sexta-feira, 30 de novembro de 2012

As memórias de Vampeta

Um livro que vai dar o que falar. “Vampeta – Memórias do velho Vamp” (sem cortes)(Editora Leya) é divertidíssimo, como o ex-jogador que rodou o Brasil e o mundo colecionando histórias. Todas elas lapidadas pelo craque do jornalismo Celso Unzelte.

Sinopse (da Editora)

“A editora LeYa lança em dezembro “Vampeta – Memórias do Velho Vamp”, depoimento do ex-jogador Vampeta ao jornalista Celso Unzelte, um livro não apenas para os fanáticos por futebol, mas para os fãs da alegria de viver.

Vampeta, um dos mais polêmicos atletas do futebol brasileiro, abre seu baú de histórias ao jornalista Celso Unzelte - de polêmicas a causos engraçados, este livro vai dar o que falar.

Terror dos adversários dentro de campo (e dos pais de mulheres fora dele), Vampeta está todo aqui. O livro só não saiu antes porque eu, enquanto tentava transcrever alguns dos depoimentos dados por ele, não conseguia parar de rir. O mesmo deverá acontecer com vocês na hora que começarem a ler. – Celso Unzelte

Pra mim, a vida é o seguinte: eu não sei o que vai acontecer amanhã, então procuro viver o dia de hoje sem fazer besteira para que não falte o de amanhã. A gente tem que estar sempre sorrindo. – Vampeta”.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo alguns trechos da obra:

Sobre as origens em Nazaré da Farinha:

(...)
“Eu ganhei muito dinheiro com bola, vivo muito bem. Realizei aquele sonho de ter carro importado, mulheres bonitas, ser uma pessoa pública, jogar na Seleção, em grandes clubes. Peguei as melhores mulheres que se pode pegar, tive dinheiro no bolso, altos salários. Mas eu não trocaria nada disso se pudesse voltar para aquela minha infância de Nazaré. Se o tempo pudesse estacionar nos meus quatorze, quinze anos, eu não mudaria nada. Era mais feliz quando tomava banho de rio (lá em Nazaré tem muito rio)” (...)


Sobre o apelido curioso:

(...)

“Vam...Peta...

O mundo é foda. Eu cheguei em 88 no Vitória e seis anos depois, em 94, já estava indo para o futebol holandês, pro PSV Eindhoven. Onde tudo é “van”, né? Van der Saar, van Bommel... Não tem o Marco van Basten? Então, eu quis acompanhar e virei o Marcos Vam... Peta!!!

Por causa disso, o Valencia, da Espanha, até quis me contratar, depois que já tinha um tempo que eu estava jogando na Holanda. Já estavam pra fechar o contrato quando viram que eu, apesar do nome começando com “van”, não era holandês, não: era brasileiro. Aí, desfizeram o negócio e acabaram comprando o Angloma, um lateral direito da seleção francesa que era da Inter de Milão. Cheguei na Holanda no tempo em que jogador, antes de ir pra Europa, tinha que começar no eixo Rio-São Paulo. Jogava primeiro no Corinthians, Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Santos, Palmeiras ou São Paulo, pra só depois poder chegar na Europa. Eu não: fui direto do Vitória pro PSV. Na Bahia, morava no alojamento do clube e pra treinar botava uma bermuda, um tênis, uma camiseta, por causa do calor.

Na Holanda, primeiro mundo, era tudo diferente. Os caras iam treinar de terno e gravata. No Brasil eu já era escolado, com dezoito anos tinha disputado dois Brasileiros. A gente já tinha ido a São Paulo, Rio, conhecido o Brasil todo. Mas eu nunca tinha ido pra Europa. Antes de chegar na Holanda, fui no máximo ao Equador e ao Peru, com o Vitória, fazendo excursão. Fui também ao Senegal, na África, em uma excursão do tipo “Itamar Franco”. É que o Palmeiras, campeão brasileiro, não quis ir e falou: “Vai o vice”.

