terça-feira, 23 de outubro de 2012

Flávio Costa: o futebol no jogo da verdade


Já imaginaram o que será para Felipão, técnico da seleção brasileira, comandar a equipe brasileira na segunda Copa do Mundo disputada em nossas terras, em 2014? A primeira, como todos sabem (e para quem ainda não sabe), foi uma verdadeira tragédia. A derrota em pleno Maracanã, para o Uruguai, silenciou mais de 200 mil pessoas e causou desde lá as mais variadas discussões e polêmicas sobre as “verdadeiras” razões daquele fracasso.

Inúmeras teses acadêmicas foram feitas. Filmes, documentários, livros, ensaios, artigos, enfim, tudo o que é possível imaginar foi feito. Versões, provas, testemunhos, vidas arrasadas, como a do ex-goleiro Barbosa, renderam (e ainda rendem) polêmicas a respeito da fatídica Copa de 1950.

Em 2014 viveremos novamente essa “aventura”. Em caso de derrota, a pergunta é: o técnico da seleção brasileira terá coragem de tornar público os “verdadeiros” motivos para novo fracasso?

Não é e não será fácil. O técnico brasileiro em 1950, Flávio Costa, uma espécie de “todo-poderoso” do futebol brasileiro na época, só conseguiu fazer isso quase meio século depois de todos os fatos ocorridos. Em 1996, quando tinha 90 anos, decidiu publicar um livro autobiográfico, um documento histórico para a literatura esportiva, apesar da pouca qualidade editorial da obra. Evidentemente que Flávio Costa contou sua versão para os fatos no livro, deixando de lado as inúmeras polêmicas criadas em torno daquela derrota. 

Mas é inegável reconhecer a importância do trabalho do autor, Edson Pinto, que gravou com Flávio mais de 60 horas de entrevistas com o ex-treinador. Onde todo esse acervo se encontra, não sabemos, mas deveria tornar-se um documento histórico de qualquer instituição que se diz mantenedora da memória do futebol brasileiro (infelizmente, o Brasil ainda não criou esse espaço público).

Começamos apresentando o texto assinado pelo ex-jornalista esportivo, Canor Simões Coelho, homem influente na política do futebol brasileiro naqueles anos 40 e 50, botafoguense apaixonado e um dos fundadores da Associação dos Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro. Canor morreria dois anos após o lançamento da obra de Flávio Costa e um ano antes do falecimento dele, em 1998, aos 98 anos de idade.

Homenagem
Por Canor Simões Coelho

Flávio Costa
“São mais de cinquenta anos de convivência harmoniosa e fraterna amizade. O meu querido amigo Flávio Costa, na minha opinião, representa o que há de mais digno e competente na sua profissão: técnico de futebol.

Todavia, o mais importante é a sua dignidade profissional. Na minha longa vida – mais de noventa anos – convivi com muitas pessoas, mas poucas com o caráter e honestidade de Flávio Costa. Trata-se de uma espécie em extinção? Sem dúvidas.

A sua biografia representará um marco para toda uma geração futura. Será um prazer reviver, em letras, a vida de um dos mais importantes personagens do cenário esportivo brasileiro e mundial.

De cem em cem anos aparece um Flávio Costa, considerando a sua competência profissional, dignidade e caráter. Considero-me um privilegiado por ter pertencido a geração deste símbolo nacional.

O prazer é imenso, incomensurável, não podia deixar de prestar a minha homenagem sincera e justíssima ao meu querido amigo. Estou satisfeito e agradecido a Deus por esta oportunidade única. Esta homenagem será curta e autêntica, representando acima de tudo, uma glória para nós dois, pois trata-se de um mito do esporte.

Flávio Costa é eterno, para alegria de todos os brasileiros”.

O autor, Edson Pinto, revela no texto abaixo detalhes de como conseguiu construir a obra.

Missão Cumprida
Por Edson Pinto

“Ainda garoto, ao lado do rádio “rabo quente”, aprendi a admirar Flávio Costa, técnico do meu clube, o Flamengo, que começava a formar uma imensa legião de torcedores que seria o início de uma história, que se funde com a glória do futebol brasileiro.

