quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Dr. Mário Trigo: o eterno futebol


Ele não era médico, mas doutor em Odontologia. Um dentista que se tornou famoso no meio do futebol brasileiro quando ninguém dava a menor importância para esse tema. Mário Hermes Trigo de Loureiro ou simplesmente, Dr. Mário Trigo, foi uma das figuras mais divertidas e importantes na história do futebol brasileiro. Bicampeão mundial com as seleções brasileiras nas Copas de 58 e 62, doutor Trigo fez fama, dentro e fora dos gramados, por ter se tornado um exímio contador de causos e histórias dos bastidores do mundo da bola. Uma injustiça. Doutor Mário Trigo teve importância fundamental na história da odontologia voltada para o segmento esportivo. Era odontólogo especialista em cirurgia e traumatologia bucomaxilofaciais. Na preparação para a conquista do nosso primeiro campeonato mundial, em 1958, na Suécia, Dr. Mário Trigo examinou 33 jogadores, dos quais se viu obrigado a extrair 118 dentes.

É esse o personagem que você confere abaixo, em trechos recuperados de um livro que o próprio Mário Trigo escreveu: “O Eterno Futebol” (Thesaurus Editora, 2006). Não é à toa que ganhou o apelido de “Homem sorriso”. Você vai entender a razão a seguir. Também confira o artigo do advogado Anderson Olivieri, que o viu de perto, em Brasília, em seus últimos anos de vida.

Doutor Mário Trigo teve vida longa. Morreu no dia 2 de junho de 2008 aos 96 anos.



O Eterno Futebol
Dr. Mário Trigo (a direita e sempre sorrindo), ao lado
de Djalma Santos, o jornalista Luiz Mendes e Didi.
Introdução
Por Mário Hermes Trigo de Loureiro

“A pedido dos meus familiares e dos inúmeros amigos, aos quais tenho feito, através dos tempos, em alegres reuniões, relatos dos momentos históricos vividos quando engajado nas campanhas da Seleção Brasileira de Futebol, e ocorridos na minha própria vida, decidi reunir neste livro tanto aqueles fatos ligados ao futebol brasileiro quanto os relativos à origem deste apaixonante esporte, cujas histórias, remotas às vezes, se confundem como parte da minha própria história pessoal.

Claro que nem sempre os leitores encontrarão obediência à cronologia dos fatos, mesmo porque, ainda que eles tenham ocorrido de forma cronológica, as lembranças não.
Durante toda a minha vida, escrevi muitos artigos, desde meu tempo de universitário até os dias de hoje, a respeito de tudo que envolvesse o futebol, como também sobre outros assuntos.

Vários jornalistas esportivos escreveram sobre mim, quase sempre, senão sempre, acerca da minha participação na Seleção Brasileira de Futebol, quando acompanhava os maiores jogadores de todos os tempos.

Dr. Mário Trigo, abraçando o rei da Suécia, logo
após a conquista da Copa de 1958.
Participei de muitas mesas redondas em vários canais de televisão; já fui entrevistado pelo fabuloso Jô Soares, em julho de 1993, no SBT; dei entrevistas ainda para a TV Cultura de São Paulo, para a TV Globo, em várias oportunidades, tanto em São Paulo como em Brasília, cujas gravações hoje compõem o acervo esportivo dessas emissoras.

Já quase ao final do livro transcrevo a palestra sobre foco dentário com repercussão à distância, que proferi em várias oportunidades, desde a Copa de 58, a convite de clubes de serviço (Lions, Rotary Clube e outros), escolas, universidades etc, para que os leitores possam avaliar o grande alcance da Odontologia nos esportes e concluir o quão necessária é a saúde bucal para a sua própria boa forma física.

Transcrevo, também, por último, o capítulo do Diário Secreto, do Dr. Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira das Copas de 1958 e 1962, cujos times mostraram ao mundo a qualidade excepcional do futebol brasileiro, no qual fala de minha pessoa. Nesse capítulo, ele relata, com autenticidade, de forma respeitosa e carinhosa, um pouco da minha participação na delegação brasileira.

Mas, no livro citado, ele se refere também carinhosamente a todos os outros membros da referida delegação. Esse livro não foi vendido, pois, segundo o próprio Dr. Paulo, tratava-se de um volume de lembranças que não seria vendido ou anunciado, porque afinal era um diário e só poderia ser confiado a quem tivesse afinidade com os protagonistas dos acontecimentos.

