segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Parabéns a Zagallo


Ele completa 83 anos de vida no dia 9 de agosto e merecia ter da literatura esportiva uma biografia a sua altura. Poucos sabem, mas Zagallo, o técnico brasileiro que fez história no futebol mundial, tem um livro muito simples sobre sua vida publicado em 1996: “Zagallo, um vencedor” (Editora Acerj). Pelo nome, conquistas e importância de Zagallo a obra acaba se tornando importante, pois nela são encontradas informações de várias etapas de sua vida pessoal e profissional.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo o texto do prefácio assinado pelo falecido jornalista carioca Oldemário Touguinhó, além do primeiro capítulo da obra.

Prefácio
Por Oldemário Touguinhó


Fazer um livro sobre Zagallo é deixar um documento para a história do futebol. É isso que Erthal e Vanderlei estão fazendo. Mário Jorge é alagoano de nascimento e carioca de coração. Chegou ao Rio antes de aprender a andar. Viajou no colo da mãe. Cresceu na Tijuca. Ainda menino, aprendeu a dominar aa velocidade da bola. Foi estrela do tênis de mesa. Deu muitas raquetadas para garantir medalhas no ping-pong. A confederação não admite que se chame o tênis de mesa de ping-pong, mas é com esse nome que as crianças aprendem a jogar.

Depois do bom relacionamento da bolinha branca, Zagallo entrou em campo. Passou a fazer do futebol o esporte favorito. No modesto América Junior; era o dono da bola. Driblava em excesso (só perdeu o vício mais tarde, quando o técnico do Flamengo, o paraguaio Fleitas Solich, passou a apitar faltas nos treinos após o segundo drible). Daí foi um pulo para ser titular no juvenil do próprio América, o clube da Rua Campos Sales. Logo depois, em 50, foi servir o Exército. Ganhou a vaga de titular do time da Polícia do Exército, quartel da Barão de Mesquita de triste memória durante a ditadura militar. Mas isso foi muitos anos depois, na década de 60.


O importante é que, ainda jovem, Zagallo já sabia defender seus interesses. De saída, não quis ficar de contrato preso com nenhum clube. Recusou o famoso contrato de gaveta. Contrato este que prende o passe do jogador ao clube, o que o ministro Pelé está querendo acabar, pelo menos para jogadores que chegarem aos 24 anos. Só que antes mesmo dos 20 anos, Zagallo já tinha conquistado esse direito. Chegando ao Flamengo, continuou mantendo o mesmo comportamento. Jogador sério e bem comportado, fôlego privilegiado, Zagallo foi logo convocado para a Copa de 58, na Suécia. No último contrato ele mesmo fixou o preço do passe e saiu com o passe na mão a procurar clube.

Foi campeão mundial. Vendeu o passe para o Botafogo, continuando campeão. Daí para frente os títulos passaram a ser rotina. Sempre mantendo a mesma humildade e amor à camisa, foi colecionando títulos. Não foi fácil. Jogador inteligente, tinha trocado a meia-esquerda pela ponta, onde achava mais fácil o caminho para o sucesso E foi. Nos clubes e seleção. Na seleção, quando mais se exaltava a habilidade de Canhoteiro e a potência do chute de Pepe, no fim quem jogava era Zagallo.


Quando desistiu de vencer dentro de campo, virou técnico. Assumiu o juvenil do Botafogo. Mais vitórias. Passou para o profissional. Novos títulos. Em 70, João Havelange e Antônio do Passo o convidaram para substituir João Saldanha na Copa do México. Mais um título. Foi para o mundo árabe. Vitórias e vitórias. Finalmente, em 94, depois de alguns testes, a CBF convocou Parreira para técnico e Zagallo como coordenador para lhe dar a cobertura necessária. E assim, Zagallo assumiu toda responsabilidade da Comissão Técnica. 

E mais um título. Hoje é o único tetracampeão em Copas do Mundo, Zagallo, o eterno campeão.

Capítulo 1

“O good boy”


Mário Jorge Lobo Zagallo nasceu na cidade de Maceió, no dia 9 de agosto de 1931. Era o caçula de apenas dois irmãos. A família de classe média alta transferiu-se para o Rio de Janeiro quando ele só tinha oito meses de idade. Foram morar na Tijuca, onde Zagallo passou toda a sua infância e juventude, inicialmente numa casa que ficava na esquina das ruas Professor Gabizo e Trapicheiro (atual Heitor Beltrão) e depois na Rua Dr. Satamini.

O pai, Aroldo Cardoso Zagallo, viera ser representante no Rio da fábrica de tecidos Alexandria, de propriedade do cunhado, Mário Lobo, em Alagoas. Os planos para o futuro dos filhos estavam bem definidos: primeiro, reproduzir a educação esmerada que os próprios pais haviam tido (a mãe, Mario Antonieta, fora interna num colégio francês frequentado pelas moças da elite alagoana, enquanto o pai concluíra os estudos numa escola da Inglaterra); depois, era só encaminhá-los na representação carioca da indústria do tio.


