sábado, 25 de agosto de 2012

Centenário do Fla x Flu: "Perder é do jogo"


Um dos clássicos mais importantes e tradicionais do futebol brasileiro acaba de ganhar mais um livro fundamental para a bibliografia da literatura esportiva. “Perder é do jogo” (Editora Multifoco) foi escrito por uma dupla apaixonada por futebol. Alisson Matos e Danilo Quintal optaram por uma temática pouquíssima explorada pelos editores: “as tragédias do futebol”.
Um livro imperdível.

Sinopse (da editora):

“Em Perder é do Jogo - As Maiores Tragédias de Flamengo e Fluminense, os autores se deparam com um desafio incomum: escrever sobre os principais reveses de dois gigantes do futebol brasileiro. A escolha das partidas, que não fora fácil, foi feita após pesquisa realizada junto a torcedores de ambas as equipes. Como em qualquer obra deste tipo haverá quem sinta falta de um ou outro jogo, assim como ocorre em livros que elegem os grandes craques, os maiores camisas 10 ou as melhores seleções de todos os tempos. A intenção, aqui, não é ter a verdade absoluta em que todos concordam. Até porque, como escreveu Nelson Rodrigues, ‘toda unanimidade é burra’".

No prefácio assinado pelo craque do jornalismo Xico Sá, “Perder é do Jogo”, as lembranças de um personagem fundamental na história da rivalidade deste clássico: Nelson Rodrigues, que acaba de se tornar centenário, assim como o clássico “inventado” por seu irmão, Mário Filho.

Por
Xico Sá

“Os ‘idiotas da objetividade’, como definia o tio Nelson Rodrigues, bem que tentaram e continuam tentando dominar toda a cena. Cada vez mais amparado em números, estatísticas, gráficos e tira-teimas, eles veem o jogo com a frieza de uma múmia egípcia de museu.

O bom é que os “idiotas da objetividade” não podem berrar nunca um “tá tudo dominado”. Não. Sempre aparecem uns abusados, uns resistentes, uns quixotescos, para devolver à crônica esportiva uma outra maneira de ver o jogo. Um olhar capaz de enxergar, na mais sórdida das peladas, toda uma complexidade shakespereana.

Aí é que entram em campo estes dois jovens colegas de ofício. Alisson Matos e Danilo Quintal, com este “Perder é do Jogo” – As maiores tragédias de Flamengo e Fluminense”, e enchem de orgulho quem não se entrega ao falso domínio dos jornalistas que se contentam com a ilusão dos esquemas táticos e da obviedade dos triunfos. Jogam para a torcida.

A dor de uma derrota é muito mais sábia. Não dá para, nessa hora, esquecer jamais o nosso guia no gênero, o tio Nelson, repito. Repare no que ele dizia sobre o assunto: “O adepto de qualquer outro clube recebe um gol, uma derrota, com uma tristeza maior ou menor… Se entra um gol adversário, ele se crispa, ele arqueja, ele vidra os olhos, ele agoniza …”

Nelson, Fluminense obsessivo, estava se referindo ao torcedor do seu rival Flamengo. É esse espírito que está neste livro dos novos cronistas. Com dores iguais para os dois lados neste Fla x Flu de lágrimas. Tem até aquele acachapante 6×0 do Botafogo sobre o rubronegro. Não falta também a derrota do tricolor na invasão corintiana de 1976.

Enfim, um livro sobre derrota que nos enche de esperança. Não propriamente pela lição que nos deixa um revés do nosso time. Mas pela alegria de saber que a crônica subjetiva e romântica –termo que usam para nos acusar de nostálgicos e obsoletos- está viva, vivíssima na caneta desses caras.

Com um abraço ludopédico, Xico Sá”.

O lançamento do livro “Perder é do jogo” acontece no dia 28 de agosto, no Rio de Janeiro, acompanhado de uma importante mesa de debates. O time não poderia deixar de ser “de primeira”...






Serviço:

PERDER É DO JOGO - As Maiores Tragédias de Flamengo e Fluminense

Lançamento: 28 de agosto, terça-feira

Local: Espaço Multifoco – Av. Mem de Sá 126, Lapa, Rio de Janeiro

Hora: das 18h às 21h

Mesa-redonda: 19h30

Mesa-redonda
Os 100 anos do Fla x Flu e as maiores derrotas de dois gigantes do futebol brasileiro

Participação:

Marcos Eduardo Neves
Escritor e jornalista esportivo, Marcos Eduardo Neves trabalhou como assessor de imprensa e, mais tarde, como repórter e editor em importantes veículos de comunicação. Autor com livros no Brasil e no exterior escreveu, entre outras obras, as biografias de Heleno de Freitas (Nunca houve um homem como Heleno) e do publicitário Roberto Medina (Vendedor de sonhos, no Brasil e em Portugal, e Vendedor de Sueños, na Espanha). Hoje é diretor-chefe da MEN PRODUÇÕES JORNALÍSTICAS e sócio na ROTATIVA.ART.BR.




Cesar Oliveira
Carioca, quase sessentão, editor de livros de futebol, botafoguense militante, mangueirense apaixonado, tarado por bossa nova, sushi e sorvete, cozinheiro razoável. Marido de Marcia. Pai de Bernardo, Rodrigo, Diogo e Thiago.









