sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Craques da Literatura Esportiva


Um livro/revista que todo apaixonado pela literatura esportiva tem que ter em sua biblioteca. Trata-se de uma edição especial da revista Bravo, lançada em 2010.  A publicação traz 18 crônicas, contos e poemas, assinadas por autores de hoje e de ontem. O futebol em todos os seus aspectos é analisado por craques da literatura como Lima Barreto, Nelson Rodrigues, Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade, Glauco Mattoso, José Lins do Rego, Marcelino Freire, João Cabral de Melo Neto, Flavio Carneiro, Cristovão Tezza, José Soares, Paulo Perdigão, Antonio de Alcântara Machado, Luis Fernando Verissimo, Marcos Caetano, Rubem Fonseca, Clarice Lispector e Sérgio Sant'Anna.

São 148 páginas imperdíveis com organização do jornalista e escritor Marcelo Moutinho.

Apresentação
Por Marcelo Moutinho

“Na noite de 2 de julho de 2008, 78.918 pessoas estiveram no Maracanã para assistir à final da Taça Libertadores da América, entre o Fluminense e a LDU, do Equador. Após uma campanha até então irrepreensível, na qual eliminou equipes como Boca Juniors e São Paulo e se manteve o tempo todo como líder geral do torneiro, o tricolor carioca chegou à decisão com ares de favorito. O resultado da primeira partida, porém, foi desastroso. Embalados pela altitude de Quito, os equatorianos venceram por 4 x 2. Ao Fluminense restava, portanto, derrotá-los por três gols de diferença no jogo de volta, no Rio — se a vitória fosse por dois tentos, haveria prorrogação e, persistindo o resultado, pênaltis.

Eu era uma daquelas 78.918 pessoas que testemunharam o que se desenrolou no histórico estádio carioca. Logo no início, o Flu levou um gol, o que o obrigava a marcar três, se quisesse ao menos chegar ao tempo extra. E, graças a uma atuação espetacular do camisa dez Thiago Neves, o time conseguiu, levando o público das arquibancadas e milhares de torcedores em todo o país a alimentar uma certeza: diante da realização de tarefa tão improvável, não haveria como o título escapar.

Mas escapou. Faltou um gol — o gol solitário que definiria a contenda em favor do Fluminense — e, na disputa de pênaltis, a LDU foi campeã.

Nunca consegui, embora ganhe meu pão com o ofício da escrita, formar uma seqüência de palavras capaz de expor com precisão o que aconteceu naquele 2 de julho. As lembranças são embaçadas. O enredo soa inverossímil, de tão dramático. A narrativa simplesmente não dá conta.

Porém tal circunstância ajudou a lançar uma luz, ainda que precária, numa antiga perplexidade que me dominava: compreender por que um esporte tão impregnado no imaginário brasileiro, como o futebol, tem, à exceção da crônica, uma presença relativamente tímida em nossa literatura. 

Mais do que a questão, sempre levantada, de um suposto elitismo dos escritores, talvez essa dificuldade de reproduzir em texto a algaravia de fatos, situações, sentimentos que animam um jogo, de recriar com tintas ficcionais o que se passa dentro das quatro linhas, seja o principal fator de limitação. Como afirmou Flávio Moreira da Costa, organizador da antologia “22 Contistas em Campo”, a exemplo da arte no sentido tradicional o futebol é “uma expressão em si mesma”. De modo que toda outra expressão sobre o futebol tenderia ao “discurso sobre o discurso”, à diluição. No entanto, embora pequena, nossa produção literária tem refletido — e com alta qualidade — os diferentes capítulos da história do chamado esporte bretão no Brasil desde que Charles Miller o trouxe da Inglaterra, no fim do século 19. Tanto na crônica — cuja fortuna é significativamente mais extensa que a dos demais gêneros — quanto no conto e na poesia.

Graciliano Ramos
Já nos primórdios, a nova modalidade foi pauta no meio literário. Escritores como Afrânio Peixoto e Coelho Neto saudavam o futebol — na época, restrito à aristocracia nacional — como elemento capaz de ajudar a ensinar a disciplina e a desenvolver o espírito de grupo.

Graciliano Ramos, em oposição, revoltava-se contra a “invasão” de um esporte britânico e apostava no fracasso da modalidade por causa do biotipo do brasileiro. “Os verdadeiros esportes regionais estão aí abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, a cavalhada, e o melhor de tudo, o cambapé, a rasteira. A rasteira! Esse sim é o esporte nacional por excelência!”, protestou Graciliano, sob o pseudônimo de J. Calisto, em artigo publicado em 1921.