Escrever sobre Flávio Costa foi um privilégio para mim, depois de acompanhar mais de 60 horas de gravações que documentam passagens do nosso futebol. Paciente e com firmeza Flávio Costa contou sua história e revelou detalhes de situações envoltas em mistério e sutilezas como geralmente acontece com o futebol.

A ideia inicial deste livro saiu de uma conversa com o jornalista José Jorge, que me levou à Flávio Costa, para uma troca de sugestões. Acertados os detalhes preliminares, Flávio Costa, com seus 90 anos de idade e uma memória incrível, gravou um depoimento inédito e importante não só para o futebol, como também para o esporte brasileiro.

Relembrei com Flávio Costa momentos gloriosos do nosso futebol, que marcaram minha vida de torcedor e conheci novos ângulos que ainda não haviam sido esclarecidos pelas pessoas envolvidas nesses acontecimentos.

Nos meus encontros com Flávio Costa – conhecido na época como “Alicate”, pelo formato de suas pernas – com sua personalidade e honestidade de propósitos, que marcaram sua longa e vitoriosa vida profissional, confirmei o meu pensamento de que estava diante de um dos principais responsáveis pelo atual conceito e solidez do futebol brasileiro no panorama esportivo internacional.

O mesmo desportista, que me levou ao âmago da história do futebol brasileiro e internacional, com sua franqueza e coerência, posicionou os cartolas e uma gama de jogadores que esteve sob o seu comando nos clubes e nas seleções carioca e brasileira.

Flávio Costa, ao relembrar os acontecimentos que marcaram a Copa do Mundo de 1950, não procurou rebuscar culpados ou situações adversas para justificar o impacto que sofreram os brasileiros com a derrota não prevista para a seleção uruguaia e a perda do primeiro título de campeões mundiais. Ele conta, neste livro, o que realmente ocorreu naquela sombria tarde de domingo no Maracanã.

Levar aos desportistas brasileiros e aos torcedores da arquibancada os verdadeiros ensinamentos extraídos da história do futebol, vivida pelo técnico Flávio Costa tornou-se meu compromisso. Missão cumprida”.

Entre os vários capítulos do livro “O futebol no jogo da verdade”, Literatura na Arquibancada destaca aquele em que Flávio Costa revela a sua versão para os fatos ocorridos naquele mundial de 1950. Para a decepção de muitos, Flávio não entra em detalhes do jogo decisivo contra o Uruguai, mas revela a disputa nos bastidores da comissão técnica da seleção brasileira. Se hoje acham que José Maria Marin tem interferido nas escalações de Mano Menezes, vão se surpreender ao ver o que aconteceu às vésperas da disputa daquele mundial disputado no Brasil. E mais, como jornalistas esportivos consagrados como Mario Filho, tinham acesso às decisões do comando da seleção brasileira.

O imprevisível
Por Flávio Costa

Da esquerda para a direita: Ademir, Barbosa, Ely, Augusto,
o técnico Flávio Costa e Maneca, integrantes da equipe
que ficou conhecida como Expresso da Vitória.
A temporada de 1949 fora muito auspiciosa para o treinador Flávio Costa. Começamos ganhando o campeonato sul-americano que finalizou com uma brilhante vitória sobre os paraguaios por 7 a 0. Depois veio a vitória do time que eu dirigia, o Vasco da Gama, que se sagrou campeão invicto. Fechamos o ano ganhando o campeonato brasileiro, contra os paulistas, com o título de tetracampeão brasileiro.

O time uruguaio jogara a Copa Rio Branco contra a seleção brasileira, na fase preparatória da Copa do Mundo de 1950, e ganhamos deles duas vezes. No sul-americano de 1949 voltamos a vencê-los de seis.

Veio, finalmente, o ano de 1950. A Confederação Brasileira de Desportos tinha um grupo chamado comissão técnica da seleção, constituída de cinco ou seis pessoas. Seus membros eram desportistas que vinham do Rio Grande do Sul, São Paulo e dois ou três militantes do futebol carioca.

