sexta-feira, 30 de novembro de 2012

As memórias de Vampeta

Um livro que vai dar o que falar. “Vampeta – Memórias do velho Vamp” (sem cortes)(Editora Leya) é divertidíssimo, como o ex-jogador que rodou o Brasil e o mundo colecionando histórias. Todas elas lapidadas pelo craque do jornalismo Celso Unzelte.

Sinopse (da Editora)

“A editora LeYa lança em dezembro “Vampeta – Memórias do Velho Vamp”, depoimento do ex-jogador Vampeta ao jornalista Celso Unzelte, um livro não apenas para os fanáticos por futebol, mas para os fãs da alegria de viver.

Vampeta, um dos mais polêmicos atletas do futebol brasileiro, abre seu baú de histórias ao jornalista Celso Unzelte - de polêmicas a causos engraçados, este livro vai dar o que falar.

Terror dos adversários dentro de campo (e dos pais de mulheres fora dele), Vampeta está todo aqui. O livro só não saiu antes porque eu, enquanto tentava transcrever alguns dos depoimentos dados por ele, não conseguia parar de rir. O mesmo deverá acontecer com vocês na hora que começarem a ler. – Celso Unzelte

Pra mim, a vida é o seguinte: eu não sei o que vai acontecer amanhã, então procuro viver o dia de hoje sem fazer besteira para que não falte o de amanhã. A gente tem que estar sempre sorrindo. – Vampeta”.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo alguns trechos da obra:

Sobre as origens em Nazaré da Farinha:

(...)
“Eu ganhei muito dinheiro com bola, vivo muito bem. Realizei aquele sonho de ter carro importado, mulheres bonitas, ser uma pessoa pública, jogar na Seleção, em grandes clubes. Peguei as melhores mulheres que se pode pegar, tive dinheiro no bolso, altos salários. Mas eu não trocaria nada disso se pudesse voltar para aquela minha infância de Nazaré. Se o tempo pudesse estacionar nos meus quatorze, quinze anos, eu não mudaria nada. Era mais feliz quando tomava banho de rio (lá em Nazaré tem muito rio)” (...)


Sobre o apelido curioso:

(...)

“Vam...Peta...

O mundo é foda. Eu cheguei em 88 no Vitória e seis anos depois, em 94, já estava indo para o futebol holandês, pro PSV Eindhoven. Onde tudo é “van”, né? Van der Saar, van Bommel... Não tem o Marco van Basten? Então, eu quis acompanhar e virei o Marcos Vam... Peta!!!

Por causa disso, o Valencia, da Espanha, até quis me contratar, depois que já tinha um tempo que eu estava jogando na Holanda. Já estavam pra fechar o contrato quando viram que eu, apesar do nome começando com “van”, não era holandês, não: era brasileiro. Aí, desfizeram o negócio e acabaram comprando o Angloma, um lateral direito da seleção francesa que era da Inter de Milão. Cheguei na Holanda no tempo em que jogador, antes de ir pra Europa, tinha que começar no eixo Rio-São Paulo. Jogava primeiro no Corinthians, Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Santos, Palmeiras ou São Paulo, pra só depois poder chegar na Europa. Eu não: fui direto do Vitória pro PSV. Na Bahia, morava no alojamento do clube e pra treinar botava uma bermuda, um tênis, uma camiseta, por causa do calor.

Na Holanda, primeiro mundo, era tudo diferente. Os caras iam treinar de terno e gravata. No Brasil eu já era escolado, com dezoito anos tinha disputado dois Brasileiros. A gente já tinha ido a São Paulo, Rio, conhecido o Brasil todo. Mas eu nunca tinha ido pra Europa. Antes de chegar na Holanda, fui no máximo ao Equador e ao Peru, com o Vitória, fazendo excursão. Fui também ao Senegal, na África, em uma excursão do tipo “Itamar Franco”. É que o Palmeiras, campeão brasileiro, não quis ir e falou: “Vai o vice”.

Pra nós, do Vitória, era festa ir pra África. Fui aprendendo holandês. À noite, no hotel, queria jantar, apontava no cardápio e vinha o que eu comi ao meio-dia: pão, tomate, cebola, abacate. Puta que pariu! Não sabia falar nem inglês nem holandês. Eu, burro, em vez de marcar o que tinha pedido pra não pedir de novo, no dia seguinte acabava repetindo o mesmo pedido. Cheio de fome, não saía do hotel, não conhecia nada. Acostumado a comer moqueca de peixe, rabada, feijoada, galinhada, essas comidas pesadas, eu perguntava pro padre que me ensinava holandês: “Como é que eu faço pra comer uma carne, um frango?” Pedia pra ele chegar lá no cardápio, escrever num papel e deixar o papel comigo. Ele até escrevia, mas só que quando ia embora esquecia de me dar o papel, acabava levando junto com ele (o padre já tinha setenta e poucos anos). Aí, eu chegava lá no hotel, pegava um papel, desenhava um frango, desenhava um boi, desenhava um montinho de arroz. O cara ria e aí trazia um bife com arroz. Falei: porra, vou comer pizza. Pizza é igual no mundo todo. Fiquei quase um mês comendo pizza, até falar holandês e morar num apartamento”. (...)

Sobre o polêmico jogo entre Corinthians e Palmeiras que acabou em briga:

(...)

“A história fala que o grande rival do Corinthians é o Palmeiras. Eu, em 98, 99, pode ter certeza que tinha muita raiva do Palmeiras, que era um time do caralho, pra ganhar deles era foda. Eu perdi duas Libertadores pro Palmeiras e um Brasileiro pro Santos. O que me conforta, além da rivalidade, é que eu perdi pro Marcos, pro César Sampaio, pro Zinho, pro Alex, pro Evair, pro Arce, pro Júnior, lateral esquerdo, pro Júnior Baiano, pro Roque Júnior, pro Rogério, pro Oséas, pro Felipão... Você olha e diz assim: caralho, olha o time dos caras! É todo mundo da Seleção Brasileira. Tinha até mais qualidade que o Corinthians. Só que também no meio-campo eu, Rincón, Ricardinho e Marcelinho fazíamos chover. Com o Edílson e o Luizão na frente, Dida no gol...

Então, são jogos memoráveis em que o Palmeiras ganhava uma, a gente ganhava a outra. Em 99, na final do Paulista, eu e o Edílson tivemos um problema sério com o Felipão, que treinava o Palmeiras. O Palmeiras ganhou a Libertadores eliminando a gente, tirou a gente nos pênaltis, nas quartas de final. Só que na semana seguinte era o Campeonato Paulista, a final também, contra o Palmeiras. Eles entraram em campo com cabelo pintado de amarelo, rosa... No primeiro jogo, eu dou um carrinho no Tadei, o juiz não dá falta, eu levanto a bola, meto no Marcelinho, o Marcelinho cruza e o Edílson faz 1 a 0. Depois, Corinthians 2 a 0, Corinthians 3 a 0. A gente tinha perdido a Libertadores pros caras, estava engasgado. Aí eu tô saindo de campo, Felipão vem atrás de mim, me dá um tapa nas costas e fala:
— O que é teu tá guardado, tchê!
Olhei pra ele e falei:
— Ó, vai tomar no teu cu. E manda teu time treinar pra caralho, que agora, pra ser campeão paulista, vocês vão ter que ganhar de quatro.

