sábado, 3 de novembro de 2012

Filósofos Futebol Clube


Um time de craques da filosofia jogando tudo o que sabem. Não é delírio, mas uma obra de referência da literatura esportiva mundial criada pelo jornalista inglês Mark Perryman. Trata-se do livro “Filósofos Futebol Clube – 11 Grandes pensadores entram em campo”, publicado no Brasil, em 2004, pela Disal Editora, com tradução de Mário Vilela.

Literatura na Arquibancada agradece a gentileza do Sr. Ricardo, responsável na Disal pelo setor de “mídias digitais”, pela cessão e envio dos textos que abaixo divulgamos.

Orelhas da obra

Albert Camus
Filósofos Futebol Clube é um time que reúne 11 craques fenomenais, ao menos no papel (que é o que mais importa aqui). Eles têm orientação política e filosófica distinta e vêm de épocas e países diferentes. Uns são romancistas, outros, filósofos. Um é músico.

O goleiro vem da Argélia. Como diz dele o técnico, “a felicidade pessoal é que seria sempre sua meta. Habituado ao infortúnio, estava determinado a impedir a própria queda”. É Albert Camus, autor existencialista de A Queda e O Estrangeiro.

Os laterais são Simone De Beavoir, pela direita, e Ludwig Wittgenstein, pela esquerda: uma francesa, o outro, austríaco. Uma combinação bombástica.

O miolo de zaga une França e Inglaterra: Jean Baudrillard, um dos pioneiros do pós-modernismo, é zagueiro-central; William Shakespeare, o maior dramaturgo inglês de todos os tempos, aqui se arrisca na quarta-zaga.

Friedrich Nietzche
O meio-de-campo reúne força alemã, organização chinesa e marxismo italiano. Ou, em outras palavras, Friedrich Nietzche, Sun Tzu e Antonio Gramsci.

O ponta-direita nunca se preocupou em ter definição em campo. Um artista mordaz e irlandês, e ponto: Oscar Wilde. No centro, e sempre atento aos significados equivocados que as palavras podem ter, o centroavante italiano Umberto Eco. Fecha o time, sempre na ponta, o jamaicano cheio de ginga Bob Marley.

Este é o Filósofos Futebol Clube, time estruturado pelo inglês Mark Perryman. Filosofia e futebol sim, se misturam.

Mark Perryman fundou a grife esportiva Philosophy Football (www.philosophyfootball.com) em dezembro de 1994. A primeira camiseta foi dedicada a Albert Camus. Com o sucesso, rapidamente outros pensadores foram acrescentados ao plantel, e a Philosophy Football acabou se intitulando uma “confecção esportiva de distinção intelectual”. Ali nascia a ideia de escrever um livro que reunisse 11 craques bons de filosofia.

A Escalação

1 ALBERT CAMUS

3 JEAN BAUDRILLARD                   4 WILLIAM SHAKESPEARE

2 SIMONE DE BEAUVOIR             6 LUDWIG WITTGENSTEIN

5 FRIEDRICH  NIETZSCHE              8 SUN Tzu                           10 ANTONIO GRAMSCI

7 OSCAR WILDE               11 BOB MARLEY
           
             9 UMBERTO Eco


PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA
Juca Kfouri

Antonio Gramsci
Um time que começa com o goleiro argelino Albert Camus (“Devo ao futebol aquilo de que tenho mais certeza sobre a moralidade e a obrigação dos homens.”) e termina com o ponta-esquerda jamaicano Bob Marley – e que ainda tem o italiano Antonio Gramsci na meia-esquerda.

Um time que tem Shakeaspeare e Nietzsche, só para citar mais dois gênios que não se limitavam a ver a jogada, anteviam.

Só podia mesmo sair da cabeça de um inglês uma ideia tão profunda e bem-humorada.

Contar quem foram 11 dos principais pensadores da Humanidade por meio da linguagem do futebol, eis o segredo dessa grife Filósofos Futebol Clube.

Segredo digno de outro britânico, o escocês Bill Shankly, para quem era “claro que o futebol não é uma questão de vida ou de morte, é muito mais do que isso”.

Só mesmo quem não padece de nenhum complexo de inferioridade para festejar assim este fenômeno chamado de “o esporte das multidões”.

E ao terminar de ler o bem sacado livro de Mark Perryman foi imprescindível não lembrar de um episódio acontecido em 1970, durante a Copa do Mundo no México.

Primeiro anista de Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, nos velhos barracões da Cidade Universitária, sou surpreendido com a marcação de uma prova semestral de Sociologia no horário em que as seleções do Brasil e da Romênia jogariam a última partida da primeira fase – verdade que um jogo sem maior importância para Pelé e cia., já classificados depois de terem derrotado a Tchecoslováquia e a Inglaterra.