Alisson Matos
Alisson Matos (esq) e Danilo Quintal.
Jornalista antes de ser flamenguista. Nasceu em Nanuque, interior de Minas Gerais, em 1988. Escolheu a cidade de São Paulo para seguir o seu rumo. Metido à escriba, resolveu se enveredar pelo futebol, pela poesia e pela crônica. Utópico à moda antiga, tem convicção de que faz o que gosta. E, para ele, é o que importa. Custa a crer que realizou um sonho.

Danilo Quintal
Poeta e jornalista. Paulista de natureza e sãopaulino de coração. Apaixonado por futebol, pelo cotidiano e pelo universo das letras. Faz da escrita, antes de tudo, uma filosofia de vida. Para ele, ser jornalista é uma responsabilidade social. E a convicção de buscar um mundo justo é o que faz suas letras respirarem.

domingo, 12 de agosto de 2012

Saudades de um pai



Para o meu pai
Por André Ribeiro

"Dia dos Pais", mais uma entre tantas datas que só trazem o apelo comercial do dia. Afinal, dia dos pais, dia das mães, deve ser “comemorado” todos os dias, esteja ele ou ela, vivo ou não.

O meu pai não o tenho fisicamente há 20 anos, mas na alma e coração ele estará eternamente presente.

Por este espaço tratar-se de temas ligados ao esporte e, sobretudo ao futebol, deixo registrado aqui uma lembrança que ainda me provoca sentimentos antagônicos de alegria e tristeza. Quem, neste país do futebol, não foi e continua sendo influenciado por alguém de sua família, principalmente pelo seu pai, para escolher o time pelo qual torcer?

Papai era o que poderia se classificar de “corintiano doente”. Em dia de jogo do Corinthians em que não pudesse ir ao estádio, trancava-se no quarto com o radinho de pilha ligado na cabeceira da cama e, deitado, sofria como um pobre coitado. Era fácil descobrir quando um gol fora marcado porque em segundos ele abria a porta do quarto e saía correndo e pulando pela casa gritando gol junto com o narrador do rádio. E não estou falando de dia de clássico, podia ser um jogo contra o Juventus que a cena seria a mesma.

Com ele, descobri também a paixão pelo futebol. Não do futebol jogado nas ruas e campos de terra da periferia onde nasci na capital paulistana, e que para isso não precisei de sua ajuda, mas o futebol espetáculo, aquele das arquibancadas dos estádios. 

Desde os meus 7 anos de idade, descobri essa sensação maravilhosa que todo ser humano deve experimentar um dia, apesar da violência que se instalou pelos estádios brasileiros. Ele devia saber disso, claro, pois nunca foi ao estádio sem deixar de me levar junto. Nessa época, deixamos a periferia para ir morar no bairro do Paraíso, na zona sul paulistana. Para mim paraíso era estar bem perto do estadio do Pacaembu, local onde o Corinthians sempre jogava. 

Domingo sim, domingo não, e as vezes, nas quartas-feiras a noite, lá estávamos nós, eu e ele, caminhando pela Avenida Paulista, recém modernizada, em direção ao jogo. Isso mesmo, eu disse caminhando, porque fazia parte do ritual dele, talvez por pura superstição, ir e voltar a pé.

Também fazia parte dos seus rituais a estranha mania de chegar ao estádio e se sentar nas arquibancadas de cimento gelado do Pacaembu, exatamente na linha do meio de campo. Chegávamos normalmente com duas horas de antecedência, porque naqueles tempos, final dos anos 1960 e início dos anos 1970, havia preliminares sensacionais, e mesmo assim, estivesse alguém sentado onde ele queria, bastava para ir até o sujeito e pedir para “dar uma chegadinha pra lá” porque ele queria estar exatamente na linha divisória do campo. Faz tanto tempo, mas ainda agora consigo sentir o cheiro da grama, da pipoca que passava pra lá e para cá nas mãos dos vendedores, do gosto doce de uns “canudos” enrolados com creme que eram um horror, mas que naquele clima, tornavam-se “mágicos”.

Papai morreu jovem, com apenas 62 anos de idade. Não viu sequer o neto corintiano roxo que ele deixou no ano em que morreu, 1992. Mas pouco antes de sua morte, já com problemas no coração, e longe dos estádios havia anos, decidi retribuir esses momentos maravilhosos de minha infância. Ele nunca havia ido ao estádio do Morumbi, e eu já jornalista esportivo, consegui convencê-lo a ir a um jogo. Desta vez, era eu quem tinha que segurar suas mãos para que não se perdesse entre a massa de torcedores enlouquecidos para entrar rapidamente, pois o jogo já iria começar. Suas mãos tremiam feito às minhas muito tempo atrás. 

Jamais esquecerei daquela fração de segundos quando, finalmente, conseguimos ultrapassar a catraca que dava acesso às arquibancadas. Sem o empurra empurra tradicional, ele parou seu corpo frágil e magro, respirou fundo, caminhou alguns passos e parou quando viu a luz do sol refletir no gramado do estádio. Seus olhos estavam cheio de lágrimas. Não lembro se o Corinthians ganhou ou perdeu. Só agora me lembro que o mais fiel dos torcedores não partiu sem antes ir ao estádio com o seu filho. Obrigado meu pai, por tudo. E lá se vão 20 anos sem meu pai. Saudades de você, sempre.

