quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Chico Anysio e o Futebol


Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho ou simplesmente Chico Anysio nos deixou há quatro anos, no dia 23 de março de 2012. Em 12 de abril de 2016, estaria completando 85 anos. Do humorista ou comediante, todos sabem, mas mesmo no período pós-morte, pouco se falou do Chico apaixonado pelo futebol. Sim, e não é uma paixão qualquer, pois segundo o próprio Chico, a carreira consagrada em seus 80 anos de vida devia-se ao futebol. Você vai entender a razão nos trechos apresentados abaixo pelo Literatura na Arquibancada, extraídos de seu livro autobiográfico “Sou Francisco”, publicado pela editora Rocco, em 1992.

Um livro que merece ser lido de cabo a rabo, não apenas pelas experiências de Chico com o universo do futebol – como ele mesmo diz na obra, o melhor Chico Anysio Show foi feito numa gravação com o Santos de Pelé – mas por toda a trajetória do profissional que se considerava um ator e não um simples “comediante” ou “humorista”. Uma história imperdível que deveria ser reeditada o mais breve possível com todas as atualizações necessárias.

Sou Francisco
Por Chico Anysio

Eu sempre digo que sou ator porque esqueci o tênis. Isto pode não ser uma verdade absoluta, mas é relativamente uma verdade. Hermann Hesse defende, em um dos seus livros, a irrelevância do acaso, atribuindo a tudo de fortuito que acontece na vida uma desimportância que sempre me causou, se não um choque, uma pequena decepção.

Primeiro, porque Hesse sempre foi, para mim, um ótimo escritor e, em segundo lugar, porque defendo um ponto de vista absolutamente contrário. Acho que o que de mais importante a vida nos proporciona – depois da felicidade ímpar de acordar a cada dia – é justamente o acaso.

Por acaso eu sou ator. Talvez eu não seja o ator que imagino (levando-se em conta o que todos imaginam ser um ator), mas ator, porque dois terços da minha vida eu dediquei a este trabalho onde um cara faz o papel de médico ou palhaço, de chofer ou milionário, de mendigo ou pastor de almas, seja lá que personagem for. E isso é o que eu faço. A minha dúvida de ser ou não ser ator é produzida pelo descrédito dos críticos do meu país, que sempre preferiram me chamar de humorista ou de comediante, como se seu – pobre de mim! – não passasse de um Bernard Shaw, no primeiro caso ou, na melhor das hipóteses, de um Buster Keaton, no segundo.

(...)

Sempre gostei de futebol. Fui levado a gostar, porque meu pai era presidente do Ceará Sporting e muitas vezes fui aos treinos do Ceará com meu pai, e aos jogos também. O futebol fazia parte do meu dia-a-dia. Por isso eu sabia que o ataque do Botafogo era Álvaro, Paschoal, Carvalho Leite, Perácio e Patesko. Meu pai era botafoguense, como também o Elano, porque o Botafogo tinha as cores do Ceará. Mas eu era do contra. No Ceará eu torcia pelo Ferroviário e, no Rio, fiquei vascaíno. Só para chatear. Um vascaíno inacreditável, porque além da botafoguisse da família, o primeiro lugar onde eu morei no Rio foi numa pensão na rua das Laranjeiras (onde hoje é uma clínica médica), pertinho do campo do Fluminense, de onde fui sócio-dependente, sócio-atleta, joguei futebol, nadei, quebrei três vezes cada braço, fiz amigos que mantenho até hoje a começar dos tempos do cachorro-quente dançante, no bar da piscina, atravessando os bailes de carnaval, incluindo o baile da Atlantic. O Fluminense (o clube) é uma das coisas mais marcantes da minha vida. De tal modo que é quase um absurdo eu torcer contra ele. Vou corrigir enquanto é tempo: eu não consigo torcer contra o Fluminense. O máximo que atinjo é não torcer a favor.

(...)

Bigode
Como todo menino, eu pensava em ser jogador de futebol. Bolas. Se no tempo de Fortaleza, quando meu pai tinha a empresa, meu sonho fora ser trocador de ônibus, que havia de mau no sonho de ser jogador de futebol? Esse desejo cresceu, muito, quando vi o primeiro treino do Bigode, no Fluminense. Lembro que tirei uma fotografia com ele, ao lado de toda a meninada do clube que estava assistindo. Fiquei muito emocionado quando fui à loja do Bigode, anos depois, perto do Largo do Machado e, ao contar que assistira ao seu primeiro treino, ele me disse: “Eu sei. Olhe a fotografia aqui”.

E me mostrou a foto onde eu aparecia, com 15 anos, ao lado dele, ainda com a touca do Atlético Mineiro. Faz tempo que não vejo o Bigode, mas ele sempre foi um dos meus ídolos. Eu queria ser jogador de futebol. Embora pudesse desejar ser um Ademir, ou Danilo, ou Zizinho, eu queria ser um Jair. Jair da Rosa Pinto. Era esse que eu dizia que era quando jogava. Nunca brilhei no futebol, mas nunca fui dos últimos a ser escolhido no par ou ímpar. Dependendo do time eu era, até, meio indispensável. Tanto que a turma tinha um jogo combinado e eu fui intimado a comparecer. Jogo contra, no campo do Fluminense, que naquele tempo alugava o campo para jogos assim. A imposição era que os times jogassem descalços, para não estragar a grama.