Mas, de todo modo, um jogo de Copa do Mundo!

Protestei imediatamente, diante da incredulidade de meus colegas.

Sim, naqueles dias de chumbo, em plena ditadura do general Garrastazu Médici, torcer pelo futebol brasileiro era equivalente, na USP, a ser visto ou como “desbundado” (melhor das hipóteses) ou como adepto do autoritarismo.

E eu não era nem uma coisa nem outra, era, aliás, militante da clandestina ALN.

Mas vigorava a seguinte máxima na esquerda: “Cada gol do Brasil atrasa em um ano a revolução brasileira”. Futebol era sinônimo de alienação, era o ópio do povo, o circo para quem não tinha pão.

Gabriel Cohn
Ao ser surpreendido com a informação de que “tem jogo do Brasil, professor!”, Gabriel Cohn, um dos melhores intelectuais deste país, reagiu com o bom senso que o caracteriza e propôs que a questão fosse resolvida democraticamente, no voto.

E naquela noite fiquei sabendo, para nunca mais esquecer, que minha classe tinha exatos 21 alunos. A votação resultou num aplastrante 20 a 1 pela manutenção da prova.

Derrotado, no fim da aula, timidamente comuniquei ao professor que não iria fazer a prova.

Generoso, Cohn concedeu que eu a fizesse dois dias depois, separado da turma.

Sou-lhe agradecido até hoje por ter podido ver, sem má consciência, a vitória brasileira (3 a 2), a terceira naquela Copa que culminou com o tricampeonato e com a vinda do Santo Graal (a taça Jules Rimet) em definitivo para o Brasil.

Passaram-se 13 anos.

Numa bela manhã de 1983, a ditadura indo embora lenta, segura e gradualmente, eis que, diretor da revista esportiva Placar, vou a uma reunião convocada por outro professor, do Instituto de Estudos Avançados da USP, José Sebastião Witter, então diretor do Arquivo do Estado, no governo Franco Montoro. Objetivo: produzir uma grande enciclopédia sobre o futebol brasileiro.

Eis que com a reunião em andamento, adentra exatamente quem?    

Para minha enorme surpresa, o mestre Gabriel Cohn!

Não consigo disfarçar o sentimento que me possuiu e saúdo-o mais ou menos assim:

“Professor, você por aqui?! Que surpresa mais gostosa!”.

E recebi um das maiores lições da minha vida.

Tomado de uma espécie de ira santa, o mestre, que é branco como uma folha de papel, cora o rosto e investe em minha direção:

“Você está surpreso porque é tão preconceituoso como aqueles seus colegas que, por um esquecimento meu, não me deixaram ver Brasil e Romênia. Eu sou tão corintiano como você e não acredito em sociólogo no Brasil que não tenha os fundilhos das calças puídos pelas arquibancadas”.

Evidentemente não entendi o pito nem muito menos entenderam os demais participantes do encontro. Ele, então, explicou que marcara uma prova sem se lembrar da tabela da Copa.

“Mas por que você me chamou de preconceituoso?”, perguntei.

“Porque passamos quatro anos juntos na faculdade e você nunca veio conversar comigo sobre futebol, como se tivesse uma certa vergonha.”

Era a pura verdade.

Imagino hoje com alegria, diante deste livro, que ditadura alguma seria capaz de produzir tamanha confusão num país como a Inglaterra.

Porque como diria o meia-esquerda do Cagliari, e da seleção da Itália, Antonio Gramsci, quem joga organicamente pela esquerda jamais virará as costas para o que está arraigado na cultura de um povo.

Anotações do técnico
Por Mark Perryman

Albert Camus, o goleiro.
Meditar sobre os infortúnios de outra decepcionante atuação do Tottenham em seu próprio estádio já basta para desnortear as faculdades críticas do mais teimoso torcedor. Foi essa a inspiração para escolher Albert Camus como primeira contratação do Filósofos Futebol Clube. Claro que (como tanto Jean Baudrillard quanto Umberto Eco gostariam de lembrar-me durante qualquer palestra de motivação ideológica pré-jogo) o fato de Albert ter sido mesmo jogador de futebol, além de filósofo, é praticamente irrelevante. O irreal e os simulacros são coqueluche entre os pontífices do pós-modernismo, e a fé na enganação parece ter seus crentes também no Tottenham.

