sexta-feira, 30 de novembro de 2012

As memórias de Vampeta

Um livro que vai dar o que falar. “Vampeta – Memórias do velho Vamp” (sem cortes)(Editora Leya) é divertidíssimo, como o ex-jogador que rodou o Brasil e o mundo colecionando histórias. Todas elas lapidadas pelo craque do jornalismo Celso Unzelte.

Sinopse (da Editora)

“A editora LeYa lança em dezembro “Vampeta – Memórias do Velho Vamp”, depoimento do ex-jogador Vampeta ao jornalista Celso Unzelte, um livro não apenas para os fanáticos por futebol, mas para os fãs da alegria de viver.

Vampeta, um dos mais polêmicos atletas do futebol brasileiro, abre seu baú de histórias ao jornalista Celso Unzelte - de polêmicas a causos engraçados, este livro vai dar o que falar.

Terror dos adversários dentro de campo (e dos pais de mulheres fora dele), Vampeta está todo aqui. O livro só não saiu antes porque eu, enquanto tentava transcrever alguns dos depoimentos dados por ele, não conseguia parar de rir. O mesmo deverá acontecer com vocês na hora que começarem a ler. – Celso Unzelte

Pra mim, a vida é o seguinte: eu não sei o que vai acontecer amanhã, então procuro viver o dia de hoje sem fazer besteira para que não falte o de amanhã. A gente tem que estar sempre sorrindo. – Vampeta”.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo alguns trechos da obra:

Sobre as origens em Nazaré da Farinha:

(...)
“Eu ganhei muito dinheiro com bola, vivo muito bem. Realizei aquele sonho de ter carro importado, mulheres bonitas, ser uma pessoa pública, jogar na Seleção, em grandes clubes. Peguei as melhores mulheres que se pode pegar, tive dinheiro no bolso, altos salários. Mas eu não trocaria nada disso se pudesse voltar para aquela minha infância de Nazaré. Se o tempo pudesse estacionar nos meus quatorze, quinze anos, eu não mudaria nada. Era mais feliz quando tomava banho de rio (lá em Nazaré tem muito rio)” (...)


Sobre o apelido curioso:

(...)

“Vam...Peta...

O mundo é foda. Eu cheguei em 88 no Vitória e seis anos depois, em 94, já estava indo para o futebol holandês, pro PSV Eindhoven. Onde tudo é “van”, né? Van der Saar, van Bommel... Não tem o Marco van Basten? Então, eu quis acompanhar e virei o Marcos Vam... Peta!!!

Por causa disso, o Valencia, da Espanha, até quis me contratar, depois que já tinha um tempo que eu estava jogando na Holanda. Já estavam pra fechar o contrato quando viram que eu, apesar do nome começando com “van”, não era holandês, não: era brasileiro. Aí, desfizeram o negócio e acabaram comprando o Angloma, um lateral direito da seleção francesa que era da Inter de Milão. Cheguei na Holanda no tempo em que jogador, antes de ir pra Europa, tinha que começar no eixo Rio-São Paulo. Jogava primeiro no Corinthians, Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Santos, Palmeiras ou São Paulo, pra só depois poder chegar na Europa. Eu não: fui direto do Vitória pro PSV. Na Bahia, morava no alojamento do clube e pra treinar botava uma bermuda, um tênis, uma camiseta, por causa do calor.

Na Holanda, primeiro mundo, era tudo diferente. Os caras iam treinar de terno e gravata. No Brasil eu já era escolado, com dezoito anos tinha disputado dois Brasileiros. A gente já tinha ido a São Paulo, Rio, conhecido o Brasil todo. Mas eu nunca tinha ido pra Europa. Antes de chegar na Holanda, fui no máximo ao Equador e ao Peru, com o Vitória, fazendo excursão. Fui também ao Senegal, na África, em uma excursão do tipo “Itamar Franco”. É que o Palmeiras, campeão brasileiro, não quis ir e falou: “Vai o vice”.

Pra nós, do Vitória, era festa ir pra África. Fui aprendendo holandês. À noite, no hotel, queria jantar, apontava no cardápio e vinha o que eu comi ao meio-dia: pão, tomate, cebola, abacate. Puta que pariu! Não sabia falar nem inglês nem holandês. Eu, burro, em vez de marcar o que tinha pedido pra não pedir de novo, no dia seguinte acabava repetindo o mesmo pedido. Cheio de fome, não saía do hotel, não conhecia nada. Acostumado a comer moqueca de peixe, rabada, feijoada, galinhada, essas comidas pesadas, eu perguntava pro padre que me ensinava holandês: “Como é que eu faço pra comer uma carne, um frango?” Pedia pra ele chegar lá no cardápio, escrever num papel e deixar o papel comigo. Ele até escrevia, mas só que quando ia embora esquecia de me dar o papel, acabava levando junto com ele (o padre já tinha setenta e poucos anos). Aí, eu chegava lá no hotel, pegava um papel, desenhava um frango, desenhava um boi, desenhava um montinho de arroz. O cara ria e aí trazia um bife com arroz. Falei: porra, vou comer pizza. Pizza é igual no mundo todo. Fiquei quase um mês comendo pizza, até falar holandês e morar num apartamento”. (...)

Sobre o polêmico jogo entre Corinthians e Palmeiras que acabou em briga:

(...)

“A história fala que o grande rival do Corinthians é o Palmeiras. Eu, em 98, 99, pode ter certeza que tinha muita raiva do Palmeiras, que era um time do caralho, pra ganhar deles era foda. Eu perdi duas Libertadores pro Palmeiras e um Brasileiro pro Santos. O que me conforta, além da rivalidade, é que eu perdi pro Marcos, pro César Sampaio, pro Zinho, pro Alex, pro Evair, pro Arce, pro Júnior, lateral esquerdo, pro Júnior Baiano, pro Roque Júnior, pro Rogério, pro Oséas, pro Felipão... Você olha e diz assim: caralho, olha o time dos caras! É todo mundo da Seleção Brasileira. Tinha até mais qualidade que o Corinthians. Só que também no meio-campo eu, Rincón, Ricardinho e Marcelinho fazíamos chover. Com o Edílson e o Luizão na frente, Dida no gol...

Então, são jogos memoráveis em que o Palmeiras ganhava uma, a gente ganhava a outra. Em 99, na final do Paulista, eu e o Edílson tivemos um problema sério com o Felipão, que treinava o Palmeiras. O Palmeiras ganhou a Libertadores eliminando a gente, tirou a gente nos pênaltis, nas quartas de final. Só que na semana seguinte era o Campeonato Paulista, a final também, contra o Palmeiras. Eles entraram em campo com cabelo pintado de amarelo, rosa... No primeiro jogo, eu dou um carrinho no Tadei, o juiz não dá falta, eu levanto a bola, meto no Marcelinho, o Marcelinho cruza e o Edílson faz 1 a 0. Depois, Corinthians 2 a 0, Corinthians 3 a 0. A gente tinha perdido a Libertadores pros caras, estava engasgado. Aí eu tô saindo de campo, Felipão vem atrás de mim, me dá um tapa nas costas e fala:
— O que é teu tá guardado, tchê!
Olhei pra ele e falei:
— Ó, vai tomar no teu cu. E manda teu time treinar pra caralho, que agora, pra ser campeão paulista, vocês vão ter que ganhar de quatro.