– O jogo é no Fluminense, às três horas – avisaram.
Às duas eu estava no poste da esquina, esperando o pessoal. Não me lembro quem foi, mas um colega chegou e me disse que houvera uma mudança. O jogo seria no campo do Aliança, no fim da Rua General Glicério. O campo do Aliança era de terra e não dava para jogar descalço.
– Cadê o seu tênis?
– Eu não trouxe. Me disseram que o jogo era no Fluminense. Mas não faz mal. Vá indo com o pessoal, que eu vou em casa pegar o tênis e vou direto para lá.

Ao chegar em casa minha irmã Lupe estava de saída com um amigo dela para fazer um teste na Rádio Guanabara e eu disse:
- Eu vou também. Vamos só passar no campo para avisar ao pessoal que não vou poder jogar.
Fiz dois testes e passei nos dois: rádio-ator e locutor. Por isso eu digo que sou ator porque esqueci o tênis.

(...)

A rádio Guanabara contratou o Raul Longras (o homem do gooooolll eletrizante) e passou a fazer o futebol. Longras morava na rua Taylor e, até então, trabalhava na Rádio Clube do Brasil. A rua Taylor fica ali na Lapa, pertinho da Conde Lage, segundo ponto de puteiros da época, muito frequentado por mim. Ou o Longras foi com a minha cara ou deve ter-me reconhecido da sua jurisdição, não sei. O negócio é que ele salvou minha situação, com o dinheirinho a mais que me conseguiu. Eu fiquei sendo seu “locutor atrás do gol”. Eu era o “tem razão” que até hoje existe.

– ...raspando o poste! Ô Fulano.
– Tem razão, Longras. A bola passou raspando.

Minha voz era boa, minha cultura aceitável e meu conhecimento de futebol surpreendente. Penso que não há nada de que eu entenda mais do que futebol. Mesmo hoje, vez por outra causo surpresa com este conhecimento. Há alguns meses participei do mais importante programa de rádio do Rio Grande do Sul, Sala de Redação, com gente entendida do assunto, como o Paulo Santana, o Kenny, Lauro Quadros e outros, e todos ficaram surpresos, porque eu expliquei como seria um jogo Palmeiras e Internacional na véspera. Pô. Nasci dentro do futebol.
– Você vai trabalhar comigo.
O Longras não estava me convidando, mas praticamente intimando. Mais do que ótimo. Fiquei no segundo jogo. Não existia Maracanã. O Longras transmitia o jogo principal e eu ficava no outro campo dando as notícias.
– Alô, Longras !
– Fala, Anysio.
– Em General Severiano, primeiro gol do Botafogo. Otávio.
– Obrigado, Anysio.

Foi um enorme prazer, esse trabalho. Meu grande medo era um dia acontecer um problema com o som do Longras e eu ser obrigado a irradiar o jogo a que assistia. Seria impossível. Desde menino me acostumei a ver o jogo de longe. Vou explicar. Há três modos de se ver o jogo: junto com a bola, acompanhando-a – como os locutores; dentro do jogo, com o coração em cima da bola, como os torcedores; de longe, num plano afastado, numa tomada de grande-angular, vendo o campo inteiro, como os comentaristas. Sempre vi o jogo num longshot. Por esta razão não grito nos gols. Vejo o jogo sempre como comentarista, observando muito mais o que deveria ter sido feito e não foi do que o que foi feito. Senti que estava certo no dia em que Didi, num bate-papo de rua, me disse:

– Eu sou capaz de jogar a vida inteira sem errar um passe. Dar o passe certo não tem a menor importância. Importante é dar o melhor passe certo.

Mais do que o dinheiro que o Longras me possibilitou ganhar, ficou na minha lembrança a felicidade de ter visto pessoalmente algumas coisas lindas, como a estreia do Heleno no Vasco, em São Januário, quando o Vasco derrotou o São Cristóvão por onze a zero. E na semana seguinte, em Caio Martins, eu estava no campo quando o Vasco venceu por quatorze a um o Canto do Rio. Vi o Vasco bater de sete no Bangu, no velho campo da rua Ferrer. Foram meses inesquecíveis.
– Alô, Longras!
– Fala, Anysio.
– Em São Januário, sexto gol do Vasco; Heleno de Freitas.

Vasco, campeão de 1949.
Nunca falei tanto no rádio quanto nesses meses em que nada mais fazia que anunciar gols e mais gols do Vasco, campeão invicto, porque isso aconteceu quando já era 1949.
Meu Deus! Quanta coisa já aconteceu comigo. E quanta coisa ainda vai acontecer.
– Alô, Longras!
– Fala, Anysio.
– Décimo gol do Vasco...Lima.