Obs: texto publicado aqui no LA no Dia de Finados, em 2/11/2011, agora revisto para o Dia dos Pais.



quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Enéas: Um gênio esquecido


Ele é considerado até hoje um dos maiores jogadores de todos os tempos do futebol brasileiro. Enéas morreu jovem, com apenas 34 anos, no ano de 1988. Dono de um estilo refinado de jogar, Enéas ganhou de seu biógrafo o título de “Deus Negro”. O autor do livro “Rei Enéas – Um gênio esquecido” (Editora Expressão & Arte, 2008), que resgata sua curta trajetória de vida é Luciano Ubirajara Nassar, um apaixonado pelo futebol (na escrita e na prática, porque foi um ex-jogador). Uma obra desconhecida do grande público, talvez por conta da tal “falta de memória” do torcedor brasileiro com seus maiores ídolos. Talvez, porque Enéas passou tão rápido por essa vida.

Literatura na Arquibancada resgata dois trechos fundamentais da obra de Luciano Nassar: o prefácio, assinado pelo próprio autor e o capítulo referente à trágica morte de Enéas.

Prefácio
Por Luciano Ubirajara Nassar

Um livro simboliza o todo em um parágrafo. O livro dá a eternidade ao biografado, ao escritor, ao povo e à pátria brasileira e universal. O livro se perpetua principalmente quando o escritor compreende as funções dos espíritos, das almas, dos profetas e da ciência. A emotividade e a racionalidade se unem em um oceano de conhecimento. O sentimento esmaga a prepotência, fazendo surgir um novo Brasil.

Ninguém escreve um livro por escrever. Não se denomina, nem se adjetiva um livro, muito menos se coloca um laço no espírito do livro e o prende no território do desejo de alguém. O livro é um vulcão e um furacão. Destina-se a melhorar e elevar o ser humano. Existem três formas e métodos de se fazer uma biografia: 1ª. Criar detalhes, pormenorizar, escandalizar e se posicionar no campo dos burgueses colonizados, correndo para ser um “best seller”. 2ª. Trabalhar com idealismo e verdade. 3ª. Ser frio e irracional. Eu escolhi com convicção o idealismo e a verdade, e me orgulho disso.

Quem tem cérebro que o use, quem tem boca que fale e quem tem coração que o faça bater. Considerar e conhecer a história dos homens que lutaram por nós é nossa obrigação. O amor ao povo brasileiro se multiplica na medida em que você se entrega à leitura e à proposta do livro. Um livro não precisa de autorização para livrar o mundo da ignorância.

Este livro fala do genial jogador de futebol, Enéas. Brasileiro dos pés à cabeça. Através do futebol se pensa a vida, os sonhos, os destinos humanos, a tragédia, a dor, o esquecimento e tudo que se relaciona ao entendimento de nós mesmo e dos outros. O futebol não isola os homens, muito pelo contrário, aproxima-os. Enéas construiu sua história com talento e dor. E nós também estamos construindo a história do Brasil.

Um livro se faz com a opinião e a determinação do autor. Apenas quem escreve é que pode classificar a sua obra. O sentir e o pensar formam um ideário de esclarecimento sobre a sociedade, o homem e a sua sobrevivência. O Brasil compõe peça por peça o seu caminho de fibra e luta. O historiador deve sair da gaveta para pensar, escrever e falar, objetivando encontrar nos heróis o seu verdadeiro semblante. Heróis que gostam e sentem o povo.

Influências estrangeiras que desvirtuam e maltratam a obra nos impondo um método de trabalho devem ser evitadas e ignoradas com convicção.

O Brasil e os brasileiros são inteligentes e sensíveis. É necessário que nós compreendamos mais a nossa realidade com relação aos ídolos do esporte. Riscar e encobrir a história do Brasil é deixar de ser brasileiro e entregar-se a uma visão estapafúrdia, elitista e irreconhecível do ser humano.

Éneas e sua memória correrão campos e montanhas verdejantes. E sempre irão comentar e falar sobre os seus gols incríveis, suas jogadas geniais e seu sentimento puro e humilde para com o povo brasileiro que ele tanto amou. Não se deve escrever um livro pela vaidade ou pela possibilidade de sucesso. Isso significa render-se ao mercado.

Vamos trabalhar pelo nosso país. Simples não é? Enéas com as suas passadas largas, seus dribles sensacionais e seus gols de arte, deve estar sorrindo.

Tudo pelo Brasil!

Morte

Sua morte dramática foi inacreditável. Um jovem de 34 anos morto tragicamente. A sua morte prematura encerra um ciclo no futebol brasileiro. A geração de ouro cresceu na sua época. Enéas tinha uma torcida própria, que eram os torcedores de todos os outros times. Todo torcedor no seu íntimo sonhava em ser um gênio da bola como Éneas. Querido por todos, ele era uma espécie de aglutinador de todas as torcidas.

