terça-feira, 30 de outubro de 2012

Os apelidos no futebol

Pelé, o apelido mais famoso do futebol.

Brasileiro adora colocar apelido em todo mundo. No futebol então, nem se fale. A origem de vários apelidos curiosos poderia até render um livro para a literatura esportiva (se é que já não existe algum por aí). Mas uma boa explicação sobre esse quase “fenômeno” (eis aqui outro apelido de um certo craque brasileiro), quem nos dá é o escritor Francisco Bosco, parceiro e filho do músico João Bosco, colunista do jornal O Globo. Como ele mesmo prefere afirmar, os textos que assina todas as quartas-feiras, não são crônicas, mas ensaios sobre temas diversos. (sobre isso, vale a leitura de artigo recente sobre seu mais recente livro, “Alta ajuda” – assim mesmo, com a letra L - http://oglobo.globo.com/cultura/francisco-bosco-compara-seus-ensaios-reunidos-em-livro-ao-futebol-de-salao-6186001).

No texto abaixo, extraído da coletânea Donos da Bola, organizada por Eduardo Coelho (Editora Língua Geral, 2006), uma interessante reflexão sobre algo tão comum no futebol, que sabemos, mas não compreendemos.

Os nomes e a bola: dos apelidos no futebol brasileiro
Por Francisco Bosco

Garrincha

Elenquemos aleatoriamente os nomes de alguns dos maiores jogadores de futebol do mundo, em todos os tempos: Johann Cruyff, Maradona, Di Stefano, Rummenigge, Roberto Baggio, Michel Platini, Zinedine Zidane, Mario Kempes, Marco Van Basten, Puskas, Eusébio, Stoichkov, e assim por diante. Agora elenquemos alguns dos nomes de grandes craques do futebol brasileiro, sem, obviamente, qualquer pretensão exaustiva: Didi, Vavá, Pelé, Garrincha, Tostão, Zico, Romário, Rivelino, Gérson, Reinaldo, Rivaldo, Robinho, Nilton Santos, Jairzinho, Falcão, etc. Salta aos olhos o fato de que, diferentemente do que se passa com os jogadores estrangeiros, chamamos a maioria dos nossos craques por apelidos ou diminutivos: Didi, Pelé, Zico, Jairzinho, Robinho... Ou sobrepomos um apelido, uma espécie de aposto, aos nomes próprios, como no caso de Gérson, que é “o canhota” (de ouro), ou no de Romário, “o baixinho”. Às vezes juntamos um apelido a um apelido: Zico, o galinho de Quintino.

"Muralha", revelação do Flamengo.
Recentemente, a diretoria do Flamengo baixou impositivamente a norma de que os jogadores do clube deveriam ser chamados pelo nome próprio ou sobrenome, mas não por apelidos. Para meu espanto, até onde pude acompanhar ninguém da imprensa repudiou essa imposição, nem mesmo deu a ela uma maior atenção. A principal manifestação de repúdio veio de um jovem jogador: Geninho, assim apelidado desde as divisões de base do clube, e que agora a diretoria insistia em transformar em Emerson. O argumento dos diretores do clube foi o da seriedade: os apelidos habituavam os jogadores à irresponsabilidade e eram prejudiciais a sua imagem. Todos os torcedores rubro-negros ou todos os amantes do futebol, pelo menos os cariocas, sabem o quão mal das pernas anda o Flamengo; o clube sofreu com seguidas administrações incompetentes ou corruptas, descaracterizou-se, perdeu a marca da raça e tornou-se, de fato, o clube da irresponsabilidade, onde o profissionalismo deu lugar à famigerada turma do “chinelinho” (jogadores que simulavam contusões ou forçavam suspensões para não jogar, não viajar com a delegação, enfim, jogadores, cujo representante maior foi sem dúvida o talentoso mas pouco inteligente Felipe, que passavam a maior parte do tempo de chinelos, à margem do campo de treinamento). Assim, a sábia diretoria do Flamengo concluiu que o grande culpado da farra eram os apelidos, e mandou proibi-los.