Eu era vascaíno, o Longras sabia. Ele torcia pelo América, mas não se incomodava. Aliás, o próprio América nunca foi de incomodar a ninguém. Para tanto, invoco o testemunho de um dos meus ídolos, o Max Nunes, americano como também já fui e autor de uma frase antológica:
– O América é o segundo time de todos. Até do juiz.

(...)

O melhor Chico Anysio Show que fiz em toda a minha vida: na concentração do Santos. Eu tinha o melhor relacionamento possível com a direção do Santos. Apesar de saberem que eu sou torcedor do Palmeiras, cheguei a ser convidado para ser diretor do Santos. Não aceitei não sei por quê. Acho que o simples convite já me deixara orgulhoso o suficiente. O Santos sempre foi um clube muito simpático para mim e o Pelé um amigo querido. Ele salvou a gravação. Eu conto.

O Santos jogaria na quarta-feira à noite contra o Botafogo de Ribeirão Preto e o Lula marcou a nossa gravação para terça-feira de manhã. Na terça às oito e meia o caminhão de externas parou em frente ao estádio. Não havia ninguém além do porteiro.
– E os jogadores?
– Ah, como o jogo de amanhã é fácil, seu Lula suspendeu a concentração.
Pronto. Ali estavam o caminhão, o elenco, os técnicos, tudo pronto para a gravação, menos os jogadores. Corri à casa do Pelé. Dona Celeste me atendeu.
– O Dico está dormindo, mas sendo você, ele não se aborrece. Vai lá e acorda ele.
Pelé é exatamente o décuplo do que o Maradona desejaria ser. Levantou da cama num pulo quando soube da minha situação.
– Vai pro estádio e arruma tudo que eu sei onde todo mundo mora. Vou mandar todos eles lá pro campo.

Às nove horas começaram a chegar os monstros que formavam aquele timaço. Dorval, Mengálvio, Orlando, Zito, Coutinho, Pepe. Como havia uma cena com cada jogador, Daniel organizou a gravação de acordo com a chegada deles. Ao meio-dia chegou o Pelé.
– Mandei meu carro pra São Paulo buscar o Gilmar e o Mauro, que moram lá. Tenho uns negócios pra resolver e...a que horas eu posso chegar?
– Na hora que puder – respondeu o Daniel. – Deixamos sua cena para o fim.
– Antes das quatro ele chegava e pouco depois o carro dele trazia o Mauro e o Gilmar. Foi uma gravação incrível. Aquele time, além de jogar como ninguém, também sabia representar.

Todas as cenas ficaram ótimas. Pelé gravou com o Clarivaldo. (Clarivaldo era um personagem que falava aos berros – “Não sei se estou sendo claro”, ele dizia) Era o sequestro do Pelé, a cena. Fiz o que era possível para que desse uma risada, porque tudo se representava enquanto ele dormia. Ele nem balançou a pestana. A gravação terminou quase meia-noite, com um bate-bola entre mim e o Pelé, no gramado de Vila Belmiro. Eu com a camisa dez do Palmeiras. No final eles me levantavam para me jogar longe. A imagem parou comigo no alto.
– Sabem por que isso? – perguntei. – Isso é o Santos reconhecendo a superioridade do Palmeiras.

Eles então me atiraram na piscina com roupa e tudo. Nunca pagarei ao Pelé esta gentileza. Nem a outra de um jogo Botafogo de Ribeirão Preto e Santos, quando eu era comentarista esportivo do Geraldo José de Almeida. Conto.

Faríamos dois jogos no mesmo dia: à tarde Palmeiras e XV de Piracicaba, inaugurando o Estádio Municipal de Piracicaba e, à noite, Botafogo e Santos em Ribeirão Preto. De Piracicaba a Ribeirão é uma puxada. Nosso carro chegou ao estadinho do Botafogo às oito da noite mas o caminhão com as câmeras não chegava. Às nove horas o caminhão chegou e o jogo estava marcado para as nove e quinze. Nelson Spinelli, o locutor, foi ao vestiário do Botafogo pedir ao técnico Alfredinho que atrasasse um pouco a entrada do time em campo, para dar tempo de ligar e aquecer o equipamento. Fui ao vestiário do Santos e pedi ao Pelé que fizesse o mesmo. O Lula, treinador da equipe, deu a solução:

– O campo está cheio e nós não podemos dar à torcida nenhum motivo para bronquear conosco. Nós entraremos um minuto depois da entrada do Botafogo.
O Botafogo entrou às nove e vinte e cinco e o Santos às nove e vinte e seis. Perdemos os primeiros dez minutos do jogo, mas só depois que a lâmpada piloto foi acesa o Pelé começou a jogar. Nos primeiros dez minutos o Santos não viu a bola. Depois que a luzinha acendeu Pelé se ligou e o Santos meteu sete a um. É outra que também não pagarei nunca ao Pelé. Aliás há centenas que todos nós brasileiros nunca pagaremos a Ele.

Para saber mais sobre Chico Anysio, acessar: http://redeglobo.globo.com/platb/chicoanysio/

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