Naquela mesma semana, o Felipão começou a falar que ninguém dava uma “chegada” no Edílson, que o Vampeta faz o que quer dentro de campo. Alguém gravou isso e botou na mídia, aí deu uma repercussão da porra. Eu e Edílson, a gente combinou de sacanear o Palmeiras. Afinal, eles tinham que ganhar de quatro pra ser campeão.

Foi aí que Edílson disse:
— Ó, então eu vou atravessar o campo fazendo embaixadinha.
O Dinei falou:
— Não, mete o lenço da Feiticeira ou o chicote da Tiazinha (duas mulheres gostosas que estavam fazendo muito sucesso na TV naquela época).
Mas o Edílson insistiu:
— Não, não... Eu vou atravessar o campo fazendo embaixada, mesmo.
Quer dizer: foi tudo combinado. Depois que empatamos por 2 a 2, com o título garantido, o Edílson fez as embaixadas. Aí o pau fechou e o Felipão guardou aquilo até nos convocar pra Copa do Mundo, em 2002”. (...)

Sobre os bastidores do título mundial interclubes, em 2000:

Vampeta e Rincón
(...)

“O Edílson e o Marcelinho, por exemplo, chegaram a brigar dentro do vestiário, com faca e tudo. Aquelas facas que não cortam ninguém, só laranja, mas brigaram. Briga por vaidade. Era difícil. O Rincón, também, já não gostava do Edílson acho que desde a época do Palmeiras, não sei. Tiveram umas confusões lá, mas a gente chegava dentro de campo e ganhava. O importante era chegar dentro de campo e ganhar.

Na Libertadores de 2009, a gente ia jogar com o The Strongest, da Bolívia, lá em Cochabamba. Ficamos um monte de semana treinando em Atibaia. Uma semana antes do jogo, o Marcelinho vai no meu quarto e diz:
— Vampeta, vamos tirar o Rincón do time. Ele atrasa muito o jogo, abre aquelas asas dele, não quer tocar a bola pra ninguém...
Eu falei:
— Você é louco? O cara joga pra caralho...
No meu quarto o Marcelinho não arrumou nada. Aí, ele foi no quarto do Edílson:
— Edílson, vamos tirar o “negão” do time? O “negão” é foda.
Você é amigo do Amaral, vamos botar o Amaral pra jogar. Ele vai marcar mais, vai roubar mais bola pra gente. O Rincón pisa na bola, a gente tá ganhando de 2 a 0 e ele fica segurando o jogo.

Rincón, Edílson e Marcelinho.
O Edílson falou:
— Aqui você não vai arrumar nada. Eu não gosto do “negão”, mas ele joga pra caralho!
Depois disso, eu estou dormindo. Não vou pro café da manhã, só pro almoço. Termino de almoçar e o Rincón fala:
— Quero uma reunião no meu quarto, todo mundo. Depois do almoço, todo mundo no meu quarto.
Os caras, então, protestaram. “Não, depois do almoço não, pô! Antes do treino da tarde, três e meia. O treino é quatro, três e meia a gente passa lá...”
O Rincón concordou: — Tá bom. Três e meia todo mundo no meu quarto e treino quatro horas. É meia horinha, rapidinho.
Vamos pro quarto do Rincón. Antes, eu falei pro Edílson:
— Reunião de novo? O que foi?
— Pô, tu não leu nos jornais, não? Marcelinho deu uma entrevista querendo que tire o Rincón do time de qualquer jeito, vai dar uma merda do caralho...
Estava todo mundo no quarto do Rincón: eu, Gamarra, Dinei, Nei, Maurício, Edílson, Silvinho, Edu, Kleber, Fernando Baiano, Mirandinha...
O Rincón então chega pro Marcelinho e fala, mostrando o jornal Lance!:
— Marcelo, o que é isso aqui, Marcelo?
Agora, Jornal da Tarde, Folha de S.Paulo, Estado de S. Paulo,todos com a mesma notícia: “Marcelinho exige a saída de Rincón do time”.
O Marcelinho vem:
— Ô, Freddy, vai tomar no cu! Tá acreditando na imprensa?
E o Rincón responde:
— Marcelo, não mandei você tomar no cu, Marcelo. Eu só estou conversando com você.
E pegou o Marcelinho pelo pescoço, com um braço só. Não sei se era esganadura ou enforcamento. A galera do deixa-disso vai tentar separar, separamos a confusão. Vamos pro treino.

* * *

Passa uma semana, vamos enfrentar os caras lá em Cochabamba. No fim, empatamos em 1 a 1. Estavam faltando três, cinco minutos pra terminar o primeiro tempo e o Edílson perdeu uma bola, deu um contra-ataque e o Nei fez uma defesa do caralho. O Rincón falou:
— Edílson, toca a bola, segura a bola. E o Edílson:
— Ô, colombiano... Vai tomar no cu, tu é o que mais erra no time eu não falo porra nenhuma!
Pra quê? Termina o primeiro tempo, entra o Rincón dentro do vestiário e vai subindo água, Gatorade, tudo na direção do Edílson.
Eu estava do lado dele. Levanto e falo:
— Freddy, calma! Calma aí!
— Vampeta, eu não vou bater nele, eu só quero conversar com ele.
Edílson, então, deu dois passos pra trás:
— Bate um caralho, rapaz... Tá com mania de bater nos pequenos?
Você bateu no Marcelo semana passada, quer me bater...
Bate no Vampeta, que é do teu tamanho!
Aí eu falei:
— Epa, para, para! Não me joga contra o cara, não! O cara é meu amigo...
Foi a vez do Nei, goleiro, falar:
— Calma, calma, gente!
E do técnico, que era o Evaristo de Macedo, emendar:
— Ô, Nei, você cala a boca. As estrelas podem brigar, porque se entendem. Você não é estrela, então fica quieto. Podem continuar a briga”. (...)

Sobre a passagem pelo Paris Saint Germain:

(...)

“Paris é uma festa!

Quando eu estava indo pro Paris Saint-Germain, fiz um contrato pelo qual tinha direito a dez passagens de primeira classe. Só que minha família, minha mãe, nunca gostou de sair da Bahia, meus irmãos também não. Venho convocado pelo Leão para um jogo contra a Colômbia, pelas Eliminatórias, aquele jogo no Morumbi que a torcida vaiou e nós ganhamos de 1 a 0, gol do Roque Júnior, aos 45 do segundo tempo. No dia seguinte, tenho que ir pra Paris. E o que foi que eu fiz? Peguei cinco passagens de primeira classe, transformei em econômica e levei oito mulheres comigo pra Paris.