Naquele tempo, a educação dos jovens tijucanos era entregue, em geral, ou ao Colégio Militar, ou ao Externato São José, escola de orientação católica dirigida pelos padres maristas. Foi nesta última que o menino Mário Jorge começou a dar os primeiros sinais de brilhantismo. No período de 1943 a 1949, seu nome figura em inúmeras menções honrosas publicadas na revista do colégio. Sem sequer um arranhão em sua conduta escolar, teve como estudante o mesmo comportamento disciplinado que marcaria sua vida de atleta, chegando a ganhar o prêmio Belford Duarte por jamais ter sido expulso de campo ao longo de toda a sua carreira.

A imagem de good boy que iria levar pela vida afora, àquela altura em perfeita sintonia com os valores da época – a juventude transviada ainda não havia ligado os motores de suas Harley Davidson e a era dos Bady boys não poderia ser sequer cogitada –, só seria comprometida quando Mário Jorge juntava-se à horda de garotos da vizinhança para quebrar a tranquilidade da rua, armando seus campos de pelada improvisados entre uma calçada e outra. Às vezes o jogo tinha de ser interrompido, quando a polícia aparecia em consequência de uma vidraça quebrada.


As peladas na rua ou no terreno do Derby Club eram feitas, claro, sempre às escondidas do pai, cuja autoridade, porém, estava por ser ainda mais desafiada. A habilidade para o futebol demonstrada nas brincadeiras de garoto iria se revelar com todo o vigor em 1947, ao ingressar na divisão de infantis do América Football Club, que ficava próximo à sua casa e onde também fazia natação, jogava vôlei e tênis de mesa: “Seu” Aroldo, conselheiro do clube, chegou a contribuir com dinheiro para a compra dos refletores do antigo estádio da Rua Campos Sales, em cujo gramado Zagallo calçou as suas primeiras chuteiras.

Até aí, tudo bem. Na qualidade de sócio contribuinte, ele “pagava para jogar”, condição que fazia do futebol uma simples e saudável atividade esportiva, recomendada a qualquer adolescente na sua idade. Quando, porém, a brincadeira começou a ganhar ares de assunto sério, com sua ascensão, em 1948, ao time juvenil, as restrições paternas passaram a representar uma ameaça à carreira nascente.


“Seu” Aroldo chegou, na juventude, a ser capitão do time da escola em que estudara na Inglaterra e, no Brasil, jogou pelo CRB, de Maceió. Quanto ao filho, no entanto, preferia que concluísse o curso técnico de contabilidade e fosse trabalhar com ele na representação da fábrica de tecidos. O futebol, naqueles tempos, já não tinha mais o charme elitista que mantivera até as primeiras décadas do século, quando se popularizou, passando a ser praticado pelas camadas pobres e miscigenadas da população brasileira, adquirindo, com isso, uma imagem um tanto marginal.

Zagallo chegou a acompanhar o pai algumas vezes até o escritório da Rua da Alfândega, no Centro do Rio, onde, julgava a família quase unânime, estaria o seu futuro profissional. Mas ele contava com o apoio do irmão, Fernando Henrique, que conseguiu convencer “seu” Aroldo a consentir que o caçula pudesse continuar jogando. Argumentou, para isso, com os exemplos – poucos, mas expressivos – de jogadores de futebol oriundos da classe média, como Evaristo de Macedo e Joel Martins, que viriam a ser seus companheiros de equipe no Flamengo.


Pouco tempo depois, já no Flamengo, ao saborear o sucesso das primeiras vitórias como profissional, o jovem ponta-esquerda não perderia a oportunidade de provocar o pai, lançando dúvidas, em tom de brincadeira, sobre o seu passado de jogador:

– Olha aqui – mostrava-lhe o jornal. O meu nome saiu impresso para todo mundo ver. 

Agora, cadê o seu? Você diz que foi, mas não prova...



Sobre os autores:
Luiz Augusto Erthal

Luiz Augusto Erthal, e Vanderlei Borges são jornalistas, com origem na crônica esportiva do Rio de Janeiro. Trabalharam em vários órgãos da imprensa carioca e como correspondentes para jornais de outros Estados brasileiros, sempre no âmbito do jornalismo esportivo. Atuaram juntos, também, em atividades ligadas à divulgação e assessoria de imprensa do Governo do Rio de Janeiro, nos períodos 1983/1987 e 1991/1994. Reencontraram-se, sob a inspiração de um projeto do ex-presidente da Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro (ACERJ), Geraldo Pedroza – continuado com entusiasmo e despojamento pelo também presidente Pedro Costa – para levar ao público, sob a forma de livros concisos e de fácil consumo, a história dos grandes ídolos do futebol brasileiro.
Luiz Augusto Erthal é atual editor da Nitpress. 

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