Naquela mesma semana, o Felipão começou a falar que ninguém dava uma “chegada” no Edílson, que o Vampeta faz o que quer dentro de campo. Alguém gravou isso e botou na mídia, aí deu uma repercussão da porra. Eu e Edílson, a gente combinou de sacanear o Palmeiras. Afinal, eles tinham que ganhar de quatro pra ser campeão.

Foi aí que Edílson disse:
— Ó, então eu vou atravessar o campo fazendo embaixadinha.
O Dinei falou:
— Não, mete o lenço da Feiticeira ou o chicote da Tiazinha (duas mulheres gostosas que estavam fazendo muito sucesso na TV naquela época).
Mas o Edílson insistiu:
— Não, não... Eu vou atravessar o campo fazendo embaixada, mesmo.
Quer dizer: foi tudo combinado. Depois que empatamos por 2 a 2, com o título garantido, o Edílson fez as embaixadas. Aí o pau fechou e o Felipão guardou aquilo até nos convocar pra Copa do Mundo, em 2002”. (...)

Sobre os bastidores do título mundial interclubes, em 2000:

Vampeta e Rincón
(...)

“O Edílson e o Marcelinho, por exemplo, chegaram a brigar dentro do vestiário, com faca e tudo. Aquelas facas que não cortam ninguém, só laranja, mas brigaram. Briga por vaidade. Era difícil. O Rincón, também, já não gostava do Edílson acho que desde a época do Palmeiras, não sei. Tiveram umas confusões lá, mas a gente chegava dentro de campo e ganhava. O importante era chegar dentro de campo e ganhar.

Na Libertadores de 2009, a gente ia jogar com o The Strongest, da Bolívia, lá em Cochabamba. Ficamos um monte de semana treinando em Atibaia. Uma semana antes do jogo, o Marcelinho vai no meu quarto e diz:
— Vampeta, vamos tirar o Rincón do time. Ele atrasa muito o jogo, abre aquelas asas dele, não quer tocar a bola pra ninguém...
Eu falei:
— Você é louco? O cara joga pra caralho...
No meu quarto o Marcelinho não arrumou nada. Aí, ele foi no quarto do Edílson:
— Edílson, vamos tirar o “negão” do time? O “negão” é foda.
Você é amigo do Amaral, vamos botar o Amaral pra jogar. Ele vai marcar mais, vai roubar mais bola pra gente. O Rincón pisa na bola, a gente tá ganhando de 2 a 0 e ele fica segurando o jogo.

Rincón, Edílson e Marcelinho.
O Edílson falou:
— Aqui você não vai arrumar nada. Eu não gosto do “negão”, mas ele joga pra caralho!
Depois disso, eu estou dormindo. Não vou pro café da manhã, só pro almoço. Termino de almoçar e o Rincón fala:
— Quero uma reunião no meu quarto, todo mundo. Depois do almoço, todo mundo no meu quarto.
Os caras, então, protestaram. “Não, depois do almoço não, pô! Antes do treino da tarde, três e meia. O treino é quatro, três e meia a gente passa lá...”
O Rincón concordou: — Tá bom. Três e meia todo mundo no meu quarto e treino quatro horas. É meia horinha, rapidinho.
Vamos pro quarto do Rincón. Antes, eu falei pro Edílson:
— Reunião de novo? O que foi?
— Pô, tu não leu nos jornais, não? Marcelinho deu uma entrevista querendo que tire o Rincón do time de qualquer jeito, vai dar uma merda do caralho...
Estava todo mundo no quarto do Rincón: eu, Gamarra, Dinei, Nei, Maurício, Edílson, Silvinho, Edu, Kleber, Fernando Baiano, Mirandinha...
O Rincón então chega pro Marcelinho e fala, mostrando o jornal Lance!:
— Marcelo, o que é isso aqui, Marcelo?
Agora, Jornal da Tarde, Folha de S.Paulo, Estado de S. Paulo,todos com a mesma notícia: “Marcelinho exige a saída de Rincón do time”.
O Marcelinho vem:
— Ô, Freddy, vai tomar no cu! Tá acreditando na imprensa?
E o Rincón responde:
— Marcelo, não mandei você tomar no cu, Marcelo. Eu só estou conversando com você.
E pegou o Marcelinho pelo pescoço, com um braço só. Não sei se era esganadura ou enforcamento. A galera do deixa-disso vai tentar separar, separamos a confusão. Vamos pro treino.

* * *

Passa uma semana, vamos enfrentar os caras lá em Cochabamba. No fim, empatamos em 1 a 1. Estavam faltando três, cinco minutos pra terminar o primeiro tempo e o Edílson perdeu uma bola, deu um contra-ataque e o Nei fez uma defesa do caralho. O Rincón falou:
— Edílson, toca a bola, segura a bola. E o Edílson:
— Ô, colombiano... Vai tomar no cu, tu é o que mais erra no time eu não falo porra nenhuma!
Pra quê? Termina o primeiro tempo, entra o Rincón dentro do vestiário e vai subindo água, Gatorade, tudo na direção do Edílson.
Eu estava do lado dele. Levanto e falo:
— Freddy, calma! Calma aí!
— Vampeta, eu não vou bater nele, eu só quero conversar com ele.
Edílson, então, deu dois passos pra trás:
— Bate um caralho, rapaz... Tá com mania de bater nos pequenos?
Você bateu no Marcelo semana passada, quer me bater...
Bate no Vampeta, que é do teu tamanho!
Aí eu falei:
— Epa, para, para! Não me joga contra o cara, não! O cara é meu amigo...
Foi a vez do Nei, goleiro, falar:
— Calma, calma, gente!
E do técnico, que era o Evaristo de Macedo, emendar:
— Ô, Nei, você cala a boca. As estrelas podem brigar, porque se entendem. Você não é estrela, então fica quieto. Podem continuar a briga”. (...)

Sobre a passagem pelo Paris Saint Germain:

(...)

“Paris é uma festa!

Quando eu estava indo pro Paris Saint-Germain, fiz um contrato pelo qual tinha direito a dez passagens de primeira classe. Só que minha família, minha mãe, nunca gostou de sair da Bahia, meus irmãos também não. Venho convocado pelo Leão para um jogo contra a Colômbia, pelas Eliminatórias, aquele jogo no Morumbi que a torcida vaiou e nós ganhamos de 1 a 0, gol do Roque Júnior, aos 45 do segundo tempo. No dia seguinte, tenho que ir pra Paris. E o que foi que eu fiz? Peguei cinco passagens de primeira classe, transformei em econômica e levei oito mulheres comigo pra Paris.