Lá na França tinha eu, o Christian, centroavante, que é solteiro também, o Alex Mineiro, o Aloísio (que jogava no Saint-Etienne), o César (zagueiro) e o Lucas (centroavante, que jogou aqui no Corinthians, no Atlético Paranaense). Arrumei oito mulheres e estou levando comigo pra Paris. Só que quando chego no aeroporto vejo o Galvão Bueno, o Paulo Coelho, uma galera assim, que ia na primeira classe. O Galvão me cumprimenta e eu falo pra elas: “O Galvão Bueno taí... Pode dar uma merda... Vocês fingem que não me conhecem”. Estamos embarcando e o Galvão Bueno comenta comigo:
— Quanta mulher bonita...
Eu respondo:
— Pois é, devem estar indo desfilar lá em Paris...
Só que elas estavam todas comigo. Quando estávamos descendo em Paris, nós, da primeira classe, e elas, da econômica, na hora de pegar as malas, as meninas viraram pra mim e me entregaram:
— Patrão, patrão... As malas a gente pega onde?
O Galvão Bueno olhou pra mim na hora. E eu respondi:
— Não disse que elas tavam indo “desfilar”?
Elas ficaram comigo uma semana lá. Eu morava em um condomínio de embaixadores. Foram todas pra minha casa. Eu falava assim: “Ninguém faz um feijão aí? Ninguém cozinha?” E elas respondiam: “Que cozinhar, o quê? Nós estamos em Paris, vamos é pra Torre Eiffel!” (...)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Carta a Joelmir Beting


Na história da literatura mundial, cartas já foram (e continuam a ser) transformadas em livros. A de Mauro Beting, escritor e jornalista esportivo, filho de Joelmir pode, certamente, fazer parte de qualquer coletânea que um dia possa a ser produzida. Mauro Beting estava no ar, na rádio Bandeirantes, quando recebeu a notícia da morte de seu pai. Uma carta, ou melhor, um documento de rara emoção.

Por Mauro Beting

"Nunca falei com meu pai a respeito depois que o Palmeiras foi rebaixado. Sei que ele soube. Ou imaginou. Só sei que no primeiro domingo depois da queda para a Segunda pela segunda vez, seu Joelmir teve um derrame antes de ver a primeira partida depois do rebaixamento. Ele passou pela tomografia logo pela manhã. Em minutos o médico (corintianíssimo) disse que outro gigante não conseguiria se reerguer mais.

No dia do retorno à segundona dos infernos meu pai começou a ir para o céu. As chances de recuperação de uma doença autoimune já não eram boas. Ficaram quase impossíveis com o que sangrou o cérebro privilegiado. Irrigado e arejado como poucos dos muitos que o conhecem e o reconhecem. Amado e querido pelos não poucos que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

Meu pai.

O melhor pai que um jornalista pode ser. O melhor jornalista que um filho pode ter como pai.

Preciso dizer algo mais para o melhor Babbo do mundo que virou o melhor Nonno do Universo?

Preciso. Mas não sei. Normalmente ele sabia tudo. Quando não sabia, inventava com a mesma categoria com que falava sobre o que sabia. Todo pai é assim para o filho. Mas um filho de jornalista que também é jornalista fica ainda mais órfão. Nunca vi meu pai como um super-herói. Apenas como um humano super. Só que jamais imaginei que ele pudesse ficar doente e fraco de carne. Nunca admiti que nós pudéssemos perder quem só nos fez ganhar.

Por isso sempre acreditei no meu pai e no time dele. O nosso.

Ele me ensinou tantas coisas que eu não sei. Uma que ficou é que nem todas as palavras precisam ser ditas. Devem ser apenas pensadas. Quem fala o que pensa não pensa no que fala. Quem sente o que fala nem precisa dizer.

Mas hoje eu preciso agradecer pelos meus 46 anos. Pelos 49 de amor da minha mãe. Pelos 75 dele.

Mais que tudo, pelo carinho das pessoas que o conhecem – logo gostam dele. Especialmente pelas pessoas que não o conhecem – e algumas choraram como se fosse um velho amigo.

Uma coisa aprendi com você, Babbo. Antes de ser um grande jornalista é preciso ser uma grande pessoa. Com ele aprendi que não tenho de trabalhar para ser um grande profissional. Preciso tentar ser uma grande pessoa. Como você fez as duas coisas.

Desculpem, mas não vou chorar. Choro por tudo. Por isso choro sempre pela família, Palmeiras, amores, dores, cores, canções.

Mas não vou chorar por algo mais que tudo que existe no meu mundo que são meus pais. Meus pais (que também deveriam se chamar minhas mães) sempre foram presentes. Um regalo divino. Meu pai nunca me faltou mesmo ausente de tanto que trabalhou. Ele nunca me falta por que teve a mulher maravilhosa que é dona Lucila. Segundo seu Joelmir, a segunda maior coisa da vida dele. Que a primeira sempre foi o amor que ele sentiu por ela desde 1960. Quando se conheceram na rádio 9 de julho. Onde fizeram família. Meu irmão e eu. Filhos do rádio.

Filhos de um jornalista econômico pioneiro e respeitado, de um âncora de TV reconhecido e inovador, de um mestre de comunicação brilhante e trabalhador.

Meu pai.

Eu sempre soube que jamais seria no ofício algo nem perto do que ele foi. Por que raros foram tão bons na área dele. Raríssimos foram tão bons pais como ele. Rarésimos foram tão bons maridos. Rarissíssimos foram tão boas pessoas. E não existe outra palavra inventada para falar quão raro e caro palmeirense ele foi.

(Mas sempre é bom lembrar que palmeirenses não se comparam. Não são mais. Não são menos. São Palmeiras. Basta).

Como ele um dia disse no anúncio da nova arena, em 2007, como esteve escrito no vestiário do Palmeiras no Palestra, de 2008 até a reforma: “Explicar a emoção de ser palmeirense, a um palmeirense, é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… É simplesmente impossível!”.

A ausência dele não tem nome. Mas a presença dele ilumina de um modo que eu jamais vou saber descrever. Como jamais saberei escrever o que ele é. Como todo pai de toda pessoa. Mais ainda quando é um pai que sabia em 40 segundos descrever o que era o Brasil. E quase sempre conseguia. Não vou ficar mais 40 frases tentando descrever o que pude sentir por 46 anos.

Explicar quem é Joelmir Beting é desnecessário. Explicar o que é meu pai não estar mais neste mundo é impossível.

Nonno, obrigado por amar a Nonna. Nonna, obrigado por amar o Nonno.

Os filhos desse amor jamais serão órfãos.

Como oficialmente eu soube agora, 1h15 desta quinta-feira, 29 de novembro. 32 anos e uma semana depois da morte de meu Nonno, pai da minha guerreira Lucila.

Joelmir José Beting foi encontrar o Pai da Bola Waldemar Fiume nesta quinta-feira, 0h55."

Jogos Memoráveis


Quem, que goste de futebol, não tem guardado em algum cantinho da memória um jogo inesquecível? Não qualquer jogo, mas aquele que traga algum significado para retratar tamanha paixão. Por incrível que pareça, para o fanático torcedor brasileiro, nem sempre esses jogos são feitos de vitórias ou conquistas de títulos.

