terça-feira, 30 de outubro de 2012

Maradona: a magia e o peso da camisa 10


30 de outubro, dia de festa para um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Diego Armando Maradona completa 55 anos de uma vida repleta de altos e baixos. Glória e fracasso. Vida e ressurreição...

Um legítimo dono da 10. Seres especiais, retratados no livro A Magia da Camisa 10 (Verus Editora, 2006), de André Ribeiro e Vladir Lemos. O capítulo abaixo, descreve essa “louca” vida de Maradona...

“O ano de 1986 foi a glória desse camisa 10 baixinho, o momento alto de uma história carregada de predestinação, mas que no início pode ter parecido apenas uma empolgação infantil.

Diego Armando Maradona nasceu em 30 de outubro de 1960 e foi o quinto dos oito filhos do operário Diego e de dona Tota. Na infância pobre, vivida em Villa Fiorito, subúrbio de Buenos Aires, Las Sete Canchitas era o campinho que ficava próximo à sua casa. É nesse cenário que o garoto de apenas nove anos começa a jogar pelo time de seu bairro, conhecido como La Estrella Roja. Nessa fase da vida, Maradona era apenas o garoto humilde chamado carinhosamente pelos amigos de Pelusa. Um deles, Goyo Carrizo, propôs ao amigo craque que fizesse um teste no Cebolittas, equipe infantil do Argentino Juniors. O único problema é que dom Diego, pai de Maradona, não tinha dinheiro sequer para pagar o ônibus que levaria o filho ao treino. O jeito foi aceitar um empréstimo do pai de Carrizo. O talento precoce, marcado pela habilidade para chutar e driblar com a perna esquerda, facilitou sua aprovação no teste. 

Maradona, em 1973.
No dia 20 de outubro de 1976, Maradona ganhou como presente de aniversário antecipado a estreia pelo time profissional do Argentino Juniors. Não houve gol nem jogadas geniais, mas, ao substituir um jogador de meio-campo, mostrou que não poderia ficar de fora. Pelusa foi promovido e ganhou novo apelido: El Pibe de Oro (O Garoto de Ouro). Quatro meses mais tarde já estava em campo defendendo a seleção da Argentina na goleada por 5 a 1 contra a Hungria.

Os movimentos clássicos do futebol soavam simples nos pés do pequeno jogador. A condição de artilheiro do campeonato metropolitano de 1978, quando marcou 22 gols, fez de Maradona o nome certo para a Copa que se aproximava. Só quem não pensava assim era o técnico César Luis Menotti, que o considerava inexperiente aos 17 anos. A Argentina ganhou o primeiro Mundial disputado em seu país em meio a uma dolorosa ditadura.

No ano seguinte conquistaria o primeiro título importante com a seleção ao vencer o Mundial Sub-20, disputado no Japão. O jogo contra a então União Soviética terminou com o placar de 3 a 1, principalmente devido à visão de jogo sem igual de Maradona, autor de um dos gols.

Com jogadas geniais, executadas por uma canhota espetacular, Diego começava a despertar a paixão dos fanáticos torcedores argentinos, especialmente os do Argentino Juniors, que o viram marcar 116 gols e ser o artilheiro do Campeonato Argentino durante quatro anos consecutivos. Suas atitudes dentro e fora de campo eram comparadas às de um rei que tomava decisões de maneira passional. Maradona tinha o tamanho exato do craque disfarçado. Escondeu todo o tempo sua maneira sublime de jogar bola em um singelo metro e sessenta e seis.

Em novembro de 1980 foi aplaudido de pé após marcar quatro gols na goleada por 5 a 3 em cima do Boca Juniors, seu clube do coração. Com os olhos mareados, o craque confessou ao final da partida: “Estou muito emocionado porque toda a minha família torce para o Boca Juniors”.

A confissão seduziu os dirigentes do clube de cores azul e amarela, e três meses depois Maradona era comprado por 2,5 milhões de dólares. Dava um passo decisivo em sua carreira profissional ao estreitar as relações com o clube que mais amava. Revelou-se genial e logo na primeira temporada conquistou o título argentino após marcar 28 gols nas 40 partidas em que atuou com a camisa 10 do Boca.