Pra nós, do Vitória, era festa ir pra África. Fui aprendendo holandês. À noite, no hotel, queria jantar, apontava no cardápio e vinha o que eu comi ao meio-dia: pão, tomate, cebola, abacate. Puta que pariu! Não sabia falar nem inglês nem holandês. Eu, burro, em vez de marcar o que tinha pedido pra não pedir de novo, no dia seguinte acabava repetindo o mesmo pedido. Cheio de fome, não saía do hotel, não conhecia nada. Acostumado a comer moqueca de peixe, rabada, feijoada, galinhada, essas comidas pesadas, eu perguntava pro padre que me ensinava holandês: “Como é que eu faço pra comer uma carne, um frango?” Pedia pra ele chegar lá no cardápio, escrever num papel e deixar o papel comigo. Ele até escrevia, mas só que quando ia embora esquecia de me dar o papel, acabava levando junto com ele (o padre já tinha setenta e poucos anos). Aí, eu chegava lá no hotel, pegava um papel, desenhava um frango, desenhava um boi, desenhava um montinho de arroz. O cara ria e aí trazia um bife com arroz. Falei: porra, vou comer pizza. Pizza é igual no mundo todo. Fiquei quase um mês comendo pizza, até falar holandês e morar num apartamento”. (...)

Sobre o polêmico jogo entre Corinthians e Palmeiras que acabou em briga:

(...)

“A história fala que o grande rival do Corinthians é o Palmeiras. Eu, em 98, 99, pode ter certeza que tinha muita raiva do Palmeiras, que era um time do caralho, pra ganhar deles era foda. Eu perdi duas Libertadores pro Palmeiras e um Brasileiro pro Santos. O que me conforta, além da rivalidade, é que eu perdi pro Marcos, pro César Sampaio, pro Zinho, pro Alex, pro Evair, pro Arce, pro Júnior, lateral esquerdo, pro Júnior Baiano, pro Roque Júnior, pro Rogério, pro Oséas, pro Felipão... Você olha e diz assim: caralho, olha o time dos caras! É todo mundo da Seleção Brasileira. Tinha até mais qualidade que o Corinthians. Só que também no meio-campo eu, Rincón, Ricardinho e Marcelinho fazíamos chover. Com o Edílson e o Luizão na frente, Dida no gol...

Então, são jogos memoráveis em que o Palmeiras ganhava uma, a gente ganhava a outra. Em 99, na final do Paulista, eu e o Edílson tivemos um problema sério com o Felipão, que treinava o Palmeiras. O Palmeiras ganhou a Libertadores eliminando a gente, tirou a gente nos pênaltis, nas quartas de final. Só que na semana seguinte era o Campeonato Paulista, a final também, contra o Palmeiras. Eles entraram em campo com cabelo pintado de amarelo, rosa... No primeiro jogo, eu dou um carrinho no Tadei, o juiz não dá falta, eu levanto a bola, meto no Marcelinho, o Marcelinho cruza e o Edílson faz 1 a 0. Depois, Corinthians 2 a 0, Corinthians 3 a 0. A gente tinha perdido a Libertadores pros caras, estava engasgado. Aí eu tô saindo de campo, Felipão vem atrás de mim, me dá um tapa nas costas e fala:
— O que é teu tá guardado, tchê!
Olhei pra ele e falei:
— Ó, vai tomar no teu cu. E manda teu time treinar pra caralho, que agora, pra ser campeão paulista, vocês vão ter que ganhar de quatro.

Naquela mesma semana, o Felipão começou a falar que ninguém dava uma “chegada” no Edílson, que o Vampeta faz o que quer dentro de campo. Alguém gravou isso e botou na mídia, aí deu uma repercussão da porra. Eu e Edílson, a gente combinou de sacanear o Palmeiras. Afinal, eles tinham que ganhar de quatro pra ser campeão.

