quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Mauro Beting: as biografias de Marcos e Nasi


Mais uma do multimídia Mauro Beting. Mais uma não, mais duas biografias para sua coleção de títulos publicados. A primeira, a aguardada biografia do goleiro Marcos. A segunda, do são-paulino roqueiro Nasi. O livro “Nunca fui santo” (Universo dos Livros) de Marcos, um dos goleiros mais admirados do futebol brasileiro tem “linguagem informal, quase uma conversa onde o leitor parece estar conversando com um amigo, ouvindo “causos” engraçados, confissões e detalhes de sua trajetória profissional”. Marcos homenageia seus próprios ídolos e mentores, em um autêntico tratado de devoção à carreira.

A biografia de Marcos é leitura obrigatória do amante da boa literatura esportiva e para aqueles que admiram profissionais do mundo do futebol que disparam frases como essa: “Tinha horas que acabava o treinamento pensando que já passara da hora de parar de jogar. Mas, já no banho, queria seguir. Ser goleiro é a única coisa que sei fazer na minha vida. E quando a gente faz o que gosta no clube que ama, com a torcida que te respeita, o que são 300 bolas doloridas?”

Literatura na Arquibancada pediu ao autor Mauro Beting detalhes sobre a produção da obra tão aguardada. E ele atendeu com histórias interessantíssimas. No final, Mauro Beting ainda revela a produção de outro livro que está lançando: “A ira de Nasi” (Editora Belas Letras). Um papo imperdível. Mais um gol de placa do incansável Mauro Beting.

Literatura na Arquibancada:
Como foi o processo de produção da biografia de Marcos?

Mauro Beting:
O livro de São Marcos começou a ser bolado num fim de tarde e de treino no começo de 2007. Marcos conversava comigo depois de mais uma exaustiva sessão e contava aquelas histórias e estórias que só ele sabe contar, com uma graça de animar velório. Saí da Academia do Palmeiras e parei para encher o tanque ainda rindo, minutos depois. Resolvi anotar no caderninho de repórter alguns dos tópicos. Morria de rir só de relembrar. Então veio o estalo. Esse cara merece mais que uma biografia. Por isso escalei Paulo Bonfá para um projeto além do livro, digamos, de “causos”. Queria fazer um documentário bem simples. Eu, Bonfá e o Marcão pescando e falando bobagens. Isto é, contando as histórias dele. Ofereci o projeto ao Marcelo Duarte, da Panda Books. Ele deu mais uns toques e começamos a mandar brasa. Porém, o Marcão deixou claro que só gostaria de um livro ao final da carreira. Enquanto isso, até para não perder a oportunidade editorial, o Marcelo Duarte contactou o André Plihal, que fez o livro de histórias do Rogério Ceni, o “Maioridade Penal”, que é um best-seller. Como tenho certeza que o que fizemos também será. Dá para dizer que o livro do Rogério começou a ser idealizado com o atraso do livro do Marcos. Atraso propositado por vontade dele. E até uma certa dificuldade minha em colocar no papel as histórias dele.

O projeto inicial era mesmo com a Panda Books. Porém, um ano antes de o Marcos parar, em 2011, três editoras contataram o santo e o Palmeiras para fazer um megaprojeto editorial. O Marcos deixou que o clube levasse adiante. Também porque o marketing do Palmeiras veio com boas ideias e uma ótima capacidade de negociação. Três editoras fizeram propostas para o clube. Maquinária, Saraiva e a Universo dos Livros. As três me convidaram para escrever um dos três livros – justamente o que já estava quase pronto, pela Panda. A Universo dos Livros veio com o projeto mais ousado e levou, digamos, a concorrência. Além do meu livro de causos, ou melhor, autobiográfico, terá  a biografia em terceira pessoa que está sendo escrita pelo PVC, e tem mais um de fotos, a ser editado mais tarde.

