sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Domingos da Guia: o Divino Mestre

O centenário foi 2012, mais exatamente, no dia 19 de novembro. Domingos da Guia, um dos maiores craques do futebol brasileiro. O “Divino Mestre”, apelido que o consagrou, partiu no dia 18 de maio de 2000. Domingos começou a carreira no Bangu, passou pelo Vasco da Gama, Nacional do Uruguai, Boca Juniors da Argentina, Flamengo e Corinthians. Domingos é o único tricampeão sul-americano jogando por três países diferentes.


Para conhecer a vida de Domingos da Guia, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura de sua biografia, escrita pelo jornalista inglês Aidan Hamilton, obra lançada em abril de 2005, pela Editora Gryphus. O livro tem 334 páginas e demorou cinco anos para ser concluído. É uma obra riquíssima em detalhes, repleta de depoimentos de diversos atletas que jogaram e conviveram com Domingos da Guia, além de vários jornalistas brasileiros, argentinos e uruguaios.


Domingos também fez história com a camisa da Seleção Brasileira, especialmente, na Copa de 1938, mundial que também o deixaria marcado para sempre, por conta de um pênalti que ele teria cometido no jogo decisivo contra os italianos. Por causa de seu famoso estilo clássico e elegante de jogar, ninguém acreditava que Domingos fosse capaz de cometer um pênalti tão infantil como o árbitro da partida marcou. Houve polêmica, reclamação dos dirigentes e torcedores. A seleção perdia o jogo por 1 a 0 para a Itália, em jogo válido pelas semifinais da Copa de 1938, quando, aos 17 minutos do segundo tempo, Piola, atacante italiano enrolou-se com o zagueiro brasileiro e caiu ocasionando o pênalti.


Apesar da polêmica, Domingos será sempre lembrado, não por este momento, mas pelo talento e categoria exibidos enquanto esteve em campo.

Abaixo, os vários “Domingos” que encantaram o mundo...


Domingos da Guia, por ele mesmo

Sobre ser um predestinado

Nasci assim. As forças maiores determinaram que haveria de ser um jogador de categoria. Modéstia à parte, realmente fui. Aos oito anos, quando jogava minhas peladas pelas ruas de Bangu, os jogadores que vinham dos treinos me viam jogando e apontavam: ‘Ih! Aquele garoto lá tem jeitinho pra bola. Olha lá que beleza!’ Aos oito anos, já tinha certa intimidade com o caroço, driblava e passava muito bem. Fui um predestinado.” (Jornal dos Sports, 06/01/1980)

Sobre a fase do amadorismo

No amadorismo, quando o jogador mudava de time era o fim do mundo. Ele passava a ser apontado na rua como um miserável traidor. E havia os exagerados, que cuspiam à sua passagem, num esgar medonho de nojo. Em suma: mudar de clube era uma coisa mais ignóbil que um adultério. Aquele que, por qualquer motivo, trocava de camisa, era chamado de ‘borboleta’. Mas esse nome bonito, lírico, não disfarçava a ofensa mortal. O craque chamado de ‘borboleta’ rugia de humilhação e de remorso. (Última Hora, 15/06/1957)

Sobre racismo

O jogador negro tem uma série de virtudes específicas. Em primeiro lugar, é preciso considerar o estímulo profundo de sua condição racial e em tudo mais, o preconceito de cor. Normalmente, esse preconceito pode ser disfarçado, atenuado. Mas basta que no decorrer de um ‘match’, ele incorra num ‘foul’ qualquer. Logo, o adversário e a torcida passarão a vê-lo, não como um ser humano, igual aos demais, mas como ‘o negro’, o ‘preto’ ou, ainda, o ‘moleque’. É comum ver alguém dizer, em relação ao craque de cor que, eventualmente, irrita a torcida: ‘Aquele moleque!’ Eu fui jogador durante vinte anos e me fartei de escutar coisas semelhantes referentes aos meus companheiros.

Ora, essas manifestações se, por um lado machucam, constituem, por outro lado, o incentivo de que falei. Ocorre, então, o seguinte: o jogador procura recuperar-se. Sente, por instinto, que tem meios no futebol de ascender social e humanamente. Experimenta o prazer, a volúpia de magnetizar a multidão com seu virtuosismo. Reparem: não lhe basta jogar bem. Ele quer mais, muito mais. Precisa burilar, enfeitar a jogada, dar na bola o toque ou o retoque que entusiasma a torcida. Basta ver Didi, com seu extremo virtuosismo. Se fosse branco não seria um estilista tão perfeito e tão minucioso. Outro: Leônidas, o ‘Diamante Negro’. A meu ver, sua imaginação é caracteristicamente racial. (Última Hora, 01/07/1957)

Sobre gostar de curtir a vida

Minha passagem por este mundo tem sido como o nome que meu pai e minha mãe me deram: uma sucessão de domingos, dia de futebol e de festa. Ganhei, na década de 30, o máximo que um jogador podia ganhar. Gastei muito também. Eu, por exemplo, adorava namorar e ir aos cassinos. (Folha de S. Paulo, 16/01/1994)

Sobre as dificuldades financeiras

Recebi, entre outras coisas, as seguintes: uma tinturaria, em 1940, à Rua do Lavradio; um armazém em Bangu, onde consegui comprar 25 casas; em São Paulo, um caminhão e um bar. As responsabilidades aumentaram, houve a inflação e, sem grande tino comercial, acabei perdendo tudo. Uma por uma, as casas foram sendo vendidas; apareceu quem quisesse a tinturaria; o caminhão começou a apresentar defeitos. Então, procurei emprego para viver. Hoje (junho de 1957), sou inspetor da Cervejaria Rio Claro, que produz a gostosa ‘Caracu’. Estou satisfeitíssimo e tenho todo o apoio dos meus chefes’.(Última Hora, 03/06/1957)

