terça-feira, 9 de outubro de 2012

Dei a volta na vida


Um personagem do futebol que deveria ser conhecido melhor. Paulo Cézar Lima, o Caju, é um dos grandes craques que o futebol brasileiro revelou em sua história. Craque e polêmico. Adriano, o tal “Imperador”, deveria ler o livro autobiográfico que Caju escreveu alguns anos atrás. “Dei a volta na vida” (Editora Girafa, 2006) serviria para ele – e para muitos jovens brasileiros recém-lançados ao mundo da fama – no mínimo como um “alerta”.

Caju deu a volta. Recuperou-se de uma aventura incrível, da fama ao fundo do poço no mundo das drogas e álcool. Virou até tema para um filme premiado de João Moreira Salles: “Futebol”.

Abaixo, o texto da editora publicado na “orelha” da obra:

“Dei a volta na vida é um livro sobre um futebolista e sua arte, mas não se limita a isso: é também o relato de experiências que incluem a glória e queda, clarões e opacidades. Em especial, é uma narrativa marcada por duas características fundamentais: a altivez e a capacidade de superação.

É importante que o leitor não confunda essa “volta na vida” como o resultado daquilo que se convencionou chamar de “auto-ajuda”, expressão que designa apenas um conjunto de modismos simplistas e comerciais. Por mais que o contrário às vezes pareça ser verdadeiro, na realidade não estamos sozinhos no mundo. Se é certo que muitas vezes os acontecimentos parecem conspirar contra nós, também é verdade que só com o auxílio dos outros conseguimos sair de situações difíceis.

Caju e Roberto Miranda.
A vida de Paulo Cézar Lima, o Caju, é uma fonte de ensinamentos: em primeiro lugar para ele mesmo, e depois também para os milhares de garotos que, a partir de uma origem humilde, buscam o sucesso no esporte mais difundido e apreciado do mundo – o futebol. 

Bem poucos conseguem chegar às alturas que ele alcançou, e parte deles muitas vezes também não consegue lidar com as ilusões da fama e as armadilhas que ela semeia em seus caminhos aparentemente fáceis de trilhar. 

Muito poucos, ainda, conseguem se livrar dessas armadilhas depois de nelas aprisionados.

Da favela da Cocheira, no Rio de Janeiro, aos maiores clubes de futebol do Brasil, daí à Seleção Brasileira e ao tricampeonato mundial no México, em 1970, depois a clubes da Europa (o Olympique de Marseille, por exemplo, onde suas atuações ainda são orgulhosamente lembradas pelos torcedores), a trajetória do garoto de coração botafoguense é descrita nestas páginas.

Caju conviveu longa e intimamente com a fama e com os famosos. Sua personalidade forte fez com que desde cedo ele se interessasse pelo movimento dos direitos civis e a luta contra o racismo nos Estados Unidos e em outros países. No Brasil, foi um dos primeiros a usar a cabeleira no estilo Black Power, que viria a tingir de acaju, fato que deu origem ao apelido com que até hoje é conhecido por muitos.

Já no fim da carreira futebolística, entrou no universo das drogas e da decadência física. Essa série de fatos é descrita com franqueza e coragem. Também é descrita a longa trilha por ele percorrida em direção à recuperação”.

No fragmento abaixo extraído de um dos capítulos da obra, Caju revela o drama vivido por conta do vício com as drogas e o álcool. E tudo isso, acreditem, com direito a uma parada de seis meses para a disputa do campeonato Mundial Interclubes, de 1983, no Japão.

Caju foi um dos campeões do Grêmio, contra o Hamburgo. Preparou-se 6 meses para um único jogo. E depois, retornou ao vício...

Felizmente, o final de história de Caju é feliz. Recuperado do vício, é visto hoje pelos quatro cantos do país palestrando, levando sua experiência de vida no mundo da bola e da vida...




Gol de Letra

“O período da Copa de 1982 foi uma fase muito louca na minha vida. Eu estava na França e voltei a frequentar o Jet Set de lá, convivendo com pessoas muito queridas do meio musical, do esporte e com meu amigo Daniel Hechter. Nas férias, ele passava três meses em Saint Tropez, na bela casa que mantinha em Ramatuelle, onde eu era tratado como membro da família.

Todo ano, no início do verão, Daniel organiza uma festa em sua casa com vários artistas franceses e estrangeiros, como é costume entre os milionários do pedaço. Nessa altura, havia me desligado totalmente da minha vida antiga. Viajava muito pela Europa, parei até de jogar pelada com os amigos e me entreguei mesmo à boemia. Foi um período realmente pesado para mim. Fiquei dependente durante muito tempo da cocaína. Aí, todas as vezes que eu vinha ao Brasil, mandava ver.

A cocaína na Europa era muito cara. Na época, pagava-se cem dólares por um grama, e um grama não dá para nada. Você consome, geralmente, no meio de amigos e quase sempre eu passava a noite acompanhado por uma mulher que cheirava também. Além disso, cocaína é uma espécie de droga que te resseca muito, mexe com o teu metabolismo e então, para equilibrar, tinha de consumi-la acompanhada com champagne, vinho, uísque, o que pintasse, porque ela te acelera muito. Então eu fiquei viciado nas duas coisas: tanto na cocaína como no álcool. A partir daquele momento, eu não transei mais futebol, me desliguei totalmente. De vez em quando, ia a alguns jogos na Europa, ou, quando vinha ao Brasil, via a Seleção Brasileira. Era uma nova visão existencial. Totalmente nova.

Caju, ao lado de Chico Buarque
e Bob Marley.
E agora fico matutando: como entrei nessa? Eu realmente nunca usei drogas enquanto jogava bola. Eu até ficava grilado com as notícias de jogadores que tomavam bolinha, injeção para melhorar o rendimento. E era verdade. Eu nunca consenti um negócio desses, achava um absurdo. Tá louco! Eu treinava todo dia, me cuidava, tinha uma vida legal, disciplinada, vitamina toda hora. Por que eu de repente relaxei? Relaxei mesmo! E durante muito tempo. Foram quase dezoito anos.

Subi o morro várias vezes. E, como tinha sido campeão do mundo e de grandes clubes do Rio, os caras do tráfico tinham aquela admiração por mim. Alguns amigos moravam no morro e conviviam com o líder da comunidade. Eles me falavam sempre: “Ah, o cara quer te conhecer”.

E eu aceitava tranquilamente: “Então tá, tudo certo, vamos lá, vou contigo!”. O recado era direto: “O cara quer te dar um presente, entendeu?”. Claro, o presente era droga. Aí eu subia o morro, jogava pelada com eles, passava não sei quantas horas com o traficante e voltava com aquele presentão. Foi um negócio muito pesado, muito arriscado, perigoso. E se a polícia chega? Até descobrir quem é você, já era!

Fiquei realmente muito ligado à cocaína. Por isso, sinto-me um felizardo de ter escapado dessa roda viva. Sei o que se passou comigo. É um negócio muito difícil. É uma droga muito forte. Felizmente, dei a volta nela e vou continuar dando. Foi um gol de letra”.

Sobre Paulo Cézar Lima, o Caju:
Nasceu em 1949, na cidade do Rio de Janeiro. Fez carreira como jogador de futebol nos principais clubes brasileiros (Botafogo, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Vasco) e foi um dos primeiros jogadores brasileiros a jogar no futebol europeu, o Olympique de Marseille. Atuou durante 10 anos na Seleção Brasileira, integrando a equipe tricampeã de 1970, no México.

Um comentário:

  1. Show de bola Andrézinho. O Caju era o meu meia caindo pela esquerda na super seleção que eu formava no futebol de botão.

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