Por isso a importância de livros como esse: “Jogos Memoráveis do Botafogo” (Editora iVentura), de Auriel de Almeida. Que outros grandes clubes brasileiros revivam e eternizem esses momentos mágicos de tantos torcedores. Vale lembrar que a iVentura já publicou o “Jogos Memoráveis do Vasco”, o “Almanaque dos velhos Brasileirões” e vários outros títulos importantes para a literatura esportiva brasileira. Confira em http://www.iventura.com.br/ .

Sinopse (da Editora):

Participe de uma deliciosa jornada pelos jogos que marcaram época na história do Botafogo de Futebol e Regatas. No livro, que tem orelha do jornalista Mauricio Fonseca, prefácio de Rui Moura e depoimentos na quarta capa de Sonja Martinelli, torcedora símbolo do Botafogo na conquista do título de 1989, da cantora e compositora Isabella Taviani, do jornalista Roby Porto, e da atriz, piloto e jornalista Suzane Carvalho, são descritas 30 partidas inesquecíveis do clube.

Escolher os jogos memoráveis de um grande clube ao longo de mais de 100 anos não é uma tarefa fácil, mas necessária quando se pretende manter vivo para o torcedor atuações de gala dos jogadores, vitórias inesquecíveis, períodos sublimes e curiosidades que marcaram todos que estiveram presentes nos momentos narrados ou tomaram conhecimento, seja através da TV, do rádio, da internet, do jornal impresso ou de uma revista esportiva.

Baseado em um denso e cuidadoso trabalho de pesquisa, a obra nos brinda com passagens
emocionantes que enchem de orgulho o torcedor. A viagem do leitor tem início em setembro de 1907, passa pelas vitórias dos anos 1930, avança pelos anos de ouro do fantástico time que tinha Garrincha, Nilton Santos e inúmeros outros craques, mostra partidas importantes da trajetória alvinegra nos anos 1960, detalha a conquista histórica de 1989 e termina com o título carioca de 2010.

Prepare-se para participar de uma deliciosa jornada pelos jogos que marcaram época na história do “Glorioso”.

Apresentação
Por Carlos Fernando Rego Monteiro

Somente muito idealismo e amor ao esporte poderia concretizar o objetivo de lançar uma coleção falando dos jogos memoráveis de grandes clubes do futebol brasileiro. A “Coleção Grandes Jogos” nasce para ajudar na preservação da memória do esporte bretão em nosso país pois, lamentavelmente, a documentação da história do nosso futebol ainda é escassa, apesar do interesse crescente.

Escolher os jogos memoráveis dos clubes ao longo de mais de 100 anos não é uma tarefa fácil, mas necessária, quando se pretende manter vivos para o torcedor atuações de gala dos jogadores, vitórias inesquecíveis, períodos sublimes e curiosidades que marcaram todos que estiveram presentes nos momentos narrados ou tomaram conhecimento, seja através da TV, do rádio, da internet, do jornal impresso ou de uma revista esportiva.

Fonte de conhecimento e consulta para os amantes do futebol e de deleite para os apaixonados pelo clube do coração, a “Coleção Grandes Jogos” lança, agora, o segundo volume da série: “Jogos Memoráveis do Botafogo”, descrevendo 30 partidas inesquecíveis do Botafogo de Futebol e Regatas. Baseada em um denso e cuidadoso trabalho de pesquisa, a obra nos brinda com passagens emocionantes que enchem de orgulho o torcedor.

Neste segundo livro da coleção, a viagem do leitor tem início em setembro de 1907, passa pelas vitórias dos anos 1930, avança pelos anos de ouro do fantástico time que tinha Garrincha, Nilton Santos e inúmeros outros craques, mostra partidas importantes da trajetória alvinegra nos anos 1960, detalha a conquista histórica de 1989 e termina com o título carioca de 2010.

Então, prepare-se para participar de uma deliciosa jornada pelos jogos que marcaram época na história do “Glorioso”.

Prefácio
Por Rui Moura

Auriel de Almeida é um botafoguense apaixonadíssimo que nasceu há quase três décadas na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro. Botafoguense desde sempre?... Não exatamente. Embora seja filho de um torcedor do Glorioso, o nosso “investigador-escritor” tinha outras “fervorosas” influências familiares muito próximas e teve que lutar contra as tendências que o rodeavam, incluindo as dos colegas de escola, que o instigavam para outra escolha.

Inicialmente, o pequeno Auriel cedeu às pressões, mas a sua paixão por escudos mirava sempre o que ele considerava mais lindo: o da Estrela Solitária. E a camisa alvinegra também se mostrava mais bela do que as outras. Quando inquirido pelo seu pai sobre a razão da sua escolha inicial, Auriel respondeu que era porque se tratava da “maioria”. Papai, inteligente, respondeu-lhe que a maioria nem sempre faz a melhor escolha, e exemplificou o raciocínio. Então, as profundas dúvidas do nosso pequeno rapaz cresceram ainda mais.

Em 1990, após o bicampeonato carioca, Auriel já era realmente botafoguense, mas… como dizê-lo aos outros?... Eis que, em 1992, se mudou para o bairro da Tijuca e na nova escola assumiu-se orgulhosamente como botafoguense – definitivamente. A consolidação chegou em 1993 quando, ao lado do pai, vibrou com a disputa de pênaltis que levou o Glorioso à conquista da Copa Conmebol. Faltava algo mais para que a paixão absoluta tomasse conta da mente, do coração e da alma do nosso pequeno Auriel?

Sim… faltava… Túlio “Maravilha”! Em 1994, com o seu jeito fanfarrão e goleador, o craque encantou o nosso futuro “investigador-escritor”. Seguiram os títulos de 1995 a 1998 e, nos anos seguintes, Auriel assumiu o notável estoicismo botafoguense de resistir à escassez de títulos, passando com distinção a última grande prova e tornando-se um botafoguense da cabeça aos pés. E Auriel transformou o “sofrimento clubista” em uma espécie de “luxo da dor” com a sua incomensurável paixão pelo Glorioso – paixão sublimada muito acima da dor das derrotas ou do prazer das vitórias.

Entretanto, a sua curiosidade e a paixão pelo futebol e pelo Botafogo (pleonasmo?...) abriram-lhe novos horizontes. Da atração profunda pelos escudos que colecionava, Auriel passou à investigação em livros e revistas e, mais tarde, à Internet. Descobriu as cisões amadoras e profissionais, a história da Taça Brasil e tornou-se uma pequena enciclopédia para os seus amigos do colégio, descrevendo, de memória, os títulos dos clubes, os anos das conquistas, os nomes e a história de jogadores antigos, os causos curiosos etc.

A universidade “agravou” a paixão pelo futebol, porque Auriel descobriu o método científico e pôde tornar-se uma espécie de “profissional” da investigação futebolística. Foi um caminho sem regresso: Biblioteca Nacional, Arquivo Nacional, membro da RSSSF, colaboração em portais e páginas da Internet e, finalmente, o seu primeiro livro, publicado em 2011: “Passos do Campeão”, obra em que narra a par e passo a formidável conquista da Taça Brasil de 1968.