Lá na França tinha eu, o Christian, centroavante, que é solteiro também, o Alex Mineiro, o Aloísio (que jogava no Saint-Etienne), o César (zagueiro) e o Lucas (centroavante, que jogou aqui no Corinthians, no Atlético Paranaense). Arrumei oito mulheres e estou levando comigo pra Paris. Só que quando chego no aeroporto vejo o Galvão Bueno, o Paulo Coelho, uma galera assim, que ia na primeira classe. O Galvão me cumprimenta e eu falo pra elas: “O Galvão Bueno taí... Pode dar uma merda... Vocês fingem que não me conhecem”. Estamos embarcando e o Galvão Bueno comenta comigo:
— Quanta mulher bonita...
Eu respondo:
— Pois é, devem estar indo desfilar lá em Paris...
Só que elas estavam todas comigo. Quando estávamos descendo em Paris, nós, da primeira classe, e elas, da econômica, na hora de pegar as malas, as meninas viraram pra mim e me entregaram:
— Patrão, patrão... As malas a gente pega onde?
O Galvão Bueno olhou pra mim na hora. E eu respondi:
— Não disse que elas tavam indo “desfilar”?
Elas ficaram comigo uma semana lá. Eu morava em um condomínio de embaixadores. Foram todas pra minha casa. Eu falava assim: “Ninguém faz um feijão aí? Ninguém cozinha?” E elas respondiam: “Que cozinhar, o quê? Nós estamos em Paris, vamos é pra Torre Eiffel!” (...)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Carta a Joelmir Beting


Na história da literatura mundial, cartas já foram (e continuam a ser) transformadas em livros. A de Mauro Beting, escritor e jornalista esportivo, filho de Joelmir pode, certamente, fazer parte de qualquer coletânea que um dia possa a ser produzida. Mauro Beting estava no ar, na rádio Bandeirantes, quando recebeu a notícia da morte de seu pai. Uma carta, ou melhor, um documento de rara emoção.

Por Mauro Beting

"Nunca falei com meu pai a respeito depois que o Palmeiras foi rebaixado. Sei que ele soube. Ou imaginou. Só sei que no primeiro domingo depois da queda para a Segunda pela segunda vez, seu Joelmir teve um derrame antes de ver a primeira partida depois do rebaixamento. Ele passou pela tomografia logo pela manhã. Em minutos o médico (corintianíssimo) disse que outro gigante não conseguiria se reerguer mais.

No dia do retorno à segundona dos infernos meu pai começou a ir para o céu. As chances de recuperação de uma doença autoimune já não eram boas. Ficaram quase impossíveis com o que sangrou o cérebro privilegiado. Irrigado e arejado como poucos dos muitos que o conhecem e o reconhecem. Amado e querido pelos não poucos que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

Meu pai.

O melhor pai que um jornalista pode ser. O melhor jornalista que um filho pode ter como pai.

Preciso dizer algo mais para o melhor Babbo do mundo que virou o melhor Nonno do Universo?

Preciso. Mas não sei. Normalmente ele sabia tudo. Quando não sabia, inventava com a mesma categoria com que falava sobre o que sabia. Todo pai é assim para o filho. Mas um filho de jornalista que também é jornalista fica ainda mais órfão. Nunca vi meu pai como um super-herói. Apenas como um humano super. Só que jamais imaginei que ele pudesse ficar doente e fraco de carne. Nunca admiti que nós pudéssemos perder quem só nos fez ganhar.

Por isso sempre acreditei no meu pai e no time dele. O nosso.

Ele me ensinou tantas coisas que eu não sei. Uma que ficou é que nem todas as palavras precisam ser ditas. Devem ser apenas pensadas. Quem fala o que pensa não pensa no que fala. Quem sente o que fala nem precisa dizer.

Mas hoje eu preciso agradecer pelos meus 46 anos. Pelos 49 de amor da minha mãe. Pelos 75 dele.

Mais que tudo, pelo carinho das pessoas que o conhecem – logo gostam dele. Especialmente pelas pessoas que não o conhecem – e algumas choraram como se fosse um velho amigo.

Uma coisa aprendi com você, Babbo. Antes de ser um grande jornalista é preciso ser uma grande pessoa. Com ele aprendi que não tenho de trabalhar para ser um grande profissional. Preciso tentar ser uma grande pessoa. Como você fez as duas coisas.

Desculpem, mas não vou chorar. Choro por tudo. Por isso choro sempre pela família, Palmeiras, amores, dores, cores, canções.

Mas não vou chorar por algo mais que tudo que existe no meu mundo que são meus pais. Meus pais (que também deveriam se chamar minhas mães) sempre foram presentes. Um regalo divino. Meu pai nunca me faltou mesmo ausente de tanto que trabalhou. Ele nunca me falta por que teve a mulher maravilhosa que é dona Lucila. Segundo seu Joelmir, a segunda maior coisa da vida dele. Que a primeira sempre foi o amor que ele sentiu por ela desde 1960. Quando se conheceram na rádio 9 de julho. Onde fizeram família. Meu irmão e eu. Filhos do rádio.

Filhos de um jornalista econômico pioneiro e respeitado, de um âncora de TV reconhecido e inovador, de um mestre de comunicação brilhante e trabalhador.

Meu pai.

Eu sempre soube que jamais seria no ofício algo nem perto do que ele foi. Por que raros foram tão bons na área dele. Raríssimos foram tão bons pais como ele. Rarésimos foram tão bons maridos. Rarissíssimos foram tão boas pessoas. E não existe outra palavra inventada para falar quão raro e caro palmeirense ele foi.

(Mas sempre é bom lembrar que palmeirenses não se comparam. Não são mais. Não são menos. São Palmeiras. Basta).

Como ele um dia disse no anúncio da nova arena, em 2007, como esteve escrito no vestiário do Palmeiras no Palestra, de 2008 até a reforma: “Explicar a emoção de ser palmeirense, a um palmeirense, é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… É simplesmente impossível!”.

A ausência dele não tem nome. Mas a presença dele ilumina de um modo que eu jamais vou saber descrever. Como jamais saberei escrever o que ele é. Como todo pai de toda pessoa. Mais ainda quando é um pai que sabia em 40 segundos descrever o que era o Brasil. E quase sempre conseguia. Não vou ficar mais 40 frases tentando descrever o que pude sentir por 46 anos.

Explicar quem é Joelmir Beting é desnecessário. Explicar o que é meu pai não estar mais neste mundo é impossível.

Nonno, obrigado por amar a Nonna. Nonna, obrigado por amar o Nonno.

Os filhos desse amor jamais serão órfãos.

Como oficialmente eu soube agora, 1h15 desta quinta-feira, 29 de novembro. 32 anos e uma semana depois da morte de meu Nonno, pai da minha guerreira Lucila.

Joelmir José Beting foi encontrar o Pai da Bola Waldemar Fiume nesta quinta-feira, 0h55."

Jogos Memoráveis


Quem, que goste de futebol, não tem guardado em algum cantinho da memória um jogo inesquecível? Não qualquer jogo, mas aquele que traga algum significado para retratar tamanha paixão. Por incrível que pareça, para o fanático torcedor brasileiro, nem sempre esses jogos são feitos de vitórias ou conquistas de títulos.