A Portuguesa de Desportos representava uma nave espacial dourada que fazia com que todos os apaixonados por futebol imaginassem que Enéas, um dia, jogaria nos seus times. Era bom pensar nisso, todos sonhavam juntos por Éneas. Sua morte deixou um vazio e uma cratera no sentimento do povo. Éneas sofreu um gravíssimo acidente na Avenida Cruzeiro do Sul no dia 22 de agosto de 1988. O seu carro, um Monza, se chocou contra a traseira de uma carreta Scania.

Enéas sofreu traumatismo craniano e ferimentos em várias partes do corpo. Ficou na UTI em estado de como durante 15 dias, obteve uma ligeira melhora, mas não resistiu. Depois de quatro meses lutando e sofrendo para recuperar os movimentos, a memória e a fala, faleceu no dia 27 de dezembro de 1988 de bronco-pneumonia e luxação cervical.

Enéas foi enterrado no cemitério da Quarta Parada. Perdeu-se o homem bom, carinhoso, amigo de todos, digno e brincalhão, deixando sua filha Renata do primeiro casamento e Rodrigo, filho do segundo casamento. Seus dois filhos, em 2008, lembram do que viveram juntos e cada um registra seu sentimento. A filha Renata diz: “É o meu ídolo, meu herói”. As outras crianças pediam autógrafo e eu me sentia muito feliz vendo como papai era querido. Sempre de bom humor, brincalhão e amigo de todos. Papai ajudava as pessoas e tinha uma humildade fora do comum. Nunca negou nada para ninguém. Sinto muita fala dele, da sua presença e dos seus conselhos. Meu pai representa um sonho para mim. Apesar do pouco tempo que convivemos, as lembranças alimentam minha vida e de toda a minha família”.

O filho Rodrigo fala: “Vivi apenas oito anos com meu pai, mas esse curto período ficou marcado em minha memória e no meu coração para sempre. Ele era um pai carinhoso, brincalhão e o meu melhor amigo. Papai sempre me ensinava o que era certo e me mostrava o caminho da dignidade. Uma das coisas que aprendi com meu pai e que todas as pessoas deveriam seguir é respeitar o próximo independente da sua raça, sexo, religião e condições financeiras. Lembro perfeitamente do carinho que os fãs tinham por papai. E ele sempre atendia a todos sorridente, dando autógrafos e tirando fotos. Isso explica por que todos os torcedores de outras equipes também o admiravam. Lamento muito por ter visto pouco meu pai em campo, mas cresci ouvindo e ouço até hoje a seguinte frase: “Enéas foi um dos maiores jogadores do futebol brasileiro. No final deste ano completam-se vinte anos que Enéas nos deixou, mas este livro mostra quem ele foi e o que ele representou para o futebol. Obrigado por tudo, papai”.

Perdeu-se o jogador. Para muitos, o melhor jogador da história do futebol mundial em todos os tempos. O Deus Negro. Perdeu-se o símbolo. Idealista e defensor dos sofredores e excluídos. Perdeu-se um brasileiro. Engana-se quem pensa que Enéas acabou. Enéas renasce em cada gol de craque e em cada jogada genial que acontece nos campos do Brasil. Enéas está presente em todos os lugares e em todos os momentos.





Sobre Luciano Ubirajara Nassar:
Professor de História, Geografia e Filosofia. Técnico de futebol profissional, palestrante, radialista e escritor. Jogou futebol de salão e futebol de campo profissional durante vários anos. É autor de vários livros, entre eles, “A Enciclopédia de Futebol – Brasil, os melhores jogadores de futebol do mundo”, “Julinho Botelho – Um herói brasileiro” e “A saga das mãos” (em parceria com João Carlos Martins, Editora Campus).

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Parabéns a Zagallo


Ele completa 83 anos de vida no dia 9 de agosto e merecia ter da literatura esportiva uma biografia a sua altura. Poucos sabem, mas Zagallo, o técnico brasileiro que fez história no futebol mundial, tem um livro muito simples sobre sua vida publicado em 1996: “Zagallo, um vencedor” (Editora Acerj). Pelo nome, conquistas e importância de Zagallo a obra acaba se tornando importante, pois nela são encontradas informações de várias etapas de sua vida pessoal e profissional.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo o texto do prefácio assinado pelo falecido jornalista carioca Oldemário Touguinhó, além do primeiro capítulo da obra.

Prefácio
Por Oldemário Touguinhó


Fazer um livro sobre Zagallo é deixar um documento para a história do futebol. É isso que Erthal e Vanderlei estão fazendo. Mário Jorge é alagoano de nascimento e carioca de coração. Chegou ao Rio antes de aprender a andar. Viajou no colo da mãe. Cresceu na Tijuca. Ainda menino, aprendeu a dominar aa velocidade da bola. Foi estrela do tênis de mesa. Deu muitas raquetadas para garantir medalhas no ping-pong. A confederação não admite que se chame o tênis de mesa de ping-pong, mas é com esse nome que as crianças aprendem a jogar.

Depois do bom relacionamento da bolinha branca, Zagallo entrou em campo. Passou a fazer do futebol o esporte favorito. No modesto América Junior; era o dono da bola. Driblava em excesso (só perdeu o vício mais tarde, quando o técnico do Flamengo, o paraguaio Fleitas Solich, passou a apitar faltas nos treinos após o segundo drible). Daí foi um pulo para ser titular no juvenil do próprio América, o clube da Rua Campos Sales. Logo depois, em 50, foi servir o Exército. Ganhou a vaga de titular do time da Polícia do Exército, quartel da Barão de Mesquita de triste memória durante a ditadura militar. Mas isso foi muitos anos depois, na década de 60.