Ademir da Guia (na foto ao lado, observando o pai), filho de Domingos, complementa o final desta história:

Depois de ficar como técnico do Bangu (no mesmo ano de 1957) ele conseguiu um trabalho na Prefeitura com “Seu Talão Vale Um Milhão”. Você comprava qualquer coisa, pedia o recibinho e trocava esse talão para ganhar prêmios. Era uma coisa da Prefeitura para as pessoas pegarem o recibo das compras. Ele ficou até os 70 anos neste trabalho.

Domingos da Guia, por quem entendia do jogo

Luiz Mendes

Quais foram as lendas? Que ele tinha imã, que a bola vinha nele, que ele atraía. Em um jogo que ele fez nas Laranjeiras contra o Fluminense, em 1939, eu me lembro que Carreiro, que era o ponta-esquerda do Fluminense, quis passar por Domingos e deu um toquezinho por cima dele, mas Domingos era esperto e puxou a bola de volta pra ele com o calcanhar. E ao tomar o balãozinho, Domingos devolveu o balãozinho no mesmo lance, e ficou com a bola. O outro ficou lá atrás dele sem poder fazer nada. Ele fazia também uma jogada em que vinha de frente para o próprio goleiro e fingia que ia atrasar a bola, o atacante se mandava, passava por ele, daí Domingos puxava a bola para frente e saía jogando com um companheiro qualquer. A matada de bola dele, ela vinha pelo alto, ele parava ela lá em cima.

Ramos de Freitas (cronista uruguaio do jornalEl Día), após ver a vitória por 2 a 0 do Nacional sobre o Rampla Juniors.

Domingos é a perfeição apurada da defesa. É uma linha na qual se podem enfiar todas as pérolas de elogios que a palavra escrita tributa ao ‘football’ – e o idioma ainda é curto para isso. Por seu jogo tão regular, tão espetacular, tão matizado de frases lindas, tão brilhante. Domingos é de uma classe de homens que quando começa a partida, obriga a todos a tirar o chapéu e, quando a partida termina, o tipo tirou o paletó e...todas as peças de vestuário, que decorosamente se pode tirar, no calor do entusiasmo que o seu jogo produz a milhares de espectadores. Ele arranca a bola sem nenhum desses recursos violentos e depois de arrancá-la se dá ao luxo de fazer um passe de ‘ta-te-ti’, que dá prazer até a Torre da Homenagem (torre que existe no estádio do Nacional). Quando o vê, a Torre, que não pode aplaudi-lo, lhe sorri pelos quatorze olhos de suas janelinhas e parece que quer agitar suas asas de cimento para voar até o Paraíso dos Jogadores e gritar: ‘Vocês que foram craques venham ver!’ ...Na exaltação do meu entusiasmo, Domingos; eu que não sou fanático por ninguém, que sou um amante do bom ‘football’ te grito: ‘Tu mereces ser footballer uruguaio! Tira uma carta de cidadania!’.(Jornal dos Sports, 08/06/1933)

Paulo Amaral (ex-jogador e técnico)

Domingos não abria a boca para reclamar de ninguém. Ele apenas comunicava: “Não vai nesta”, “espera”, “agora vai nesta”, “pode deixar comigo”. Orientava. O ponta adversário vinha com a bola dominada, ele falava: “Não vai nessa, espera”...Nada de gritar. Calmo – muito tranqüilo. Não vibrava nem se alguém fizesse uma boa jogada ou quando o time fazia um gol, ele não dava pulos no ar, não levantava o braço, era muito calmo, muito tranqüilo.


Zizinho (ex-jogador do Flamengo e seleção brasileira)

Para sentirem o que representava o Da Guia no futebol brasileiro, quando Flávio Costa reunia os 33 jogadores convocados e dizia: ‘Aqui estão reunidos os melhores jogadores do país, portanto a fina flor do futebol brasileiro. Não existem titulares nem reservas’. Então, mandava o roupeiro distribuir as camisas. Geralmente eram azuis, brancas e verdes. Aí o Tim, o famoso ‘El Peon’, como o chamavam os argentinos, ‘A Raposa’ como excelente treinador que foi, o meu saudoso amigo me pegava e dizia: ‘Flávio pensa que sou trouxa, mas se você não estiver com a camisa da cor da do Da Guia não está na equipe titular. Se quiser ficar, mete os peitos e disputa a posição’. Portanto, a camisa do Da Guia nunca era disputada! (Zizinho, O Mestre Ziza, p. 59)

Ivan Sotter (autor da Enciclopédia do Futebol, sobre o termo “Domingada”)

Parecia que a mágica de Domingos era fácil de ser aprendida e executada, tal a sua simplicidade. Driblava na área e saía soberano. Havia jogadores que, antes de enfrentá-lo, iam logo entregando a bola. O problema era aqueles que tentavam imitá-lo. Tudo era tão simples, por que não tentar? Tentavam e se davam mal. Isso é que é uma ‘domingada’: o se dar mal tentando imitar Domingos. Só é chamada de ‘domingada’ quando a coisa não dá certo.

Fonte:
O divino mestre – biografia de Domingos da Guia (Editora Gryphus, 2005)

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