terça-feira, 13 de novembro de 2012

Esfinge: a 1ª obra ficcional a tratar do futebol


Ele é um mestre da literatura brasileira. Mauro Rosso é professor, pesquisador, ensaísta, escritor e autor de Lima Barreto versus Coelho Neto – Um Fla-Flu Literário (Difel, 2010). Está sempre “antenado” nas reflexões propostas pelo Literatura na Arquibancada. E lá de Petrópolis, onde mora, ele nos escreveu mais uma vez respondendo a pergunta: Qual foi a primeira obra ficcional da literatura brasileira a tratar sobre o tema futebol?

A resposta de mestre Mauro Rosso é essa, com direito a trecho da obra histórica:

Esfinge, publicado originalmente por Livraria Chardon, Lelo & Irmão, editores, Porto, constitui efetivamente a primeira obra ficcional brasileira a tratar do futebol portanto, inaugurando, formal e “oficialmente” a sempre presente [ainda que alguns não acreditem e argumentem sobre uma (pseudo) carência: eu sustento justamente o contrário...] “tabelinha” entre futebol e literatura brasileira.

Coelho Neto, principal literato brasileiro a se empenhar na difusão e propagação do futebol, no início (como todos, aliás) via nele apenas uma nova diversão, uma espécie de “passatempo de estrangeiros endinheirados...e excêntricos” —  haja vista a descrição e cenarização que faz do personagem inglês James Marian no romance Esfinge, publicado em  1908. 

(...)

Os hóspedes tratavam-se com intimidade, só o inglês do segundo andar, o apolíneo James Varian, retraía-se a todo o convívio, sempre sorumbático, calado, aparecendo raramente à mesa às horas das refeições, tomando-as só ou no quarto, quando não as fazia no jardim, a uma pequena mesa de ferro, à sombra das acácias, com champanhe a refrescar em um balde, ouvindo os passarinhos.

Aos domingos, cedo, todo de branco, saía com a raquete para o tênis ou com a bolsa em que levava a roupa para o foot-ball.

Era, em verdade, um formoso mancebo, alto e forte, aprumado como uma coluna.

Mas o que logo surpreendia, pelo contraste, nesse atleta magnífico, era o rosto de feminina e suave beleza. A fronte límpida, serena e como florida de ouro pelos anéis dos cabelos que por ela rolavam graciosamente, os olhos largos, de azul fino e triste, o nariz direito, a boca pequena, vermelha, pescoço roliço e alvo como um cipó, implantando a cabeça de Vênus sobre as espáduas robustíssimas de Marte.

(...)

Uma noite passeávamos na praia de Botafogo, Brandt e eu, quando o vimos passar em carro aberto.
— Lá vai o excêntrico — disse o músico atirando à rua a ponta do charuto. Comentamos aquela vida misteriosa e eu referi o caso da noite, “a vertigem” e Brandt, depois de ouvir-me em silêncio, disse:
— Para mim é um doente d'alma. Queria que o visses à noite, quando toco. O homem vem até à minha janela e ali fica horas e horas, ouvindo. Há certas músicas que o irritam, não sei porque. Mal as começo, vai-se nervoso, resmungando. Outras atraem-no como a Melodi-nocturne, de Meyer-Helmund, por exemplo — e não me causará surpresa vê-lo, uma noite, entrar no chalé, ouvir e retirar-se sem dizer palavra. Beethovem e Schumann exercem verdadeiro prestígio sobre ele. Se queres convencer-te vem ao chalé e verás. E o mais interessante é que Miss Fanny adora-o.


(...)

O jantar, nesse dia, apesar da redobrada atividade de Miss Barkley, que não descansou um segundo, aligeirando os criados, só foi servido às 7 horas, ao fulgos desusado de todos os bicos de gás. Na sala, a que a mesa, mais estendida e mais rica, dava solene aspecto, entre o brilho luminoso dos espelhos do bofete e dos trinchantes, por vezes, ao lufar da aragem que agitava as palmas das arécas e das lataneas, havia murmúrios leves de silvas.

Péricles, desolado, lamentava achar-se desprevenido de chapas, senão perpetuaria em um instantâneo a entrada de James.
— E se cantássemos o God save the king!? — lembrou Décio. Mas Penalva adiantou-se.
— Nada de troças com esse homem. É terrível!
— Quem? — perguntou Basílio em tom de desprezo.
— Quem? James Varian. Conhecem o Felix Alvear? É um colosso.
Todos concordaram.
— Um monstro! — acrescentou Décio, arregalando os olhos.
— Pois no domingo, depois do jogo, no Fluminense, só porque o Felix fez menção de beijá-lo, chamando-lhe Miss, ele meteu-lhe as mãos ao peito e, como o outro investisse, atirou-lhe um murro pondo-lhe a cara em sangue. O engraçado é que depois teve uma síncope.

Maricas!... achincalhou Basílio. É que não havia um que entendesse da coisa. Isso não vai a muque. Calça-se o freguês ou manda-se-lhe a cabeça aos queixos. É um instante, ele que se meta comigo.

Breve sinopse da obra (livro disponível na Editora virtual Infinitum):
Esfinge, de Coelho Neto, é um dos primeiros romances brasileiros de literatura fantástica e traz elementos de ficção científica, esoterismo, simbolismo oriental e da estética gótica, em contraste com o típico cenário boêmio da cidade do Rio de Janeiro do começo do século XX, povoado por personagens das mais diversas castas e estilos de vida. A história tem como pano de fundo o cotidiano da pensão de Miss Barkley, habitada por músicos, intelectuais e estudantes. A rotina é alterada com a chegada de James Marian, um hóspede inglês excêntrico e recluso. Pouco se sabe sobre ele, porém sua presença causa espanto e admiração de todos devido à sua aura de mistério e uma peculiaridade física ― ostenta o mais belo rosto feminino apoiado sobre um esbelto corpo masculino, sendo descrito como “a mais formosa cabeça de mulher sobre o tronco formidável de um Hércules de circo.”

Sobre Mauro Rosso:
Mauro Rosso é professor e pesquisador de literatura brasileira, ensaísta e escritor. Palestrante e conferencista em universidades e entidades culturais. Escreve textos, artigos e ensaios sobre literatura brasileira para revistas acadêmicas e sites de literatura. Desenvolve projetos e programas de pesquisa literária para entidades acadêmicas.

Sobre Coelho Neto, acessar:

Um comentário:

  1. Nossa!
    Como eu aprendo quando venho aqui...
    Ontem tive uma alegria e uma tristeza.
    Meu Mengo é Tri, mas perdemos o genial Nilton.
    La vida es así! Qué hacer...
    Beijo.
    Tô na espera,,, rsrs

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