Ronaldinho Gaúcho
Ocorre que, precisamente, a especificidade do futebol brasileiro está em certa irresponsabilidade: na ginga, na arte do engano, na dissimulação. Todo apaixonado por futebol sabe que jogar bem é saber enganar o adversário: a finta, o drible, a pedalada, o corta-luz, o elástico, o passe à la Ronaldinho Gaúcho (olhar para um lado e passar para o outro), o chute com efeito, etc. O futebol é a arte da mentira, mas uma mentira inventada e contada pelo corpo em uma fração de segundos. O drible é isso: o jogador diz, com uma breve sintaxe de pernas e tronco: “vou pra esquerda”, o marcador, seu corpo, acredita, segue para a esquerda, e o jogador realiza o drible indo para a direita. A lógica do futebol é a do engano, e suas operações são realizadas pelo corpo em frações de segundo. O jogador rápido é aquele que pensa com o corpo, sem mediação da cabeça: se parar para pensar, já era. Dissimular, mentir, esconder (na pedalada e no corta-luz os jogadores escondem por um instante a bola - instante suficiente para desnortear o marcador), assim procede o melhor futebol do mundo, o brasileiro. A diretoria do Flamengo comportou-se como um marcador ludibriado; pressentiu que havia uma associação entre os apelidos e a irresponsabilidade, mas confundiu decisivamente o lugar das coisas: não soube distinguir a irresponsabilidade fora do campo, condenável, da irresponsabilidade dentro do campo (aquela dos dribles, da arte do engano), desejável. Pois bem, que relação tem com tudo isso os apelidos?

O escritor Miguel de Unamuno dizia de nossa língua que o português é o espanhol sem ossos. Mario de Andrade, que tomou para si a tarefa de dar à língua portuguesa escrita no Brasil um caráter nacional (é a tentativa do fraco romance “Amar, verbo intransitivo”, e do extraordinário romance “Macunaíma”), afirmava que não se deveria falar em “língua brasileira”, mas em “língua nacional”, na medida em que a língua que compartilhamos é o português (sob os decisivos aspectos sintático e morfológico), mas um português deformado, por dentro, pelas características sócio-culturais do Brasil (1).

Gilberto Freyre, numa emocionante passagem de “Casa-Grande & Senzala”, fala de como os escravos, notadamente as mucamas, “mastigaram” a língua portuguesa, tiraram-lhe os ossos, a fim de que as crianças pudessem falar sem engasgar. Assim, a presença da(s) língua(s) africana(s) no português, junto ao modo sócio-afetivo que regulava as relações na casa-grande, foi desossando a língua portuguesa falada no Brasil, conferindo-lhe um caráter inequivocamente nacional. Desossadas eram as relações sócio-afetivas entre senhores e escravos, filhos de senhores e muleques, amas e mucamas: relações marcadas por contradições e ambivalências de que nenhum pensamento unilateral pode apreender a verdade. Gilberto dá como exemplo a famosa colocação do pronome oblíqüo antes do verbo, emprego gramaticalmente errado, mas afetivamente justo: no lugar de um “dá-me”, imperativo, distante e austero, o “me dá” carinhoso e quase infantil. O “me dá” é característico do português do Brasil, uma construção lingüística formada pela singularidade social deste país.

Gilberto Freyre
Gilberto fala também da transformação dos nomes próprios em apelidos, geralmente por via de repetição de sílaba ou diminutivo: Mariazinha, Mané, Fafá, Bebeto, Toinha, Cacá, etc. O diminutivo indica um tratamento próximo, carinhoso, ao passo que a repetição da sílaba (geralmente a inicial) remete à linguagem infantil. Também aqui reinventam-se os nomes investindo neles toda a carga afetiva que caracterizava as relações sociais no processo de formação do Brasil. São esses traços singulares da formação social do Brasil - em que o afeto cumpre importante papel – que fazem com que a pronúncia brasileira do português soe, como sugere Antenor Nascentes, “arrastada e suave”, em comparação àquela, “rápida e energética”, do português de Portugal. Daí, ainda, ter Eça de Queirós denominado português com açúcar a fala do Brasil. 

