, o público (em sua esmagadora maioria, leigo) não ficou indiferente ao inusual avistamento da ave e reagiu com a verve e a objetividade que são habituais ao carioca. Os gritos de “É Urubu! É Urubu!” espocaram imediatamente. Ao início, jocosos e debochados, vindos das arquibancadas à direita das tribunas.

À medida que o pássaro negro executava preguiçosamente suas evoluções aéreas sobre o relvado, ia conquistando os corações do povo Flamengo e incendiando as arquibancadas. Em poucos segundos o “É Urubu! É Urubu! É Urubu!”, insulto recorrente das torcidas adversárias, foi expropriado para sempre pela revolucionária torcida do Flamengo. E o grito pegou. “É Urubu! É Urubu! É Urubu!”. Nas multiétnicas bocas rubro-negras ele se arredondou, ganhou consistência, musicalidade e harmonia. Depois de encantado pela mística vermelha e preta, o insulto infame, criado para envergonhar os humildes se transmutou em brado de autoafirmação. O que para os adversários era deboche virou demonstração de orgulho e o mal disfarçado racismo da injúria voltou-se como flecha vingadora na direção de quem covardemente o lançara. Numa consagração instantânea, o Urubu dominou o Maracanã pela primeira vez e incendiou para sempre a torcida do Flamengo.

Luiz Octávio e o amigo Romilson Meirelles,
amigos que levaram o urubu ao Maracanã, em 1969
Ainda que se espalhe homogeneamente desde o México até o norte da Argentina, o Maracanã jamais poderia ser confundido com o habitat natural da espécie. Aquele urubu, já devidamente ungido pela massa flamenga, que após seu sobrevoo caminhava gingando pelo gramado, tinha que ter sido levado até o Maracanã por alguém. Quem levou o urubu, devidamente contrabandeado para dentro do estádio enrolado num bandeirão do Flamengo foi o jovem rubro-negro Luiz Octávio Machado, morador do Leme, que há muito tempo se abespinhava com o racismo inconfesso que os adversários do time destilavam contra os pobres em andrajos que sempre foram os alicerces das multidões rubro-negras. Na sua sensível percepção da nossa injusta sociedade, esse jovem visionário teve sua centelha de gênio ao concluir que o Urubu deveria ser um símbolo do Flamengo e deu sua valente e, em grande parte, despossuída torcida.

O próprio Luiz Octávio relatou: “Os torcedores do Botafogo sacaneavam demais a torcida do Flamengo. Naquela época, Fla e Botafogo faziam o clássico de maior rivalidade depois da “era Garrincha”. Os botafoguenses gritavam com ironia e rancor que o Flamengo era time de urubu, ou seja, time de negros”.

Junto com seus colegas, Luiz Octávio foi na sexta-feira anterior ao clássico até a antiga favela da Praia do Pinto tentar capturar um urubu para levá-lo ao Maracanã. A caçada às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas resultou infrutífera e no sábado os guerreiros partiram então em direção ao depósito de lixo do Caju, onde após alguma luta, um urubu menos ágil foi convencido a aceitar o convite para conhecer as instalações esportivas do estádio Mário Filho. Após algumas previsíveis dificuldades de adaptação da ave ao artificial meio ambiente de um apartamento do Leme, tudo estava pronto para a grande estreia do urubu no dia seguinte.

                                          O jogo entre Flamengo e Botafogo. Pena que 
                                          o urubu não tenha sido gravado. 

E a estreia do Urubu não poderia ter sido mais auspiciosa: após nove jogos sem vencer o pequeno rival, com o advento do Urubu, o Flamengo se impôs com gols de Arílson e Doval. Fim da escrita, início de uma nova era. Pouco tempo depois, o cartunista Henfil popularizaria ainda mais o Urubu em suas tiras diárias no jornal O Dia. Fazendo o caminho inverso do Popeye, o mascote do Flamengo se transformava em um personagem dos quadrinhos. O ciclo estava completo. A partir disso, mesmo quem não esteve no Maracanã naquele dia se convenceu de que o Flamengo finalmente tinha um mascote à altura. O resto é História”.

Quem assina o texto da “orelha” do Manual do Rubro-Negrismo Racional é um torcedor do arquirrival Fluminense, André Sant’Anna, escritor e roteirista de publicidade, cinema e televisão, filho do famoso escritor Sérgio Sant’Anna. André é autor de vários livros: Amor, 1998; Sexo, 1999; Amor e outras histórias, 2001; O paraíso é bem bacana, 2006 e Inverdades, 2009.

