terça-feira, 30 de outubro de 2012

Maradona: a magia e o peso da camisa 10


30 de outubro, dia de festa para um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Diego Armando Maradona completa 55 anos de uma vida repleta de altos e baixos. Glória e fracasso. Vida e ressurreição...

Um legítimo dono da 10. Seres especiais, retratados no livro A Magia da Camisa 10 (Verus Editora, 2006), de André Ribeiro e Vladir Lemos. O capítulo abaixo, descreve essa “louca” vida de Maradona...

“O ano de 1986 foi a glória desse camisa 10 baixinho, o momento alto de uma história carregada de predestinação, mas que no início pode ter parecido apenas uma empolgação infantil.

Diego Armando Maradona nasceu em 30 de outubro de 1960 e foi o quinto dos oito filhos do operário Diego e de dona Tota. Na infância pobre, vivida em Villa Fiorito, subúrbio de Buenos Aires, Las Sete Canchitas era o campinho que ficava próximo à sua casa. É nesse cenário que o garoto de apenas nove anos começa a jogar pelo time de seu bairro, conhecido como La Estrella Roja. Nessa fase da vida, Maradona era apenas o garoto humilde chamado carinhosamente pelos amigos de Pelusa. Um deles, Goyo Carrizo, propôs ao amigo craque que fizesse um teste no Cebolittas, equipe infantil do Argentino Juniors. O único problema é que dom Diego, pai de Maradona, não tinha dinheiro sequer para pagar o ônibus que levaria o filho ao treino. O jeito foi aceitar um empréstimo do pai de Carrizo. O talento precoce, marcado pela habilidade para chutar e driblar com a perna esquerda, facilitou sua aprovação no teste. 

Maradona, em 1973.
No dia 20 de outubro de 1976, Maradona ganhou como presente de aniversário antecipado a estreia pelo time profissional do Argentino Juniors. Não houve gol nem jogadas geniais, mas, ao substituir um jogador de meio-campo, mostrou que não poderia ficar de fora. Pelusa foi promovido e ganhou novo apelido: El Pibe de Oro (O Garoto de Ouro). Quatro meses mais tarde já estava em campo defendendo a seleção da Argentina na goleada por 5 a 1 contra a Hungria.

Os movimentos clássicos do futebol soavam simples nos pés do pequeno jogador. A condição de artilheiro do campeonato metropolitano de 1978, quando marcou 22 gols, fez de Maradona o nome certo para a Copa que se aproximava. Só quem não pensava assim era o técnico César Luis Menotti, que o considerava inexperiente aos 17 anos. A Argentina ganhou o primeiro Mundial disputado em seu país em meio a uma dolorosa ditadura.

No ano seguinte conquistaria o primeiro título importante com a seleção ao vencer o Mundial Sub-20, disputado no Japão. O jogo contra a então União Soviética terminou com o placar de 3 a 1, principalmente devido à visão de jogo sem igual de Maradona, autor de um dos gols.

Com jogadas geniais, executadas por uma canhota espetacular, Diego começava a despertar a paixão dos fanáticos torcedores argentinos, especialmente os do Argentino Juniors, que o viram marcar 116 gols e ser o artilheiro do Campeonato Argentino durante quatro anos consecutivos. Suas atitudes dentro e fora de campo eram comparadas às de um rei que tomava decisões de maneira passional. Maradona tinha o tamanho exato do craque disfarçado. Escondeu todo o tempo sua maneira sublime de jogar bola em um singelo metro e sessenta e seis.

Em novembro de 1980 foi aplaudido de pé após marcar quatro gols na goleada por 5 a 3 em cima do Boca Juniors, seu clube do coração. Com os olhos mareados, o craque confessou ao final da partida: “Estou muito emocionado porque toda a minha família torce para o Boca Juniors”.

A confissão seduziu os dirigentes do clube de cores azul e amarela, e três meses depois Maradona era comprado por 2,5 milhões de dólares. Dava um passo decisivo em sua carreira profissional ao estreitar as relações com o clube que mais amava. Revelou-se genial e logo na primeira temporada conquistou o título argentino após marcar 28 gols nas 40 partidas em que atuou com a camisa 10 do Boca.

Pouco antes do início da Copa da Espanha, Maradona transformou-se no jogador mais caro do mundo quando foi comprado por oito milhões de dólares pelo Barcelona. Na Copa, a derrota para a Bélgica, na estreia, foi esquecida com uma goleada sobre a Hungria e uma vitória sobre El Salvador. Mas na fase seguinte, depois de perder para a Itália, Maradona deixaria de sonhar com um triunfo mundial ao cruzar com o futebol-arte da seleção brasileira, de Zico, Falcão e Sócrates. O placar adverso de 3 a 1 revelou outra face de Diego, tão verdadeira quanto sua genialidade. Emocionalmente abalado, acabou expulso depois de agredir o volante brasileiro Batista em uma jogada sem maior importância.

Ao vencer a Copa do Rei com o Barcelona, na temporada 1982/1983, passou a ser cobiçado pelo futebol italiano. Maradona, em meio a essa boa fase, assim como Zico, sofreu as dores de uma contusão séria. Ao enfrentar o Atlético de Madrid, teve o joelho direito atingido por Goicoechea. A recuperação lenta deixou-o de fora dos gramados até o final do ano. 

Recuperado, em 1984 Maradona é comprado pelo Napoli, da Itália, em uma transação milionária que gerou muitas suspeitas. Os 12 milhões de dólares gastos pelo modesto time italiano começaram a retornar aos cofres do clube logo no dia de sua apresentação aos torcedores. Não havia jogo nem adversário em campo, e mesmo assim 60 mil torcedores pagaram para ver Maradona aterrissar em um helicóptero no centro do gramado do Estádio San Paolo. 

No México, terra em que Pelé viveu o apogeu, Diego escreveria a mais bela página de sua história. A Copa do Mundo de 1986 seria dele, em todos os sentidos. No dia 22 de junho, no instante em que Argentina e Inglaterra entraram no gramado do Estádio Azteca para disputar as quartas-de-final sob os olhos de quase 115 mil torcedores, o mundo sabia que não se tratava apenas de um jogo de futebol. Havia dentro de cada jogador a mágoa de um combate feroz. Os ingleses haviam vencido a guerra das Malvinas e retomado as ilhas que a geografia deixava parecer muito mais argentina. Mas as forças britânicas haviam cruzado o oceano para hastear em solo longínquo sua bandeira. A vitória agora seria carregada de simbolismo. Bastou o árbitro tunisiano Ali Bennaceur soprar o apito para Maradona roubar a cena do espetáculo.