O profundo prazer de Auriel ao escrever sobre o Botafogo e o sucesso público da sua obra fê-lo trilhar um novo rumo sem bilhete de volta: a publicação editorial. E eis que num curto espaço de tempo concretiza a segunda ideia: foco nos “jogos memoráveis” do Botafogo de Futebol e Regatas.

Nesta magnífica obra, Auriel descreve brilhantemente 30 jogos memoráveis do futebol botafoguense, incluindo as decisões de muitos títulos importantes e outros jogos, tais como a maior goleada de todos os tempos no futebol brasileiro, o 1º clássico com o Flamengo, a 1ª taça Rio-São Paulo de 1930, o 1º jogo profissional, o “jogo do senta”, duas goleadas inesquecíveis sobre os flamenguistas, o título continental e os títulos nacionais, a extraordinária decisão contra a Juventus no Troféu Tereza Herrera, a inauguração do Engenhão e… o último título carioca com direito a uma “cavadinha” que abateu o Flamengo e um pênalti defendido pelo grande goleiro botafoguense.

A dificuldade de Auriel de Almeida foi na escolha dos 30 jogos, porque o Glorioso tem mais dezenas de títulos e jogos memoráveis na sua centenária e lendária história futebolística. De fora ficaram partidas relativas a alguns títulos estaduais e interestaduais, tais como os jogos decisivos dos títulos estaduais de 1912, 1930, o tri de 1932-33-34 e o título de 2006. Também não foram incluídas diversas decisões da Taça Guanabara e da Taça Rio nem do Torneio Rio-São Paulo de 1966 e 1998, assim como dezenas de decisões em que conquistamos títulos oficiosos de nível mundial, defrontando e vencendo equipes como o Barcelona, Bayern München, Benfica, Borussia Mönchengladbach, Leeds United, Anderlecht, Peñarol, River Plate, Boca Juniors, River Plate, Independiente e até seleções nacionais como as da Argentina, da União Soviética, do México ou de Cuba.

Porém, os leitores fãs de Auriel de Almeida podem ficar tranquilos quanto ao futuro, porque este é apenas o seu segundo livro e as glórias botafoguenses continuarão a brotar da “pena inflamada” do nosso “investigador-escritor”.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Chico Anysio e o Futebol


Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho ou simplesmente Chico Anysio nos deixou há quatro anos, no dia 23 de março de 2012. Em 12 de abril de 2016, estaria completando 85 anos. Do humorista ou comediante, todos sabem, mas mesmo no período pós-morte, pouco se falou do Chico apaixonado pelo futebol. Sim, e não é uma paixão qualquer, pois segundo o próprio Chico, a carreira consagrada em seus 80 anos de vida devia-se ao futebol. Você vai entender a razão nos trechos apresentados abaixo pelo Literatura na Arquibancada, extraídos de seu livro autobiográfico “Sou Francisco”, publicado pela editora Rocco, em 1992.

Um livro que merece ser lido de cabo a rabo, não apenas pelas experiências de Chico com o universo do futebol – como ele mesmo diz na obra, o melhor Chico Anysio Show foi feito numa gravação com o Santos de Pelé – mas por toda a trajetória do profissional que se considerava um ator e não um simples “comediante” ou “humorista”. Uma história imperdível que deveria ser reeditada o mais breve possível com todas as atualizações necessárias.

Sou Francisco
Por Chico Anysio

Eu sempre digo que sou ator porque esqueci o tênis. Isto pode não ser uma verdade absoluta, mas é relativamente uma verdade. Hermann Hesse defende, em um dos seus livros, a irrelevância do acaso, atribuindo a tudo de fortuito que acontece na vida uma desimportância que sempre me causou, se não um choque, uma pequena decepção.

Primeiro, porque Hesse sempre foi, para mim, um ótimo escritor e, em segundo lugar, porque defendo um ponto de vista absolutamente contrário. Acho que o que de mais importante a vida nos proporciona – depois da felicidade ímpar de acordar a cada dia – é justamente o acaso.

Por acaso eu sou ator. Talvez eu não seja o ator que imagino (levando-se em conta o que todos imaginam ser um ator), mas ator, porque dois terços da minha vida eu dediquei a este trabalho onde um cara faz o papel de médico ou palhaço, de chofer ou milionário, de mendigo ou pastor de almas, seja lá que personagem for. E isso é o que eu faço. A minha dúvida de ser ou não ser ator é produzida pelo descrédito dos críticos do meu país, que sempre preferiram me chamar de humorista ou de comediante, como se seu – pobre de mim! – não passasse de um Bernard Shaw, no primeiro caso ou, na melhor das hipóteses, de um Buster Keaton, no segundo.

(...)

Sempre gostei de futebol. Fui levado a gostar, porque meu pai era presidente do Ceará Sporting e muitas vezes fui aos treinos do Ceará com meu pai, e aos jogos também. O futebol fazia parte do meu dia-a-dia. Por isso eu sabia que o ataque do Botafogo era Álvaro, Paschoal, Carvalho Leite, Perácio e Patesko. Meu pai era botafoguense, como também o Elano, porque o Botafogo tinha as cores do Ceará. Mas eu era do contra. No Ceará eu torcia pelo Ferroviário e, no Rio, fiquei vascaíno. Só para chatear. Um vascaíno inacreditável, porque além da botafoguisse da família, o primeiro lugar onde eu morei no Rio foi numa pensão na rua das Laranjeiras (onde hoje é uma clínica médica), pertinho do campo do Fluminense, de onde fui sócio-dependente, sócio-atleta, joguei futebol, nadei, quebrei três vezes cada braço, fiz amigos que mantenho até hoje a começar dos tempos do cachorro-quente dançante, no bar da piscina, atravessando os bailes de carnaval, incluindo o baile da Atlantic. O Fluminense (o clube) é uma das coisas mais marcantes da minha vida. De tal modo que é quase um absurdo eu torcer contra ele. Vou corrigir enquanto é tempo: eu não consigo torcer contra o Fluminense. O máximo que atinjo é não torcer a favor.

(...)

Bigode
Como todo menino, eu pensava em ser jogador de futebol. Bolas. Se no tempo de Fortaleza, quando meu pai tinha a empresa, meu sonho fora ser trocador de ônibus, que havia de mau no sonho de ser jogador de futebol? Esse desejo cresceu, muito, quando vi o primeiro treino do Bigode, no Fluminense. Lembro que tirei uma fotografia com ele, ao lado de toda a meninada do clube que estava assistindo. Fiquei muito emocionado quando fui à loja do Bigode, anos depois, perto do Largo do Machado e, ao contar que assistira ao seu primeiro treino, ele me disse: “Eu sei. Olhe a fotografia aqui”.

E me mostrou a foto onde eu aparecia, com 15 anos, ao lado dele, ainda com a touca do Atlético Mineiro. Faz tempo que não vejo o Bigode, mas ele sempre foi um dos meus ídolos. Eu queria ser jogador de futebol. Embora pudesse desejar ser um Ademir, ou Danilo, ou Zizinho, eu queria ser um Jair. Jair da Rosa Pinto. Era esse que eu dizia que era quando jogava. Nunca brilhei no futebol, mas nunca fui dos últimos a ser escolhido no par ou ímpar. Dependendo do time eu era, até, meio indispensável. Tanto que a turma tinha um jogo combinado e eu fui intimado a comparecer. Jogo contra, no campo do Fluminense, que naquele tempo alugava o campo para jogos assim. A imposição era que os times jogassem descalços, para não estragar a grama.