O importante é que, ainda jovem, Zagallo já sabia defender seus interesses. De saída, não quis ficar de contrato preso com nenhum clube. Recusou o famoso contrato de gaveta. Contrato este que prende o passe do jogador ao clube, o que o ministro Pelé está querendo acabar, pelo menos para jogadores que chegarem aos 24 anos. Só que antes mesmo dos 20 anos, Zagallo já tinha conquistado esse direito. Chegando ao Flamengo, continuou mantendo o mesmo comportamento. Jogador sério e bem comportado, fôlego privilegiado, Zagallo foi logo convocado para a Copa de 58, na Suécia. No último contrato ele mesmo fixou o preço do passe e saiu com o passe na mão a procurar clube.

Foi campeão mundial. Vendeu o passe para o Botafogo, continuando campeão. Daí para frente os títulos passaram a ser rotina. Sempre mantendo a mesma humildade e amor à camisa, foi colecionando títulos. Não foi fácil. Jogador inteligente, tinha trocado a meia-esquerda pela ponta, onde achava mais fácil o caminho para o sucesso E foi. Nos clubes e seleção. Na seleção, quando mais se exaltava a habilidade de Canhoteiro e a potência do chute de Pepe, no fim quem jogava era Zagallo.


Quando desistiu de vencer dentro de campo, virou técnico. Assumiu o juvenil do Botafogo. Mais vitórias. Passou para o profissional. Novos títulos. Em 70, João Havelange e Antônio do Passo o convidaram para substituir João Saldanha na Copa do México. Mais um título. Foi para o mundo árabe. Vitórias e vitórias. Finalmente, em 94, depois de alguns testes, a CBF convocou Parreira para técnico e Zagallo como coordenador para lhe dar a cobertura necessária. E assim, Zagallo assumiu toda responsabilidade da Comissão Técnica. 

E mais um título. Hoje é o único tetracampeão em Copas do Mundo, Zagallo, o eterno campeão.

Capítulo 1

“O good boy”


Mário Jorge Lobo Zagallo nasceu na cidade de Maceió, no dia 9 de agosto de 1931. Era o caçula de apenas dois irmãos. A família de classe média alta transferiu-se para o Rio de Janeiro quando ele só tinha oito meses de idade. Foram morar na Tijuca, onde Zagallo passou toda a sua infância e juventude, inicialmente numa casa que ficava na esquina das ruas Professor Gabizo e Trapicheiro (atual Heitor Beltrão) e depois na Rua Dr. Satamini.

O pai, Aroldo Cardoso Zagallo, viera ser representante no Rio da fábrica de tecidos Alexandria, de propriedade do cunhado, Mário Lobo, em Alagoas. Os planos para o futuro dos filhos estavam bem definidos: primeiro, reproduzir a educação esmerada que os próprios pais haviam tido (a mãe, Mario Antonieta, fora interna num colégio francês frequentado pelas moças da elite alagoana, enquanto o pai concluíra os estudos numa escola da Inglaterra); depois, era só encaminhá-los na representação carioca da indústria do tio.


Naquele tempo, a educação dos jovens tijucanos era entregue, em geral, ou ao Colégio Militar, ou ao Externato São José, escola de orientação católica dirigida pelos padres maristas. Foi nesta última que o menino Mário Jorge começou a dar os primeiros sinais de brilhantismo. No período de 1943 a 1949, seu nome figura em inúmeras menções honrosas publicadas na revista do colégio. Sem sequer um arranhão em sua conduta escolar, teve como estudante o mesmo comportamento disciplinado que marcaria sua vida de atleta, chegando a ganhar o prêmio Belford Duarte por jamais ter sido expulso de campo ao longo de toda a sua carreira.

A imagem de good boy que iria levar pela vida afora, àquela altura em perfeita sintonia com os valores da época – a juventude transviada ainda não havia ligado os motores de suas Harley Davidson e a era dos Bady boys não poderia ser sequer cogitada –, só seria comprometida quando Mário Jorge juntava-se à horda de garotos da vizinhança para quebrar a tranquilidade da rua, armando seus campos de pelada improvisados entre uma calçada e outra. Às vezes o jogo tinha de ser interrompido, quando a polícia aparecia em consequência de uma vidraça quebrada.


As peladas na rua ou no terreno do Derby Club eram feitas, claro, sempre às escondidas do pai, cuja autoridade, porém, estava por ser ainda mais desafiada. A habilidade para o futebol demonstrada nas brincadeiras de garoto iria se revelar com todo o vigor em 1947, ao ingressar na divisão de infantis do América Football Club, que ficava próximo à sua casa e onde também fazia natação, jogava vôlei e tênis de mesa: “Seu” Aroldo, conselheiro do clube, chegou a contribuir com dinheiro para a compra dos refletores do antigo estádio da Rua Campos Sales, em cujo gramado Zagallo calçou as suas primeiras chuteiras.