Os apelidos e diminutivos são, portanto, traços da formação do Brasil inscritos nos nomes. Traços que trazem a marca de uma afetividade ambígüa, forjada no seio de contradições sociais que o afeto a um tempo amenizava e mascarava (como sintetizou perfeitamente Sergio Buarque de Holanda no conceito de “homem cordial”). Os apelidos e diminutivos remetem assim às ambigüidades constitutivas do Brasil, à forma escorregadia de se manter as tensões sob controle, procurando operar por dentro das contradições, tentando achar brechas e acomodações ao invés de partir para um confronto aberto: é a malandragem, ou o famoso “jeitinho brasileiro”. O malandro é justamente o tipo que surge da permeabilidade da formação urbana do Rio de Janeiro no começo do século XX, em que as fronteiras, físicas e morais, entre a lei e o crime não eram bem determinadas, em que diversas classes sociais dividiam um mesmo espaço indistinto. O malandro é aquele que evita a confrontação, é aquele que ocupa dois espaços contraditórios ao mesmo tempo: é a ambigüidade encarnada, corporalizada. A ginga do malandro atualiza, no corpo, momentos decisivos da formação brasileira. Assim também a síncope no samba, o “negaceio estrutural” (como sugere José Miguel Wisnik) que lança o corpo de um lado para o outro, o corpo que finge estar aqui e se move para lá, o corpo que engana e dissimula, o corpo escorregadio, desossado.

Gilmar "Fubá", ex-jogador do Corinthians.
Tudo isso é bastante conhecido, como são demasiadamente conhecidas também as mazelas que um tal desossamento ético traz para o país. Mas se trata, em primeiro lugar, de reconhecer esse desossamento como traço formador do Brasil, e em seguida de saber delimitar os espaços em que ele é desejável - como no futebol ou no ritmo musical - e aqueles em que é nefasto - como na política. É possível, infelizmente, que a parte positiva da cordialidade, o afeto hospitaleiro, esteja se dissolvendo, como argumentou Contardo Calligaris em artigo relevante, em meio à insustentabilidade do mascaramento da catástrofe social brasileira (2). A relação entre pessoas de classes sociais diferentes passa a ser marcada pela hostilidade, não pela cordialidade. É claro, entretanto, que não se trata de fazer o elogio do homem cordial, mas de tentar preservar o afeto e a proximidade ao mesmo tempo em que tentamos respeitar as leis e confrontar abertamente as mazelas sociais. Desafios do Brasil.

Leônidas da Silva, o garoto pobre
que virou o "Diamante Negro".
Mas deixemos essas questões amplas demais para serem tratadas aqui e voltemos aos apelidos. Os apelidos tiram os ossos dos nomes próprios, estão investidos de afeto e atualizam, no nome, características decisivas da formação brasileira. Os apelidos nos enviam imediatamente ao mesmo processo social que veio a dar no malandro, no samba e na arte do engano dos grandes craques de nosso futebol. Em seus primórdios, o futebol brasileiro, importado da Inglaterra, importara-lhe também os nomes: goalkeeper, center-half, referee; assim como os jogadores, que, no começo do século XX, quase todos brancos e de classes altas da sociedade, eram chamados em geral por seus nomes e sobrenomes. A história dos apelidos, como deixa entrever o livro de Mario Filho, “O negro no futebol brasileiro”, confunde-se com a história da ascensão do negro no futebol brasileiro, e, portanto, com o processo de apropriação brasileira do esporte bretão. Os apelidos flagram o processo mesmo de abrasileiramento do futebol: o momento em que aquela “gente de classe baixa, mal sabendo ler e escrever, com um nome só, às vezes até sem nome, apenas com um apelido”(3) o momento em que essa gente vai abrindo seu caminho em meio ao racismo escancarado que era vigente no mundo do futebol.

