quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Parabéns, Flamengo (4): O Brasileiro de 1987


No quarto artigo da série especial sobre o aniversário do Flamengo (15/11) e do centenário do primeiro jogo disputado pelo rubro-negro (1912), Literatura na Arquibancada destaca o lançamento de mais um livro importante para a literatura esportiva. Trata-se de “No campo e na moral – Flamengo campeão brasileiro de 1987”, que será lançado no dia 10 de dezembro, no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa. Mais uma obra minuciosa do jornalista e pesquisador Gustavo Roman, autor que recentemente lançou “Sarriá 82, o que faltou ao futebol-arte?”.

Desta vez, Roman mergulha fundo na história do quarto título brasileiro do Flamengo, justamente em um ano conturbado na política do futebol brasileiro. Ano da “famosa” Copa União, que de união não teve nada...e até recentemente sua taça foi fruto de disputas judiciais.

A camisa do goleiro Zé Carlos guardada por Nielsen.
Mas as discórdias políticas são apenas “pano de fundo” para Roman que resgatou de dentro das quatro linhas histórias saborosas como essa, na importante conquista do rubro-negro: “O Nielsen jogava em 77 no Flamengo (na reserva), com uma camisa alemã verde. Ele guardou a camisa e, 10 anos depois, sugeriu ao Zé Carlos que jogasse com ela. O Zé gostou da ideia, a diretoria aprovou, colocaram o escudo do clube, o patrocinador e foi com essa mesma camisa que ele foi campeão. E o Nielsen guarda a camisa até hoje”.

O livro editado pela iVentura, tem prefácio do craque Zico, quarta capa do jornalista Mauro Betting e orelha do também jornalista André Rocha, que você acompanha abaixo.

Prefácio
Por Zico

Nos últimos anos, nem me lembro mais quantas vezes falei sobre a conquista do Campeonato Brasileiro de 1987, a chamada Copa União, mas a primeira pergunta quase sempre envolvia as confusões daquele regulamento. E é exatamente por isso que fiquei animado com a proposta que recebi do Gustavo Roman: apresentar um livro que trata do título deixando de lado os bastidores e dá valor a quem esteve lá dentro do campo, suou, correu, viajou e levantou a taça.

As pessoas não sabem o quanto eu me esforcei em 1987 para entrar em campo e ter uma sequencia de jogos. Eu me recuperava de uma das cirurgias que fui obrigado a fazer em 86 por conseqüência da lesão no joelho que sofri contra o Bangu, em 1985. Foram três vezes com o joelho na “faca” naquela época. O maior problema eram as dores musculares e o inchaço que já sentia no intervalo dos jogos, que me perseguia no dia seguinte e tornava a preparação para cada partida uma luta constante para estar fisicamente em condições.

Meu retorno aos gramados foi contra o Fluminense, pela Taça Rio, exatamente no dia 21 de junho de 1987, antes de começar a Copa União. Fiz o único gol do jogo. E a partir dali fui ganhando confiança para entrar no Campeonato Brasileiro em condições de colaborar com aquele time, uma mistura bem temperada da nova geração do Flamengo composta pelo saudoso goleiro Zé Carlos, Aldair, Leonardo, Ailton, Zinho, Jorginho e Bebeto, com jogadores mais experientes como eu, Andrade, Leandro, Edinho e Renato Gaúcho. Muitos consideravam, por conta desse quinteto mais rodado, que o nosso time era “velho” demais para chegar ao título.

Além desse grupo de jogadores em que os mais novos quase todos passaram pela Seleção- alguns foram tetracampeões mundiais em 1994- nós tínhamos um treinador que conhecia profundamente o Flamengo. Usando como arma o diálogo, sabia fazer cada um nessa equipe render o melhor. No meio de tantas diferenças de características e de idades, Carlinhos, que quando jogava era conhecido como “Violino”, foi o comandante perfeito para dar nos dar equilíbrio.