Os técnicos britânicos Dave Sexton e John Beck (o qual, apropriadamente, comandava então o Cambridge United) estavam entre os primeiros que a própria revista Philosophy Now citou como exemplo de profissionais de elevado padrão intelectual. Já a revista de arte The Tate nos deu a informação espantosa (mas confiável) de que Jean Genet, Iacques Derrida e Louis
Althusser, esse trio de gauleses encrenqueiros, freqüentavam regularmente as gerais do estádio do PSG nos anos 1960, sem dúvida se juntando ao coro de observações sobre a genitora e a opção sexual do juiz. Dessas menções a grandes pensadores, nasceu a idéia de formar o Filósofos Futebol Clube. Nossa meta era descobrir o que, de fato ou de ficção, os maiores sábios do mundo pensariam do nobre esporte bretão. Por mais estranho que pareça, foi moleza formar um primeiro time de 11 aforistas, e, se nós conseguirmos chegar ao topo das listas de bestsellers, você logo descobrirá que há muito mais no lugar de onde saíram aqueles: Homero, Kierkegaard, Orwell, (Shere) Hite, (Germaine) Greer, McLuhan, Bunyan, Wordsworth, Cézanne e Shostakovitch estão todos no time reserva, e dados preliminares fazem pensar que todos eles, de diferentes maneiras, dão sinais de terem uma bela carreira pela frente.

Sun Tzu
Nossa escalação para o time titular começa com Albert Camus e termina com Bob Marley. O meio-campo, em especial, apresenta ampla gama de influências, combinando taoísmo, marxismo, positivismo lógico e liberação gay. As vitoriosas citações atribuídas a cada jogador são todas autênticas, embora as heróicas façanhas deles em campo pertençam a um universo alternativo (o seriado Arquivo X nem se compara a nós' quando se trata de chegar à verdade pelas fontes mais improváveis). O leitor que se sinta atraído por tudo o que vem da Antiguidade ficará desapontado, pois, excetuado Sun Tzu (o craque que trouxemos do Oriente), a escalação é decididamente moderna, aliás apresentando mais que simples laivos dos controversos pós-modernos. Não é que tenhamos algo contra os gregos, embora a melhor fase deles já tenha passado faz tempo e as bem estruturadas defesas de seu escrete exibam a alarmante tendência de ficar em ruínas. A verdade é que, com todos aqueles trágicos, sofistas e céticos (mais exasperantes lugares-comuns do tipo "O campeonato por pontos corridos é uma maratona, não uma corrida de cem metros rasos"), eles poderiam ser um verdadeiro presente de grego. Sócrates certamente nos tentou (afinal, vestiu a camisa da seleção canarinho em não poucas ocasiões), mas temos de ser racionais nessas coisas, e, quando se roda pelos clubes por mais de 2 mil anos, é impossível voltar a jogar a mesma bola de antes.

No entanto, os gregos de fato têm realmente algo a ensinar a todos os técnicos, jogadores e torcedores: o estoicismo, a capacidade de entender que é preciso bem pouco para passar do céu ao inferno, mas que, como dizia outro pensador, depois da tempestade vem a ambulância.

Bertrand Russell
Na origem da filosofia, está a tentativa de encontrar resposta para aquela pergunta que se faz sempre que um elemento desconhecido adentra os gramados: "Quem sois?" (ou "Esse aí veio de onde?"). Por isso, talvez não seja surpresa tão grande descobrir que, nas domingueiras, alguns dos melhores cérebros da História puseram de lado a pena, a máquina de escrever ou o processador de texto para acompanhar os resultados ao final da rodada. Bertrand Russell, o grande historiador da filosofia ocidental, era apenas mais um dos enfeitiçados por esses 22 sujeitos que chutam um objeto esférico de couro marrom. Russell explicou assim a metafísica aristotélica: "Os homens que jogam futebol ainda existiriam mesmo se nunca houvessem jogado futebol". Como se vê, uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

O futebol ajudou Bertrand e sua turma a se orientar num mundo de mudanças. Sendo assim, o que poderia ser mais apropriado do que retribuir o elogio dando a esse belo grupo de rapazes (sem esquecer a única moça) um currículo esportivo ligeiramente exagerado? Afinal, foram só aqueles pensamentos profundos o que os privou do treino e dedicação que certamente lhes teriam permitido realizar seu potencial futebolístico.

Nosso time peleja pelo futuro da civilização. Por conseguinte, dispensa os horríveis logos de patrocinadores, os abomináveis tecidos mistos e os desastres estilísticos da helanca, que já tiveram o mando de campo por tempo demais. O Filósofos Futebol Clube só entra para ganhar, em indumentária 100% algodão. São jogadores clássicos de distinção intelectual.

Esta é a história deles.

Sobre Mark Perryman:
É autor de uma série de livros, incluindo “Why The Olympics Aren't Good For Us” and “How They Can Be and Ingerland: Travels With a Football Nation”. É pesquisador das áreas de cultura, esporte e lazer na Universidade de Brighton. Escreve no The Guardian.

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