O primeiro tempo já havia atormentado as emoções dos torcedores quando um longo lançamento partiu em direção à área britânica. O baixinho Maradona não se intimidou diante do goleiro Shilton, armou a cabeçada e, discretamente, tocou a bola com a mão para dentro do gol. A ousadia não foi punida; ao contrário, premiada com a marcação do primeiro gol da partida. E tinha mais... muito mais.

Três minutos depois, Maradona partiu do meio de campo como quem dispara um tiro de misericórdia. Traçou uma linha imaginária, pendendo para a lateral da cancha, e avançou sobre o território adversário. Não foram poucos os que tentaram detê-lo. Um, dois, três, quatro, cinco adversários. Um avanço que só terminou depois de driblar o mesmo goleiro Shilton e entregar a bola, com uma força impiedosamente calculada, para o fundo da rede. De nada adiantaria o gol de Lineker próximo do final do jogo. A vitória por 2 a 1 alcançada, segundo Maradona, por “la mano de Dios” (a mão de Deus), entrava para a história.

Na semifinal contra a Bélgica, o placar de 2 a 0 foi construído com gols do camisa 10.

Na final contra a Alemanha, Maradona preferiu o enredo já usado por outros craques e reservou-se a um papel que o privou de colocar a bola na rede. Mas era sem volta. Burruchaga, ao marcar o gol do título, deu à Argentina a Copa de Maradona.

Reconhecido como gênio, em 1987 El Pibe de Oro conquistou ainda o Campeonato Italiano e a Copa da Itália. Dois anos mais tarde fez do Napoli o vencedor da Copa da Uefa e em 1990 conquistou o segundo scudetto italiano.

A final da Copa de 1990, disputada na Itália, era um replay da realizada quatro anos antes. Só que dessa vez os alemães não deixaram escapar o tricampeonato mundial. Restou a Maradona disparar severas críticas contra os organizadores do Mundial.

O título da Supercopa da Itália, em 1991, precederia um período negro na carreira vitoriosa de Maradona. As fotos ao lado de integrantes da Camorra, a máfia italiana, e o envolvimento com o tráfico de drogas e a prostituição indicavam os motivos da crise entre o camisa 10 e o clube italiano, que o acusava de faltar aos treinos e fugir das concentrações.

A partida entre o Napoli e o Bari no dia 17 de março de 1991 foi a última do craque pela equipe. Afastado pela Federação Italiana, após um exame antidoping com resultado positivo devido ao uso de cocaína, recebeu da Fifa uma punição mundial de 15 meses. Foi processado pelo clube, que exigiu o pagamento de 5,5 milhões  de dólares pelo comprometimento da imagem da instituição.

De volta a Buenos Aires, ainda em 1991, é autuado com um grupo de amigos pela posse de meio quilo de cocaína. Paga 20 mil dólares para ser solto. Processado, assume o vício e interna-se em uma clínica para desintoxicação. Terminada a suspensão imposta pela Fifa, voltou à Espanha para jogar com a camisa do Sevilha por 7,5 milhões  de dólares. Repetindo a história de não comparecer aos treinos, acabou mandado embora. A história repetiu-se logo na seqüência, quando em 1993 passou a defender o argentino Newel’s Old Boys. Após a marcação de um único gol, o presidente do clube argentino decidiu demiti-lo, com base em avaliação médica que decretava “falta de condições psicológicas” para continuar a jogar futebol.   

E não era apenas falta de condições psicológicas. Maradona também não tinha condição física para continuar a jogar. Incentivado pelo presidente do país, Carlos Menem, e por Alfio Basile, técnico da seleção da Argentina, Maradona protagonizou uma verdadeira luta para emagrecer, livrar-se do vício e recuperar a forma. Conseguiu o que parecia impossível: jogar o Mundial de 1994.

O Maradona que entrou em campo passou a sensação de que era um homem capaz de enfrentar qualquer obstáculo, até mesmo o do tempo. Após marcar o segundo gol da Argentina, na partida de estreia contra a Grécia, a 21ª do menino de ouro em Mundiais, caminhou na direção de uma das câmeras que transmitiam a Copa para quase 30 bilhões de telespectadores, para extravasar a alegria. A face desfigurada no ritual de comemoração deixava transparecer um jogador totalmente tomado pela emoção. O exame antidoping revelaria, horas mais tarde, que tamanha exaltação poderia muito bem ter sido um dos efeitos do estimulante efedrina. Maradona estava eliminado da Copa. Uma partida a mais o teria tornado o jogador com maior número de jogos disputados em Copas do Mundo. Voltou para casa com nova punição da Fifa, mais 15 meses.         

Em 1995 retorna ao Boca Juniors, seu clube do coração, mas continua sob a sombra dos problemas trazidos pelas drogas. Dois anos após o retorno ao futebol argentino, foi pego em um exame antidoping, que acusou consumo de cocaína antes da partida em que o Boca venceu por 4 a 2 o Argentino Juniors. Desesperado, sem conseguir escapar do vício, declarou: “Estou cansado e entregue”. Fez a última partida pelo clube argentino em outubro de 1997.

O maior craque da década de 1980 ainda voltou a campo em 10 de novembro de 2001, em uma partida realizada em Buenos Aires, para se despedir de vez. Como sempre, foi ovacionado e cortejado pela torcida.  

Mais do que tudo, Maradona foi um camisa 10 que continuou se transformando mesmo depois de abandonar os gramados. Viveu boa parte dos dramas reservados aos homens: drogas, problemas de coração, destemperos. Mas o que o fez diferente de todos os outros foi sem dúvida sua maneira de encarar o mundo. Existe no rosto de Maradona o riso do boa-praça e a figura austera de quem descobriu que pode falar o que pensa, chocar e depois driblar o efeito. Existe em Maradona um homem capaz de ressurgir, por mais que pareça derrotado. Em 2004 sua figura era a de um homem devastado pelas drogas. Gordo, inchado, foi internado quase morto em um hospital argentino. Multidões faziam vigília orando pela vida do craque, tratado como autêntico deus, uma figura mítica no imaginário do povo argentino. Recuperou-se após uma cirurgia para reduzir o estômago, feita por um médico na Colômbia. Perdeu 40 dos 120 quilos que pesava. A luta de Maradona pela vida sensibilizou o mundo: “Agora aproveito cada dia. A
glória não me deixava viver antes, e hoje vivo a vida com ela ao meu lado”.

Maradona foi o único que ousou desrespeitar os cânones do futebol. Se todos fizeram questão de tratar Pelé como algo único, Maradona deu-se o direito de ousar achar que teria sido igual ao Rei, ou até mesmo melhor que ele. Está lá, Che Guevara tatuado no braço de Dieguito; esta aí o mais rebelde dos camisas 10”.