Por isso a importância de livros como esse: “Jogos Memoráveis do Botafogo” (Editora iVentura), de Auriel de Almeida. Que outros grandes clubes brasileiros revivam e eternizem esses momentos mágicos de tantos torcedores. Vale lembrar que a iVentura já publicou o “Jogos Memoráveis do Vasco”, o “Almanaque dos velhos Brasileirões” e vários outros títulos importantes para a literatura esportiva brasileira. Confira em http://www.iventura.com.br/ .

Sinopse (da Editora):

Participe de uma deliciosa jornada pelos jogos que marcaram época na história do Botafogo de Futebol e Regatas. No livro, que tem orelha do jornalista Mauricio Fonseca, prefácio de Rui Moura e depoimentos na quarta capa de Sonja Martinelli, torcedora símbolo do Botafogo na conquista do título de 1989, da cantora e compositora Isabella Taviani, do jornalista Roby Porto, e da atriz, piloto e jornalista Suzane Carvalho, são descritas 30 partidas inesquecíveis do clube.

Escolher os jogos memoráveis de um grande clube ao longo de mais de 100 anos não é uma tarefa fácil, mas necessária quando se pretende manter vivo para o torcedor atuações de gala dos jogadores, vitórias inesquecíveis, períodos sublimes e curiosidades que marcaram todos que estiveram presentes nos momentos narrados ou tomaram conhecimento, seja através da TV, do rádio, da internet, do jornal impresso ou de uma revista esportiva.

Baseado em um denso e cuidadoso trabalho de pesquisa, a obra nos brinda com passagens
emocionantes que enchem de orgulho o torcedor. A viagem do leitor tem início em setembro de 1907, passa pelas vitórias dos anos 1930, avança pelos anos de ouro do fantástico time que tinha Garrincha, Nilton Santos e inúmeros outros craques, mostra partidas importantes da trajetória alvinegra nos anos 1960, detalha a conquista histórica de 1989 e termina com o título carioca de 2010.

Prepare-se para participar de uma deliciosa jornada pelos jogos que marcaram época na história do “Glorioso”.

Apresentação
Por Carlos Fernando Rego Monteiro

Somente muito idealismo e amor ao esporte poderia concretizar o objetivo de lançar uma coleção falando dos jogos memoráveis de grandes clubes do futebol brasileiro. A “Coleção Grandes Jogos” nasce para ajudar na preservação da memória do esporte bretão em nosso país pois, lamentavelmente, a documentação da história do nosso futebol ainda é escassa, apesar do interesse crescente.

Escolher os jogos memoráveis dos clubes ao longo de mais de 100 anos não é uma tarefa fácil, mas necessária, quando se pretende manter vivos para o torcedor atuações de gala dos jogadores, vitórias inesquecíveis, períodos sublimes e curiosidades que marcaram todos que estiveram presentes nos momentos narrados ou tomaram conhecimento, seja através da TV, do rádio, da internet, do jornal impresso ou de uma revista esportiva.

Fonte de conhecimento e consulta para os amantes do futebol e de deleite para os apaixonados pelo clube do coração, a “Coleção Grandes Jogos” lança, agora, o segundo volume da série: “Jogos Memoráveis do Botafogo”, descrevendo 30 partidas inesquecíveis do Botafogo de Futebol e Regatas. Baseada em um denso e cuidadoso trabalho de pesquisa, a obra nos brinda com passagens emocionantes que enchem de orgulho o torcedor.

Neste segundo livro da coleção, a viagem do leitor tem início em setembro de 1907, passa pelas vitórias dos anos 1930, avança pelos anos de ouro do fantástico time que tinha Garrincha, Nilton Santos e inúmeros outros craques, mostra partidas importantes da trajetória alvinegra nos anos 1960, detalha a conquista histórica de 1989 e termina com o título carioca de 2010.

Então, prepare-se para participar de uma deliciosa jornada pelos jogos que marcaram época na história do “Glorioso”.

Prefácio
Por Rui Moura

Auriel de Almeida é um botafoguense apaixonadíssimo que nasceu há quase três décadas na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro. Botafoguense desde sempre?... Não exatamente. Embora seja filho de um torcedor do Glorioso, o nosso “investigador-escritor” tinha outras “fervorosas” influências familiares muito próximas e teve que lutar contra as tendências que o rodeavam, incluindo as dos colegas de escola, que o instigavam para outra escolha.

Inicialmente, o pequeno Auriel cedeu às pressões, mas a sua paixão por escudos mirava sempre o que ele considerava mais lindo: o da Estrela Solitária. E a camisa alvinegra também se mostrava mais bela do que as outras. Quando inquirido pelo seu pai sobre a razão da sua escolha inicial, Auriel respondeu que era porque se tratava da “maioria”. Papai, inteligente, respondeu-lhe que a maioria nem sempre faz a melhor escolha, e exemplificou o raciocínio. Então, as profundas dúvidas do nosso pequeno rapaz cresceram ainda mais.

Em 1990, após o bicampeonato carioca, Auriel já era realmente botafoguense, mas… como dizê-lo aos outros?... Eis que, em 1992, se mudou para o bairro da Tijuca e na nova escola assumiu-se orgulhosamente como botafoguense – definitivamente. A consolidação chegou em 1993 quando, ao lado do pai, vibrou com a disputa de pênaltis que levou o Glorioso à conquista da Copa Conmebol. Faltava algo mais para que a paixão absoluta tomasse conta da mente, do coração e da alma do nosso pequeno Auriel?

Sim… faltava… Túlio “Maravilha”! Em 1994, com o seu jeito fanfarrão e goleador, o craque encantou o nosso futuro “investigador-escritor”. Seguiram os títulos de 1995 a 1998 e, nos anos seguintes, Auriel assumiu o notável estoicismo botafoguense de resistir à escassez de títulos, passando com distinção a última grande prova e tornando-se um botafoguense da cabeça aos pés. E Auriel transformou o “sofrimento clubista” em uma espécie de “luxo da dor” com a sua incomensurável paixão pelo Glorioso – paixão sublimada muito acima da dor das derrotas ou do prazer das vitórias.

Entretanto, a sua curiosidade e a paixão pelo futebol e pelo Botafogo (pleonasmo?...) abriram-lhe novos horizontes. Da atração profunda pelos escudos que colecionava, Auriel passou à investigação em livros e revistas e, mais tarde, à Internet. Descobriu as cisões amadoras e profissionais, a história da Taça Brasil e tornou-se uma pequena enciclopédia para os seus amigos do colégio, descrevendo, de memória, os títulos dos clubes, os anos das conquistas, os nomes e a história de jogadores antigos, os causos curiosos etc.

A universidade “agravou” a paixão pelo futebol, porque Auriel descobriu o método científico e pôde tornar-se uma espécie de “profissional” da investigação futebolística. Foi um caminho sem regresso: Biblioteca Nacional, Arquivo Nacional, membro da RSSSF, colaboração em portais e páginas da Internet e, finalmente, o seu primeiro livro, publicado em 2011: “Passos do Campeão”, obra em que narra a par e passo a formidável conquista da Taça Brasil de 1968.