Pouco antes do início da Copa da Espanha, Maradona transformou-se no jogador mais caro do mundo quando foi comprado por oito milhões de dólares pelo Barcelona. Na Copa, a derrota para a Bélgica, na estreia, foi esquecida com uma goleada sobre a Hungria e uma vitória sobre El Salvador. Mas na fase seguinte, depois de perder para a Itália, Maradona deixaria de sonhar com um triunfo mundial ao cruzar com o futebol-arte da seleção brasileira, de Zico, Falcão e Sócrates. O placar adverso de 3 a 1 revelou outra face de Diego, tão verdadeira quanto sua genialidade. Emocionalmente abalado, acabou expulso depois de agredir o volante brasileiro Batista em uma jogada sem maior importância.

Ao vencer a Copa do Rei com o Barcelona, na temporada 1982/1983, passou a ser cobiçado pelo futebol italiano. Maradona, em meio a essa boa fase, assim como Zico, sofreu as dores de uma contusão séria. Ao enfrentar o Atlético de Madrid, teve o joelho direito atingido por Goicoechea. A recuperação lenta deixou-o de fora dos gramados até o final do ano. 

Recuperado, em 1984 Maradona é comprado pelo Napoli, da Itália, em uma transação milionária que gerou muitas suspeitas. Os 12 milhões de dólares gastos pelo modesto time italiano começaram a retornar aos cofres do clube logo no dia de sua apresentação aos torcedores. Não havia jogo nem adversário em campo, e mesmo assim 60 mil torcedores pagaram para ver Maradona aterrissar em um helicóptero no centro do gramado do Estádio San Paolo. 

No México, terra em que Pelé viveu o apogeu, Diego escreveria a mais bela página de sua história. A Copa do Mundo de 1986 seria dele, em todos os sentidos. No dia 22 de junho, no instante em que Argentina e Inglaterra entraram no gramado do Estádio Azteca para disputar as quartas-de-final sob os olhos de quase 115 mil torcedores, o mundo sabia que não se tratava apenas de um jogo de futebol. Havia dentro de cada jogador a mágoa de um combate feroz. Os ingleses haviam vencido a guerra das Malvinas e retomado as ilhas que a geografia deixava parecer muito mais argentina. Mas as forças britânicas haviam cruzado o oceano para hastear em solo longínquo sua bandeira. A vitória agora seria carregada de simbolismo. Bastou o árbitro tunisiano Ali Bennaceur soprar o apito para Maradona roubar a cena do espetáculo.

O primeiro tempo já havia atormentado as emoções dos torcedores quando um longo lançamento partiu em direção à área britânica. O baixinho Maradona não se intimidou diante do goleiro Shilton, armou a cabeçada e, discretamente, tocou a bola com a mão para dentro do gol. A ousadia não foi punida; ao contrário, premiada com a marcação do primeiro gol da partida. E tinha mais... muito mais.

Três minutos depois, Maradona partiu do meio de campo como quem dispara um tiro de misericórdia. Traçou uma linha imaginária, pendendo para a lateral da cancha, e avançou sobre o território adversário. Não foram poucos os que tentaram detê-lo. Um, dois, três, quatro, cinco adversários. Um avanço que só terminou depois de driblar o mesmo goleiro Shilton e entregar a bola, com uma força impiedosamente calculada, para o fundo da rede. De nada adiantaria o gol de Lineker próximo do final do jogo. A vitória por 2 a 1 alcançada, segundo Maradona, por “la mano de Dios” (a mão de Deus), entrava para a história.

Na semifinal contra a Bélgica, o placar de 2 a 0 foi construído com gols do camisa 10.

Na final contra a Alemanha, Maradona preferiu o enredo já usado por outros craques e reservou-se a um papel que o privou de colocar a bola na rede. Mas era sem volta. Burruchaga, ao marcar o gol do título, deu à Argentina a Copa de Maradona.

Reconhecido como gênio, em 1987 El Pibe de Oro conquistou ainda o Campeonato Italiano e a Copa da Itália. Dois anos mais tarde fez do Napoli o vencedor da Copa da Uefa e em 1990 conquistou o segundo scudetto italiano.

A final da Copa de 1990, disputada na Itália, era um replay da realizada quatro anos antes. Só que dessa vez os alemães não deixaram escapar o tricampeonato mundial. Restou a Maradona disparar severas críticas contra os organizadores do Mundial.

O título da Supercopa da Itália, em 1991, precederia um período negro na carreira vitoriosa de Maradona. As fotos ao lado de integrantes da Camorra, a máfia italiana, e o envolvimento com o tráfico de drogas e a prostituição indicavam os motivos da crise entre o camisa 10 e o clube italiano, que o acusava de faltar aos treinos e fugir das concentrações.

