sábado, 15 de setembro de 2012

O Brasil em campo com Nelson Rodrigues


Mais uma obra de referência para a literatura esportiva. No ano do centenário de Nelson Rodrigues, a coletânea de crônicas organizada por sua filha, Sonia Rodrigues, “O Brasil em Campo” (Editora Nova Fronteira) é leitura obrigatória. Desde as crônicas organizadas por Ruy Castro, seu biógrafo, Nelson Rodrigues não tinha uma de suas maiores paixões, o futebol, tão bem explorado. São 71 crônicas sobre esporte, 58 delas nunca publicadas em livro.

Sinopse (da Editora):

“Nelson Rodrigues e o futebol. Pode parecer mera repetição, mais do mesmo, mas não é! Brasil em campo é uma antologia em que se conjugam ironia, versatilidade, repetição — com muito estilo — e belíssimos chutes a gol de um dos maiores cronistas esportivos do país!

E não é só isso. Nas crônicas aqui reunidas, percebe-se que, a partir do chute inicial, com belos e inesperados dribles na pauta de sua coluna, Nelson passa a bola para questões políticas, culturais e acaba chegando ao mais fundo da alma brasileira. Porque esse é seu espaço por excelência de discussão do humano e de suas verdades.

Mas Brasil em campo é ainda, sobretudo, o retrato de uma paixão. Paixão pessoal, coletiva, brasileira.

Talvez essa seja mesmo a palavra que grite mais alto nas páginas deste livro, como um torcedor em final de campeonato ou quando sente que seu time foi garfado pela arbitragem.

Paixão é o sentimento que todos os brasileiros devotam a esse esporte e com Nelson não foi diferente. Sabidamente apaixonado por futebol e pelo seu time, o Fluminense, Nelson elege esse esporte como nosso maior traço de união, fazendo dele uma verdadeira metáfora do Brasil e dos brasileiros”.

Na primeira crônica da antologia organizada por sua filha, um texto inédito de Nelson Rodrigues sobre a Seleção Brasileira na Copa de 1958, na Suécia:

No Brasil, o futebol é que faz o papel da ficção
Por Nelson Rodrigues (O Globo, s/d)

“Ontem, o Wilson Figueiredo faz-me o apelo dramático: — “Não misture o Brasil com o escrete!” Segundo o caro confrade, há todo um abismo entre a pátria e a seleção. Deixo o telefone numa amarga perplexidade. E das duas uma: — ou é o colega que não enxerga o óbvio ou sou eu que vejo uma relação. Falsa. Mas com uma pertinácia bovina reafirmo: — o escrete é o Brasil; é a pátria dando botinadas.

Confesso, porém, que sou um brasileiro obsessivo e repito: — um brasileiro delirante, que precisa ver o Brasil, por todas as partes. Há pouco, numa exposição em Bruxelas, premiaram uma das nossas marcas de fósforo. Pois bem. A partir de então, uma caixa de fósforos passou a ser, aos meus olhos, um símbolo nacional, dos mais válidos e incisivos. Era a pátria em palitos. De uma outra feita, houve um concurso de gado, em Uberaba. Selecionaram um dos animais e lhe enfiaram pelo pescoço uma fitinha, com uma medalha pendurada. E a vaca premiada foi, por um momento, o Brasil, a pátria viva.

Agora é a vez do escrete. E não importa que o Wilson Figueiredo proteste, com escândalo e irritação: — “Futebol é clube e não pátria!” Lá fora, quando se quer conhecer um povo, o sujeito recorre à ficção. Mas no Brasil, não. O nosso romance é ralo, é escasso de grandes símbolos nacionais. Quer-se um Tartarin e não temos um Tartarin, quer-se um Peer Gynt e não temos Peer Gynt, um Karamázov e não há um Karamázov. É verdade que temos um Paulo Francis, ressentido como um Raskólnikov de galinheiro. Mas o Paulo Francis ainda não está impresso.