O profundo prazer de Auriel ao escrever sobre o Botafogo e o sucesso público da sua obra fê-lo trilhar um novo rumo sem bilhete de volta: a publicação editorial. E eis que num curto espaço de tempo concretiza a segunda ideia: foco nos “jogos memoráveis” do Botafogo de Futebol e Regatas.

Nesta magnífica obra, Auriel descreve brilhantemente 30 jogos memoráveis do futebol botafoguense, incluindo as decisões de muitos títulos importantes e outros jogos, tais como a maior goleada de todos os tempos no futebol brasileiro, o 1º clássico com o Flamengo, a 1ª taça Rio-São Paulo de 1930, o 1º jogo profissional, o “jogo do senta”, duas goleadas inesquecíveis sobre os flamenguistas, o título continental e os títulos nacionais, a extraordinária decisão contra a Juventus no Troféu Tereza Herrera, a inauguração do Engenhão e… o último título carioca com direito a uma “cavadinha” que abateu o Flamengo e um pênalti defendido pelo grande goleiro botafoguense.

A dificuldade de Auriel de Almeida foi na escolha dos 30 jogos, porque o Glorioso tem mais dezenas de títulos e jogos memoráveis na sua centenária e lendária história futebolística. De fora ficaram partidas relativas a alguns títulos estaduais e interestaduais, tais como os jogos decisivos dos títulos estaduais de 1912, 1930, o tri de 1932-33-34 e o título de 2006. Também não foram incluídas diversas decisões da Taça Guanabara e da Taça Rio nem do Torneio Rio-São Paulo de 1966 e 1998, assim como dezenas de decisões em que conquistamos títulos oficiosos de nível mundial, defrontando e vencendo equipes como o Barcelona, Bayern München, Benfica, Borussia Mönchengladbach, Leeds United, Anderlecht, Peñarol, River Plate, Boca Juniors, River Plate, Independiente e até seleções nacionais como as da Argentina, da União Soviética, do México ou de Cuba.

Porém, os leitores fãs de Auriel de Almeida podem ficar tranquilos quanto ao futuro, porque este é apenas o seu segundo livro e as glórias botafoguenses continuarão a brotar da “pena inflamada” do nosso “investigador-escritor”.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Chico Anysio e o Futebol


Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho ou simplesmente Chico Anysio nos deixou há quatro anos, no dia 23 de março de 2012. Em 12 de abril de 2016, estaria completando 85 anos. Do humorista ou comediante, todos sabem, mas mesmo no período pós-morte, pouco se falou do Chico apaixonado pelo futebol. Sim, e não é uma paixão qualquer, pois segundo o próprio Chico, a carreira consagrada em seus 80 anos de vida devia-se ao futebol. Você vai entender a razão nos trechos apresentados abaixo pelo Literatura na Arquibancada, extraídos de seu livro autobiográfico “Sou Francisco”, publicado pela editora Rocco, em 1992.

Um livro que merece ser lido de cabo a rabo, não apenas pelas experiências de Chico com o universo do futebol – como ele mesmo diz na obra, o melhor Chico Anysio Show foi feito numa gravação com o Santos de Pelé – mas por toda a trajetória do profissional que se considerava um ator e não um simples “comediante” ou “humorista”. Uma história imperdível que deveria ser reeditada o mais breve possível com todas as atualizações necessárias.

Sou Francisco
Por Chico Anysio

Eu sempre digo que sou ator porque esqueci o tênis. Isto pode não ser uma verdade absoluta, mas é relativamente uma verdade. Hermann Hesse defende, em um dos seus livros, a irrelevância do acaso, atribuindo a tudo de fortuito que acontece na vida uma desimportância que sempre me causou, se não um choque, uma pequena decepção.

Primeiro, porque Hesse sempre foi, para mim, um ótimo escritor e, em segundo lugar, porque defendo um ponto de vista absolutamente contrário. Acho que o que de mais importante a vida nos proporciona – depois da felicidade ímpar de acordar a cada dia – é justamente o acaso.

Por acaso eu sou ator. Talvez eu não seja o ator que imagino (levando-se em conta o que todos imaginam ser um ator), mas ator, porque dois terços da minha vida eu dediquei a este trabalho onde um cara faz o papel de médico ou palhaço, de chofer ou milionário, de mendigo ou pastor de almas, seja lá que personagem for. E isso é o que eu faço. A minha dúvida de ser ou não ser ator é produzida pelo descrédito dos críticos do meu país, que sempre preferiram me chamar de humorista ou de comediante, como se seu – pobre de mim! – não passasse de um Bernard Shaw, no primeiro caso ou, na melhor das hipóteses, de um Buster Keaton, no segundo.

(...)

Sempre gostei de futebol. Fui levado a gostar, porque meu pai era presidente do Ceará Sporting e muitas vezes fui aos treinos do Ceará com meu pai, e aos jogos também. O futebol fazia parte do meu dia-a-dia. Por isso eu sabia que o ataque do Botafogo era Álvaro, Paschoal, Carvalho Leite, Perácio e Patesko. Meu pai era botafoguense, como também o Elano, porque o Botafogo tinha as cores do Ceará. Mas eu era do contra. No Ceará eu torcia pelo Ferroviário e, no Rio, fiquei vascaíno. Só para chatear. Um vascaíno inacreditável, porque além da botafoguisse da família, o primeiro lugar onde eu morei no Rio foi numa pensão na rua das Laranjeiras (onde hoje é uma clínica médica), pertinho do campo do Fluminense, de onde fui sócio-dependente, sócio-atleta, joguei futebol, nadei, quebrei três vezes cada braço, fiz amigos que mantenho até hoje a começar dos tempos do cachorro-quente dançante, no bar da piscina, atravessando os bailes de carnaval, incluindo o baile da Atlantic. O Fluminense (o clube) é uma das coisas mais marcantes da minha vida. De tal modo que é quase um absurdo eu torcer contra ele. Vou corrigir enquanto é tempo: eu não consigo torcer contra o Fluminense. O máximo que atinjo é não torcer a favor.

(...)

Bigode
Como todo menino, eu pensava em ser jogador de futebol. Bolas. Se no tempo de Fortaleza, quando meu pai tinha a empresa, meu sonho fora ser trocador de ônibus, que havia de mau no sonho de ser jogador de futebol? Esse desejo cresceu, muito, quando vi o primeiro treino do Bigode, no Fluminense. Lembro que tirei uma fotografia com ele, ao lado de toda a meninada do clube que estava assistindo. Fiquei muito emocionado quando fui à loja do Bigode, anos depois, perto do Largo do Machado e, ao contar que assistira ao seu primeiro treino, ele me disse: “Eu sei. Olhe a fotografia aqui”.

E me mostrou a foto onde eu aparecia, com 15 anos, ao lado dele, ainda com a touca do Atlético Mineiro. Faz tempo que não vejo o Bigode, mas ele sempre foi um dos meus ídolos. Eu queria ser jogador de futebol. Embora pudesse desejar ser um Ademir, ou Danilo, ou Zizinho, eu queria ser um Jair. Jair da Rosa Pinto. Era esse que eu dizia que era quando jogava. Nunca brilhei no futebol, mas nunca fui dos últimos a ser escolhido no par ou ímpar. Dependendo do time eu era, até, meio indispensável. Tanto que a turma tinha um jogo combinado e eu fui intimado a comparecer. Jogo contra, no campo do Fluminense, que naquele tempo alugava o campo para jogos assim. A imposição era que os times jogassem descalços, para não estragar a grama.