A partida entre o Napoli e o Bari no dia 17 de março de 1991 foi a última do craque pela equipe. Afastado pela Federação Italiana, após um exame antidoping com resultado positivo devido ao uso de cocaína, recebeu da Fifa uma punição mundial de 15 meses. Foi processado pelo clube, que exigiu o pagamento de 5,5 milhões  de dólares pelo comprometimento da imagem da instituição.

De volta a Buenos Aires, ainda em 1991, é autuado com um grupo de amigos pela posse de meio quilo de cocaína. Paga 20 mil dólares para ser solto. Processado, assume o vício e interna-se em uma clínica para desintoxicação. Terminada a suspensão imposta pela Fifa, voltou à Espanha para jogar com a camisa do Sevilha por 7,5 milhões  de dólares. Repetindo a história de não comparecer aos treinos, acabou mandado embora. A história repetiu-se logo na seqüência, quando em 1993 passou a defender o argentino Newel’s Old Boys. Após a marcação de um único gol, o presidente do clube argentino decidiu demiti-lo, com base em avaliação médica que decretava “falta de condições psicológicas” para continuar a jogar futebol.   

E não era apenas falta de condições psicológicas. Maradona também não tinha condição física para continuar a jogar. Incentivado pelo presidente do país, Carlos Menem, e por Alfio Basile, técnico da seleção da Argentina, Maradona protagonizou uma verdadeira luta para emagrecer, livrar-se do vício e recuperar a forma. Conseguiu o que parecia impossível: jogar o Mundial de 1994.

O Maradona que entrou em campo passou a sensação de que era um homem capaz de enfrentar qualquer obstáculo, até mesmo o do tempo. Após marcar o segundo gol da Argentina, na partida de estreia contra a Grécia, a 21ª do menino de ouro em Mundiais, caminhou na direção de uma das câmeras que transmitiam a Copa para quase 30 bilhões de telespectadores, para extravasar a alegria. A face desfigurada no ritual de comemoração deixava transparecer um jogador totalmente tomado pela emoção. O exame antidoping revelaria, horas mais tarde, que tamanha exaltação poderia muito bem ter sido um dos efeitos do estimulante efedrina. Maradona estava eliminado da Copa. Uma partida a mais o teria tornado o jogador com maior número de jogos disputados em Copas do Mundo. Voltou para casa com nova punição da Fifa, mais 15 meses.         

Em 1995 retorna ao Boca Juniors, seu clube do coração, mas continua sob a sombra dos problemas trazidos pelas drogas. Dois anos após o retorno ao futebol argentino, foi pego em um exame antidoping, que acusou consumo de cocaína antes da partida em que o Boca venceu por 4 a 2 o Argentino Juniors. Desesperado, sem conseguir escapar do vício, declarou: “Estou cansado e entregue”. Fez a última partida pelo clube argentino em outubro de 1997.

O maior craque da década de 1980 ainda voltou a campo em 10 de novembro de 2001, em uma partida realizada em Buenos Aires, para se despedir de vez. Como sempre, foi ovacionado e cortejado pela torcida.  

Mais do que tudo, Maradona foi um camisa 10 que continuou se transformando mesmo depois de abandonar os gramados. Viveu boa parte dos dramas reservados aos homens: drogas, problemas de coração, destemperos. Mas o que o fez diferente de todos os outros foi sem dúvida sua maneira de encarar o mundo. Existe no rosto de Maradona o riso do boa-praça e a figura austera de quem descobriu que pode falar o que pensa, chocar e depois driblar o efeito. Existe em Maradona um homem capaz de ressurgir, por mais que pareça derrotado. Em 2004 sua figura era a de um homem devastado pelas drogas. Gordo, inchado, foi internado quase morto em um hospital argentino. Multidões faziam vigília orando pela vida do craque, tratado como autêntico deus, uma figura mítica no imaginário do povo argentino. Recuperou-se após uma cirurgia para reduzir o estômago, feita por um médico na Colômbia. Perdeu 40 dos 120 quilos que pesava. A luta de Maradona pela vida sensibilizou o mundo: “Agora aproveito cada dia. A
glória não me deixava viver antes, e hoje vivo a vida com ela ao meu lado”.

Maradona foi o único que ousou desrespeitar os cânones do futebol. Se todos fizeram questão de tratar Pelé como algo único, Maradona deu-se o direito de ousar achar que teria sido igual ao Rei, ou até mesmo melhor que ele. Está lá, Che Guevara tatuado no braço de Dieguito; esta aí o mais rebelde dos camisas 10”.

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