Quando fui nomeado para treinador da Seleção Brasileira a CBD também designou, para surpresa minha, uma nova comissão técnica com 17 membros. Estranhei, fui conversar com o presidente da CBD e ele explicou: “Flávio, se eu cortar três pessoas, eles vão ficar no teu calcanhar, querendo interferir na seleção. Colocando esse número na comissão, para se reunir, ela precisa de uma sala e vai ser difícil eles se entenderem”. E acrescentou: “Já coloquei os 17 porque, se quiserem te atrapalhar, posso tirar um ou dois membros, sem prejudicar os trabalhos da seleção brasileira”. A comissão técnica tinha poderes para nomear ou demitir o técnico, mas a responsabilidade dele era intocável. Ela não podia intervir no trabalho do técnico e meu relacionamento com todos era muito bom, respeitando naturalmente nossas posições.

Como treinador da seleção brasileira, minha primeira providência foi observar os nossos prováveis adversários. Para isso, fiz uma viagem à Europa, acompanhado dos radialistas Oduvaldo Cozzi, Luiz Mendes, Pedro Luiz (São Paulo) e Gagliano Neto, e do jornalista Geraldo Romualdo da Silva.

Assisti a Portugal x Espanha, em Lisboa; Espanha x Portugal, em Madri; e Escócia x Inglaterra, em Glasgow, regressando depois ao Brasil para continuar meu trabalho.

Voltando à comissão técnica, em sua primeira reunião, uma verdadeira assembleia, fiquei sentado numa pequena mesa ao lado do Dr. Castelo Branco, presidente da comissão, com as outras pessoas colocadas à nossa frente.

No início dos trabalhos o Dr. Castelo Branco perguntou a mim quando poderia dar a lista dos jogadores convocados. Esse documento sempre foi um tabu no futebol brasileiro. Meti a mão no bolso e tirei um pedaço de papel, com os nomes escolhidos. Li a relação dos 25 convocados. O comandante Martinelli, almirante e desportista do Botafogo, pediu a palavra e declarou: “Eu quero discordar de dois nomes que estão na lista e fazer uma indicação”.

Imediatamente retruquei que, como tinha sido pedido, anunciara a lista, que poderia merecer explicações, mas não estava sob discussão e nem para ser vetada. “Se houver veto deixarei o cargo de técnico da seleção”. Não pedira para ser designado, não estava “grudado” a qualquer facção e o comandante Martinelli poderia sentar no meu lugar.

O comandante Martinelli não ficou satisfeito e respondeu: “Isto é uma imposição?”. Novamente lembrei a todos que era um técnico diplomado que estava ocupando provisoriamente uma posição, amparado por lei, e que meu trabalho estava encerrado.
Criado o impasse, o comandante Martinelli afirmou: “Minha função, como membro da comissão técnica, está acabada, porque ela não vale nada”. O comandante Martinelli pediu realmente demissão na reunião seguinte.

Mario Filho
O jornalista e desportista Mario Filho, que era meu amigo, também tinha um projeto de preparação da Seleção Brasileira, que não coincidia com o meu, que previa três meses de trabalho. Mario Filho achava que eu deveria parar tudo e começar imediatamente o que estabelecia o seu projeto, o que daria seis meses de treinamento.

Mario Filho não aceitou minha posição e saiu da comissão técnica. Eu defendia a tese de que três meses eram suficientes, para não entediar os jogadores. No meu esquema tínhamos que chegar a 80 por cento do rendimento no começo da competição para, durante os jogos, atingirmos o ápice da preparação física, evitando o retorno.

Esse programa de treinamento, que começava com um rigoroso exame médico e dentário, eliminou Rubens, que não quis se submeter a esse tratamento. Tudo foi feito no regime de rigorosa concentração, na cidade de Poços de Caldas.

Na segunda parte da preparação realizamos jogos com Seleções de Novos do Rio, de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Ainda disputamos duas copas, a Rio Branco com o Uruguai e a Oswaldo Cruz com o Paraguai. Dois jogos com cada país, um no Rio, com a seleção principal, no sábado, e em São Paulo, no domingo, com a seleção reserva. Mesmo em fase de treinamento ganhamos as duas copas.