O maior opositor, porém, foi Lima Barreto. Indignado contra o caráter elitista dos clubes, ele chegou a fundar, em 1919, uma “Liga Contra o Foot-Ball”. O objetivo era alertar contra os malefícios da prática do jogo de bola, como brigas e contusões, e lutar pela proibição do esporte. 

José Lins do Rego
Com a popularização, que acabaria por mudar radicalmente o perfil aristocrático dos primeiros anos, as polêmicas diminuíram de intensidade, mas não se extinguiram. Na década de 1940, Oswald de Andrade e José Lins do Rego reeditaram o debate, temperando-o com as vaidades do mundo da literatura. Para Oswald, que via o esporte como um “ardil imperialista”, José Lins do Rego se servia do futebol como “lenitivo” para a própria “escassez literária”. A resposta foi dada, embora de forma implícita, na crônica “Fôlego e Classe”, na qual José Lins do Rego observava: “Na verdade uma partida de futebol é alguma coisa a mais que bater uma bola, que uma disputa de pontapés. [...] Há uma grandeza no futebol que escapa aos requintados”.

Nessa época, o esporte começava a aparecer também fora do âmbito da crônica. José Lins do Rego dedicara um romance ao futebol (Água-mãe), e Alcântara Machado, curiosamente um amigo de Oswald, fazia sucesso com Brás, Bexiga e Barra Funda, seleta de contos na qual o jogo aparecia com destaque. Mais tarde, contistas como Edilberto Coutinho, Sérgio Sant’Anna e Rubem Fonseca também abordariam o futebol em suas obras, pavimentando uma estrada na qual, hoje, caminham autores da chamada Geração 90, como Marcelino Freire e Flávio Carneiro. 

João Cabral de Melo Neto
O time da poesia poderia escalar Vinicius de Moraes, Ferreira Gullar, Armando Freitas Filho e Glauco Mattoso. Todos dedicaram versos ao esporte. Na contenção, jogaria João Cabral de Melo Neto, que chegou a atuar de center-half (ou, como se diz hoje, volante) no América, de Recife — time para o qual torcia. Tido com um talento promissor, João Cabral integrou também a equipe do Santa Cruz, sagrando-se campeão estadual juvenil de 1935, antes de abandonar os gramados.

Já a tradição da crônica futebolística, menos “ficcional” porquanto mais centrada na análise dos jogos ou na descrição de episódios da vida dos envolvidos com o esporte, se sedimentou por intermédio de nomes como João Saldanha, Sandro Moreyra, Armando Nogueira, Mario Filho e Nelson Rodrigues. Os dois últimos, irmãos, foram pioneiros — cada qual a seu modo.

Nelson Rodrigues e Mario Filho
Mario tirou o fraque e a cartola da crônica, abdicando do formalismo em favor de um registro mais coloquial, próximo do linguajar do torcedor. Além disso, foi peça fundamental na popularização do futebol, promovendo eventos como o Torneio Rio-São Paulo e criando designações hoje clássicas, como o termo “Fla x Flu”. Apaixonado torcedor do Fluminense e dono de um estilo singular, Nelson via o futebol como síntese da “alma brasileira” e o campo, como um microcosmo das tensões sociais e estéticas que animam o país. Em suas crônicas, inventava personagens como o Gravatinha e o Sobrenatural de Almeida, que se imiscuíam no relato e não raro interferiam nos jogos, esfumaçando de vez as fronteiras entre realidade e imaginação.

Outros autores-cronistas, embora não tenham se notabilizado pelo registro esportivo, trataram do futebol em seus textos. É o caso de Carlos Drummond de Andrade, que comentou sobretudo as Copas do Mundo, de 1958 a 1986. E também Clarice Lispector, que, naquela que talvez seja sua única incursão no tema, realiza o desejo de Armando Nogueira, então seu colega no Jornal do Brasil. Armando disse que trocaria uma vitória do seu Botafogo por uma crônica de Clarice sobre futebol. Hoje, cronistas como Luis Fernando Verissimo, Cristovão Tezza e Marcos Caetano mantêm a bola em jogo com suas colunas em diferentes jornais.