Os apelidos no futebol

Pelé, o apelido mais famoso do futebol.

Brasileiro adora colocar apelido em todo mundo. No futebol então, nem se fale. A origem de vários apelidos curiosos poderia até render um livro para a literatura esportiva (se é que já não existe algum por aí). Mas uma boa explicação sobre esse quase “fenômeno” (eis aqui outro apelido de um certo craque brasileiro), quem nos dá é o escritor Francisco Bosco, parceiro e filho do músico João Bosco, colunista do jornal O Globo. Como ele mesmo prefere afirmar, os textos que assina todas as quartas-feiras, não são crônicas, mas ensaios sobre temas diversos. (sobre isso, vale a leitura de artigo recente sobre seu mais recente livro, “Alta ajuda” – assim mesmo, com a letra L - http://oglobo.globo.com/cultura/francisco-bosco-compara-seus-ensaios-reunidos-em-livro-ao-futebol-de-salao-6186001).

No texto abaixo, extraído da coletânea Donos da Bola, organizada por Eduardo Coelho (Editora Língua Geral, 2006), uma interessante reflexão sobre algo tão comum no futebol, que sabemos, mas não compreendemos.

Os nomes e a bola: dos apelidos no futebol brasileiro
Por Francisco Bosco

Garrincha

Elenquemos aleatoriamente os nomes de alguns dos maiores jogadores de futebol do mundo, em todos os tempos: Johann Cruyff, Maradona, Di Stefano, Rummenigge, Roberto Baggio, Michel Platini, Zinedine Zidane, Mario Kempes, Marco Van Basten, Puskas, Eusébio, Stoichkov, e assim por diante. Agora elenquemos alguns dos nomes de grandes craques do futebol brasileiro, sem, obviamente, qualquer pretensão exaustiva: Didi, Vavá, Pelé, Garrincha, Tostão, Zico, Romário, Rivelino, Gérson, Reinaldo, Rivaldo, Robinho, Nilton Santos, Jairzinho, Falcão, etc. Salta aos olhos o fato de que, diferentemente do que se passa com os jogadores estrangeiros, chamamos a maioria dos nossos craques por apelidos ou diminutivos: Didi, Pelé, Zico, Jairzinho, Robinho... Ou sobrepomos um apelido, uma espécie de aposto, aos nomes próprios, como no caso de Gérson, que é “o canhota” (de ouro), ou no de Romário, “o baixinho”. Às vezes juntamos um apelido a um apelido: Zico, o galinho de Quintino.

"Muralha", revelação do Flamengo.
Recentemente, a diretoria do Flamengo baixou impositivamente a norma de que os jogadores do clube deveriam ser chamados pelo nome próprio ou sobrenome, mas não por apelidos. Para meu espanto, até onde pude acompanhar ninguém da imprensa repudiou essa imposição, nem mesmo deu a ela uma maior atenção. A principal manifestação de repúdio veio de um jovem jogador: Geninho, assim apelidado desde as divisões de base do clube, e que agora a diretoria insistia em transformar em Emerson. O argumento dos diretores do clube foi o da seriedade: os apelidos habituavam os jogadores à irresponsabilidade e eram prejudiciais a sua imagem. Todos os torcedores rubro-negros ou todos os amantes do futebol, pelo menos os cariocas, sabem o quão mal das pernas anda o Flamengo; o clube sofreu com seguidas administrações incompetentes ou corruptas, descaracterizou-se, perdeu a marca da raça e tornou-se, de fato, o clube da irresponsabilidade, onde o profissionalismo deu lugar à famigerada turma do “chinelinho” (jogadores que simulavam contusões ou forçavam suspensões para não jogar, não viajar com a delegação, enfim, jogadores, cujo representante maior foi sem dúvida o talentoso mas pouco inteligente Felipe, que passavam a maior parte do tempo de chinelos, à margem do campo de treinamento). Assim, a sábia diretoria do Flamengo concluiu que o grande culpado da farra eram os apelidos, e mandou proibi-los.

Ronaldinho Gaúcho
Ocorre que, precisamente, a especificidade do futebol brasileiro está em certa irresponsabilidade: na ginga, na arte do engano, na dissimulação. Todo apaixonado por futebol sabe que jogar bem é saber enganar o adversário: a finta, o drible, a pedalada, o corta-luz, o elástico, o passe à la Ronaldinho Gaúcho (olhar para um lado e passar para o outro), o chute com efeito, etc. O futebol é a arte da mentira, mas uma mentira inventada e contada pelo corpo em uma fração de segundos. O drible é isso: o jogador diz, com uma breve sintaxe de pernas e tronco: “vou pra esquerda”, o marcador, seu corpo, acredita, segue para a esquerda, e o jogador realiza o drible indo para a direita. A lógica do futebol é a do engano, e suas operações são realizadas pelo corpo em frações de segundo. O jogador rápido é aquele que pensa com o corpo, sem mediação da cabeça: se parar para pensar, já era. Dissimular, mentir, esconder (na pedalada e no corta-luz os jogadores escondem por um instante a bola - instante suficiente para desnortear o marcador), assim procede o melhor futebol do mundo, o brasileiro. A diretoria do Flamengo comportou-se como um marcador ludibriado; pressentiu que havia uma associação entre os apelidos e a irresponsabilidade, mas confundiu decisivamente o lugar das coisas: não soube distinguir a irresponsabilidade fora do campo, condenável, da irresponsabilidade dentro do campo (aquela dos dribles, da arte do engano), desejável. Pois bem, que relação tem com tudo isso os apelidos?

O escritor Miguel de Unamuno dizia de nossa língua que o português é o espanhol sem ossos. Mario de Andrade, que tomou para si a tarefa de dar à língua portuguesa escrita no Brasil um caráter nacional (é a tentativa do fraco romance “Amar, verbo intransitivo”, e do extraordinário romance “Macunaíma”), afirmava que não se deveria falar em “língua brasileira”, mas em “língua nacional”, na medida em que a língua que compartilhamos é o português (sob os decisivos aspectos sintático e morfológico), mas um português deformado, por dentro, pelas características sócio-culturais do Brasil (1).

