quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A dor da traição


Torcedores apaixonados dificilmente se confessam traidores do clube de coração. Mas se existe algum tipo de traição "perdoável", essa é a do craque da imprensa brasileira, Clóvis Rossi, palmeirense há mais de 60 anos que "jogou a toalha"...Mas será mesmo? 
Por CLÓVIS ROSSI
Confesso, Palmeiras, eu tenho outro. Mas não espere um pedido de perdão nem arrependimento. Você mereceu a traição.
Relaxou, ficou murcho, feio, de quinta (categoria) ou de segunda (divisão).
Quando nos apaixonamos, faz uns bons 60 anos, você estava sempre entre os primeiros da classe.
A cada início de ano, sonhávamos sempre com um título, qualquer que fosse o torneio em disputa, a Taça Rio (lembra?), o Rio-São Paulo, o Paulistão, que nem era Paulistão à época, os torneios nacionais com seus diversos nomes ao longo do tempo que passamos juntos e em que éramos felizes -e sabíamos.
Nos últimos muitos anos, o sonho mais brilhante que podemos ter é o de ficar não no topo, mas entre os quatro primeiros, para disputar a tal Libertadores.
Não me casei com você, Palmeiras, para ser classe média apenas.
Pior: em vez de brigarmos para ficar entre os quatro primeiros, neste campeonato, brigamos para não ficar entre os quatro últimos.
Dá vergonha sair por aí de braço dado com você.
E dá mais raiva ainda verificar que nem merecemos a gozação dos casais inimigos.
Não tenho visto no meu Facebook brincadeiras de corintianos, são-paulinos e santistas, como se eles todos estivessem é com dó da gente.
Ou, pior, tristes por saberem que vão perder o saco de pancadas em que transformamos nosso lar.
Aliás, nem lar temos, destruído que foi o Parque Antarctica para a construção de uma arena, nome pomposo à beça para receber jogos da segunda divisão.
Eu até te perdoaria pelas poucas oportunidades que você me oferece do orgasmo de um gol.
Mas, caramba, na maioria dos jogos você não me dá nem o direito sagrado de gritar o “uuuh” do quase-gol, da bola que passou raspando.
Nosso amor cresceu nos tempos em que os companheiros de farra chamavam-se Ademir da Guia ou Luís Pereira.
Que interesse posso ter em sair com Maurício Ramos e Valdívia, que, aliás, mais sai do que entra em campo?
Fico olhando os casais vizinhos e vejo que reimportam um Fred, um Luis Fabiano, um Ronaldinho.
Nós reimportamos um Daniel Carvalho, que teria dificuldades em jogar no time dos casados na pelada da fábrica Matarazzo, se ainda há uma fábrica Matarazzo.
Aproveito para dar o nome do “outro”: F.C. Barcelona.
É mais bonito, continua na primeira divisão (da Espanha), disputa a Libertadores deles, fornece um punhado de craques para a seleção campeã do mundo e ainda por cima tem um certo Lionel Messi, um deleite para a vista e para os sentidos.
Vou ser feliz com eles.
Ciao, bello!
Sobre Clóvis Rossi:
Jornalista com mais de 40 anos de carreira, trabalhou em três dos quatro grandes jornais do país (O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil). Foi editor-chefe do Estado de S. Paulo, participou de incontáveis coberturas internacionais tanto por O Estado de S.Paulo como pela Folha, pela qual foi correspondente em Buenos Aires e Madri. É repórter especial e colunista da citada Folha

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