Até aí, tudo bem. Na qualidade de sócio contribuinte, ele “pagava para jogar”, condição que fazia do futebol uma simples e saudável atividade esportiva, recomendada a qualquer adolescente na sua idade. Quando, porém, a brincadeira começou a ganhar ares de assunto sério, com sua ascensão, em 1948, ao time juvenil, as restrições paternas passaram a representar uma ameaça à carreira nascente.


“Seu” Aroldo chegou, na juventude, a ser capitão do time da escola em que estudara na Inglaterra e, no Brasil, jogou pelo CRB, de Maceió. Quanto ao filho, no entanto, preferia que concluísse o curso técnico de contabilidade e fosse trabalhar com ele na representação da fábrica de tecidos. O futebol, naqueles tempos, já não tinha mais o charme elitista que mantivera até as primeiras décadas do século, quando se popularizou, passando a ser praticado pelas camadas pobres e miscigenadas da população brasileira, adquirindo, com isso, uma imagem um tanto marginal.

Zagallo chegou a acompanhar o pai algumas vezes até o escritório da Rua da Alfândega, no Centro do Rio, onde, julgava a família quase unânime, estaria o seu futuro profissional. Mas ele contava com o apoio do irmão, Fernando Henrique, que conseguiu convencer “seu” Aroldo a consentir que o caçula pudesse continuar jogando. Argumentou, para isso, com os exemplos – poucos, mas expressivos – de jogadores de futebol oriundos da classe média, como Evaristo de Macedo e Joel Martins, que viriam a ser seus companheiros de equipe no Flamengo.


Pouco tempo depois, já no Flamengo, ao saborear o sucesso das primeiras vitórias como profissional, o jovem ponta-esquerda não perderia a oportunidade de provocar o pai, lançando dúvidas, em tom de brincadeira, sobre o seu passado de jogador:

– Olha aqui – mostrava-lhe o jornal. O meu nome saiu impresso para todo mundo ver. 

Agora, cadê o seu? Você diz que foi, mas não prova...



Sobre os autores:
Luiz Augusto Erthal

Luiz Augusto Erthal, e Vanderlei Borges são jornalistas, com origem na crônica esportiva do Rio de Janeiro. Trabalharam em vários órgãos da imprensa carioca e como correspondentes para jornais de outros Estados brasileiros, sempre no âmbito do jornalismo esportivo. Atuaram juntos, também, em atividades ligadas à divulgação e assessoria de imprensa do Governo do Rio de Janeiro, nos períodos 1983/1987 e 1991/1994. Reencontraram-se, sob a inspiração de um projeto do ex-presidente da Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro (ACERJ), Geraldo Pedroza – continuado com entusiasmo e despojamento pelo também presidente Pedro Costa – para levar ao público, sob a forma de livros concisos e de fácil consumo, a história dos grandes ídolos do futebol brasileiro.
Luiz Augusto Erthal é atual editor da Nitpress. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Mauro Beting: as biografias de Marcos e Nasi


Mais uma do multimídia Mauro Beting. Mais uma não, mais duas biografias para sua coleção de títulos publicados. A primeira, a aguardada biografia do goleiro Marcos. A segunda, do são-paulino roqueiro Nasi. O livro “Nunca fui santo” (Universo dos Livros) de Marcos, um dos goleiros mais admirados do futebol brasileiro tem “linguagem informal, quase uma conversa onde o leitor parece estar conversando com um amigo, ouvindo “causos” engraçados, confissões e detalhes de sua trajetória profissional”. Marcos homenageia seus próprios ídolos e mentores, em um autêntico tratado de devoção à carreira.

A biografia de Marcos é leitura obrigatória do amante da boa literatura esportiva e para aqueles que admiram profissionais do mundo do futebol que disparam frases como essa: “Tinha horas que acabava o treinamento pensando que já passara da hora de parar de jogar. Mas, já no banho, queria seguir. Ser goleiro é a única coisa que sei fazer na minha vida. E quando a gente faz o que gosta no clube que ama, com a torcida que te respeita, o que são 300 bolas doloridas?”

Literatura na Arquibancada pediu ao autor Mauro Beting detalhes sobre a produção da obra tão aguardada. E ele atendeu com histórias interessantíssimas. No final, Mauro Beting ainda revela a produção de outro livro que está lançando: “A ira de Nasi” (Editora Belas Letras). Um papo imperdível. Mais um gol de placa do incansável Mauro Beting.

Literatura na Arquibancada:
Como foi o processo de produção da biografia de Marcos?

Mauro Beting:
O livro de São Marcos começou a ser bolado num fim de tarde e de treino no começo de 2007. Marcos conversava comigo depois de mais uma exaustiva sessão e contava aquelas histórias e estórias que só ele sabe contar, com uma graça de animar velório. Saí da Academia do Palmeiras e parei para encher o tanque ainda rindo, minutos depois. Resolvi anotar no caderninho de repórter alguns dos tópicos. Morria de rir só de relembrar. Então veio o estalo. Esse cara merece mais que uma biografia. Por isso escalei Paulo Bonfá para um projeto além do livro, digamos, de “causos”. Queria fazer um documentário bem simples. Eu, Bonfá e o Marcão pescando e falando bobagens. Isto é, contando as histórias dele. Ofereci o projeto ao Marcelo Duarte, da Panda Books. Ele deu mais uns toques e começamos a mandar brasa. Porém, o Marcão deixou claro que só gostaria de um livro ao final da carreira. Enquanto isso, até para não perder a oportunidade editorial, o Marcelo Duarte contactou o André Plihal, que fez o livro de histórias do Rogério Ceni, o “Maioridade Penal”, que é um best-seller. Como tenho certeza que o que fizemos também será. Dá para dizer que o livro do Rogério começou a ser idealizado com o atraso do livro do Marcos. Atraso propositado por vontade dele. E até uma certa dificuldade minha em colocar no papel as histórias dele.