Foi aí que Edílson disse:
— Ó, então eu vou atravessar o campo fazendo embaixadinha.
O Dinei falou:
— Não, mete o lenço da Feiticeira ou o chicote da Tiazinha (duas mulheres gostosas que estavam fazendo muito sucesso na TV naquela época).
Mas o Edílson insistiu:
— Não, não... Eu vou atravessar o campo fazendo embaixada, mesmo.
Quer dizer: foi tudo combinado. Depois que empatamos por 2 a 2, com o título garantido, o Edílson fez as embaixadas. Aí o pau fechou e o Felipão guardou aquilo até nos convocar pra Copa do Mundo, em 2002”. (...)

Sobre os bastidores do título mundial interclubes, em 2000:

Vampeta e Rincón
(...)

“O Edílson e o Marcelinho, por exemplo, chegaram a brigar dentro do vestiário, com faca e tudo. Aquelas facas que não cortam ninguém, só laranja, mas brigaram. Briga por vaidade. Era difícil. O Rincón, também, já não gostava do Edílson acho que desde a época do Palmeiras, não sei. Tiveram umas confusões lá, mas a gente chegava dentro de campo e ganhava. O importante era chegar dentro de campo e ganhar.

Na Libertadores de 2009, a gente ia jogar com o The Strongest, da Bolívia, lá em Cochabamba. Ficamos um monte de semana treinando em Atibaia. Uma semana antes do jogo, o Marcelinho vai no meu quarto e diz:
— Vampeta, vamos tirar o Rincón do time. Ele atrasa muito o jogo, abre aquelas asas dele, não quer tocar a bola pra ninguém...
Eu falei:
— Você é louco? O cara joga pra caralho...
No meu quarto o Marcelinho não arrumou nada. Aí, ele foi no quarto do Edílson:
— Edílson, vamos tirar o “negão” do time? O “negão” é foda.
Você é amigo do Amaral, vamos botar o Amaral pra jogar. Ele vai marcar mais, vai roubar mais bola pra gente. O Rincón pisa na bola, a gente tá ganhando de 2 a 0 e ele fica segurando o jogo.

Rincón, Edílson e Marcelinho.
O Edílson falou:
— Aqui você não vai arrumar nada. Eu não gosto do “negão”, mas ele joga pra caralho!
Depois disso, eu estou dormindo. Não vou pro café da manhã, só pro almoço. Termino de almoçar e o Rincón fala:
— Quero uma reunião no meu quarto, todo mundo. Depois do almoço, todo mundo no meu quarto.
Os caras, então, protestaram. “Não, depois do almoço não, pô! Antes do treino da tarde, três e meia. O treino é quatro, três e meia a gente passa lá...”
O Rincón concordou: — Tá bom. Três e meia todo mundo no meu quarto e treino quatro horas. É meia horinha, rapidinho.
Vamos pro quarto do Rincón. Antes, eu falei pro Edílson:
— Reunião de novo? O que foi?
— Pô, tu não leu nos jornais, não? Marcelinho deu uma entrevista querendo que tire o Rincón do time de qualquer jeito, vai dar uma merda do caralho...
Estava todo mundo no quarto do Rincón: eu, Gamarra, Dinei, Nei, Maurício, Edílson, Silvinho, Edu, Kleber, Fernando Baiano, Mirandinha...
O Rincón então chega pro Marcelinho e fala, mostrando o jornal Lance!:
— Marcelo, o que é isso aqui, Marcelo?
Agora, Jornal da Tarde, Folha de S.Paulo, Estado de S. Paulo,todos com a mesma notícia: “Marcelinho exige a saída de Rincón do time”.
O Marcelinho vem:
— Ô, Freddy, vai tomar no cu! Tá acreditando na imprensa?
E o Rincón responde:
— Marcelo, não mandei você tomar no cu, Marcelo. Eu só estou conversando com você.
E pegou o Marcelinho pelo pescoço, com um braço só. Não sei se era esganadura ou enforcamento. A galera do deixa-disso vai tentar separar, separamos a confusão. Vamos pro treino.