Foram muitos os momentos marcantes para mim naquele campeonato. Os três gols que marquei contra o Santa Cruz são lembrados até hoje em diversas histórias que envolvem aquele jogo. Teve o gol de falta em que o goleiro não se mexeu, a comemoração que arrebentou meus pontos da cirurgia e me obrigou a abandonar o salto que dava na hora que balançava as redes. Passei apenas a levantar os braços na hora da corrida, já que esse pulo quase me custou a participação na semifinal, contra o Atlético-MG, na semana seguinte. E na batalha contra o Galo no jogo decisivo, aquele 3 a 2 do Mineirão do gol do Renato Gaúcho numa arrancada do meio do campo, tive que sair para dar lugar ao Henagio. Eram as dores que não me deixavam em paz.

Por sinal, nos últimos jogos do campeonato Flavio e Henagio se revezaram algumas vezes para me substituir. Na final, inclusive, deixei o campo para Flavio entrar sentindo muitas dores. Já sabia que teria que operar mais uma vez. E foi no vestiário, logo após o apito final que nos garantiu a taça com gol de Bebeto, que senti uma das maiores emoções da minha vida. Dava para sentir a explosão da torcida com a conquista, seguida por um coro de “Zico, Zico” que ecoava dentro do meu coração. Retornei ao campo coroado para vibrar ao lado dos meus companheiros, mas parecia que o Maracanã inteiro estava me passando energia. Era o ponto final de uma jornada vitoriosa a ser dividida com quem jogou, com quem esteve no banco de reservas, com toda a equipe de apoio e com um décimo segundo jogador que sempre está presente nas grandes conquistas rubro-negras: a torcida.

Contei só um pouquinho da minha história neste campeonato. Agora você vai poder relembrar como nasce a Copa União, o primeiro turno em detalhes e ainda muito mais histórias do quarto título nacional do Flamengo.

Boa leitura

4ª capa
Por Mauro Beting, jornalista esportivo há 22 anos, há 25 não entende a Copa União.

Haja bolas!

Zé Carlos. Jorginho. Leandro. Edinho. Leonardo. Andrade. Aílton. Zico. Renato Gaúcho. Bebeto. Zinho. Esse time não merece ser escalado entre vírgulas. Merecia mesmo um ponto de exclamação depois de cada nome - embora um ponto final caberia mesmo quando se discute quem foi o campeão brasileiro de 1987...

Há 25 anos, novos e velhos e velhacos dirigentes produziram uma das maiores excrescências esportivas da América. Latrina. Pegaram um futebol falido com dirigentes frágeis e criaram um negócio ótimo para alguns: a Copa União! (?). Torneio que arrepiou geral a lei daquele faroeste caboclo. E até as regras do jogo.

O Clube dos 13 começou como acabaria. Mal. Em 1987, conseguia representar 90% dos torcedores, mas parecia só querer 10% de tudo. Inovava na busca de recursos e ações, mas se perdia ao se achar no direito de estampar a marca da Coca-Cola no centro do gramado ou dentro da meta. Ignorando a regra do esporte, espertos e experts aceitaram imposições comerciais, abusando da prepotência mercantilista e elitista.

Era um inegável avanço contra o ranço e o retrocesso cartorial de cartolas e federações. Mas o Clube dos 13 não era o que parte da mídia parceira aplaudia cegamente os seus abusos e absurdos. Também não era formado por capetas como vendia a imprensa mordida por estar fora do banquete e dos batutas.

Na boa, e na pior, o Flamengo é o campeão de fato. O Sport, o de direito. Para facilitar, são dois campeões. Dois rubro-negros. Dois Zicos, até, em cada escalação.

Mas há um time que a bola reconhece como melhor. Aquele que, tecnicamente, não foi mais brilhante que o campeão brasileiro de 1982. Não fez campanha superior ao Atlético Mineiro de Telê. Mas que juntou nomes históricos que acabaram atropelando na conquista do tetra urubu - com a maior treta e rebu da bola brasileira.

Como definiu Carlos Aidar, então presidente do Clube dos 13 e do São Paulo, em 16 de dezembro de 1987: “Ninguém tira o tetra do Flamengo. É o legítimo campeão brasileiro”.
Ora, bolinhas! O mesmo cartola que, em 2011, junto com o então diretor Juvenal Juvêncio, esqueceu o que dissera e o que assinara em 1987. A dupla que foi pegar a famigerada Taça das Bolinhas da CEF. Outro troféu que poderia ser dividido. Ou multiplicado – replicado. Qualquer coisa. Menos a que foi feita.