O projeto inicial era mesmo com a Panda Books. Porém, um ano antes de o Marcos parar, em 2011, três editoras contataram o santo e o Palmeiras para fazer um megaprojeto editorial. O Marcos deixou que o clube levasse adiante. Também porque o marketing do Palmeiras veio com boas ideias e uma ótima capacidade de negociação. Três editoras fizeram propostas para o clube. Maquinária, Saraiva e a Universo dos Livros. As três me convidaram para escrever um dos três livros – justamente o que já estava quase pronto, pela Panda. A Universo dos Livros veio com o projeto mais ousado e levou, digamos, a concorrência. Além do meu livro de causos, ou melhor, autobiográfico, terá  a biografia em terceira pessoa que está sendo escrita pelo PVC, e tem mais um de fotos, a ser editado mais tarde.

L. A:
Cite algumas curiosidades no convívio com o personagem Marcos?

M. B: 
Um pouco antes de o Palmeiras e o Marcos acertarem o contrato com a Universo dos Livros, eu fechava a edição final do livro com a ajuda dos jornalistas Danilo Lavieri e Marcel Alcantara, que tinham feito um TCC muito bom sobre o Marcos, e haviam procurado a Panda Books, no começo de 2011. Como, na época, eu estava finalizando o meu livro do “Flamengo de 1981”, e tinha mais 500 coisas paralelas para fazer, resolvi mais uma vez fazer uma parceria. Eles me ajudaram na captação de mais informações, e eu fiquei com o texto final. Com a edição final que, na prática, é de agosto de 2011. O livro poderia ter sido lançado ainda em janeiro, quando o Marcos pendurou as luvas. Mas até ele voltar das férias, até ele ler o próprio livro...

O Marcos não tem computador. Não tem e-mail. Então, o Juan Rodrigues, que o assessora, teve de imprimir (ou teria sido eu?) todo o livro para ele poder ler. E como o Marcão é bem relaxado... Levou um certo tempo para ele dar o ok no texto final. O que foi maravilhoso é que ele cortou poucas histórias, acrescentou uma ou outra coisa, mas mexeu pouco. Honestamente, fiquei muito feliz. É prova de que fomos fidedignos às nossas conversas para o livro. Algo que, registre-se, foi extremamente prazeroso. Ainda que um pouco trabalhoso. Usei material de entrevistas desde o início da carreira. Muita coisa que eu já havia gravado com ele para minhas colunas de jornal e internet, e para programas de rádio e TV que fiz com ele. Além de anotações de conversas como aquelas. E até mesmo papos em concentrações e viagens e aeroportos. Também tem o tempero de algumas inconfidências que amigos fizeram. Muy amigos (hehehe).

Um problema que tivemos para fazer o livro foi a transcrição das histórias para o papel. O Marcão, é sabido, anima velório infantil. Tem uma graça própria e natural. Se você der uma bula de remédio para ele ler em voz alta irá parecer um texto do Monty Phython, Verissimo ou Woody Allen. Mas se você transcrever isso para o papel vai perder muito do charme. Algumas das histórias do livro estão exatamente como ele conta. Mas nem sempre ficam tão engraçadas. Falta o jeito de falar, de olhar, de se mexer do Marcos. Que tem um raciocínio absurdamente rápido para pensar. Tanto quanto tinha para defender.

Facilitou o trabalho, claro, a gente se conhecer há muito tempo. A identidade clubística, também. Até o fato de eu ser goleiro de fim de semana [risos]. Tenho um vídeo do Marcão falando que eu só não dei certo como goleiro por falta de sorte [gargalhadas]. Falando um pouco mais sério, ele foi o cara que melhor defendeu meu time. E ter a honra e o prazer de contar a história dele, como se fosse ele próprio, não tem preço. Como foi inestimável a ajuda do time de colaboradores organizado pelo Lavieri.

L.A:
Qual o momento marcante entre tantas histórias relembradas por Marcos?

M.B: 
A melhor história do livro foi ao final dele. Sessão de fotos em 12 de junho de 2012. Exatos 19 anos depois de Palmeiras 4 x 0 Corinthians, em 1993... Ele ajoelhado, fazendo a célebre pose de agradecimento a Deus depois de tantas conquistas e pênaltis. Ele vira pra mim e pergunta se o título do livro seria realmente NUNCA FUI SANTO (uma ideia tanto da editora Márcia Batista quanto de Marcelo Duarte, da Panda Books). Eu disse que sim. Ele, então, sugeriu ao fotógrafo fazer mais uma foto. E ele trocou o dedo indicador levantado pelo dedo médio... Nada mais Marcos.