L. A:
Cite algumas curiosidades no convívio com o personagem Marcos?

M. B: 
Um pouco antes de o Palmeiras e o Marcos acertarem o contrato com a Universo dos Livros, eu fechava a edição final do livro com a ajuda dos jornalistas Danilo Lavieri e Marcel Alcantara, que tinham feito um TCC muito bom sobre o Marcos, e haviam procurado a Panda Books, no começo de 2011. Como, na época, eu estava finalizando o meu livro do “Flamengo de 1981”, e tinha mais 500 coisas paralelas para fazer, resolvi mais uma vez fazer uma parceria. Eles me ajudaram na captação de mais informações, e eu fiquei com o texto final. Com a edição final que, na prática, é de agosto de 2011. O livro poderia ter sido lançado ainda em janeiro, quando o Marcos pendurou as luvas. Mas até ele voltar das férias, até ele ler o próprio livro...

O Marcos não tem computador. Não tem e-mail. Então, o Juan Rodrigues, que o assessora, teve de imprimir (ou teria sido eu?) todo o livro para ele poder ler. E como o Marcão é bem relaxado... Levou um certo tempo para ele dar o ok no texto final. O que foi maravilhoso é que ele cortou poucas histórias, acrescentou uma ou outra coisa, mas mexeu pouco. Honestamente, fiquei muito feliz. É prova de que fomos fidedignos às nossas conversas para o livro. Algo que, registre-se, foi extremamente prazeroso. Ainda que um pouco trabalhoso. Usei material de entrevistas desde o início da carreira. Muita coisa que eu já havia gravado com ele para minhas colunas de jornal e internet, e para programas de rádio e TV que fiz com ele. Além de anotações de conversas como aquelas. E até mesmo papos em concentrações e viagens e aeroportos. Também tem o tempero de algumas inconfidências que amigos fizeram. Muy amigos (hehehe).

Um problema que tivemos para fazer o livro foi a transcrição das histórias para o papel. O Marcão, é sabido, anima velório infantil. Tem uma graça própria e natural. Se você der uma bula de remédio para ele ler em voz alta irá parecer um texto do Monty Phython, Verissimo ou Woody Allen. Mas se você transcrever isso para o papel vai perder muito do charme. Algumas das histórias do livro estão exatamente como ele conta. Mas nem sempre ficam tão engraçadas. Falta o jeito de falar, de olhar, de se mexer do Marcos. Que tem um raciocínio absurdamente rápido para pensar. Tanto quanto tinha para defender.

Facilitou o trabalho, claro, a gente se conhecer há muito tempo. A identidade clubística, também. Até o fato de eu ser goleiro de fim de semana [risos]. Tenho um vídeo do Marcão falando que eu só não dei certo como goleiro por falta de sorte [gargalhadas]. Falando um pouco mais sério, ele foi o cara que melhor defendeu meu time. E ter a honra e o prazer de contar a história dele, como se fosse ele próprio, não tem preço. Como foi inestimável a ajuda do time de colaboradores organizado pelo Lavieri.

L.A:
Qual o momento marcante entre tantas histórias relembradas por Marcos?

M.B: 
A melhor história do livro foi ao final dele. Sessão de fotos em 12 de junho de 2012. Exatos 19 anos depois de Palmeiras 4 x 0 Corinthians, em 1993... Ele ajoelhado, fazendo a célebre pose de agradecimento a Deus depois de tantas conquistas e pênaltis. Ele vira pra mim e pergunta se o título do livro seria realmente NUNCA FUI SANTO (uma ideia tanto da editora Márcia Batista quanto de Marcelo Duarte, da Panda Books). Eu disse que sim. Ele, então, sugeriu ao fotógrafo fazer mais uma foto. E ele trocou o dedo indicador levantado pelo dedo médio... Nada mais Marcos.

L.A:
E o processo de produção da biografia de Nasi?

M.B: 
Fascinante, além de terminar o livro do Marcos, foi praticamente ao mesmo tempo escrever a respeito de outro Marcos. Também goleiro. Mas roqueiro. Vocalista do Ira!. Que, de santo, tem ainda menos que o Marcos. É o são-paulino Marcos Valadão. O Nasi. Amigo meu há 9 anos. Ídolo meu há quase 30. Ele me convidou para ajudar e escrever a biografia dele, que havia sido começada pelo jornalista Alexandre Petillo ainda em 2006, pouco antes da implosão da banda. Convite feito num telefonema de madrugada que resolvi não atender [risos]. Reiterado em seguida pelo empresário Vagner Garcia. E acordo selado num almoço que quase virou jantar dias depois, em São Paulo.