Flamengo e Sport são campeões de um torneio que começou sem regulamento - que só foi definido com a bola rolando -, e que acabou desprezado por metade dos clubes (ou a totalidade deles, dependendo do ponto de vista).

Nunca o futebol esteve tão mal representado e conduzido. Não era brincadeira de mocinhos x bandidos. Era sério. E o primeiro time perdeu por W.O.

O ano de 1987 teve dois campeões e um futebol 100% desmoralizado. Mas, em campo, teve um Flamengo de exceção na chegada. Teve um rubro-negro campeão de fato.

Vamos aos fatos, com a pena equilibrada e apaixonada de Gustavo Roman. Um que reviu o que muitos não viram em 1987. Um que pode dar um ponto final em muitas interrogações daquele ano que insiste em não acabar.

Orelha
Por André Rocha

O gol do título brasileiro de 1987.
Regulamentos, módulos, campeão “de fato” e “de direito”, polêmica. Termos inevitáveis quando o assunto é a Copa União de 1987. Não há como negar que foi uma página negra do futebol brasileiro fora de campo, nos bastidores.

Mas dentro das quatro linhas tivemos um campeonato organizado pelo Clube dos Treze com 16 grandes clubes, bons jogos, rivalidade...e um grande campeão! O Flamengo hesitante do primeiro turno, mesmo com o técnico Carlinhos encontrando a formação ideal logo em sua estreia contra o arquirrival Vasco, ficou para trás e, com o retorno de Zico, arrancou no returno para a classificação.

Nas semifinais, o time que dosava juventude e experiência superou o favorito Atlético-MG em dois jogaços e transformou a “zebra” – como se um tricampeão nacional à época pudesse ser assim considerado – em favorito na decisão contra o Internacional para confirmar a conquista no Maracanã.

Não sem luta e sofrimento. Hoje, é dever reverenciar uma escalação com Zé Carlos; Jorginho, Leandro, Edinho e Leonardo; Andrade, Aílton e Zinho; Zico; Renato Gaúcho e Bebeto. Pelos currículos, talvez a melhor individualmente dos 117 anos do Flamengo – quem sabe da história dos Brasileiros. Ainda mais comandada por um dos treinadores mais vencedores do clube.

Mas a contextualização e a análise das partidas mostram um time que foi ganhando encaixe ao longo do torneio, superou problemas técnicos, táticos e físicos e abusou da experiência, do poder de decisão e, claro, da força da torcida para levantar a taça. Heróis que merecem reverência pela “lei da bola”, em que valem o talento e a fibra dentro de campo. Muito acima de documentos ditos “oficiais” em decisões firmadas na frieza de tribunais.

Uma história que merece ser contada e Gustavo Roman o faz com enorme riqueza de detalhes. Fruto da paixão pelo ofício, dedicação na pesquisa e um vasto acervo de jogos que funcionam como um verdadeiro “Túnel do Tempo”.

Fica o convite para esta viagem com o autêntico e único campeão brasileiro de 1987.

Sobre Gustavo Roman:
Gustavo Roman tem 36 anos, estuda jornalismo e é um dos maiores colecionadores de jogos de futebol do mundo. É também autor do livro “Sarriá 82, o que faltou ao futebol-arte?”, em parceria com Renato Zanata Arnos. Colabora com Mauro Beting em seus livros e blogs, já tendo participado de vários programas de TV e rádio, como o “Loucos por Futebol”, “Beting e Beting.” Sempre foi apaixonado por futebol. Administra dois blogs. O www.futebolpitacos.blogspot.com, onde fala de futebol atual e o www.futebolacervo.blogspot.com onde fala da história do futebol.

Um comentário:

  1. Sport, campeão brasileiro de 1987 reconhecido pela FIFA.
    Só a CBF corrupta que não reconhece. Divide o título para os dois clubes.

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