Gilberto Freyre, numa emocionante passagem de “Casa-Grande & Senzala”, fala de como os escravos, notadamente as mucamas, “mastigaram” a língua portuguesa, tiraram-lhe os ossos, a fim de que as crianças pudessem falar sem engasgar. Assim, a presença da(s) língua(s) africana(s) no português, junto ao modo sócio-afetivo que regulava as relações na casa-grande, foi desossando a língua portuguesa falada no Brasil, conferindo-lhe um caráter inequivocamente nacional. Desossadas eram as relações sócio-afetivas entre senhores e escravos, filhos de senhores e muleques, amas e mucamas: relações marcadas por contradições e ambivalências de que nenhum pensamento unilateral pode apreender a verdade. Gilberto dá como exemplo a famosa colocação do pronome oblíqüo antes do verbo, emprego gramaticalmente errado, mas afetivamente justo: no lugar de um “dá-me”, imperativo, distante e austero, o “me dá” carinhoso e quase infantil. O “me dá” é característico do português do Brasil, uma construção lingüística formada pela singularidade social deste país.

Gilberto Freyre
Gilberto fala também da transformação dos nomes próprios em apelidos, geralmente por via de repetição de sílaba ou diminutivo: Mariazinha, Mané, Fafá, Bebeto, Toinha, Cacá, etc. O diminutivo indica um tratamento próximo, carinhoso, ao passo que a repetição da sílaba (geralmente a inicial) remete à linguagem infantil. Também aqui reinventam-se os nomes investindo neles toda a carga afetiva que caracterizava as relações sociais no processo de formação do Brasil. São esses traços singulares da formação social do Brasil - em que o afeto cumpre importante papel – que fazem com que a pronúncia brasileira do português soe, como sugere Antenor Nascentes, “arrastada e suave”, em comparação àquela, “rápida e energética”, do português de Portugal. Daí, ainda, ter Eça de Queirós denominado português com açúcar a fala do Brasil. 

Os apelidos e diminutivos são, portanto, traços da formação do Brasil inscritos nos nomes. Traços que trazem a marca de uma afetividade ambígüa, forjada no seio de contradições sociais que o afeto a um tempo amenizava e mascarava (como sintetizou perfeitamente Sergio Buarque de Holanda no conceito de “homem cordial”). Os apelidos e diminutivos remetem assim às ambigüidades constitutivas do Brasil, à forma escorregadia de se manter as tensões sob controle, procurando operar por dentro das contradições, tentando achar brechas e acomodações ao invés de partir para um confronto aberto: é a malandragem, ou o famoso “jeitinho brasileiro”. O malandro é justamente o tipo que surge da permeabilidade da formação urbana do Rio de Janeiro no começo do século XX, em que as fronteiras, físicas e morais, entre a lei e o crime não eram bem determinadas, em que diversas classes sociais dividiam um mesmo espaço indistinto. O malandro é aquele que evita a confrontação, é aquele que ocupa dois espaços contraditórios ao mesmo tempo: é a ambigüidade encarnada, corporalizada. A ginga do malandro atualiza, no corpo, momentos decisivos da formação brasileira. Assim também a síncope no samba, o “negaceio estrutural” (como sugere José Miguel Wisnik) que lança o corpo de um lado para o outro, o corpo que finge estar aqui e se move para lá, o corpo que engana e dissimula, o corpo escorregadio, desossado.

Gilmar "Fubá", ex-jogador do Corinthians.
Tudo isso é bastante conhecido, como são demasiadamente conhecidas também as mazelas que um tal desossamento ético traz para o país. Mas se trata, em primeiro lugar, de reconhecer esse desossamento como traço formador do Brasil, e em seguida de saber delimitar os espaços em que ele é desejável - como no futebol ou no ritmo musical - e aqueles em que é nefasto - como na política. É possível, infelizmente, que a parte positiva da cordialidade, o afeto hospitaleiro, esteja se dissolvendo, como argumentou Contardo Calligaris em artigo relevante, em meio à insustentabilidade do mascaramento da catástrofe social brasileira (2). A relação entre pessoas de classes sociais diferentes passa a ser marcada pela hostilidade, não pela cordialidade. É claro, entretanto, que não se trata de fazer o elogio do homem cordial, mas de tentar preservar o afeto e a proximidade ao mesmo tempo em que tentamos respeitar as leis e confrontar abertamente as mazelas sociais. Desafios do Brasil.

Leônidas da Silva, o garoto pobre
que virou o "Diamante Negro".
Mas deixemos essas questões amplas demais para serem tratadas aqui e voltemos aos apelidos. Os apelidos tiram os ossos dos nomes próprios, estão investidos de afeto e atualizam, no nome, características decisivas da formação brasileira. Os apelidos nos enviam imediatamente ao mesmo processo social que veio a dar no malandro, no samba e na arte do engano dos grandes craques de nosso futebol. Em seus primórdios, o futebol brasileiro, importado da Inglaterra, importara-lhe também os nomes: goalkeeper, center-half, referee; assim como os jogadores, que, no começo do século XX, quase todos brancos e de classes altas da sociedade, eram chamados em geral por seus nomes e sobrenomes. A história dos apelidos, como deixa entrever o livro de Mario Filho, “O negro no futebol brasileiro”, confunde-se com a história da ascensão do negro no futebol brasileiro, e, portanto, com o processo de apropriação brasileira do esporte bretão. Os apelidos flagram o processo mesmo de abrasileiramento do futebol: o momento em que aquela “gente de classe baixa, mal sabendo ler e escrever, com um nome só, às vezes até sem nome, apenas com um apelido”(3) o momento em que essa gente vai abrindo seu caminho em meio ao racismo escancarado que era vigente no mundo do futebol.

Arthur Antunes Coimbra, o Zico.
Quando se fala em Pelé, Mané, Zico, Robinho, estamos diante do Brasil - dos senhores e escravos, das mucamas e muleques, dos malandros e navalhas, dos quadris e do gingado. Os apelidos, pelo diminutivo e pela repetição, remetem à linguagem infantil, e daí à ludicidade, que é o fundamento de todo jogo, principalmente o do futebol. Os apelidos são lúdicos como o jogo de bola: já prefiguram o corpo no nome. Os apelidos jogam bola sozinhos, já fazem o aquecimento, são um espetáculo à parte. Na hora do par ou ímpar, quem você escolhe para o seu time, Emerson ou Geninho? Você confiaria em um ponta-esquerda chamado Roberto Augusto? De lado as brincadeiras, um corpo desossado, gingador e irreverente reivindica um apelido, um diminutivo, um nome também ele lúdico e sem ossos. A história do nosso futebol é também a história dos apelidos. Não conhecemos Édson Arantes do Nascimento ou Arthur Antunes Coimbra, mas o que eles faziam dentro de campo e não se acomodava a esses nomes duros, rígidos. A diretoria do Flamengo deveria ter ossos ela mesma, ser responsável, transparente, firme – deixar os apelidos nomearem o engano, a irreverência, a alegria, a encantadora molecagem que se pratica dentro das quatro linhas.