Eis a verdade: — no Brasil, o futebol é que faz o papel da ficção. O sujeito quer um herói de botas e penacho? um supertipo? ou mau-caráter, em dimensão gigantesca? Encontraremos tudo isso e muito mais nos clássicos imortais ou nos amistosos caça-níqueis. Lembro-me de uma pelada a que assisti, faz tempo. Um dos adversários era o brioso Rosita Sofia. E o outro devia ser o Manufatura, ou Mavilis, sei lá. De repente, a coisa começou a crescer em campo. Tudo adquiriu um dramatismo inesperado e colossal.

E me doeu não ser um Camões, ou um Sófocles, ou um Tolstói. Eu via, ali, todo um material abundantíssimo para uma Guerra e paz.

E, no entanto, não há em toda a já vasta obra de Guimarães Rosa uma única e mísera pelada. Todo o seu monumento romanesco não inclui uma vaga e lírica botinada. Nada. O ficcionista ainda não desconfiou que os nossos descobridores, os nossos argonautas de cristal, os nossos lusíadas, os nossos mares — estão no futebol. Toda a experiência vital e romanesca do Guimarães Rosa vai se enriquecer quando ele descobrir o Maracanã.

Amigos, aí é que está: — o sujeito que quiser conhecer o Brasil terá de olhar o escrete. Não há nada mais Brasil do que Pelé. E repito: — todo o Brasil estava no goal que Pelé marcou, de cacetada, contra o País de Gales. Também a desgraça venta no futebol. Pior do que Canudos foi a vergonha épica de 50. No Maracanã inaugurado, o uruguaio Obdulio Varela venceu, no palavrão, o escrete e toda a nação.

A ressurreição nacional data de 58. Que era o brasileiro antes da Jules Rimet? Um humilhado, um ofendido. No seu amargo cotidiano, sofria desfeitas da mulher, da criada e, até, do caçula. Pois bem. A vitória de 58 mudou até as nossas reações domésticas. O brasileiro já entra em casa dando patadas. Agora é ele quem ofende, é ele quem humilha. E toda essa nova e triunfante disposição vital nós devemos ao escrete.

Eu queria dizer, ainda, que o Brasil também está no arremesso lateral de Djalma Santos, o negro. É um grave, um transcendente arremesso lateral. Amigos, imaginemos a cena. A bola está no chão. E vem Djalma Santos. Ele se curva. Apanha a bola e a carrega, a mãos ambas, como diria o Eça. Não é um esforço leve e frívolo. Não. Djalma Santos parece estar suspendendo um piano. Ele ergue a bola. Balança o corpo. E aí é que está o sortilégio: — o seu arremesso lateral é solene, forte, herói — como um tiro de meta. É uma bomba. Amigos, pode-se ligar a potencialidade manual de Djalma Santos à nossa epopeia industrial”.

Em outra crônica inédita, Nelson Rodrigues, como sempre, fala de outro personagem fundamental de suas histórias: o torcedor brasileiro.

Narciso às avessas, que cospe na própria imagem
Por Nelson Rodrigues (Revista Manchete Esportiva, 17/5/1958)

Hoje, o meu personagem da semana é uma das potências do futebol brasileiro. Refiro-me ao torcedor. Parece um pobre-diabo, indefeso e desarmado. Ilusão. Na verdade, a torcida pode salvar ou liquidar um time. É o craque que lida com a bola e a chuta. Mas acreditem: — o torcedor está por trás, dispondo.

Escrevi acima que o torcedor não é um desarmado e provo. De fato, ele possui uma arma irresistível: — o palpite errado. Empunhando o palpite, dá cutiladas medonhas. Vejam o primeiro jogo com os paraguaios. Vencemos de cinco e podia ter sido de dez. Fizemos do adversário gato e sapato. Ora, para uma primeira apresentação foi magnífico ou, mesmo, sublime. Mas quando saí do Maracanã, após o jogo, vejo, por toda parte, brasileiros amargos e deprimidos. Mais adiante, esbarro num amigo lúgubre. Faço espanto: — “Mas que cara de enterro é essa?” O amigo rosna: — “Estou decepcionado com o escrete!” Caio das nuvens, o que, segundo Machado de Assis, é melhor do que cair de um terceiro andar. Instantaneamente, vi tudo: — o meu amigo era ali, sem o saber, um símbolo pessoal e humano da torcida brasileira. Símbolo exato e definitivo.