Chegou a Copa do Mundo e levamos a campo um grande time. Ganhamos do México (4 a 0), da Iugoslávia (2 a 0) e empatamos com a Suíça (2 a 2). Nos classificamos para as semifinais e vencemos a Suécia (7 a 1) e a Espanha (6 a 1). Desgraçadamente perdemos a chance de nos sagrarmos campeões mundiais, pela primeira vez, como todos esperavam, ao sermos derrotados pela seleção uruguaia na final (1 a 2), levando muita tristeza a todo o país.

O Maracanã estava lotado, com mais de 200 mil pessoas que foram ver a vitória brasileira, baseadas em nossas atuações anteriores, como francos favoritos. No time uruguaio despontaram os veteranos Maspoli, Tejera, Gambetta e Obdúlio Varela, que se postaram muito bem em campo, não permitindo as ações de nossos jogadores, tornando o jogo difícil e decepcionando o grande público.

No segundo tempo, logo após a saída, num ataque bem coordenado, fizemos o nosso gol, mas por falha no sistema defensivo brasileiro (Juvenal não dava a necessária cobertura a Bigode), na marcação da ala direita uruguaia, muito boa (Ghiggia- Julio Perez), num contra-ataque veloz, Ghiggia, depois de bater Bigode, correu isolado até a linha de fundo e atrasou a bola para Schiafino, que chegava pela meia-direita, batendo um chute reto, que entrou no ângulo esquerdo de Barbosa.

O gol de Ghiggia que decretou a derrota brasileira.
Esse gol, que ainda não representava nossa derrota, emudeceu o público, que não estava preparado para essa surpresa. O silêncio no Maracanã foi tão assustador, que irradiou nos jogadores um complexo de culpa, tirando-lhes todo o natural espírito de reação.

Os uruguaios, sentindo isso, cresceram no jogo e pressionaram. Novamente Ghiggia escapa livre, depois de bater Bigode, e a uns seis metros da baliza esquerda do gol, quase na linha de fundo, mete a bola no canto. Barbosa, que se adiantara um pouco, saltou para trás, mas a bola só chegara naquele canto porque vinha com efeito, raspou-lhe nas mãos e decretou nossa derrota. É bom lembrar que naquele tempo não havia substituições. A gritaria também foi muita no túnel, impossibilitando que minhas instruções chegassem aos jogadores. Isto me deixou bastante nervoso.

Reagimos e, nos dez minutos seguintes, atacamos desordenados e perdemos duas ou três oportunidades de empatar. Nossa sorte estava selada e, para nosso desgosto, perdemos o jogo e o título com dignidade, em um campeonato que tinha tudo para ser do Brasil. Coisas do futebol...Foi o dia mais triste em toda a minha carreira de treinador de futebol. Decidimos a Copa de 50 em uma partida, mas se jogássemos dez vez, ganharíamos nove.

Flávio também é incisivo ao desmentir a informação de uma possível cusparada de Obdúlio Varela em Bigode. “Não houve nada disso e, se houvesse, não seria motivo par ganhar o jogo. Se fosse assim, todo mundo cuspia”.

Até os jornalistas estrangeiros, responsáveis pela cobertura da Copa do Mundo de 1950, escreveram muitas páginas nos seus jornais, tecendo os maiores elogios aos nossos jogadores e à exibição que fizeram no evento. Em 1950, o futebol brasileiro nasceu para o mundo e todos passaram a respeitá-lo.

Quando voltei de minha viagem à Europa, com observador, antes da Copa, fiz um relatório ao presidente da CBD, informando que todos tinham muito medo de vir ao Brasil. Eles pensavam que veriam cobras na Avenida Rio Branco e que, em qualquer esquina, poderiam encontrar um tigre.

Alertei, na ocasião, ao presidente que teríamos de fazer uma Copa do Mundo perfeita e isso realmente aconteceu. O Brasil jogou limpo, ganhou e perdeu limpo. Apesar da nossa tremenda decepção com a derrota, os uruguaios, vitoriosos, não foram hostilizados.

Jogadores da Celeste, como Obdúlio Varela, Maspoli e o treinador Julio Perez, quando íamos a Montevidéu, nos cercavam de todo o carinho e respeito. Convidaram, diversas vezes, Zizinho e Ademir para festividades.

Nenhum comentário:

Postar um comentário