Ao fazer a seleção dos 18 textos desta edição especial — referência ao número de jogadores inscritos numa partida oficial —, procuramos contemplar todos os gêneros, as distintas épocas e os mais relevantes personagens do futebol. Nos contos, crônicas e poemas que se seguem, o artilheiro, o goleiro, o ex-jogador, o técnico, o juiz, o torcedor e, claro, a bola são protagonistas ou coadjuvantes de histórias contadas por alguns dos principais autores que escreveram sobre o esporte, quase todos já mencionados nesta apresentação. “Quase” porque incluímos outros dois. José Soares, representando aqui o cordel, que tanto espaço reservou (e reserva) ao esporte em seus livretos, e Paulo Perdigão. Mais conhecido como crítico de cinema, Perdigão tinha três obsessões na vida: o filme “Os Brutos também Amam”, o filósofo Jean-Paul Sartre e a Copa de 50. Sobre ela, escreveu um livro seminal: “Anatomia de uma Derrota”, de onde retiramos o conto “O Dia em que o Brasil Perdeu a Copa”. A história, que virou curta-metragem de relativo sucesso nas mãos de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado, não era publicada há dez anos.

“O Dia em que o Brasil Perdeu a Copa” gira em torno do papel do “se” no futebol — e na vida. É uma alegoria sobre a inevitabilidade de certas coisas, e permite estendermos uma ponte imaginária com a crônica de Marcos Caetano, que especula sobre a existência de um lugar para o qual iria tudo o que “quase” aconteceu. Lugar onde, entre bolas na trave, chutes para fora e defesas impossíveis, está o gol que Thiago Neves marcou, no finalzinho da prorrogação do jogo contra a LDU no Maracanã, dando o título da Taça Libertadores ao Fluminense”.

Abaixo, um dos textos da coletânea Bravo:

“Enquanto os Mineiros Jogavam”
Por Carlos Drummond de Andrade, em 1931

"Domingo à tarde, na forma do antigo costume, eu ia ver os bichos do Parque Municipal (cansado de lidar com gente nos outros dias da semana), quando avistei grande multidão parada na Avenida Afonso Pena. Meu primeiro pensamento foi continuar no bonde; o segundo foi descer e perguntar as causas da aglomeração. Desci, e soube que toda aquela gente estava acompanhando, pelo telefone, o jogo dos mineiros na capital do país. Onze mineiros batiam bola no Rio de Janeiro; dois mil mineiros escutavam, em Belo Horizonte, o eco longínquo dessa bola e experimentavam uma patriótica emoção.

Quando chegou a notícia da vitória dos nossos patrícios, depois de encerrado o expediente, isto é, depois de ter terminado o segundo tempo, vi, claramente visto, chapéus de palha que subiam para o ar e não voltavam, adjetivos que se chocavam no espaço com explosões inglesas de entusiasmo, botões que se desprendiam dos paletós, lenços que palpitavam como asas, enquanto gargantas enlouqueciam e outras perdiam o dom humano da palavra. Vi tudo isso e tive, não sei se inveja, se admiração ou se espanto pelos valentes chutadores de Minas, que surraram por 4 a 3 os bravos futebolistas fluminenses.

Não posso atinar como uma bola, jogada à distância, alcance tanta repercussão no centro de Minas. Que um indivíduo se eletrize diante da bola e do jogador, quando este joga bem, é coisa de fácil compreensão. Mas contemplar, pelo fio, a parábola que a esfera de couro traça no ar, o golpe do center-half investindo contra o zagueiro, a pegada soberba deste, e extasiar-se diante desses feitos, eis o que excede de muito a minha imaginação.

Para mim, o melhor jogador do mundo, chutando fora do meu campo de visão, deixa-me frio e silencioso.

Os meus patrícios, porém, rasgaram-se anteontem de gozo, imaginando os tiros de Nariz, e sentiram na espinha o frio clássico da emoção, quando o telefone anunciou que Carlos Brant, machucando-se no joelho, deixara o combate. Alguns pensaram em comprar iodo para o herói e outros gritavam para Carazzo que não chutasse fora. A centenas de quilômetros, eles assistiam ao jogo sem pagar entrada. E havia quem reclamasse contra o juiz, acusando-o de venal. Um sujeito puxou-me o paletó, indignado, e declarou-me: "O Sr. está vendo que pouca-vergonha. Aquela penalidade de Evaristo não foi marcada." Eu olhei para os lados, à procura de Evaristo e da penalidade: vi apenas a multidão de cabeças e de entusiasmos; e fugi."

Sobre Marcelo Moutinho:
Marcelo Moutinho nasceu em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, em 1972. É escritor e jornalista, com especialização em Comunicação e Imagem (PUC-Rio). Publicou os livros A palavra ausente (Rocco, 2011), Somos todos iguais nesta noite (Rocco, 2006) e Memória dos barcos (7Letras, 2001). Além disso, organizou as antologias Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009), Contos sobre tela (Pinakotheke, 2005), Prosas cariocas - Uma nova cartografia do Rio(Casa da Palavra, 2004), das quais é também co-autor, e a revista especial Bravo! - Literatura e Futebol (Abril, 2011).

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