– O jogo é no Fluminense, às três horas – avisaram.
Às duas eu estava no poste da esquina, esperando o pessoal. Não me lembro quem foi, mas um colega chegou e me disse que houvera uma mudança. O jogo seria no campo do Aliança, no fim da Rua General Glicério. O campo do Aliança era de terra e não dava para jogar descalço.
– Cadê o seu tênis?
– Eu não trouxe. Me disseram que o jogo era no Fluminense. Mas não faz mal. Vá indo com o pessoal, que eu vou em casa pegar o tênis e vou direto para lá.

Ao chegar em casa minha irmã Lupe estava de saída com um amigo dela para fazer um teste na Rádio Guanabara e eu disse:
- Eu vou também. Vamos só passar no campo para avisar ao pessoal que não vou poder jogar.
Fiz dois testes e passei nos dois: rádio-ator e locutor. Por isso eu digo que sou ator porque esqueci o tênis.

(...)

A rádio Guanabara contratou o Raul Longras (o homem do gooooolll eletrizante) e passou a fazer o futebol. Longras morava na rua Taylor e, até então, trabalhava na Rádio Clube do Brasil. A rua Taylor fica ali na Lapa, pertinho da Conde Lage, segundo ponto de puteiros da época, muito frequentado por mim. Ou o Longras foi com a minha cara ou deve ter-me reconhecido da sua jurisdição, não sei. O negócio é que ele salvou minha situação, com o dinheirinho a mais que me conseguiu. Eu fiquei sendo seu “locutor atrás do gol”. Eu era o “tem razão” que até hoje existe.

– ...raspando o poste! Ô Fulano.
– Tem razão, Longras. A bola passou raspando.

Minha voz era boa, minha cultura aceitável e meu conhecimento de futebol surpreendente. Penso que não há nada de que eu entenda mais do que futebol. Mesmo hoje, vez por outra causo surpresa com este conhecimento. Há alguns meses participei do mais importante programa de rádio do Rio Grande do Sul, Sala de Redação, com gente entendida do assunto, como o Paulo Santana, o Kenny, Lauro Quadros e outros, e todos ficaram surpresos, porque eu expliquei como seria um jogo Palmeiras e Internacional na véspera. Pô. Nasci dentro do futebol.
– Você vai trabalhar comigo.
O Longras não estava me convidando, mas praticamente intimando. Mais do que ótimo. Fiquei no segundo jogo. Não existia Maracanã. O Longras transmitia o jogo principal e eu ficava no outro campo dando as notícias.
– Alô, Longras !
– Fala, Anysio.
– Em General Severiano, primeiro gol do Botafogo. Otávio.
– Obrigado, Anysio.

Foi um enorme prazer, esse trabalho. Meu grande medo era um dia acontecer um problema com o som do Longras e eu ser obrigado a irradiar o jogo a que assistia. Seria impossível. Desde menino me acostumei a ver o jogo de longe. Vou explicar. Há três modos de se ver o jogo: junto com a bola, acompanhando-a – como os locutores; dentro do jogo, com o coração em cima da bola, como os torcedores; de longe, num plano afastado, numa tomada de grande-angular, vendo o campo inteiro, como os comentaristas. Sempre vi o jogo num longshot. Por esta razão não grito nos gols. Vejo o jogo sempre como comentarista, observando muito mais o que deveria ter sido feito e não foi do que o que foi feito. Senti que estava certo no dia em que Didi, num bate-papo de rua, me disse:

– Eu sou capaz de jogar a vida inteira sem errar um passe. Dar o passe certo não tem a menor importância. Importante é dar o melhor passe certo.

Mais do que o dinheiro que o Longras me possibilitou ganhar, ficou na minha lembrança a felicidade de ter visto pessoalmente algumas coisas lindas, como a estreia do Heleno no Vasco, em São Januário, quando o Vasco derrotou o São Cristóvão por onze a zero. E na semana seguinte, em Caio Martins, eu estava no campo quando o Vasco venceu por quatorze a um o Canto do Rio. Vi o Vasco bater de sete no Bangu, no velho campo da rua Ferrer. Foram meses inesquecíveis.
– Alô, Longras!
– Fala, Anysio.
– Em São Januário, sexto gol do Vasco; Heleno de Freitas.

Vasco, campeão de 1949.
Nunca falei tanto no rádio quanto nesses meses em que nada mais fazia que anunciar gols e mais gols do Vasco, campeão invicto, porque isso aconteceu quando já era 1949.
Meu Deus! Quanta coisa já aconteceu comigo. E quanta coisa ainda vai acontecer.
– Alô, Longras!
– Fala, Anysio.
– Décimo gol do Vasco...Lima.

Eu era vascaíno, o Longras sabia. Ele torcia pelo América, mas não se incomodava. Aliás, o próprio América nunca foi de incomodar a ninguém. Para tanto, invoco o testemunho de um dos meus ídolos, o Max Nunes, americano como também já fui e autor de uma frase antológica:
– O América é o segundo time de todos. Até do juiz.

(...)

O melhor Chico Anysio Show que fiz em toda a minha vida: na concentração do Santos. Eu tinha o melhor relacionamento possível com a direção do Santos. Apesar de saberem que eu sou torcedor do Palmeiras, cheguei a ser convidado para ser diretor do Santos. Não aceitei não sei por quê. Acho que o simples convite já me deixara orgulhoso o suficiente. O Santos sempre foi um clube muito simpático para mim e o Pelé um amigo querido. Ele salvou a gravação. Eu conto.

O Santos jogaria na quarta-feira à noite contra o Botafogo de Ribeirão Preto e o Lula marcou a nossa gravação para terça-feira de manhã. Na terça às oito e meia o caminhão de externas parou em frente ao estádio. Não havia ninguém além do porteiro.
– E os jogadores?
– Ah, como o jogo de amanhã é fácil, seu Lula suspendeu a concentração.
Pronto. Ali estavam o caminhão, o elenco, os técnicos, tudo pronto para a gravação, menos os jogadores. Corri à casa do Pelé. Dona Celeste me atendeu.
– O Dico está dormindo, mas sendo você, ele não se aborrece. Vai lá e acorda ele.
Pelé é exatamente o décuplo do que o Maradona desejaria ser. Levantou da cama num pulo quando soube da minha situação.
– Vai pro estádio e arruma tudo que eu sei onde todo mundo mora. Vou mandar todos eles lá pro campo.