Arthur Antunes Coimbra, o Zico.
Quando se fala em Pelé, Mané, Zico, Robinho, estamos diante do Brasil - dos senhores e escravos, das mucamas e muleques, dos malandros e navalhas, dos quadris e do gingado. Os apelidos, pelo diminutivo e pela repetição, remetem à linguagem infantil, e daí à ludicidade, que é o fundamento de todo jogo, principalmente o do futebol. Os apelidos são lúdicos como o jogo de bola: já prefiguram o corpo no nome. Os apelidos jogam bola sozinhos, já fazem o aquecimento, são um espetáculo à parte. Na hora do par ou ímpar, quem você escolhe para o seu time, Emerson ou Geninho? Você confiaria em um ponta-esquerda chamado Roberto Augusto? De lado as brincadeiras, um corpo desossado, gingador e irreverente reivindica um apelido, um diminutivo, um nome também ele lúdico e sem ossos. A história do nosso futebol é também a história dos apelidos. Não conhecemos Édson Arantes do Nascimento ou Arthur Antunes Coimbra, mas o que eles faziam dentro de campo e não se acomodava a esses nomes duros, rígidos. A diretoria do Flamengo deveria ter ossos ela mesma, ser responsável, transparente, firme – deixar os apelidos nomearem o engano, a irreverência, a alegria, a encantadora molecagem que se pratica dentro das quatro linhas.

Notas:
(1) A controvérsia sobre a denominação da língua praticada no Brasil já mobilizou muitos escritores, gramáticos, filólogos e lingüistas desde, pelo menos, José de Alencar. Antenor Nascentes lembra que houve mesmo um projeto de lei, apresentado à Câmara Municipal do Distrito Federal, em 1935, propondo a obrigatoriedade da expressão “língua brasileira”. Nascentes, tal como Mario de Andrade (e, mais tarde, um Celso Cunha), defende contudo que esta denominação é equivocada, na medida em que “faltam-lhe [à língua falada no Brasil] as características que lhe dêem a categoria de uma língua”. E argumenta: “O sistema fonético é o mesmo do português; na pronúncia normal só se nota a ausência do e reduzido. As flexões são idênticas; morfemas de número (o s), de gênero (o a), de grau (íssimo), desinências pessoais e temporais dos verbos não apresentam discrepância. A sintaxe, a não ser o caso da colocação dos pronomes oblíquos, poucas variações apresenta. A diferença de sotaque (notada dentro dos próprios países) é secundária. O abundante vocábulo de origem tupi e africana não atinge o cerne da língua portuguesa, pois as palavras fundamentais, como os nomes das partes do corpo, de parentesco, os numerais, os verbos que indicam as ações essenciais à vida, as partículas são todos portugueses”. A propósito, o projeto, submetido à resolução do então prefeito, Dr. Pedro Ernesto, foi por este vetado através dos seguintes termos: “O projeto fere a verdade científica”. (cf. NASCENTES, Antenor. Estudos filológicos. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2003, pp 309-316.)

(2) O artigo a que me refiro, intitulado “Do homem cordial ao homem vulgar”, consta no caderno Mais!, da Folha de São Paulo, edição de 12 de dezembro de 1999.

(3) FILHO, Mario. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, p. 137.

Sobre Francisco Bosco:
Ensaísta e letrista, parceiro e filho de João Bosco, Francisco é autor dos seguintes livros: Da Amizade (Ed. 7Letras, 2003), Dorival Caymmi (Ed. Publifolha, 2006), Banalogias (Ed. Objetiva, 2007) e E livre seja este infortúnio (Ed. Azougue, 2010). É doutor em teoria literária pela UFRJ e colunista do jornal O Globo.

Um comentário:

  1. Gilberto Freyre, numa emocionante passagem de “Casa-Grande & Senzala”, fala de como os escravos, notadamente as mucamas, “mastigaram” a língua portuguesa, tiraram-lhe os ossos, a fim de que as crianças pudessem falar sem engasgar. Assim, a presença da(s) língua(s) africana(s) no português, junto ao modo sócio-afetivo que regulava as relações na casa-grande, foi desossando a língua portuguesa falada no Brasil, conferindo-lhe um caráter inequivocamente nacional. Desossadas eram as relações sócio-afetivas entre senhores e escravos, filhos de senhores e muleques, amas e mucamas:

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