Conhecido pelo estilo debochado e irreverente, até mesmo ácido pelas palavras fortes que utiliza, André Sant’Anna descreve exatamente a personalidade do autor do Manual do Rubro-Negrismo Racional. E o que aqui acabamos de chamar de “arquirrival” Fluminense, não é bem assim...pelo menos para ele.

Por André Sant’Anna

“Bem...Eu sou tricolor, então não me venham pedir pra ficar aqui fazendo loas ao Flamengo, até porque o Arthur não alivia nem um pouco quando se relaciona com torcedores do foguinho, do vasquinho e do Fluzão. Já fiquei mal, uma vez, com um troço que o Arthur escreveu lá no urublog, que o único verdadeiro adversário do Flamengo é o Vasco. Magoou. Se bem que, depois, ficou claro que o Arthur só disse isso porque o Vasco perde toda final que joga contra o Flamengo. Tá perdoado.

Só que também tem o outro lado da moeda: o Fla x Flu é um negócio sensacional e seria impossível a existência do Fla x Flu sem a existência do Flamengo. Sendo assim, mesmo que o Arthur saia por aí, atropelando impiedosamente, sem qualquer correção política, patos botafoguenses, bacalhaus vascaínos e poetas tricolores nos textos que escreve, não posso deixar de reconhecer um adversário valoroso, que dignifica o combate, enobrece o mais significativo clássico do futebol brasileiro.

Na arena da literatura futebolística, o jogo também ganha com a entrada do Arthur em campo. Ganha principalmente em safadeza, que é imprescindível na pratica do futebol-arte. Porque o Arthur é aquele jogador irritante, que incomoda, que distorce a lógica em nome da razão, que sabe misturar português arcaico com linguagem de flamenguista safado que ele é. O Arthur é um jogador que, eventualmente, até podia ganhar uma licença para disputar um Fla x Flu de cinismo e provocação com o Nelson Rodrigues. E olha que isso é um baita elogio ao Arthur. Nesse saudável debate, se os fatos estiverem contra o Nelson Rodrigues ou contra o Flamengo do Arthur, pior para os fatos. Tudo muito racional.

Tem outra coisa. Apesar do rubro-negrismo hardcore, o Arthur também é um poeta. Neste manual de fundamentalismo flamenguista, ele chama o Fluminense de Flor. Gostei demais do apelido.

E, no mínimo, o Manual do Rubro-Negrismo Racional garante diversão nada saudável pra todo mundo que lê.  Pra mim, pra você e pra torcida do Flamengo”.

Prova da “língua afiada” de Arthur Muhlenberg contra os times adversários cariocas é o texto da contracapa do Manual do Rubro-Negrismo Racional.  

"Tem certas coisas que não adianta a gente tentar mudar, porque são coisas que fazem parte da natureza do Flamengo. O fascínio pela adrenalina que só a beira do abismo produz, os saltos mortais na hora em que a água bate no queixo e a capacidade de se reinventar quantas vezes forem necessárias, são qualidades próprias do Flamengo. Em verdade, são essas qualidades inortodoxas as maiores responsáveis pela nossa incomparável grandeza e magnitude. Só quem é Flamengo que sabe.

Por isso é que eu sempre digo a mesma coisa, mesmo a quem não me perguntou nada e fica boladinho só porque o Mengão não esculachou como devia um, dois ou três timinhos que o destino colocou em nosso caminho. Se você não aguenta a emoção de andar no fio da navalha, se ainda não aprendeu que os recalcadões da arco-íris são uns "losers" irrecuperáveis, se não tem certeza absoluta que o Flamengo é o predador supremo do futebol em toda a galáxia, então não torça para o Flamengo. Da mesma forma que um católico não pode negar o Cristo, não é possível ser Flamengo e não ter certeza de que ele é o maior."

Sobre Arthur Muhlenberg:
É rubro-negro, carioca e publicitário. Desde 2007 comanda o Urublog, blog do torcedor do Flamengo, um dos campeões de audiência do portal Globoesporte.com, com mais de 1 milhão de acessos mensais. Leia mais em http://globoesporte.globo.com/platb/torcedor-flamengo/


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