Às nove horas começaram a chegar os monstros que formavam aquele timaço. Dorval, Mengálvio, Orlando, Zito, Coutinho, Pepe. Como havia uma cena com cada jogador, Daniel organizou a gravação de acordo com a chegada deles. Ao meio-dia chegou o Pelé.
– Mandei meu carro pra São Paulo buscar o Gilmar e o Mauro, que moram lá. Tenho uns negócios pra resolver e...a que horas eu posso chegar?
– Na hora que puder – respondeu o Daniel. – Deixamos sua cena para o fim.
– Antes das quatro ele chegava e pouco depois o carro dele trazia o Mauro e o Gilmar. Foi uma gravação incrível. Aquele time, além de jogar como ninguém, também sabia representar.

Todas as cenas ficaram ótimas. Pelé gravou com o Clarivaldo. (Clarivaldo era um personagem que falava aos berros – “Não sei se estou sendo claro”, ele dizia) Era o sequestro do Pelé, a cena. Fiz o que era possível para que desse uma risada, porque tudo se representava enquanto ele dormia. Ele nem balançou a pestana. A gravação terminou quase meia-noite, com um bate-bola entre mim e o Pelé, no gramado de Vila Belmiro. Eu com a camisa dez do Palmeiras. No final eles me levantavam para me jogar longe. A imagem parou comigo no alto.
– Sabem por que isso? – perguntei. – Isso é o Santos reconhecendo a superioridade do Palmeiras.

Eles então me atiraram na piscina com roupa e tudo. Nunca pagarei ao Pelé esta gentileza. Nem a outra de um jogo Botafogo de Ribeirão Preto e Santos, quando eu era comentarista esportivo do Geraldo José de Almeida. Conto.

Faríamos dois jogos no mesmo dia: à tarde Palmeiras e XV de Piracicaba, inaugurando o Estádio Municipal de Piracicaba e, à noite, Botafogo e Santos em Ribeirão Preto. De Piracicaba a Ribeirão é uma puxada. Nosso carro chegou ao estadinho do Botafogo às oito da noite mas o caminhão com as câmeras não chegava. Às nove horas o caminhão chegou e o jogo estava marcado para as nove e quinze. Nelson Spinelli, o locutor, foi ao vestiário do Botafogo pedir ao técnico Alfredinho que atrasasse um pouco a entrada do time em campo, para dar tempo de ligar e aquecer o equipamento. Fui ao vestiário do Santos e pedi ao Pelé que fizesse o mesmo. O Lula, treinador da equipe, deu a solução:

– O campo está cheio e nós não podemos dar à torcida nenhum motivo para bronquear conosco. Nós entraremos um minuto depois da entrada do Botafogo.
O Botafogo entrou às nove e vinte e cinco e o Santos às nove e vinte e seis. Perdemos os primeiros dez minutos do jogo, mas só depois que a lâmpada piloto foi acesa o Pelé começou a jogar. Nos primeiros dez minutos o Santos não viu a bola. Depois que a luzinha acendeu Pelé se ligou e o Santos meteu sete a um. É outra que também não pagarei nunca ao Pelé. Aliás há centenas que todos nós brasileiros nunca pagaremos a Ele.

Para saber mais sobre Chico Anysio, acessar: http://redeglobo.globo.com/platb/chicoanysio/

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Jogadas da Vida


São poucos e raros os ex-jogadores de futebol brasileiros que decidem escrever (ou reescrever) a própria trajetória de vida, pessoal e/ou profissional. Não foi o que aconteceu com o ex-jogador do Corinthians, Julio Cesar de Souza, dono de uma história incrível de superação, dentro e fora dos gramados. Julio ficou surdo e transformou a limitação em ferramenta de transformação. É dele o livro Jogadas da Vida – Uma história de amor e superação (Phorte Editora, 2009). Julio ainda mantém o Instituto Jogadas da Vida, que pode ser acessado no link http://www.jogadasdavida.com.br/instituto.php. Em 2009, Julio recebeu o Prêmio Esporte e Cidadania  conferido pela Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação em parceria com o Instituto de Responsabilidade Socioambiental da Associação dos Dirigentes de Venda e Marketing do Brasil (ADVB). Júlio César de Souza foi premiado na categoria “Atletas/técnico, por treinar uma equipe de futebol para surdos.

Sinopse (da Editora):

Jogadas da Vida – Uma história de amor e superação

Julio Cesar e Vladimir.
“O livro expõe a vencedora trajetória de vida do ex-jogador de futebol Julio Cesar de Souza, que iniciou sua carreira no Corinthians e, aos 19 anos, já era bicampeão paulista. A obra narra a passagem do profissional por vários clubes do Brasil até chegar a um time da Europa, onde ficou por 2 anos. Encerrou a carreira como atleta e foi trabalhar como representante comercial, carreira na qual também obteve enorme sucesso profissional, mesmo já apresentando sinais de surdez. Após ficar completamente surdo, voltou aos gramados mas, dessa vez, como responsável por um projeto educacional único no Brasil que já beneficiou milhares de crianças surdas”.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo a resenha produzida por Fábio Chaves de Souza em seu interessante blog, o Reflexões Voláteis – O canto do Casmurro que pode ser acessado por aqui: http://icekilmer.wordpress.com/2011/02/21/jogadas-da-vida/. Vale a visita.   

Jogadas da Vida, de Júlio Cesar de Souza
Por Fábio Chaves de Souza

Julio Cesar em sua estreia pelo Corinthians.
Algo importante a ser dito sobre esse livro logo de cara é que não se trata de um livro sobre futebol, ou melhor, não se trata apenas de um livro sobre futebol. Acima de tudo é um livro que narra a trajetória de uma pessoa que teve tudo pra dar errado, ou, que teve todas as oportunidades que se possa imaginar para ter desistido de seus objetivos, no entanto, escolheu sempre continuar. Seu nascimento por si só foi sua primeira batalha, e também seu primeiro lance de sorte (se é que se pode dizer isso, já que algo relacionado ao seu nascimento marcaria sua vida no futuro), já que a gravidez de sua mãe foi considerada uma gravidez de risco e foi recomendado que ela fizesse o aborto. A partir daí começa a trajetória vitoriosa, mas não sem muita luta, de Julio César de Souza, que é tão bem contada nesse livro.

O livro é escrito em primeira pessoa e apenas em alguns momentos Júlio César nos conta sua história na terceira pessoa, dando um tom de romance à sua narrativa. Ele começa contanto sua trajetória desde antes de seu nascimento quando seus pais ainda moravam no Chile, o que nos ajuda a compreender a personalidade deles e como ela o influenciaria. Toda a história é contada em paralelo com o cenário do futebol da época, nos dando a entender como sua trajetória estaria ligada intimamente com esse esporte.

O livro também nos mostra a difícil trajetória de um jogador profissional desde o fim dos anos 70 até o início dos anos 90, esvaindo quase que por completo aquele glamour que nosso inconsciente coletivo parece gostar de acreditar que exista no futebol. O livro segue contanto a história de Júlio César até o fim de sua carreira como jogador profissional, o início de uma nova vida profissional, o desenvolvimento de sua surdez chegando até nos levar ao momento mais importante do livro (minha opinião, claro) que foi o desenvolvimento de um projeto pioneiro de inclusão social aos portadores de deficiência auditiva através do esporte.