– O jogo é no Fluminense, às três horas – avisaram.
Às duas eu estava no poste da esquina, esperando o pessoal. Não me lembro quem foi, mas um colega chegou e me disse que houvera uma mudança. O jogo seria no campo do Aliança, no fim da Rua General Glicério. O campo do Aliança era de terra e não dava para jogar descalço.
– Cadê o seu tênis?
– Eu não trouxe. Me disseram que o jogo era no Fluminense. Mas não faz mal. Vá indo com o pessoal, que eu vou em casa pegar o tênis e vou direto para lá.

Ao chegar em casa minha irmã Lupe estava de saída com um amigo dela para fazer um teste na Rádio Guanabara e eu disse:
- Eu vou também. Vamos só passar no campo para avisar ao pessoal que não vou poder jogar.
Fiz dois testes e passei nos dois: rádio-ator e locutor. Por isso eu digo que sou ator porque esqueci o tênis.

(...)

A rádio Guanabara contratou o Raul Longras (o homem do gooooolll eletrizante) e passou a fazer o futebol. Longras morava na rua Taylor e, até então, trabalhava na Rádio Clube do Brasil. A rua Taylor fica ali na Lapa, pertinho da Conde Lage, segundo ponto de puteiros da época, muito frequentado por mim. Ou o Longras foi com a minha cara ou deve ter-me reconhecido da sua jurisdição, não sei. O negócio é que ele salvou minha situação, com o dinheirinho a mais que me conseguiu. Eu fiquei sendo seu “locutor atrás do gol”. Eu era o “tem razão” que até hoje existe.

– ...raspando o poste! Ô Fulano.
– Tem razão, Longras. A bola passou raspando.

Minha voz era boa, minha cultura aceitável e meu conhecimento de futebol surpreendente. Penso que não há nada de que eu entenda mais do que futebol. Mesmo hoje, vez por outra causo surpresa com este conhecimento. Há alguns meses participei do mais importante programa de rádio do Rio Grande do Sul, Sala de Redação, com gente entendida do assunto, como o Paulo Santana, o Kenny, Lauro Quadros e outros, e todos ficaram surpresos, porque eu expliquei como seria um jogo Palmeiras e Internacional na véspera. Pô. Nasci dentro do futebol.
– Você vai trabalhar comigo.
O Longras não estava me convidando, mas praticamente intimando. Mais do que ótimo. Fiquei no segundo jogo. Não existia Maracanã. O Longras transmitia o jogo principal e eu ficava no outro campo dando as notícias.
– Alô, Longras !
– Fala, Anysio.
– Em General Severiano, primeiro gol do Botafogo. Otávio.
– Obrigado, Anysio.

Foi um enorme prazer, esse trabalho. Meu grande medo era um dia acontecer um problema com o som do Longras e eu ser obrigado a irradiar o jogo a que assistia. Seria impossível. Desde menino me acostumei a ver o jogo de longe. Vou explicar. Há três modos de se ver o jogo: junto com a bola, acompanhando-a – como os locutores; dentro do jogo, com o coração em cima da bola, como os torcedores; de longe, num plano afastado, numa tomada de grande-angular, vendo o campo inteiro, como os comentaristas. Sempre vi o jogo num longshot. Por esta razão não grito nos gols. Vejo o jogo sempre como comentarista, observando muito mais o que deveria ter sido feito e não foi do que o que foi feito. Senti que estava certo no dia em que Didi, num bate-papo de rua, me disse:

– Eu sou capaz de jogar a vida inteira sem errar um passe. Dar o passe certo não tem a menor importância. Importante é dar o melhor passe certo.

Mais do que o dinheiro que o Longras me possibilitou ganhar, ficou na minha lembrança a felicidade de ter visto pessoalmente algumas coisas lindas, como a estreia do Heleno no Vasco, em São Januário, quando o Vasco derrotou o São Cristóvão por onze a zero. E na semana seguinte, em Caio Martins, eu estava no campo quando o Vasco venceu por quatorze a um o Canto do Rio. Vi o Vasco bater de sete no Bangu, no velho campo da rua Ferrer. Foram meses inesquecíveis.
– Alô, Longras!
– Fala, Anysio.
– Em São Januário, sexto gol do Vasco; Heleno de Freitas.

Vasco, campeão de 1949.
Nunca falei tanto no rádio quanto nesses meses em que nada mais fazia que anunciar gols e mais gols do Vasco, campeão invicto, porque isso aconteceu quando já era 1949.
Meu Deus! Quanta coisa já aconteceu comigo. E quanta coisa ainda vai acontecer.
– Alô, Longras!
– Fala, Anysio.
– Décimo gol do Vasco...Lima.

Eu era vascaíno, o Longras sabia. Ele torcia pelo América, mas não se incomodava. Aliás, o próprio América nunca foi de incomodar a ninguém. Para tanto, invoco o testemunho de um dos meus ídolos, o Max Nunes, americano como também já fui e autor de uma frase antológica:
– O América é o segundo time de todos. Até do juiz.

(...)

O melhor Chico Anysio Show que fiz em toda a minha vida: na concentração do Santos. Eu tinha o melhor relacionamento possível com a direção do Santos. Apesar de saberem que eu sou torcedor do Palmeiras, cheguei a ser convidado para ser diretor do Santos. Não aceitei não sei por quê. Acho que o simples convite já me deixara orgulhoso o suficiente. O Santos sempre foi um clube muito simpático para mim e o Pelé um amigo querido. Ele salvou a gravação. Eu conto.

O Santos jogaria na quarta-feira à noite contra o Botafogo de Ribeirão Preto e o Lula marcou a nossa gravação para terça-feira de manhã. Na terça às oito e meia o caminhão de externas parou em frente ao estádio. Não havia ninguém além do porteiro.
– E os jogadores?
– Ah, como o jogo de amanhã é fácil, seu Lula suspendeu a concentração.
Pronto. Ali estavam o caminhão, o elenco, os técnicos, tudo pronto para a gravação, menos os jogadores. Corri à casa do Pelé. Dona Celeste me atendeu.
– O Dico está dormindo, mas sendo você, ele não se aborrece. Vai lá e acorda ele.
Pelé é exatamente o décuplo do que o Maradona desejaria ser. Levantou da cama num pulo quando soube da minha situação.
– Vai pro estádio e arruma tudo que eu sei onde todo mundo mora. Vou mandar todos eles lá pro campo.

Às nove horas começaram a chegar os monstros que formavam aquele timaço. Dorval, Mengálvio, Orlando, Zito, Coutinho, Pepe. Como havia uma cena com cada jogador, Daniel organizou a gravação de acordo com a chegada deles. Ao meio-dia chegou o Pelé.
– Mandei meu carro pra São Paulo buscar o Gilmar e o Mauro, que moram lá. Tenho uns negócios pra resolver e...a que horas eu posso chegar?
– Na hora que puder – respondeu o Daniel. – Deixamos sua cena para o fim.
– Antes das quatro ele chegava e pouco depois o carro dele trazia o Mauro e o Gilmar. Foi uma gravação incrível. Aquele time, além de jogar como ninguém, também sabia representar.