Notas:
(1) A controvérsia sobre a denominação da língua praticada no Brasil já mobilizou muitos escritores, gramáticos, filólogos e lingüistas desde, pelo menos, José de Alencar. Antenor Nascentes lembra que houve mesmo um projeto de lei, apresentado à Câmara Municipal do Distrito Federal, em 1935, propondo a obrigatoriedade da expressão “língua brasileira”. Nascentes, tal como Mario de Andrade (e, mais tarde, um Celso Cunha), defende contudo que esta denominação é equivocada, na medida em que “faltam-lhe [à língua falada no Brasil] as características que lhe dêem a categoria de uma língua”. E argumenta: “O sistema fonético é o mesmo do português; na pronúncia normal só se nota a ausência do e reduzido. As flexões são idênticas; morfemas de número (o s), de gênero (o a), de grau (íssimo), desinências pessoais e temporais dos verbos não apresentam discrepância. A sintaxe, a não ser o caso da colocação dos pronomes oblíquos, poucas variações apresenta. A diferença de sotaque (notada dentro dos próprios países) é secundária. O abundante vocábulo de origem tupi e africana não atinge o cerne da língua portuguesa, pois as palavras fundamentais, como os nomes das partes do corpo, de parentesco, os numerais, os verbos que indicam as ações essenciais à vida, as partículas são todos portugueses”. A propósito, o projeto, submetido à resolução do então prefeito, Dr. Pedro Ernesto, foi por este vetado através dos seguintes termos: “O projeto fere a verdade científica”. (cf. NASCENTES, Antenor. Estudos filológicos. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2003, pp 309-316.)

(2) O artigo a que me refiro, intitulado “Do homem cordial ao homem vulgar”, consta no caderno Mais!, da Folha de São Paulo, edição de 12 de dezembro de 1999.

(3) FILHO, Mario. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, p. 137.

Sobre Francisco Bosco:
Ensaísta e letrista, parceiro e filho de João Bosco, Francisco é autor dos seguintes livros: Da Amizade (Ed. 7Letras, 2003), Dorival Caymmi (Ed. Publifolha, 2006), Banalogias (Ed. Objetiva, 2007) e E livre seja este infortúnio (Ed. Azougue, 2010). É doutor em teoria literária pela UFRJ e colunista do jornal O Globo.

sábado, 27 de outubro de 2012

Paixão pelos Livros


Após um ano de vida, Literatura na Arquibancada atingiu uma marca expressiva para um blog que trata de um tema pouco trabalhado pela grande mídia. Acabamos de ultrapassar a marca de 100 mil visitas, com gente de diversos estados brasileiros e vários países no mundo inteiro, um número surpreendente para quem achava que pouquíssimos pudessem se interessar pelo tema. Feliz engano.

Como retribuição aos amigos que ajudaram a estabelecer essa importante marca, Literatura na Arquibancada reedita agora uma reportagem especial, publicada no último Natal. Também porque, no dia 29 de outubro, comemora-se o Dia Nacional do Livro. Neste sentido, não há como não reverenciar um personagem fundamental para que livros de futebol se tornassem não mais um artigo raro.

José Reinaldo Pontes, proprietário da Livraria Pontes,
em Campinas (SP).
Não fosse o trabalho de “formiga” que José Reinaldo Pontes fez no início dos anos 1990 (e muito antes dele também) o mercado de livros de futebol no Brasil não teria chegado onde chegou e, por tabela, nós, do Literatura na Arquibancada, não teríamos obtido o enorme sucesso atingido em tão pouco tempo.

É apenas o começo de uma longa jornada, esperamos. Literatura na Arquibancada irá se inspirar sempre na vida deste “homem dos livros”. Pontes é uma figura tranqüila e desde a adolescência amante declarado pelos livros, e, especialmente pelo futebol. Tornou-se livreiro no tempo em que este artigo era pouco acessível. Bateu de porta em porta, andou e caminhou por todo o país e até mesmo fora dele para que nossa língua, nosso esporte, ganhassem fronteiras. Ele conseguiu. A entrevista abaixo reflete toda essa batalha pelos livros, pelo surgimento de uma literatura esportiva no país. Com seu jeito simples e títulos, aparentemente, despretensiosos, fez despertar nas grandes editoras do Brasil a visão de um mercado nunca antes explorado. Parabéns José Reinaldo Pontes. E vida longa para os livros e a literatura esportiva.

A vida antes dos livros

Eu nasci no meio do mato, em Itatiba, literalmente, no meio do mato. Meu pai era lavrador, carroceiro, cortava lenha, fazia cerca, esse tipo de serviço. Fazer buraco, valeta, pra plantar uva. Eu nasci em 1947, tenho uma foto em que eu tenho alguns meses, num terreiro, no meio do mato.

José Pontes aos 7 meses.
O nome do meu pai é Joaquim Pontes. E a mãe Zelinda Genoveva Piovesana Pontes. 

Pontes, português, e a minha mãe, Piovesana, italiana. Português misturado com bugre. 

Meu pai era um caboclo, a pele tisnada, um homem “bronco”.





Joaquim Pontes, pai de José Pontes.
Minha mãe com todos os traços italianos e eu acabei ficando mais com os traços da italianidade da minha mãe.

Eles plantavam uva, no sistema de “mear” a terra. Morávamos no sítio e o dono aparecia por lá uma vez por ano para receber a parte dele. Meu pai fazia o que queria, criava porco, tinha uma horta, mas o substancial era uva.


A direita, dona Zelinda, mãe de José Pontes.
A vida era muito dura, duríssima. Éramos eu e eles e muito mais tarde, 20 anos depois, veio a Eva, minha irmã.









O início da paixão pelo futebol

Então, meio do mato, todo dia ir a pé para a escola que ficava a uns 10 quilômetros. Desde o primeiro ano primário. Tudo isso acontecendo em Itatiba. Nesse itinerário de ir para a escola eu passava no campo do Itatiba Esporte Clube, que na época disputou campeonato amador do Interior, e havia muita motivação na cidade porque ele fez a final desse campeonato, que hoje equivaleria a 4ª divisão do Campeonato Paulista.


Ele disputou a final com o 11 de Agosto de Tatuí, mas perdeu o jogo. A derrota foi um choque em Itatiba. Surgiu toda conversa, que o goleiro estava vendido... Eu acompanhava os jogos. Me lembro que o Bonsucesso, Olaria, vieram jogar amistosos em Itatiba. Ouvi falar que Vasco da Gama, o expresso da Vitória (equipe famosa da década de 1950), veio jogar contra a Portuguesa, e ficou concentrado em Itatiba.