* * *

Passa uma semana, vamos enfrentar os caras lá em Cochabamba. No fim, empatamos em 1 a 1. Estavam faltando três, cinco minutos pra terminar o primeiro tempo e o Edílson perdeu uma bola, deu um contra-ataque e o Nei fez uma defesa do caralho. O Rincón falou:
— Edílson, toca a bola, segura a bola. E o Edílson:
— Ô, colombiano... Vai tomar no cu, tu é o que mais erra no time eu não falo porra nenhuma!
Pra quê? Termina o primeiro tempo, entra o Rincón dentro do vestiário e vai subindo água, Gatorade, tudo na direção do Edílson.
Eu estava do lado dele. Levanto e falo:
— Freddy, calma! Calma aí!
— Vampeta, eu não vou bater nele, eu só quero conversar com ele.
Edílson, então, deu dois passos pra trás:
— Bate um caralho, rapaz... Tá com mania de bater nos pequenos?
Você bateu no Marcelo semana passada, quer me bater...
Bate no Vampeta, que é do teu tamanho!
Aí eu falei:
— Epa, para, para! Não me joga contra o cara, não! O cara é meu amigo...
Foi a vez do Nei, goleiro, falar:
— Calma, calma, gente!
E do técnico, que era o Evaristo de Macedo, emendar:
— Ô, Nei, você cala a boca. As estrelas podem brigar, porque se entendem. Você não é estrela, então fica quieto. Podem continuar a briga”. (...)

Sobre a passagem pelo Paris Saint Germain:

(...)

“Paris é uma festa!

Quando eu estava indo pro Paris Saint-Germain, fiz um contrato pelo qual tinha direito a dez passagens de primeira classe. Só que minha família, minha mãe, nunca gostou de sair da Bahia, meus irmãos também não. Venho convocado pelo Leão para um jogo contra a Colômbia, pelas Eliminatórias, aquele jogo no Morumbi que a torcida vaiou e nós ganhamos de 1 a 0, gol do Roque Júnior, aos 45 do segundo tempo. No dia seguinte, tenho que ir pra Paris. E o que foi que eu fiz? Peguei cinco passagens de primeira classe, transformei em econômica e levei oito mulheres comigo pra Paris.

Lá na França tinha eu, o Christian, centroavante, que é solteiro também, o Alex Mineiro, o Aloísio (que jogava no Saint-Etienne), o César (zagueiro) e o Lucas (centroavante, que jogou aqui no Corinthians, no Atlético Paranaense). Arrumei oito mulheres e estou levando comigo pra Paris. Só que quando chego no aeroporto vejo o Galvão Bueno, o Paulo Coelho, uma galera assim, que ia na primeira classe. O Galvão me cumprimenta e eu falo pra elas: “O Galvão Bueno taí... Pode dar uma merda... Vocês fingem que não me conhecem”. Estamos embarcando e o Galvão Bueno comenta comigo:
— Quanta mulher bonita...
Eu respondo:
— Pois é, devem estar indo desfilar lá em Paris...
Só que elas estavam todas comigo. Quando estávamos descendo em Paris, nós, da primeira classe, e elas, da econômica, na hora de pegar as malas, as meninas viraram pra mim e me entregaram:
— Patrão, patrão... As malas a gente pega onde?
O Galvão Bueno olhou pra mim na hora. E eu respondi:
— Não disse que elas tavam indo “desfilar”?
Elas ficaram comigo uma semana lá. Eu morava em um condomínio de embaixadores. Foram todas pra minha casa. Eu falava assim: “Ninguém faz um feijão aí? Ninguém cozinha?” E elas respondiam: “Que cozinhar, o quê? Nós estamos em Paris, vamos é pra Torre Eiffel!” (...)

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