Jogadas da Vida é um livro que acerta logo em sua introdução contando com uma belíssima apresentação do antigo locutor esportivo e apresentador Osmar Santos. Além dele outros nomes famosos no futebol também marcam presença com depoimentos emocionantes, como é o caso de Zé Maria, Leivinha, Joaquim Grava, Coutinho, entre outros. Embora se trate de uma biografia Jogadas da Vida também se enquadra como livro de autoajuda, mas isso não é chega ser um problema. Em momento algum o livro tenta ser um guia definitivo sobre como superar adversidades e não apresenta também nenhuma receita de bolo de como fazê-lo. A história de Júlio César serve como um exemplo de superação sem cair para o piegas.

Julio César (direita), recebendo o
troféu  Esporte e Cidadania.
A parte mais emocionante do livro se dá no momento que Júlio César começa a apresentar todas as dificuldades que ele passou pra fazer acontecer seu projeto de inclusão social e quando ele nos dá um panorama das reais necessidades e dificuldades das pessoas com deficiência auditiva. Admito que o livro me ajudou a ter um panorama diferente das dificuldades passadas pelas pessoas surdas e a rever algumas posições que tinha quanto aos processos educacionais de maneira geral.

Jogadas da Vida é um livro que merece muito ser lido, seja por nos apresentar uma época em que o futebol era completamente diferente de hoje em dia, seja pelo exemplo de superação, ou pelo incrível trabalho que ele foi capaz de realizar como ex-jogador e que pode beneficiar mais de três mil crianças e adolescentes diretamente através de seus projetos sociais. De tudo que Júlio César de Souza fez o mais importante trabalho realizado por ele foi o de ter escolhido fazer a diferença para milhares de pessoas.

Sobre Julio Cesar:
Antes de perder a audição, jogou futebol profissional em equipes como: Palmeiras, Corinthians (“Democracia Corintiana”), Ponte Preta, Comercial de Ribeirão Preto, Antuerpen da Bélgica, etc), na década de 1980. Após encerrar carreira, trabalhou por 10 anos na multinacional Pirelli, como vendedor, gerente e supervisor de vendas. Atualmente, trabalha com crianças e jovens surdos. Desenvolveu o PROJETO “EDUCAÇÃO INTEGRAL DO SURDO ATRAVÉS DO ESPORTE”, o qual se dedica há cerca de dez anos, coordenando aulas em três escolas especiais municipais de São Paulo, que já beneficiaram milhares de crianças surdas. Paralelamente, escreveu o livro “JOGADAS DA VIDA”, lançado no Brasil, Europa e África com o principal objetivo de expor a trajetória de sua vida (jogador, vendedor, início da surdez e trabalho de educador de surdos), proporcionando oportunidades para reflexão sobre como é possível adquirir e/ou modificar conceitos éticos, morais e espirituais, através do autoconhecimento adquirido pela superação de obstáculos durante o desencadear destes acontecimentos. Atualmente, sua principal atividade passou a ser suas palestras e cursos de treinamento, focados para a área de vendas, área médica em clínicas/hospitais, entre outras, quando aborda temas importantes como: Excelência em atendimento, trabalho em grupo, ética profissional, marketing pessoal, vendas, negociação, etc.

Sobre Fábio Chaves de Souza:
É analista de TI, pós-graduado em Gerenciamento de Projetos (PMI) especializado em infraestrutura e frameworks de governança de TI, como ITIL, COBIT e ISO/IEC 20000. Paulistano, Corinthiano, morador de Indaiatuba e amante de MG. Tenho qualidades e defeitos como todos e uma dificuldade IMENSA de falar sobre mim, mas eu acho que isso é porque eu simplesmente não gosto de falar de mim mesmo e ponto. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A dor da traição


Torcedores apaixonados dificilmente se confessam traidores do clube de coração. Mas se existe algum tipo de traição "perdoável", essa é a do craque da imprensa brasileira, Clóvis Rossi, palmeirense há mais de 60 anos que "jogou a toalha"...Mas será mesmo? 
Por CLÓVIS ROSSI
Confesso, Palmeiras, eu tenho outro. Mas não espere um pedido de perdão nem arrependimento. Você mereceu a traição.
Relaxou, ficou murcho, feio, de quinta (categoria) ou de segunda (divisão).
Quando nos apaixonamos, faz uns bons 60 anos, você estava sempre entre os primeiros da classe.
A cada início de ano, sonhávamos sempre com um título, qualquer que fosse o torneio em disputa, a Taça Rio (lembra?), o Rio-São Paulo, o Paulistão, que nem era Paulistão à época, os torneios nacionais com seus diversos nomes ao longo do tempo que passamos juntos e em que éramos felizes -e sabíamos.
Nos últimos muitos anos, o sonho mais brilhante que podemos ter é o de ficar não no topo, mas entre os quatro primeiros, para disputar a tal Libertadores.
Não me casei com você, Palmeiras, para ser classe média apenas.
Pior: em vez de brigarmos para ficar entre os quatro primeiros, neste campeonato, brigamos para não ficar entre os quatro últimos.
Dá vergonha sair por aí de braço dado com você.
E dá mais raiva ainda verificar que nem merecemos a gozação dos casais inimigos.
Não tenho visto no meu Facebook brincadeiras de corintianos, são-paulinos e santistas, como se eles todos estivessem é com dó da gente.
Ou, pior, tristes por saberem que vão perder o saco de pancadas em que transformamos nosso lar.
Aliás, nem lar temos, destruído que foi o Parque Antarctica para a construção de uma arena, nome pomposo à beça para receber jogos da segunda divisão.
Eu até te perdoaria pelas poucas oportunidades que você me oferece do orgasmo de um gol.
Mas, caramba, na maioria dos jogos você não me dá nem o direito sagrado de gritar o “uuuh” do quase-gol, da bola que passou raspando.
Nosso amor cresceu nos tempos em que os companheiros de farra chamavam-se Ademir da Guia ou Luís Pereira.
Que interesse posso ter em sair com Maurício Ramos e Valdívia, que, aliás, mais sai do que entra em campo?
Fico olhando os casais vizinhos e vejo que reimportam um Fred, um Luis Fabiano, um Ronaldinho.
Nós reimportamos um Daniel Carvalho, que teria dificuldades em jogar no time dos casados na pelada da fábrica Matarazzo, se ainda há uma fábrica Matarazzo.
Aproveito para dar o nome do “outro”: F.C. Barcelona.
É mais bonito, continua na primeira divisão (da Espanha), disputa a Libertadores deles, fornece um punhado de craques para a seleção campeã do mundo e ainda por cima tem um certo Lionel Messi, um deleite para a vista e para os sentidos.
Vou ser feliz com eles.
Ciao, bello!
Sobre Clóvis Rossi:
Jornalista com mais de 40 anos de carreira, trabalhou em três dos quatro grandes jornais do país (O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil). Foi editor-chefe do Estado de S. Paulo, participou de incontáveis coberturas internacionais tanto por O Estado de S.Paulo como pela Folha, pela qual foi correspondente em Buenos Aires e Madri. É repórter especial e colunista da citada Folha