Até os 12 anos vivi na roça. Mudei pra cidade e o campo do Itatiba ficou longe pra eu poder assistir aos jogos.  Mudei para a frente da sede de um clube que se chama Operários Futebol Clube. Passei então a acompanhar a vida deste time. Eles estavam começando a construir o estádio.

Sede do Operários FC, de Itatiba.
Além de ir à escola, eu ia ajudar na construção, plantar grama. Antes de ficar pronto, muito antes, o time jogava ali, mesmo com o campo sem estar com a grama formada. 

Eles disputavam jogos regionais. Eu tinha até uma função nos jogos: tinha um centroavante que chutava muito forte e o técnico acreditava que se molhasse a bola ele a chutaria melhor. Então, quando a bola caía no “riozinho” que ficava ao lado do campo, antes de devolvê-la eu molhava a bola.


A arte de ler e vender livros

Nessa época, lia indicações escolares, Iracema, José de Alencar, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Peter Pan...A cidade de Itatiba não tinha biblioteca, para ler algum livro era na escola.Literatura sobre futebol, não existia absolutamente nada, nem se cogitava. Eu descobri a literatura esportiva com o livro “Na grande área”, do Armando Nogueira, uma edição de 1966, mais precisamente, junho daquele ano.


Eu estava no colégio (antigo colegial, atual ensino médio).  Achei esse livro fantástico. 

Ele surgiu por acaso, lá na biblioteca da escola. Logo depois fiz faculdade de Letras (Português – Francês), na cidade de Bragança Paulista. 

Eu acabei optando pelo francês, porque havia uma professora de Itatiba, da qual fui aluno, ela anunciou que iria se aposentar e que eu teria de assumir o seu posto. Apesar da relutância, aceitei o desafio e acabei dando aula lá durante sete anos.

Grupo Escolas "Coronel Júlio César", o lugar onde
José Pontes começou a arte de ler e vender livros.
Nesse período em que lecionava francês, eu também vendia livros. A ideia de vender livros surgiu na época em que não existia sequer uma livraria na cidade de Itatiba. Eu comprava os livros pelo sistema de reembolso postal. Pedia para a editora e ela mandava. No começo, comprava os livros da minha necessidade de leitura, mas acabei descobrindo que poderia aproveitar melhor essa compra, vendendo livro para os professores, para os colegas. Todo mundo precisava de um livro. Tinha no máximo 16 anos.  Quando chegava o livro na agência do correio, eu não tinha dinheiro, então fazia a coleta do dinheiro para retirá-los. Foi aí que despertou o interesse de vender livros, porque do ambiente escolar, passou para o vizinho, para o parente. Pensava comigo: ‘será que minha tia que é cozinheira, não compraria um livro de receitas?’. Minha vizinha era super católica, ‘será que ela não compra uma Bíblia?’.

Capa de um livro editado
pela Tecnoprint: Histórias
de Pracinhas (1967).
Passei a trabalhar inicialmente com a editora: a Tecnoprint (que antigamente chamava-se Gertum Carneiro e atual Ediouro). Vendia de tudo, esportes variados, literatura em geral, ficção científica, policial, clássicos...Podia-se montar uma livraria só com os títulos que eles vendiam. Nunca havia pensado em ser “vendedor de livros”, mas a coisa começou a dar certo. Comecei a vender para a escola inteira, para todas as classes. 

O diretor da escola era quem vendia os livros, então cheguei para ele certo dia e disse que estava comprando livros. Propus a ele para que ficasse responsável por essas compras. Ele achou ótimo porque aquilo tomava um tempo enorme dele. A única exigência dele foi para que eu desse uma comissão para a APM, a Associação de Pais e Mestres.

Mudando a vida de uma pequena cidade

Nesse momento, tive de abrir uma empresa. Era o ano de 1968: coloquei o nome de Livraria Vanguarda. “Vanguarda”, na época, era um nome forte, “literatura de vanguarda”, “música de vanguarda”...Era uma loja pequena, no centro de Itatiba.

Vista atual de Itatiba, SP.
Costumo brincar que fui o precursor do shopping no Brasil, porque para dividir as despesas do aluguel da livraria, aluguei um espaço nesse mesmo ambiente para uma lotérica, que também não tinha na cidade. Aluguei ainda para uma tabacaria. A “Vanguarda” ficava no fundo desse ambiente, vendendo livros e artigos de papelaria. Durante três anos mantive o negócio e ajudava meus pais. Meu pai continuava a trabalhar na roça e minha mãe era costureira. Só que chegou o momento de estudar em Campinas, na PUC. Para poder me sustentar, vendi a livraria em Itatiba e montei outra em Campinas, onde estou até hoje.

Antiga fachada da Livraria Pontes.
No lugar já existia uma livraria, a famosa “LISA - Livros Irradiantes S/A”, uma editora poderosa na época, mas que estava “quebrando”. 

Comprei por uma pechincha para a época, o equivalente a 15 mil cruzeiros. 

Era o ano de 1974. Entre a venda da livraria em Itatiba a compra da outra, houve um hiato de dois anos, e mesmo nesse período não parei de vender livros, só que para os companheiros de faculdade.



Capa de livro Editora Gol.
Nesse período, surgiu a Editora Gol, e passei a ter acesso à livros de futebol. Ela começou em 1968 e terminou em 1972. Esses livros não me chamaram muito a atenção e em 1974 quando montei a “Livraria Pontes” comecei a vender títulos esportivos. 

Em 1989, já havia conseguido comprar todo o prédio onde ficava a livraria, com os frutos das vendas. Trabalhava vendendo todo o tipo de título, inclusive Informática e Direito. 

O forte mesmo eram os livros escolares, didáticos e paradidáticos. Nesse período, descobri outro “filão” no mercado: a exportação de livros.

Primeiro andar da Livraria Pontes, onde se encontram os
livros de futebol.
Comecei a exportar livros para a França, Portugal, Alemanha, Argentina, Estados Unidos e Japão. 

Fornecíamos para as livrarias internacionais mais importantes desses países. Vendíamos tudo que um estrangeiro pudesse se interessar. Em primeiro lugar, a língua brasileira, métodos para se aprender o português do Brasil. 

Depois, livros de Gramática, Dicionários. E a seguir, a literatura em geral.



Um método revolucionário

José Pontes, na Feira de Livros de Lisboa, em 1993.
Por tudo isso, passei a publicar (editar) livros de “métodos de Português”, porque na época só havia um título disponível “Português para Estrangeiros” de Mercedes Marchant...

Criei um livro com método revolucionário do ensino de línguas no País: “Fala Brasil”.

Capa do livro de
Mercedes Marchant.

Era o ano de 1989, mesmo ano em que começo o setor de futebol na Livraria Pontes. 

O primeiro livro que comecei a vender aqui, na Pontes, foi o livro da Ponte Preta, escrito pelo Sérgio Rossi, o primeiro volume da história do clube. 

O que me chamou a atenção foi que um comprador do Rio de Janeiro ligou pra gente pedindo um exemplar. Eu nem sabia ainda que havia sido lançado o livro.

Primeiro volume do livro com a
história da Ponte Preta.
Fui lá no lançamento, comprei para ele e outros para a minha livraria. Com certeza, esse camarada não devia ser torcedor da Ponte, deveria ser um pesquisador, historiador ou jornalista. Se tinha no Rio alguém interessado em um livro da Ponte Preta, deveria haver outros, em outros Estados. 

E foi o que aconteceu. Me empolguei da mesma maneira que aconteceu com o método de ensino de português para estrangeiros. 

Vendi quase toda a tiragem do primeiro, segundo e terceiro volume que ele escreveu.



Pilha de livros da Ponte Preta ainda empacotados.
Na quarta, que ele já não tinha dinheiro para produzir o livro, comprei mais de 300 exemplares, pagos adiantados. 

Os livros estão até hoje aqui empilhados. Vinte anos e os livros ainda estão aqui. 

Comprei apenas para ajudá-lo.



Um caçador de livros de futebol

Foi a partir da percepção das vendas do livro da Ponte Preta que passei a me interessar a comprar e vender livros de outros clubes do país. Passei a fazer uma verdadeira “caça” a livros de clubes em todos os cantos do país.

Um exemplo: quando soube que em Londrina, no Paraná, havia sido lançado um livro do clube, fui até lá e comprei toda a tiragem, aproximadamente 500 exemplares, ou melhor, troquei com o presidente do clube por títulos diversos para a montagem de uma biblioteca no clube.

Outro exemplo marcante. Recebi um pedido da Bélgica para a compra de quatro livros sobre a história do Guarani de Venâncio Aires. Da Bélgica !!! Fui para Venâncio Aires buscar os livros porque já estava indo para a Feira de Livros de Porto Alegre, de 2001. A essa altura, já havia feito diversas viagens por cidades do interior paulista, mas para Venâncio Aires, seria a primeira interestadual.  Atravessei o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande Sul comprando tudo que via pela frente sobre futebol. No estádio do Guarani, fui atendido pelo secretário do clube que me informou que só tinha um exemplar e, pior, o presidente do clube havia vetado a venda porque brigou com o autor, por discordar de informações contidas nele.


Soube que todos os livros impressos estavam na biblioteca da cidade, deixados pelo próprio autor. Procurei por ele, mas estava fora da cidade, viajando. A biblioteca da cidade da cidade estava fechada, porque era sábado. 

Voltei para Campinas e na segunda-feira liguei para a biblioteca da cidade e falando com a responsável expliquei que precisava dos livros do Guarani. Como ela não poderia vender os livros, ofereci uma troca, por livros do Harry Porter, na moda, naquele momento. 

Vendi quase 100 exemplares do Guarani de Venâncio Aires. A fama de livreiro que tinha a história dos clubes brasileiros menos “famosos” foi se espalhando a cada nova cidade visitava e título que comprava. Foi assim em Erexim, Passo Fundo, Pelotas, Rio Grande...

Era o começo do “boom” sobre livros esportivos, especialmente, futebol. A partir do ano 2000, fiquei conhecido como o livreiro que mais tinha títulos sobre futebol, especialmente de clubes “desconhecidos”, porque hoje, quase toda editora tem um título sobre esse tema.

As raridades encontradas na Livraria Pontes sobre futebol começaram quando passei a revirar sebos de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Fortaleza, Belém, Curitiba...

Fiz isso durante cinco anos, indo até os lugares, gastando do bolso e aproveitando viagens que fazia para divulgar livros de outras temáticas que eu editava e vendia.

Livro comprado pelo jornalista e
pesquisador Celso Unzelte. Patrimônio
guardado em boas mãos.
Em pouco tempo me transformei na maior “bibliografia do futebol brasileiro”. 

Um dos grandes “achados”, foi em Belém, no Pará.  

Entrei num sebo que ficava numa galeria no centro de Belém e boto a mão num livrinho encadernado, 14x21. Era o livro “História do Futebol em São Paulo”, publicado em 1918, de Antonio Figueiredo.  

Para o dono do sebo, aquilo era nada. Paguei R$ 10,00. Vendi por R$ 300, como poderia ter vendido por 2, 3 mil reais, porque um livro desses não tem como mensurar valor.


Livro comprado pelo colecionador
Domingos D'Angelo.
 
Todas essas raridades que encontrei estão em boas mãos. 

São sempre cinco pessoas: em São Paulo, o jornalista Celso Unzelte; 
no Rio de Janeiro, Antonio Claret Silva Gomes e Sr. Sebastião de Mello; 

em Teresina, no Piauí, Carlos Said; 

no interior de São Paulo, Luis Marcelo Cirillo, de Araraquara. 

E o fora de série, Domingos D’Angelo.



A biografia de Mano, filho do escritor Coelho Neto,
morto tragicamente aos 22 anos durante um jogo do
Fluminense, equipe pela qual jogava. Livro raro,
também adquirido pelo colecionador Domingos D'Angelo.
Descobrindo raridades bem longe do Brasil

Outra história fascinante aconteceu quando fui à Paris na Livraria L’Harmattan para quem vendíamos muitos livros, inclusive futebol. Pedi uma escada para ver se esses mesmos livros de futebol poderiam ainda estar em alguma de suas estantes. Sempre fiz isso, gosto de repatriar livros que eu mesmo vendi. Achei um livro, encadernado em vermelho bem forte, pendendo para o bordô, mas que não tinha nada na lombada. Quando tiro o livro da prateleira, abro, era uma revista, 10 ou 12 edições dela, publicada nos anos 1970 pelo Juventus, do bairro da Mooca, de São Paulo. Isso é incrível.

Livraria L'Harmattan, em Paris, onde José Pontes encontrou
coleção de revistas raríssimas sobre o Juventus, um de
seus clubes de coração.
Em pleno Quartier Latin, uma livraria especializada em Ciências Humanas, África, Ásia e terceiro mundo, desde 1960, encontro uma edição rara da Revista Amigão. Você treme, arrepia, começa a soar, porque percorri dezenas de sebos em várias capitais e cidades do interior brasileiro e nunca havia ouvido falar da existência daquela revista. Naquelas páginas, além da história do Juventus, com as viagens que o clube fez pelo mundo, havia também a história do futebol . Na França, por conta do período da ditadura militar no Brasil, muitos brasileiros migraram forçadamente para lá e por isso muitas bibliotecas se formaram. Na hora de retornar ao país acabaram vendendo ou dando para algum sebo local.

O rei dos sebos

Outro livro raríssimo que quando encontro em algum sebo tenho quase um orgasmo é o “Coração Corintiano”, de Lourenço Diaféria, publicação da Fundação Nestlé. Para se ter ideia, tenho 18 pessoas em uma lista esperando eu encontrar em algum sebo um exemplar. O último, encontrei em São Paulo, paguei 75 reais. Uma dessas pessoas da lista já me disse que paga até R$ 1.500 por um exemplar.


O Guia do Futebol em SP, para mim o primeiro livro de futebol editado em SP, escrito por Mário Cardim e publicado pela Casa Vanorden, encontrei no acervo de um grande pesquisador e dono de uma biblioteca esportiva maravilhosa, Delfim Ferreira Neto Rocha. 

Ele também é autor do livro sobre a história do XV de Piracicaba. Quando fui a sua casa, levei livros para ver se ele se interessaria por algum. 

Gostou de alguns e acabei trocando com ele o exemplar do Guia.

Página interna do Guia do Football,
comprado pelo jornalista e
pesquisador Celso Unzelte.
Mas o livro, quer dizer, um conjunto de gravuras de Rubens Gerchmann sobre futebol, é outro raríssimo. Foram feitos apenas 150 exemplares. Comprei no RJ por R$ 300. Vendi por R$ 3.000,00.


O livro sobre Pelé, 20 quilos, 2.500 exemplares, da Editora Gloria, de Londres, é também outra história interessante.


O livro é raríssimo porque virou edição de colecionador. Comprei 3 exemplares, vendi dois e fiz rifa de um. Custava 9 mil reais cada um. Paguei 6 mil reais cada um.


“Ganho hoje para comer amanhã”

Depois de muitas descobertas como essas, muitas pessoas me perguntam se não seria mais interessante segurar tudo isso para uma grande biblioteca. Claro que seria, se eu tivesse uma fonte de renda. Se eu tivesse um grande emprego, claro que ficaria com tudo. Eu ganho hoje para comer amanhã.

Em 1987, a Livraria Pontes virou editora também. O primeiro livro que editamos foi “A história do Itatiba”. Depois que publicamos esse, alguns vários clubes começaram a publicar livros semelhantes com a gente (Velo Clube, da cidade de Rio Claro, por exemplo). 

“Quando o futebol andava de trem”, considero o melhor livro que já li. É apaixonante, porque me interesso por livros assim, que tragam fenômenos sociológicos é por isso que só edito livros de clubes, biografias...

Já editei, por exemplo, um livro sobre o XV de Novembro de Araraquara. Isso não dá dinheiro, dá satisfação, porque essa semente veio quando eu saía todos os dias de casa para ler a Gazeta Esportiva e ficava olhando resultados dos campeonatos amazonense, paraense, pernambucano, paraibano, catarinense...O que me apaixonava mais era ver um time com nome “Calouros do Ar”, “Galícia”, “Juventus do Rio do Sul”...

É isso que alimenta minha paixão pelos livros de futebol.

Crédito: Pedro Proença, em matéria para a Revista Brasileiros.
Hoje, a Livraria Pontes, na seção esporte, tem 2 mil livros cadastrados, incluídos nesse número, títulos brasileiros, argentinos, uruguaios, paraguaios, portugueses, franceses, espanhóis e italianos. O Real Madrid, por exemplo, já comprou livro da gente, o do São Cristóvão, evidentemente, por conta da história do Ronaldo Fenômeno.

Já participamos de 3 Bienais, no Rio de Janeiro; 3 em São Paulo e uma em Belo Horizonte. E vamos participar em 2013 e 2014.

Aonde o livro estiver

Não tenho concorrentes, tenho um parceiro, do Rio de Janeiro, o Rodrigo, da Livraria Folha Seca. O que tenho aqui e o que ele tem lá, trocamos figurinhas. E com ele há uma bela história.  Eu e ele estávamos intrigados com um livro do Botafogo que é muito bom, tinha muita procura, mas ninguém encontrava para comprar no Rio de Janeiro. O autor é Nei Carvalho. Rodrigo disse então que tinha o telefone do filho dele. Ele ligou e disse que o livro estava em Itaipava, região serrana do Rio de Janeiro. Acabei indo e o Rodrigo não. Chegando lá, entramos numa edícula escura, e lá estava o livro, apodrecendo. Pergunto a você: ‘quantos livros você acha que tinha lá?’. Quatro mil e quinhentos livros !!!!! E eu comprei todos...


Eu mesmo me perguntava: o que fazer com 4.500 livros do Botafogo do Rio, em Campinas? Rodrigo ficou com uma parte, 200 exemplares. Fui em um sebo no Rio, cujo dono sabia ser botafoguense. Contei a história pra ele e o camarada comprou 4 mil exemplares !!! Comprei por R$ 1,00 cada exemplar. Vendi por R$ 5,00, cada um. Parte da venda, permutei com ele. Em três meses, o dono do sebo vendeu todos os exemplares a R$ 15,00 cada um. Hoje tenho apenas um exemplar aqui na loja, no Rio de Janeiro, você não encontra mais nenhum. O torcedor do Botafogo e do Fluminense é melhor comprador de livros do que os do Flamengo e Vasco. Assim como em São Paulo, torcedores do Palmeiras e São Paulo são melhores compradores do que corintianos e santistas.

O livro que ainda sonho encontrar algum dia chama-se “Atlas futebolístico do Estado de São Paulo”, publicado pela Federação Paulista de Futebol, em 1955. É espetacular. Pouquíssimas pessoas tem.

Exemplar do "Álbum futebolístico", vendido por José Pontes
ao pesquisador Celso Unzelte.
A eterna paixão pelos livros de futebol

A paixão pelos livros de futebol vem da obsessão de aumentar cada vez mais a bibliografia sobre a literatura de livros sobre futebol. Nós vamos fazer em breve um livro sobre essa bibliografia.


Já temos 500 livros resenhados. Cada livro que a gente acha, cada raridade, é digna de comemoração. 

Cada livro encontrado é como se fosse um gol espetacular.






Uma raridade que se encontra atualmente na Livraria Pontes:

Capa do livro de Tito Batini, de 1958:
"Cantar o gol em coral".

As páginas internas de "Cantar em coral"
tem um tratamento espetacular, com poemas
dedicados ao futebol.

O livro de Tito Batini é ilustrado por vários
artistas famosos, entre eles, Aldemir Martins.