terça-feira, 6 de novembro de 2012

Parabéns, Flamengo (parte 1)


No primeiro artigo da série especial sobre o aniversário do Flamengo (15/11) e o centenário de seu primeiro jogo, em 1912, Literatura na Arquibancada apresenta uma obra raríssima da literatura esportiva. Trata-se do livro “Histórias do Flamengo”, de Mário Filho, o jornalista esportivo que consagrou o clássico Fla-Flu e revolucionou o jornalismo esportivo a partir da década de 1930.

“Histórias do Flamengo” foi publicado pela Editora Pongetti, em 1945. Vários leitores de primeira viagem, aqui do Literatura na Arquibancada, poderão se perguntar: “mas como publicar um livro sobre ‘histórias do Flamengo’, começando por reverenciar o arquirrival, Fluminense?”. É o que se deduz do texto de apresentação da obra.

Mário Filho
É exatamente o que fez Mario Filho em seu texto de apresentação. Reverencia tudo do clube tricolor - fato que fez muitos rubro-negros desconfiarem durante décadas sobre o verdadeiro clube de coração do jornalista -, mas de maneira sútil e brilhante (como sempre o fez) deixa nas entrelinhas o que é ser Flamengo.

Se Mario Filho dedicou as quatro primeiras páginas de seu “Histórias do Flamengo” ao rival Fluminense, nas outras 363, ele revela a alma do torcedor rubro-negro, personagens de todos os tipos, dentro e fora dos gramados. Só mesmo Mario Filho poderia resgatar a história do poeta cego do Flamengo ou ainda de Baiano, o barbeiro que foi tentou ser zagueiro do clube, mas acabou barrado pelo técnico Flávio Costa.

Uma frase pinçada do texto abaixo define o que é ser um torcedor rubro-negro: “O Flamengo não fica no estádio quando o jogo acaba, sai, é a própria multidão que se perde em mil ruas, levando para cada canto a presença do Flamengo”.

Um clube grande por fora
Por Mário Filho

Segunda sede do Flamengo, construída em 1920.
Para sentir a grandeza do Fluminense a gente tem de ir a Álvaro Chaves. Lá está a sede, o estádio, com o campo de futebol, a pista de atletismo, de carvão moído, o estadinho de tênis, as quadras, a piscina, o ginásio, o stand de tiro, bem pegado ao muro do Palácio, as alamedas, os jardins, as praças, todo o Fluminense.

O Fluminense está ali, é fácil mostrá-lo a quem chega de fora. É mais difícil mostrar o Flamengo. Um pedaço do Flamengo fica na praia, outro no morro da Viúva, outro na Gávea. Toma-se um carro, de duzentos em duzentos metros o relógio do taxi marca mais trinta centavos, vai-se de um lado para o outro, e quando acaba não se viu o Flamengo. Nada daquilo dá uma ideia da grandeza do Flamengo. Vê-se o estádio, não é o estádio ainda, vê-se a sede, não é a sede, vai ser completamente diferente.

Estádio das Laranjeiras.
O Flamengo é o Sonho, o Fluminense é a Realidade. Não se precisa fechar os olhos para vê-la. Ei-la, presente, viva. Parece que foi sempre assim, que será sempre assim. O ímpeto de expansão do Fluminense esbarrou nos muros do Palácio. Voltou-se para o morro, foi por ele acima, cortou-o, armando platôs, para colocar, bem no alto, o grande mastro de um navio de guerra, o Tupi. Era mais em cima que, em dias de jogo, os pobres se amontoavam. Só viam metade do campo, lá no fundo o gol, o goleiro deste tamanho. Quando o time do gol da rua Guanabara dominava, os pobres ficavam sem saber quase nada do que estava acontecendo do outro lado. Mas se a bola vinha para o centro – do alto do morro pegava-se a grande roda de cal – gritos de gol desciam ladeira abaixo.

As fronteiras do Fluminense são a rua Guanabara, a rua Álvaro Chaves, os muros do Palácio, o morro. O Fluminense fica encerrado lá dentro. O Flamengo não tem limites. Pode entrar pela lagoa, cobrir a lagoa de terra, até a ilha defronte da garagem. É a praia, o morro da Viúva, a Gávea. O Fluminense é um pedaço de Laranjeiras. Sabe-se onde ele começa e onde ele acaba. Passa-se pela rua Guanabara, dobra-se a esquina, segue-se pela rua Álvaro Chaves, tudo é Fluminense. A grandeza do Fluminense, porém, não se mostra nas linhas de uma fachada, nos altos muros de um estádio. Só se mostra lá dentro. Entrando, a gente pode ver, pode sentir a grandeza do Fluminense.

Estádio das Laranjeiras
Hora boa para uma visita é a hora em que não há nada, de manhã cedo. As crianças brincam na pracinha que fica logo na entrada. Há rendas de sombra e luz no chão, a sombra das folhas, a luz ainda mansa do sol. As amas se sentam nos bancos de jardim, as crianças correm de um lado para o outro, e riem, e são felizes. Os degraus de cimento do estádio estão nus, ninguém bate bola no campo de grama bem aparada, a pista de carvão vazia, vazios os cortes de tênis, a piscina deserta, o deserto o ginásio. E assim mesmo, só com as crianças na pracinha calçada de areia e cascalho, o Fluminense não perde nada de sua grandeza. Pelo contrário. As crianças não atrapalham, e é melhor vê-lo assim, numa manhã de um dia como todos os dias, do que num dia de jogo.