Além disso, coleciono, ainda, alguns artigos de jornais e revistas (Placar, O Globo, Correio Braziliense, Jornal de Brasília, etc), que falam do meu trabalho e de minha vida profissional e pessoal.

Com este livro, pretendo levar aos jovens informações sobre algumas histórias remotas do nosso futebol, sobre fatos das Copas que presenciei, ao longo de quase três décadas. E, assim, despertar seu interesse pela vida saudável e esportiva, cujo exemplo é minha própria longevidade.

Assim, no decorrer deste livro, o leitor poderá se distrair com fatos e exemplos muito interessantes”.

Prefácio
Por Juca Kfouri

“Eu era criança e ouvia falar do doutor Mário Trigo, dentista da Seleção Brasileira que viria a ser bicampeã mundial, em 1958, na Suécia, e em 1962, no Chile. “Dentista na seleção para quê?”, eu perguntava. A resposta não variava: “É que o doutor Trigo é um piadista de primeira e diverte os jogadores”.

Até o dia em que, já grandinho, descobri que, se de fato ele distraia os jogadores, muito mais que isso ele trabalhava mesmo era dos dentes dos atletas. Atletas que possuíam verdadeiras bombas-relógio em suas bocas, todas prestes a explodir, focos infecciosos que, por exemplo, retardavam a recuperação de quaisquer contusões, fossem musculares, fossem por choque.
Felizmente, o doutor Trigo sabia lidar com o pavor que a figura do dentista despertava nos jogadores e até algumas de suas melhores histórias se referem exatamente aos tratamentos que fazia. Como, por exemplo, descobriu que Mané Garrincha tinha um problema no canino, o que serviu para a conclusão sábia do genial ponta-direita: “É claro, né doutor? É por isso que ando com uma dor de cão...”.

Dr. Mário Trigo e Feola, ex-técnico da
Seleção Brasileira.
Daí ter Mário Trigo um espaço de destaque não só na conquista do bicampeonato como, também, na história da organização do futebol brasileiro. Ele foi médico, foi pai, foi animador de auditório, foi o palhaço na melhor acepção do termo, alguém que não entrou em campo na Copa do Mundo, mas ajudou a ganhá-la.

Eis que agora o doutor Trigo ataca de memorialista e dá ao nosso futebol esse presente, para sempre, eterno como o próprio esporte. Entre tantos episódios, chamo a atenção para um especialmente, quando se desconfiou que a comida da Seleção seria envenenada no Chile, durante a Copa.

“O Eterno Futebol” é isso. Uma história singela de alguém que chega aos 90 anos passando com leveza pela vida, verdadeiro artista que tratou dos dentes de um grupo de heróis brasileiros para que eles pudessem sorrir mais bonito e fazer gargalhar de felicidade uma nação inteira”.

Um dos capítulos do livro “O Eterno Futebol”:

Monsieur Jean Paul
Por Mário Trigo

Dr. Mário Trigo (de agasalho), em missa junto
com jogadores da Seleção Brasileira.
“Numa outra ocasião, a Seleção, quando se encontrava em campanha de amistosos pela Europa, precisou fazer uma conexão no Aeroporto de Orly, em Paris. O Sr. Carlos Nascimento, supervisor da Seleção, preocupado com os jogadores, temendo que ficassem com muita fome pelo tempo de espera que se estenderia, determinou que todos almoçassem no restaurante do próprio aeroporto.

Para agilizar os pedidos, Gosling e eu fomos incumbidos de ajudar aqueles que não conheciam a língua francesa, aliás, todos. Quando chegou a vez de Garrincha, perguntei-lhe o que desejaria comer e comecei a traduzir o cardápio para que ele escolhesse. No entanto, muito rempli de soi mème, desprezou minha ajuda afirmando:

– Doutor, deixa que eu mesmo peço.
Ao que perguntei:
– Como é que você mesmo vai pedir, se você não sabe francês?
E ele replicou:
– Deixa, doutor. É simples. Aponto com o dedo o prato que eu quero.
Todos foram servidos, menos o Mané, que me chamou para reclamar:
– Doutor, até agora o garçom não trouxe meu prato.
Pediu-me que verificasse a razão de não ter sido servido ainda, pois os outros já estavam quase terminando. Perguntei, então, ao garçom por que não haviam servido Garrincha, e ele, mostrando o menu, disse:
– Porque ele indicou que quer comer o dono do restaurante, Monsieur Jean Paul”.