Todas as cenas ficaram ótimas. Pelé gravou com o Clarivaldo. (Clarivaldo era um personagem que falava aos berros – “Não sei se estou sendo claro”, ele dizia) Era o sequestro do Pelé, a cena. Fiz o que era possível para que desse uma risada, porque tudo se representava enquanto ele dormia. Ele nem balançou a pestana. A gravação terminou quase meia-noite, com um bate-bola entre mim e o Pelé, no gramado de Vila Belmiro. Eu com a camisa dez do Palmeiras. No final eles me levantavam para me jogar longe. A imagem parou comigo no alto.
– Sabem por que isso? – perguntei. – Isso é o Santos reconhecendo a superioridade do Palmeiras.

Eles então me atiraram na piscina com roupa e tudo. Nunca pagarei ao Pelé esta gentileza. Nem a outra de um jogo Botafogo de Ribeirão Preto e Santos, quando eu era comentarista esportivo do Geraldo José de Almeida. Conto.

Faríamos dois jogos no mesmo dia: à tarde Palmeiras e XV de Piracicaba, inaugurando o Estádio Municipal de Piracicaba e, à noite, Botafogo e Santos em Ribeirão Preto. De Piracicaba a Ribeirão é uma puxada. Nosso carro chegou ao estadinho do Botafogo às oito da noite mas o caminhão com as câmeras não chegava. Às nove horas o caminhão chegou e o jogo estava marcado para as nove e quinze. Nelson Spinelli, o locutor, foi ao vestiário do Botafogo pedir ao técnico Alfredinho que atrasasse um pouco a entrada do time em campo, para dar tempo de ligar e aquecer o equipamento. Fui ao vestiário do Santos e pedi ao Pelé que fizesse o mesmo. O Lula, treinador da equipe, deu a solução:

– O campo está cheio e nós não podemos dar à torcida nenhum motivo para bronquear conosco. Nós entraremos um minuto depois da entrada do Botafogo.
O Botafogo entrou às nove e vinte e cinco e o Santos às nove e vinte e seis. Perdemos os primeiros dez minutos do jogo, mas só depois que a lâmpada piloto foi acesa o Pelé começou a jogar. Nos primeiros dez minutos o Santos não viu a bola. Depois que a luzinha acendeu Pelé se ligou e o Santos meteu sete a um. É outra que também não pagarei nunca ao Pelé. Aliás há centenas que todos nós brasileiros nunca pagaremos a Ele.

Para saber mais sobre Chico Anysio, acessar: http://redeglobo.globo.com/platb/chicoanysio/

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A tragédia de Castilho


27 de novembro de 1927. Esse é o dia do seu nascimento. Castilho, um dos maiores goleiros na história do futebol brasileiro, especialmente no Fluminense e na Seleção Brasileira. E mesmo assim, a cada ano, seu nome passa praticamente despercebido pela grande mídia. No tricolor carioca têm o recorde de participações pelo clube com 696 jogos, e pela seleção participou de quatro Copas do Mundo. Não é pouco. Conquistou pelo Fluminense e pela seleção muitos títulos importantes. Durante toda essa trajetória sua qualidade técnica misturou-se com a fama de goleiro que tinha muita sorte. Não era só isso.


Dentro e fora dos gramados um de seus maiores amigos foi Telê Santana. Particularmente, tenho uma história que ficou marcada em minha memória. Telê era um homem “calejado” pela vida e durante o processo de produção de sua biografia (Fio de Esperança, Cia dos Livros), não o vi se emocionar por quase nada durante sua longa carreira como jogador e técnico profissional, contudo, o único personagem que o fez chorar durante as gravações foi relembrar o final trágico do amigo que se suicidara no dia 2 de fevereiro de 1987. Telê sofria com o afastamento forçado do futebol e entrou em depressão profunda, logo no início de seu tratamento e quando ainda estava sob o efeito de antidepressivos, lembrava-se constantemente de Castilho. 

Telê chora no velório do amigo Castilho.
Crédito: arquivo tese "O último voo do heroi", de Paulo Kastrup.

Apesar da distância do acontecimento, Telê chorava quando se lembrava do amigo, que se jogara do sétimo andar de um edifício. Afirmava que Castilho chegara ao gesto extremo porque também estava deprimido e ninguém havia percebido.

Como uma homenagem a Castilho, Literatura na Arquibancada reproduz abaixo, trecho de uma obra espetacular, talvez a melhor e mais completa que já se produziu no Brasil, sobre esta posição inglória do futebol: “Goleiros – Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1”. O autor é o jornalista Paulo Guilherme, um craque com as palavras que deixou a vida de Castilho eternizada com um texto de primeira.

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A vida de Castilho foi marcada por encontros e desencontros com a sorte. A força invencível à qual se atribuem os diversos acontecimentos da vida proporcionou a ele eventos de extrema felicidade e outros de profunda angústia. Dias de dor, sofrimento, sacrifício, conquistas, reconhecimento, alegria e solidão. Castilho experimentou na vida pessoal o que vivia diariamente como goleiro. Andou sempre na corda bamba, alternando alegrias e tristezas, como se freqüentemente defendesse um pênalti e logo em seguida tomasse um frango.

Castilho ganhou fama no Fluminense como um goleiro de muita sorte. Quando não fechava o gol com suas defesas extraordinárias, o imponderável acabava por lhe ajudar. Castilho fazia defesas sobrenaturais, era capaz de evitar o gol apenas com o olhar, mantendo-se estático no meio da meta e observando a bola chocar-se contra a trave. Em um jogo contra o América, em 1951, foram quatro bolas batidas em seguida na trave. As traves naquela época eram de madeira e tinham o formato quadrado. Muitas bolas, que poderiam tocar na trave e entrar se ela fosse como hoje, arredondada, acabam batendo e partindo para longe do gol.


Por causa da boa sorte, Castilho ganhou o apelido de “Leiteria”. O codinome aludia não só à infância do goleiro, que chegou a trabalhar no ramo dos laticínios, mas também à notoriedade alcançada na época por um entregador de leite do bairro das Laranjeiras, sede do Fluminense, que por duas vezes teve seu bilhete premiado na Loteria Federal. “Leiteiro” e “sujeito de sorte” viraram sinônimos no Rio por algum tempo.

A torcida do Fluminense passou a acreditar na força sobre-humana do goleiro. Castilho virou “São Castilho”, o primeiro goleiro do Brasil a ser “santificado” pelos torcedores por causa dos “milagres” que fazia debaixo das traves. O título carioca de 1951 foi uma prova de que o Fluminense contava com um goleiro que valia por dois. O time não era lá grande coisa. A diretoria não tinha dinheiro para fazer grandes contratações e decidiu apostar nos garotos vindos dos juvenis. A meta de Castilho era testada inúmeras vezes em cada partida. Mas o goleiro não se abalava com o assédio dos adversários. Sempre bem colocado e transmitindo segurança e confiança para seus zagueiros, Castilho livrava o Fluminense do massacre. E a sorte também fazia a sua parte.