Em um dia jogo a gente não vê o Fluminense direito. O estádio como que desaparece, tapado pela multidão. A multidão cobre tudo, não deixa ver nada. E todos os olhos se alongam para o campo, os jogadores atrás de uma bola, não se vê, não se pensa em outra coisa, só no jogo. O Fluminense é um time, onze jogadores, onze camisas, a alegria da vitória, a amargura da derrota. Mesmo depois do jogo ninguém se detém para ver o Fluminense. As ruas vazias se enchem, se esvaziam. E o Fluminense fica atrás dos muros altos das arquibancadas. Acabou o jogo, se o Fluminense venceu há alegria, se perdeu há tristeza em Álvaro Chaves. Em dia de jogo não se pode ter uma ideia do Fluminense, pode-se ter uma ideia do Flamengo. O Flamengo não fica no estádio quando o jogo acaba, sai, é a própria multidão que se perde em mil ruas, levando para cada canto a presença do Flamengo.

Fachada da sede do Fluminense
Às nove horas da manhã abre-se o escritório da administração do Fluminense. Há um “hall”, entra-se pela porta aberta, parece que se entrou num banco. As divisões de madeira se sucedem, baixas, deixando ver mesas enfileiradas, máquinas de escrever, datilógrafos tecleteando. Bem na frente a tesouraria, a caixa, depois a secretaria, o Departamento de Educação Física, a seção de contabilidade, o gabinete da superintendência, a sala dos diretores, o arquivo. O arquivo tem uma casa forte. É lá que o Fluminense guarda o seu primeiro livro de atas, os velhos documentos, papéis manchados com a ferrugem do tempo, como se fosse muito dinheiro, as joias da coroa. Para o Fluminense é mais do que muito dinheiro, do que as joias da coroa. É ele mesmo.

Os outros clubes não quiseram saber de guardar papeis, recortes de jornais, fotografias batidas com aquelas máquinas de pano preto enormes, que se levavam para os campos carregadas nas costas. O Fluminense guardou tudo, foi o único que guardou. Por isso, quando um clube quer saber de sua vida, quer reconstituir o seu passado, vai ao Fluminense. Abre-se a casa forte do arquivo, folheia-se um álbum grosso, pesado. Nunca se deixa de encontrar o que o outro clube procura. É diante dessa casa forte do arquivo, do que está lá dentro, que se experimenta a primeira sensação da grandeza do Fluminense. Parece que o Fluminense nasceu do arquivo. Aquele cuidado de guardar tudo, de não deixar passar nada, de classificar, de catalogar, de organizar, explica o Fluminense.

Depois de passar pelo arquivo, o visitante não se espanta de mais coisa alguma. Atravessa os corredores, parece que esperava ver nas paredes a sucessão de quadros dos times campeões do Fluminense. Não falta um, todos estão ali, é o campeão de 6 e de 7, de 9, de 11, de 17, 18 e 19, de 24, de 36, 37 e 38, de 40 e 41. Os quadros guiam o visitante. Levam-no do vestiário dos amadores ao vestiário dos profissionais. O visitante vê os gabinetes médicos, o “hall” dos bilhares, sobe, vê o bar-restaurante, a sala de troféus, a biblioteca, sobe ainda mais, chega ao salão nobre. Desce, vai para o estádio de degraus nus, sai do campo, tem o estadinho de tênis. Do estadinho de tênis ele descortina a paisagem do Fluminense, bem arrumada como um parque inglês, os cortes de tênis vermelhos, as alamedas verdes.

Estádio da Gávea, em 1940.
E há o edifício da piscina, o pavilhão do bar, feito um pagode chinês, o ginásio, onde se joga basquete, onde se dança, um palco no fundo. A impressão da grandeza do Fluminense cresce à medida que o visitante vai entrando. O Fluminense só pode ser visto por dentro. O Flamengo, não. Por dentro não é o Flamengo. Pelo menos a gente, dentro do Flamengo, perde a medida de sua grandeza, não a encontra. A sede é acanhada, fica espremida entre dois hotéis. A garagem da sede guarda apenas os barcos de passeio, as yoles das regatas na baía, em Santa Luzia ou na enseada de Botafogo. Não se vê um só out-rigger. Os out-riggers estão na Gávea. Na Gávea a garagem é um barracão, coberto de zinco, em forma de hangar. Há o campo largo, há um pedaço de arquibancada de trinta e três metros de altura. Foi o que se construiu do estádio.

A garagem não vai ficar ali, será muito mais adiante, onde está a ilha de areia. Quem vai à Gávea não sente a grandeza do Flamengo. E, muito menos, quem vai à praia e vê a sede, lá atrás, baixa, estreita, com um andar só. Sente-se a grandeza do Flamengo cá fora, nas ruas, nas paredes que viram placares de vitórias do rubro-negro. E nos estádios, do lado das arquibancadas, das gerais. A multidão grita Flamengo, e o grito da multidão dá uma ideia do que é o Flamengo, uma medida de sua grandeza.

O Flamengo não está na Gávea, na praia, no morro da Viúva, está em toda parte. É grande por fora. Nisto consiste a diferença entre ele e o Fluminense, que é grande por dentro.

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