A homenagem do advogado e cruzeirense apaixonado por futebol, Anderson Olivieri:

Mário Trigo, eterno como o futebol
Por Anderson Olivieri

“O futebol sempre me fascinou. E, por ter um pai que também nunca escondeu a paixão pela arte dos onze contra onze, desde cedo ouvi bastante sobre Pelé, Didi, Tostão, Nilton Santos, Dirceu Lopes e outras feras que jamais vi jogar. Os olhos do meu velho brilhavam ao falar desses nomes. Na minha ingenuidade pueril, de sete ou oito anos de idade, mitifiquei esses gênios. Elevei-os ao rol de seres imortais, no sentido literal da palavra. Para mim, tratavam-se de super-heróis que jamais nos deixariam. Sonhava conhecê-los pessoalmente. Eu sabia que, caso acontecesse, ficaria atônito, sem reação. Coisa de criança. E de adultos que têm a oportunidade do tête-à-tête com o ídolo.  Mas, por morar em Brasília, percebia que meu sonho dificilmente se realizaria.

Certo dia, após um futebol da gurizada da minha quadra, aqui mesmo na Capital Federal, aproximou-se de nós um senhor de passos curtos e coluna encurvada. Carismático, conquistou a meninada, com seu sorriso fácil e humor aguçado. Revelou que, de longe, nos observava jogar. Citou a qualidade técnica de alguns, com boa dose de generosidade. Ensinou-nos com carinho que a prática do futebol deveria sempre vir acompanhada dos estudos. Mas nada nos prendeu mais a atenção àquele senhor do que esta apresentação: “tratei dos dentes de Pelé, Garrincha e toda turma de 58 e 62. Sou um bicampeão do mundo”.

Confesso, meu coração acelerou. Pela primeira vez, eu estava frente a frente com um personagem de 1958 e 1962. Não me lembro com precisão, mas é provável que o suor que ainda escorria em razão do futebol há pouco jogado tenha se tornado gélido. Nada mais falei, apenas escutei. Doutor Mário Trigo teve de enfrentar um bombardeio de perguntas infantis. “O Pelé visita a sua casa?”; “Você fala com o Pelé todos os dias?”; “Você tem camisas do Pelé e do Garrincha?”. Pacientemente, respondeu cada questionamento. Contou-nos várias histórias da época, quase sempre com o Pelé envolvido. Naquela manhã, senti-me mais perto dos super-heróis.

Depois desse dia, Doutor Mário Trigo, dentista da Seleção nas Copas de 1958, 1962 e 1966, diariamente nos prestigiava com sua presença à beira do campo. Sempre sorridente, exalava ternura com seu semblante calmo e pacificador. Era fã de um bom papo. Não havia preconceitos na escolha do interlocutor. Crianças, zeladores, transeuntes anônimos, idosos, jornaleiros - todos desfrutavam da agradável companhia desse bicampeão do mundo.

Alguns anos depois, deixei de ser vizinho de bloco do Doutor Mário Trigo. Mudei-me para outro bairro de Brasília, perdendo por seis anos o contato com esse ser humano magnífico. Em 2006, ao folhear o jornal, li uma nota informando o lançamento do livro “Eterno Futebol”, de autoria dele. Não hesitei em marcar presença. Era a chance de abraçá-lo em gratidão, por todas as vezes que, com suas histórias, ele me aproximou dos super-heróis da minha infância. O evento ocorreu no dia 27 de junho, no auditório do STJ. Foi uma festa digna da grandeza do “Homem Sorriso”, apelido que ganhou quando jovem.

Figuras ilustres do meio futebolístico, político e jurídico prestigiaram o lançamento da obra. Atencioso e paciente, a estrela da noite recebeu todos carinhosamente. Autografou os livros com grafia já quase indecifrável. Emocionei-me quando seus olhos me fitaram. Aos 94 anos, com uma lucidez plena, indagou-me: “Cadê os jovens colegas que formavam roda após o futebol para conversarmos?”. Sem resposta, apenas sorri e o cumprimentei. Era o meu último abraço no Homem Sorriso.

No dia 2 de junho de 2008, aos 96 anos, Doutor Mário Trigo foi se encontrar com Garrincha, Didi, Zizinho e outras feras, num lugar onde os super-heróis são, de fato, imortais”.

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