Fluminense, na final do campeonato carioca de 1951.

Desde menino, Castilho nunca foi muito ligado aos estudos. Gostava mesmo era de jogar bola como ponta-esquerda dos times de várzea nos bairros onde passou a infância, primeiro em São Cristóvão, depois em Olaria. A vida no subúrbio era difícil para sua família. O pai, Ezequiel, tinha um pequeno comércio no bairro e a mãe, Mariana, precisava cuidar dos filhos. Castilho começou a trabalhar aos doze anos em uma carvoaria para ajudar na renda doméstica, e aos treze teve de largar os estudos para trabalhar em uma leiteria. Acordava cedo e subia no lombo de um burrico para distribuir leite aos fregueses. Sua mãe morreu quando ele tinha quinze anos, e Castilho teve de seguir trabalhando muito. Mas sempre que podia, passava o tempo livre jogando bola. Dois anos depois, foi levado pelo pai de Ademir de Menezes ao Olaria e, logo em seguida, para o Fluminense.

Se lhe faltou oportunidade nas escolas, Castilho fez do campo de futebol a sua sala de aula. Logo percebeu que para se destacar n o seu trabalho precisaria treinar muito e estudar os mínimos detalhes do jogo. Castilho era muito observador. Da sua posição enxergava bem o jogo, as características de cada adversário, os macetes dos atacantes na hora de chutar, as deficiências dos seus zagueiros, as possibilidades táticas de sua equipe. Essa capacidade de observação acabaria por transformá-lo em um treinador respeitável no futuro.

Castilho, na seleção brasileira, Copa de 1954.

Sua visão de jogo era marcada por uma anomalia de visão. Castilho era daltônico, não enxergava as cores como as outras pessoas. O que para muitos poderia ser um problema, para ele se tornou uma ajuda extra no seu trabalho. As bolas de couro alaranjadas que se usavam no início dos anos 50 eram mais fáceis de ser percebidas por sua visão dicromática. Nos jogos noturnos, Castilho também enxergava melhor a bola. Aprendeu que o goleiro tem que ser como um bom tenista e estar sempre com o olho grudado na bola, nunca desviar seu olhar dela para nada: “Não se deve parar de olhar a bola nem quando ela está nas mãos do gandula. Ela é nossa maior inimiga, e só vigiando-a o tempo todo que nós deixaremos de tomar o ‘frango do fotógrafo’, aquele que levamos por uma distração, por estarmos conversando”.


O goleiro logo percebeu a importância das cores no futebol e pediu para a diretoria do Fluminense que alterasse o seu uniforme. Até então, os goleiros jogavam com camisas escuras, pretas ou azul-marinho. Castilho percebeu que dessa forma o goleiro se tornava ponto de referência para o atacante. Os jogadores podiam entrar na área com a bola dominada e com o canto do olho já sabiam onde o goleiro estava. Assim, ficava mais fácil mandar a bola para o outro lado. Para Castilho, o goleiro devia estar muito bem camuflado. Por isso, passou a usar um uniforme cinza-claro, que se confundia com o cimento das gerais do Maracanã que, sob a ótica do atacante, fazia pano de fundo para o gol.

(...)


As mãos de Castilho.
Crédito: arquivo tese "O último voo do heroi", de Paulo Kastrup.

Em 1957, Castilho precisava fazer uma cirurgia para corrigir o dedo mínimo da mão esquerda, que tinha sido fraturado quatro vezes e calcificado de maneira errada – era ligeiramente virado para fora. Uma junta composta de cinco médicos levantou duas possibilidades de tratamento: colocar um enxerto ou fazer uma cirurgia para correção do eixo. Castilho teria de ficar pelo menos três meses sem jogar. O goleiro não gostou de nenhuma das duas propostas. Não queria sair do time em um momento tão importante do Campeonato Carioca, no qual o Fluminense lutava por mais um título. Foi então que ele apresentou uma solução rápida e inusitada: cortar o mal pela raiz, ou seja, amputar o dedo da mão:

“O fato concreto é que, no meu entendimento, meu dedo continuaria imóvel, e isso me roubava a autoconfiança. Foi quando pensei na amputação parcial. Só com ela eu me sentiria novamente confiante. Dr. Paes Barreto foi contrário à operação. Ficou então determinado que, para que houvesse a operação eu teria de assinar um termo de responsabilidade. Vivi um drama durante 48 horas. De um lado a minha convicção de que só a amputação resolveria o meu problema. No outro lado minha senhora e os médicos não concordavam. Telefonei para o Dr. Paes Barreto e fui franco. Se não houver operação não poderei mais continuar jogando, assim não confio mais em mim. No dia seguinte dei entrada na Casa de Saúde. Eram oito horas. Paes Barreto já me esperava. Antes da anestesia, ainda ouvi sua última frase: “Castilho, você é louco!”.

Castilho com o dedo amputado.
Crédito: arquivo tese "O último voo do heroi", de Paulo Kastrup.

E foi assim, sem metade do dedo mínimo da mão esquerda, que Castilho ergueu por duas vezes a taça de campeão do mundo, na Suécia e no Chile.

Castilho deixou o Fluminense em 1965 e até hoje foi o jogador que mais vezes vestiu a camisa do tricolor carioca, com 696 jogos. Ele passou um ano no Paysandu, onde encerrou a carreira em 1966 para se tornar técnico de futebol. Foi um ótimo treinador, tendo como maiores méritos o feito de levar o Operário de Campo Grande (MS) ao terceiro lugar do Campeonato Brasileiro de 1977 e ser campeão paulista com o Santos, em 1984. Dirigiu várias equipes do Brasil e o futebol árabe. E foi justamente na véspera de embarcar para os Emirados Árabes Unidos, onde tinha assinado contrato para dirigir uma equipe local, que Castilho voltou a ocupar as páginas dos jornais. O Brasil ficou chocado ao saber que o grande goleiro do Fluminense havia se suicidado.

Busto de Castilho,
na sede do Fluminense.

Chocado com a perda do amigo, Telê Santana, ex-companheiro de clube, resumiu quem foi o goleiro que defendeu com toda a dignidade a posição: “Se o Fluminense tivesse de homenagear um profissional, teria que levantar o busto de Castilho na frente da sua sede. 

Ele carregou o time nas costas. Foi o melhor goleiro que já vi.”









Fonte:
“Goleiros – Heróis e anti-heróis da camisa 1” (Paulo Guilherme, Alameda Casa Editorial, SP, 2006)

Para quem ainda quiser conhecer a vida de Castilho mais detalhadamente, Literatura na Arquibancada também recomenda a leitura de sua biografia, uma tese de mestrado de 2003, da Universidade Gama Filho, escrita por Paulo Fernando Kastrup, “O último voo do herói: Castilho, o herói Anti-Macunaíma”. Infelizmente, o material não foi publicado, mas está lá, nos arquivos da Universidade Gama Filho para quem quiser conferir.