Não era um convite. Era uma convocação. Desafio assim você topa e depois se vira para fazer. Claro que é mais complicado quando, ao mesmo tempo, eu finalizava o livro do Flamengo multicampeão de 1981, encerrava o livro do Marcos, gravava as sessões do PES 2013, e ainda mantinha minha rotina insana de apresentação de eventos e palestras, roteirização de filmes e documentários, e mais o trabalho normal como comentarista e apresentador de três emissoras de tv, uma rádio, colunista de jornal e revista e blogueiro de 2 portais. Para dar cabo às mais de 40 entrevistas que eu precisava fazer chamei os jornalistas Leandro Iamin e Marília Ruiz que fizeram ótimo trabalho. Depois juntei tudo com o excelente trabalho do Petillo e comecei a desenhar a vida de muito sexo, drogas e rock & roll do Nasi. Mas muito amor, também.

Já fiz 9 livros – incluindo um audiolivro recém lançado pela Panda Books e Rádio Bandeirantes. Fiz vários textos de apresentação e prefácios e posfácios e orelhas de livros de futebol, esporte, jornalismo Esportivo, jornalismo, música. Mas uma biografia de um personagem tão complexo, ainda não. Amo rock. Fiquei amigo do Nasi também por conta disso. Ele quer sabe mais de futebol, eu quero saber mais de rock. Foi um baita aprendizado de tudo. Especialmente de vida. As sessões de entrevista na casa dele foram sensacionais. Viraram uma espécie de terapia. Afinal, entrevista é muito isso. O jornalista extraindo, com cuidado, tudo do entrevistado. Mas sem tortura, sem inquisição. Facilitou, claro, o conhecimento prévio a respeito dele e do tema. Também sou fã do Ira!. Também fiquei chateado com o fim da banda. Gosto musicalmente muito do Edgard. Tive apenas um contato pessoal com ele. Mas curto a banda. Curto os caras. E, como fã, e mesmo jornalista, lamento todas as brigas. Até porque, diferentemente do Nasi, amo fugir delas. Mas, voltando, as sessões foram terapêuticas. Ao menos para mim. Elas calharam de ser justamente durante a minha separação. Quando perdi o chão, o céu, tudo. Nasi, mesmo sem querer, me ajudou muito a superar a dor de ficar longe dos meus filhos. Entendi muito da vida com ele. Quanto vale. Quanto pode escorrer pelas mãos. E quando, também.

L.A:
Com Nasi, qual curiosidade no convívio com o personagem?

M.B: 
Outro ponto em comum com o Marcos do Palmeiras é que o Marcos Nasi também não tem computador. Também não tem e-mail. Eu tinha de imprimir mais de 300 páginas para ele ler e reler comigo. Não é autobiografia, mas também é autorizada. Preciso da anuência dele. Mas os dois Marcos são ponta-firme. Admitem os erros. Não fizeram um livro cor de rosa ou chapa verde e branca. Deixaram os erros e podres lá dentro. No caso do Nasi, ainda douramos um pouco a pílula – ops. Mas, de um modo geral, passou tudo. O Nasi foi muito legal. Vez ou outra queria cortar algo, eu segurava, a gente conversava, e acabou ficando no papel – embora, dever dizer, algumas coisas não quis colocar. Eram muito  pesadas. Envolviam muito outras pessoas. E como prefiro ser uma boa pessoa a ser um bom jornalista, resolvi poupar algumas histórias mais punks – em qualquer acepção.

Também a melhor história do livro do Nasi lembra o processo do livro do Marcão. “A IRA DE NASI” estava finalizada. Quando, num domingo pela manhã, me liga o figura. Eufórico. Ele havia reatado com o irmão, que era um dos vilões, digamos assim, da obra. Na hora, falei duas coisas: parabéns, estou feliz pra caralho. Em seguida, mandei-o àquele lugar! Eu tinha que reescrever o livro, editar algumas partes, acrescentar o capítulo da reconciliação, entrevistar o irmão dele... [risos]. Mais um mês e o livro do Wolverine viraria mais água com açúcar que a biografia do Restart [risos]. Mas, insisto, fiquei mais feliz pelo biografado que pela biografia. Não gosto de sangue nos dedos. (embora, ainda assim, o livro é pesado)....

Sobre Mauro Beting:
Literatura na Arquibancada sugere a leitura da entrevista publicada por aqui:

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