Em qualquer outro país, uma vitória assim límpida e líquida do escrete nacional teria provocado uma justa euforia. Aqui, não. Aqui, a primeira providência do torcedor foi humilhar, desmoralizar o triunfo, retirar-lhe todo o dramatismo e toda a importância. Atribuía-se a vitória não a um mérito nosso, mas a um fracasso paraguaio. Os guaranis passavam a ser pernas de pau natos e hereditários. Dir-se-ia que, por uma prodigiosa inversão de valores, sofremos com a vitória e nos exaltamos com a derrota. 

E, no entanto, vejam vocês: — o escrete visitante, que nos parecia de vira-latas, acabara de vencer e desclassificar a “Celeste” e bater a enfática Argentina. Mas, para cuspir na vitória brasileira, o nosso torcedor fingiu ignorar a real capacidade, a indiscutível classe do adversário. Veio o segundo jogo, no campo careca e esburacadíssimo do Pacaembu. Houve um empate, que teve para o Brasil o gosto de uma semiderrota. Desta vez, porém, nada 22 de choro, nada de vela. Por toda parte, só se viam caras incendiadas de satisfação.

Com o olho rútilo e o lábio trêmulo, o torcedor patrício lavava a alma: — “Eu não disse?” Os pernas de pau não eram mais os paraguaios, eram os brasileiros. E está-se vendo esta vergonha: — um escrete, que começou vencendo, já é vítima de uma negação frenética. Há gente torcendo para que ele apanhe de banho na Suécia.

Eis a verdade, amigos: — tratam do craque, tratam da equipe e esquecem o torcedor, que está justificando cuidados especiais. Que estímulo poderá ter um escrete que é negado mesmo na vitória? A seleção não tem saída. Se vence de cinco, se dá uma lavagem, o torcedor acha que o adversário não presta. Se empata, quem não presta somos nós. Durma-se com um barulho desses! 

Há uma relação nítida e taxativa entre a torcida e a seleção. Um péssimo torcedor corresponde a um péssimo jogador. De resto, convém notar o seguinte: — o escrete brasileiro implica todos nós e cada um de nós. Afinal, ele traduz uma projeção de nossos defeitos e de nossas qualidades. Em 50, houve mais que o revés de onze sujeitos, houve o fracasso do homem brasileiro.

A propósito, eu me lembro de um amigo que vivia, pelas esquinas e pelos cafés, batendo no peito: — “Eu sou uma besta! Eu sou um cavalo!” Outras vezes, ia mais longe na sua autoconsagração, e bramava: — “Eu sou um quadrúpede de 28 patas!” Não lhe bastavam as quatro regulamentares; precisava acrescentar-lhe mais 24. Ora, o torcedor que nega o escrete está, como o meu amigo, xingando-se a si mesmo. E por isso, porque é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem, eu o promovo a meu personagem da semana.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Parabéns Diamante Negro


Neste dia 6 de setembro ele completaria 99 anos de vida. Leônidas da Silva, o popular Diamante Negro, o primeiro “Pelé” de nosso país, o homem que revelou ao mundo a magia do nosso futebol, a partir da Copa do Mundo de 1938, está a um ano do seu centenário. Uma data marcante para o futebol brasileiro, ainda mais quando essa data acontecerá no ano pré-Copa do Mundo disputada em nossas terras.

Leônidas morreu em 2004, aos 90 anos, deixando seu nome inscrito para sempre na história do futebol paulista e brasileiro. Abaixo, Literatura na Arquibancada apresenta o prefácio de sua biografia “Diamante Negro” (Cia dos Livros, 2010), além do texto de apresentação de seu autor, o jornalista André Ribeiro.

Picasso, Borges, Newton, Einstein e Leônidas
Por José Roberto Torero

Desde que Adão comeu aquela maldita maçã e fomos expulsos do paraíso, nos esforçamos para recuperar um pouco da nossa natureza divina. Não gostamos dessa ideia de sermos pertencentes ao reino animal. O que queremos mesmo é ser deuses. Uns dizem que quem mais chega perto disso são os artistas porque, com sua arte, eles conseguem criar algo novo do nada, tal e qual o Todo-Poderoso. Os que pensam dessa forma citam muitos exemplos, como Picasso, o criador do Cubismo, ou Borges, inventor de tantos labirintos literários.