L.A:
E o processo de produção da biografia de Nasi?

M.B: 
Fascinante, além de terminar o livro do Marcos, foi praticamente ao mesmo tempo escrever a respeito de outro Marcos. Também goleiro. Mas roqueiro. Vocalista do Ira!. Que, de santo, tem ainda menos que o Marcos. É o são-paulino Marcos Valadão. O Nasi. Amigo meu há 9 anos. Ídolo meu há quase 30. Ele me convidou para ajudar e escrever a biografia dele, que havia sido começada pelo jornalista Alexandre Petillo ainda em 2006, pouco antes da implosão da banda. Convite feito num telefonema de madrugada que resolvi não atender [risos]. Reiterado em seguida pelo empresário Vagner Garcia. E acordo selado num almoço que quase virou jantar dias depois, em São Paulo.

Não era um convite. Era uma convocação. Desafio assim você topa e depois se vira para fazer. Claro que é mais complicado quando, ao mesmo tempo, eu finalizava o livro do Flamengo multicampeão de 1981, encerrava o livro do Marcos, gravava as sessões do PES 2013, e ainda mantinha minha rotina insana de apresentação de eventos e palestras, roteirização de filmes e documentários, e mais o trabalho normal como comentarista e apresentador de três emissoras de tv, uma rádio, colunista de jornal e revista e blogueiro de 2 portais. Para dar cabo às mais de 40 entrevistas que eu precisava fazer chamei os jornalistas Leandro Iamin e Marília Ruiz que fizeram ótimo trabalho. Depois juntei tudo com o excelente trabalho do Petillo e comecei a desenhar a vida de muito sexo, drogas e rock & roll do Nasi. Mas muito amor, também.

Já fiz 9 livros – incluindo um audiolivro recém lançado pela Panda Books e Rádio Bandeirantes. Fiz vários textos de apresentação e prefácios e posfácios e orelhas de livros de futebol, esporte, jornalismo Esportivo, jornalismo, música. Mas uma biografia de um personagem tão complexo, ainda não. Amo rock. Fiquei amigo do Nasi também por conta disso. Ele quer sabe mais de futebol, eu quero saber mais de rock. Foi um baita aprendizado de tudo. Especialmente de vida. As sessões de entrevista na casa dele foram sensacionais. Viraram uma espécie de terapia. Afinal, entrevista é muito isso. O jornalista extraindo, com cuidado, tudo do entrevistado. Mas sem tortura, sem inquisição. Facilitou, claro, o conhecimento prévio a respeito dele e do tema. Também sou fã do Ira!. Também fiquei chateado com o fim da banda. Gosto musicalmente muito do Edgard. Tive apenas um contato pessoal com ele. Mas curto a banda. Curto os caras. E, como fã, e mesmo jornalista, lamento todas as brigas. Até porque, diferentemente do Nasi, amo fugir delas. Mas, voltando, as sessões foram terapêuticas. Ao menos para mim. Elas calharam de ser justamente durante a minha separação. Quando perdi o chão, o céu, tudo. Nasi, mesmo sem querer, me ajudou muito a superar a dor de ficar longe dos meus filhos. Entendi muito da vida com ele. Quanto vale. Quanto pode escorrer pelas mãos. E quando, também.

L.A:
Com Nasi, qual curiosidade no convívio com o personagem?

M.B: 
Outro ponto em comum com o Marcos do Palmeiras é que o Marcos Nasi também não tem computador. Também não tem e-mail. Eu tinha de imprimir mais de 300 páginas para ele ler e reler comigo. Não é autobiografia, mas também é autorizada. Preciso da anuência dele. Mas os dois Marcos são ponta-firme. Admitem os erros. Não fizeram um livro cor de rosa ou chapa verde e branca. Deixaram os erros e podres lá dentro. No caso do Nasi, ainda douramos um pouco a pílula – ops. Mas, de um modo geral, passou tudo. O Nasi foi muito legal. Vez ou outra queria cortar algo, eu segurava, a gente conversava, e acabou ficando no papel – embora, dever dizer, algumas coisas não quis colocar. Eram muito  pesadas. Envolviam muito outras pessoas. E como prefiro ser uma boa pessoa a ser um bom jornalista, resolvi poupar algumas histórias mais punks – em qualquer acepção.

Também a melhor história do livro do Nasi lembra o processo do livro do Marcão. “A IRA DE NASI” estava finalizada. Quando, num domingo pela manhã, me liga o figura. Eufórico. Ele havia reatado com o irmão, que era um dos vilões, digamos assim, da obra. Na hora, falei duas coisas: parabéns, estou feliz pra caralho. Em seguida, mandei-o àquele lugar! Eu tinha que reescrever o livro, editar algumas partes, acrescentar o capítulo da reconciliação, entrevistar o irmão dele... [risos]. Mais um mês e o livro do Wolverine viraria mais água com açúcar que a biografia do Restart [risos]. Mas, insisto, fiquei mais feliz pelo biografado que pela biografia. Não gosto de sangue nos dedos. (embora, ainda assim, o livro é pesado)....

Sobre Mauro Beting:
Literatura na Arquibancada sugere a leitura da entrevista publicada por aqui: