sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O Marechal da Vitória: Paulo Machado de Carvalho


Dia 9 de novembro, Paulo Machado de Carvalho, um dos maiores dirigentes esportivos do país e dono de um império das comunicações no Brasil, faz aniversário. Em 2015, completaria 114 anos. Ele morreu no dia 7 de março de 1992. Literatura na Arquibancada contará em alguns posts a trajetória do empresário de comunicação e dirigente esportivo.
Neste post, e nos links que podem ser acessados no final, recuperamos trechos da obra “Donos do Espetáculo – Histórias da Imprensa Esportiva do Brasil”, de André Ribeiro, Editora Terceiro Nome, 2007.

Para conhecer toda a vida de Paulo Machado de Carvalho, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura da biografia “O Marechal da Vitória”, escrita pela dupla Tom Cardoso e Roberto Rockmann (A Girafa, 2005).
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Paulo Machado de Carvalho e tinha 30 anos quando decidiu abandonar a carreira de advogado para aventurar-se nas ondas do rádio. Seu pai era Antonio Marcelino de Carvalho, negociante bem-sucedido que chegou à presidência da Associação Comercial de São Paulo. O novo empreendimento de Paulo Machado tinha tudo para dar errado.
Criada em 1928, em 1931 a Record estava em crise. Entrava no ar a cada três dias, e a saída encontrada por seu ex-proprietário, Álvaro Liberato de Macedo, foi vendê-la ao primeiro que aparecesse. Mesmo com as precárias instalações, Paulo Machado associou-se a seu cunhado, João Batista do Amaral, o Pipa; a Jorge Alves Lima, parente distante de sua esposa Maria Luiza; e ao técnico de som Leonardo Jones, para arrematar a Record por 25 contos de réis, uma fortuna para a época.

A sede da emissora ficava na Praça da República, 17, centro da capital paulista, e seu nome de batismo era Casa Record, especializada na venda de aparelhos de rádio. O cenário encontrado pelo novo proprietário era desolador, com cadeiras empoeiradas, estúdios escuros e apertados, que mal comportavam os enormes microfones da época.
Todavia, o talento do jovem empresário, uma estratégia inovadora de programação e muito suor, fizeram da Record, em pouco tempo, a primeira líder de audiência do rádio paulista: “o que mais me lembro é que ao entrar na Record vi um piano. Bati nas teclas, mas o piano não tinha som. Resolvi abrir para saber porque não funcionava. E não funcionava porque estava cheio de tampinhas e garrafas de cerveja, a bebida preferida do meu amigo maestro Sérgio Polera. A primeira impressão foi um pouco dura, mas depois fui me acostumando com aquilo. No início eu era telefonista, discotecário, arquivista, dava recibo, tirava fatura. Eu fazia de tudo, todos os dias, de domingo a domingo”.
Desde 11 de junho de 1931, quando entrou pela primeira vez no ar, a PRA-R começou a transmitir óperas ao vivo, aulas de ginástica, histórias para crianças narradas por Monteiro Lobato no programa Hora infantil, e, claro, futebol.
Paulo Machado era um apaixonado pelo esporte desde os tempos de garoto, quando, aos 11 anos, chegou a montar um time de futebol chamado América Futebol Clube. Conhecia todos os campos de várzea próximos à rua das Palmeiras, onde morava, na região central de São Paulo. Em sua nova emissora de rádio, o futebol tinha espaço fixo nas tardes de domingo.

José Augusto Siqueira, comandante técnico das transmissões, recebia telefonemas dos repórteres que acompanhavam os jogos nos estádios e os colocava no ar: na emissora, “não era nada mais do que uma série de telefones, daqueles de manivela em que se falava do campo. De lá se dava uma notícia. Siqueira pegava, escrevia num papel e o locutor dizia: ‘agora acabou-se de marcar um gol no Parque Antártica’”. Pode parecer simples hoje, mas na época, o primeiro plantão esportivo do rádio brasileiro, batizado de Esporte nas Antenas, foi uma revolução. Na Record, o futebol também era notícia todas as tardes da semana, no programa Record nos Esportes, com boletins produzidos em parceria com a equipe comandada por Thomaz Mazzoni no jornal A Gazeta Esportiva. Um ano depois de sua criação, a Record já era a maior rádio de São Paulo, considerada modelo pela qualidade de sua programação moderna e popular.
No início de suas atividades, Paulo Machado encontrava-se com freqüência com Assis Chateaubriand, que chegou a comandar na Record o primeiro jornal falado do rádio. Em pouco tempo, ambos se tornariam concorrentes, mas naquele momento, Chateaubriand estava preocupado apenas com o futuro de seus negócios no ramo de jornais impressos que se espalhavam por todo o país. Não é à toa que Chatô construiu um império das comunicações. Naquele distante ano de 1931, ao sair dos estúdios da Record, o empresário profetizou: “Olha, Paulo, isso que a gente está vendo aqui é o início de uma grande transformação que vai acontecer no mundo inteiro. Na minha opinião, no futuro, estas coisas vão progredir de tal maneira que vão surgir aparelhos de rádio pequeníssimos, como uma caixa de fósforos. As pessoas vão andar na rua com rádios junto aos ouvidos, ouvindo as notícias. Vamos chegar ao rádio de lapela. Os jornais impressos estarão sempre atrasados. Eu temo pelos jornais”.
Chateaubriand nunca esteve tão certo em suas previsões. Só não imaginava que o prejuízo com a venda de jornais aconteceria de imediato e por razão completamente diferente da influência do rádio. Em julho de 1932 estoura em São Paulo a Revolução Constitucionalista. A repressão do governo de Getúlio Vargas contra a imprensa é brutal. Chateaubriand via a venda de seus principais jornais e revistas despencarem. Só a revista O Cruzeiro baixou de 100 mil para menos de 20 mil os exemplares vendidos.
Cásper Líbero, dono de A Gazeta Esportiva, teve de partir para o exílio nos Estados Unidos e na França, durante dois anos, devido à invasão e destruição das instalações de seu jornal por simpatizantes de Vargas. Mário Cardim, já distante do futebol, mas participante ativo do movimento constitucionalista, também foi obrigado a deixar o país.

Enquanto os jornais sofriam, Paulo Machado de Carvalho faturava alto com a revolução. Só não encheu os cofres de dinheiro porque havia contraído muitas dívidas para fazer crescer sua rádio. Estrategicamente, os microfones da Record foram abertos para os líderes da revolução paulista. A emissora ganhou prestígio e popularidade e chegou a ser tratada pelo povo como A voz de São Paulo, porque entre discursos políticos inflamados apelava aos cidadãos para que não deixassem faltar cobertores e agasalhos para os que estavam nos campos de batalhas.
Com a cidade praticamente paralisada com o conflito, a imprensa esportiva não tinha o que noticiar. O Campeonato Paulista foi suspenso até o mês de novembro. Grandes estrelas do futebol paulista aderiram ao movimento. Friedenreich, do Clube Atlético Paulistano, doou todas as medalhas conquistadas ao aderir à campanha “Ouro para o bem do Brasil”, e ainda foi para a frente de batalha, como sargento, num batalhão de oitocentos esportistas. Algumas rádios de São Paulo chegaram a noticiar a morte do craque no front. Coube a Rádio Record, de Paulo Machado de Carvalho, desmentir tudo, informando que Fried continuava firme, integrando o “Batalhão esportivo”.

Sem jogos para narrar, o “speaker metralhadora”, Nicolau Tuma, contratado pela Record como a grande estrela do rádio esportivo, transformou-se na voz da Revolução Constitucionalista ao lado de outro destaque, César Ladeira, que mais tarde viria a se tornar um dos maiores galãs do rádio brasileiro, como rádio-ator da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.
Com o final do conflito, Tuma finalmente poderia soltar a voz novamente. O único problema é que a Record ainda não estava convencida de que valeria a pena transmitir jogos na íntegra. Mas a certeza da popularidade que o futebol e suas estrelas da narração esportiva começavam a despertar fez o empresário Paulo Machado mudar rapidamente de opinião.
Logo após a Revolução, paulistas e cariocas realizaram dois jogos, que de amistosos não tiveram nada. O primeiro, disputado no Rio de Janeiro, foi narrado por Amador Santos, da Rádio Clube do Brasil. Para não ficar fora da festa, Paulo Machado decidiu fazer uma parceria inédita com a rádio carioca: mandou instalar alto-falantes enormes em pleno centro da capital paulista para os torcedores poderem acompanhar a retransmissão pela Record. Ao perceberem que o locutor narrava com parcialidade e torcia escancaradamente a favor dos cariocas, os ouvintes começaram um quebra-quebra geral, e nem as caixas de som da Record escaparam da destruição. Mas o prejuízo não foi nada perto da audiência obtida – apesar da derrota dos paulistas.
De olho na audiência que o jogo de volta poderia ter em São Paulo, Paulo Machado não titubeou na decisão de transmitir na íntegra o encontro, mesmo sabendo não ter experiência alguma nesse tipo de evento. Chamou Nicolau Tuma e ordenou ao jovem narrador: “agora será a vez de puxar a sardinha para os nossos jogadores”. Tuma preferiu não escancarar tanto assim na narração, mas não deixou de anunciar, após a vitória dos paulistas por 2 a 1, no estádio do Floresta encharcado pelas chuvas, o jingle criado por ele mesmo em parceria com o compositor Roberto Splendore: “Com chuva, com sol, paulista é campeão de futebol”.
Criar jingles não era função do “speaker metralhadora”, mas sua criatividade e oportunismo fizeram dele um grande negociador. Na verdade, Tuma estava de olho na liberação da publicidade em rádio, instituída por decreto em março de 1932 pelo governo Vargas. A crescente popularização dessa mídia, aliada a essa nova permissão governamental, fez surgir as primeiras agências de publicidade. Três anos depois de narrar a primeira partida de futebol pelo rádio, Tuma montou sua própria agência, prática que se tornaria comum e polêmica no futuro.

Produzir jingles interessantes era apenas um dos apelos usados para atrair novos anunciantes. A guerra pela audiência estava declarada, e ganhar a imaginação do ouvinte era prioridade. A transmissão esportiva caía como uma luva nesse novo mercado. Um dos primeiros grandes anunciantes que Tuma e a Rádio Record arrastaram para as transmissões foi a empresa seguradora Eqüitativa. O grande apelo para atrair o patrocinador acontecia na segunda-feira seguinte às narrações das partidas, quando ficava muito mais fácil para os corretores da empresa seguradora venderem suas apólices lembrando aos consumidores que seu produto era o que patrocinava as transmissões de Tuma no futebol.
Tuma e Paulo Machado de Carvalho foram também pioneiros na forma de valorizar ainda mais os locutores e anunciantes. Como não havia área reservada para a imprensa nos estádios, Paulo Machado mandou fazer um pequeno cercado de madeira, onde eram afixadas placas com as logomarcas de sua rádio e do patrocinador, além de uma lousa, que era utilizada para anotar a contagem da partida. O círculo se fechava: nas ondas do rádio ou, no próprio local de jogo, patrocinadores teriam suas marcas vinculadas ao espetáculo que atraía verdadeiras multidões.

Continuação nos links abaixo:

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