Mas, há quem diga que quem mais se aproxima da essência de Deus são os cientistas, pois eles decifram a natureza e nos ensinam a dominá-la. Os defensores dessa teoria põem em seu altar homens como Newton, que descobriu a lei de gravidade, e Einstein, que formulou a teoria da relatividade.

Há os que acham, como o André Ribeiro, que quem chegou mesmo perto da essência divina foi Leônidas da Silva, porque ele era ao mesmo tempo artista e inventor. O Leônidas artista fez jogadas cubistas que despedaçaram as defesas adversárias, e com seus dribles desenhou labirintos onde alguns zagueiros devem estar perdidos até hoje. O Leônidas inventor criou a bicicleta, jogada que despreza a lei da gravidade e comprova a teoria da relatividade.

Portanto, seja o leitor a favor dos artistas ou dos cientistas, há de reconhecer que Leônidas foi divino. Mesmo que ele tenha cometido todos os sete pecados capitais. Não negava sua soberba, assumiu a cobiça quando defendeu a seleção por dinheiro, tinha uma justa fama de luxurioso, a ira era sua companheira desde os tempos de menino, confessou ter inveja, possuía uma insaciável “gula” de gols e, por fim, tinha tanta preguiça que em sua principal jogada ele deitava no ar.

Porém, mesmo pecador, ele, como Deus, criou algo novo, inventou o que não havia. 

Usou também o barro, só que o dos campos de futebol e, se não trouxe luz às trevas, não há como negar que tenha sido um jogador iluminado.

Leônidas foi um deus negro e pagão que andou por estas terras e fez seus milagres. 

Alguns deles estão contidos nesta bíblia que está agora em suas mãos. Vamos ler e orar, amém.

Introdução
Por André Ribeiro

Os torcedores brasileiros, especialmente os mais jovens, apaixonados por futebol, talvez nunca tenham ouvido falar no nome LEÔNIDAS DA SILVA. Com certeza, não sabem que foi esse homem, negro, de baixa estatura, dentes branquíssimos e sorriso largo, o primeiro “rei” de nossos gramados por mais de vinte anos. Leônidas foi absoluto no futebol durante as décadas de 1930 e 1940.

Se Pelé fascinou o mundo a partir de meados dos anos 1950, Leônidas foi o responsável por revelar, muito antes, aos quatro cantos do planeta, a magia e o talento do jogador brasileiro. Por ter nascido e jogado numa época em que a televisão ainda não fabricava seus ídolos, sua fama não ganhou a dimensão de vários outros craques do nosso futebol.

Leônidas da Silva e Getúlio Vargas.
Apenas os mais antigos, uns poucos jornalistas, escritores e velhos torcedores, foram responsáveis pelos raros relatos sobre a sua vida, encontrados em bibliotecas e arquivos dos jornais de todo o Brasil. Ainda bem que Leônidas sabia de sua importância dentro do futebol e, por isso mesmo, em 1964 decidiu publicar suas memórias no extinto jornal Última Hora, deixando uma fonte imprescindível para a reconstituição da sua vida. Esse material, base deste livro, chegou às minhas mãos por intermédio de sua esposa, Albertina Santos, sem cuja ajuda seria praticamente impossível escrever esta biografia.

Importantes, também, foram as contribuições de outros contemporâneos de Leônidas da Silva. Uns, como Luiz Mendes, locutor esportivo do Rio de Janeiro, e Ary Silva, cronista paulista, em depoimentos verbais, lembrando passagens marcantes da vida do craque. Outros, como o jornalista e escritor Mário Filho, e o jornalista Geraldo Romualdo da Silva, jornalista carioca, através de preciosos documentos escritos. O legado de Geraldo Romualdo, especialmente, foi fundamental para que este livro pudesse ser realizado. Amigo particular de Leônidas da Silva durante muitos anos, Geraldo foi, com certeza, a pessoa que mais escreveu sobre ele. Sua admiração pelo craque e amigo, traduzida em crônicas, notícias e reportagens, possibilitou o resgate de informações essenciais sobre a vida de Leônidas. Igualmente indispensável foi a contribuição de Agnelo Di Lorenzo, um arquivo vivo da história do São Paulo Futebol Clube e, por extensão, do futebol brasileiro.

Carregado pela multidão, Leônidas da Silva
chega a São Paulo.
Pode parecer exagero, mas todos os que o viram Leônidas jogar são unânimes em afirmar que, se ele tivesse jogado no “tempo da televisão’, a história do nosso futebol poderia ter sido escrita de maneira diferente. Resgatar e revelar, principalmente às novas gerações, a importância desse homem dentro do futebol, a maior paixão do povo brasileiro, é objetivo deste livro. 

Ninguém pretende tirar a soberania de Pelé, mas, como afirma Luiz Mendes:

“Leônidas não foi melhor que Pelé. Pior ele não foi...”.

Apresentação e agradecimentos à segunda edição
Por André Ribeiro (setembro/2010)

Leônidas e Friedenreich
Onze anos se passaram e a biografia de Leônidas da Silva, finalmente, ganha uma edição revisada. Após o lançamento de sua primeira versão, em 1999, muitos fatos ocorreram. Como se estivesse adormecida na história, a vida de Leônidas da Silva passou a ter um novo reconhecimento. O drama de sua doença e a agonia dos últimos dias de vida rendeu centenas de reportagens, nacionais e internacionais.

Vários personagens que colaboraram com a primeira versão deste livro, infelizmente, já não estão mais entre nós. Do texto de apresentação, perdemos a doce presença de Agnelo di Lorenzo, pesquisador e historiador do São Paulo Futebol Clube, morto em agosto de 2007, e de Ary Silva, pioneiro da Associação dos Cronistas Esportivos de São Paulo (Aceesp), que partiu no dia 6 de abril de 2001, aos 83 anos de idade.

Outras figuras importantes para a construção da biografia de Leônidas também partiram como, Bauer, Flávio Costa, Noronha e Zizinho (o mestre Ziza). O personagem central deste livro também morreu em janeiro de 2004. Descanso merecido para quem havia vinte anos sofria com os efeitos de uma doença terrível, o Alzheimer. Nesse intervalo de tempo, entre sua morte e a publicação desta nova edição atualizada, Albertina Santos, sua eterna companheira, mantém vivo o legado deixado por sua maior paixão. Antes mesmo de 2013, ano do centenário de Leônidas da Silva, o Diamante Negro tem, merecidamente, sua biografia atualizada.

Agradeço imensamente o esforço e a compreensão da Editora Cia. dos Livros, especialmente às figuras de Eduardo Botino e Vitório Rocha, responsáveis por esta nova edição do Diamante Eterno.

domingo, 2 de setembro de 2012

Roberto Dias: um craque Tricolor


Há seis anos o futebol brasileiro perdeu um de seus maiores craques. Roberto Dias não teve em vida o merecido reconhecimento. Sorte que, pouco antes de sua morte, o jovem jornalista Fabio Matos acabou transformando a vida de Roberto Dias em um livro, simples, porém fundamental para a bibliografia da literatura esportiva brasileira. A obra, na verdade, surgiu a partir de um Projeto Experimental da Faculdade Cásper Líbero. Um trabalho acadêmico, mas com metodologia e preocupação profissionais.

Como o próprio autor menciona em nota de rodapé do texto de apresentação da obra: “o texto original deste trabalho foi escrito ainda em 2006 – ano em que o autor realizou uma série de entrevistas com o biografado e seus familiares, além de ex-companheiros de equipe e adversários, ex-técnicos, jornalistas e são-paulinos ilustres que acompanharam a trajetória do personagem. 

No dia 26 de setembro de 2007, aos 64 anos, Roberto Dias Branco faleceu no Hospital das Clínicas, em São Paulo, em decorrência de complicações causadas por uma parada cardiorrespiratória sofrida no dia anterior”.

Ainda segundo o autor “de acordo com os números oficiais do São Paulo, Roberto Dias disputou 450 partidas pelo clube. É o sétimo jogador que mais atuou pelo Tricolor. Mas dados do Almanaque do São Paulo (Editora Abril, 2005), escrito pelo jornalista Alexandre da Costa e que disponibiliza fichas técnicas de 4.353 partidas da equipe, registram 523 jogos de Dias. O critério adotado por este livro-reportagem foi considerar, em todos os casos, o número maior de partidas de cada atleta, entre as duas fontes (São Paulo e Almanaque). Sendo assim, os quatro jogadores que mais vestiram a camisa do São Paulo foram os goleiros Rogério Ceni (que bateu o recorde no dia 27 de julho de 2005, chegando a 618 jogos, e continua em atividade), Waldir Peres (617 partidas) e José Poy (565) e o lateral-direito De Sordi (536). Por tempo de permanência no clube, o recordista é o atacante Teixeirinha, que defendeu o Tricolor entre 1939 e 1956 (17 anos), seguido por Rogério Ceni, que faz parte do grupo profissional do São Paulo desde 1992”.

Roberto Dias atuou 25 partidas pela Seleção principal, mas foi cortado da relação final da Copa de 66. Jogou ainda por CEUB (DF), Jalisco (México), Dom Bosco (MT) e pendurou as chuteiras no Nacional da rua Comendador de Souza. 

Abaixo, Literatura na Arquibancada destaca o texto de apresentação da obra “Dias – A vida do maior jogador do São Paulo nos anos 1960” (Editora Pontes, 2007).





Apresentação

“Quem vê aquele senhor de meia idade, corpo franzino, cabelos e bigode brancos, sentado num banco em frente à pequena vila de casas onde mora, no bairro de Moema, zona sul de São Paulo, não é capaz de imaginar que se trata de um ex-jogador de futebol.

Aos 63 anos, Roberto Dias Branco mora no número 1301 da Rua Canário, na casa 6, há quase quatro décadas, desde 1967. Assiste a vários jogos transmitidos pela tevê, adora ser reconhecido por torcedores mais velhos e, por sua simplicidade, parece não se dar conta da importância que teve na história do São Paulo Futebol Clube. Como atleta, disputou 523 partidas com a camisa do Tricolor entre 1960 e 1973, sendo o quinto jogador que mais atuou na história da equipe em número de jogos e o terceiro recordista em tempo de permanência no clube (13 anos).

Mas não é só por isso que Roberto Dias Branco tornou-se um marco na história do São Paulo. Ele foi o representante maior de uma época sem grandes glórias, sem grandes nomes, sem grandes craques – só ele e mais ninguém. Muito por seu futebol assombrosamente técnico para um jogador de defesa. Dias transformou-se no símbolo máximo de toda uma geração de são-paulinos que hoje tem entre 50 e 60 anos.

Sem dinheiro em caixa e sem craques em campo (só Dias), o Tricolor amargou o maior jejum de títulos de sua história. Foram quase 13 anos, entre dezembro de 1957 e setembro de 1970, dez deles intensamente vivenciados pelo craque. Mesmo assim, ou talvez exatamente por isso, ele é amado pelos são-paulinos daquele tempo.

Nas páginas de Dias: a vida do maior jogador do São Paulo nos anos 1960, como o subtítulo diz, é destacada a história de vida deste grande personagem – e não apenas sua carreira profissional, também muito rica. O livro se divide em quatro partes – Primeiros Dias, Dias de Craque, Dias de Luta e Dias de hoje –, nas quais são apresentados diferentes momentos da vida de Roberto Dias. Como as dificuldades da infância pobre no bairro do Canindé, o começo da carreira, o auge como jogador, a participação na Seleção Brasileira, o declínio profissional, os graves problemas de saúde e os dramas familiares.

O leitor se vê diante de uma figura complexa, repleta de histórias alegres e tristes, incoerências e fraquezas, desafetos e ídolos, temores e expectativas. Traços que fizeram de Roberto Dias Branco um craque como poucos e que o tornam, até hoje, um ser humano como qualquer outro. E um personagem único”.

Literatura na Arquibancada sugere ainda a leitura do texto escrito pelo jornalista Ricardo Kotscho (são-paulino confesso) um ano após a morte do craque Tricolor.