sábado, 28 de julho de 2012

Formador de campeões


Um livro imperdível para quem quer entender a formação de clubes campeões, por dentro e, principalmente, fora das quatro linhas. Elio Carravetta sabe do que fala porque vivenciou o esporte em todas as suas fases, desde atleta, passando pela formação como professor e, finalmente, como gestor de futebol. Carravetta participou das grandes conquistas do Internacional, do Rio Grande do Sul, na última década. Mas também viu de perto fracassos de vários treinadores e equipes.

“Futebol: a formação de times competitivos”(Editora Sulina), de Elio Carravetta, é obra obrigatória para os amantes da boa literatura esportiva.

Sinopse (da editora):

A genealogia do futebol, os primórdios de um esporte que mexe com a alma, com o social e que envolve multidões em torno do mundo da bola. O autor procura neste estudo fazer esta abordagem, dos primeiros passos do futebol no século XIX ao passado recente de crise e hipoteca patrimonial nos clubes nacionais, em que abrange assuntos variados para que o leitor possa compreender sobre o tema. Como o futebol surgiu, e ressurgiu através de transformações políticas e novos modelos de gestão. 

O livro contém historias longínquas e experiências recentes. Casos de bastidores, registros factuais e treinamentos técnicos, táticos e físicos. Mas antes de qualquer coisa, é um convite a se pensar o futebol em todo o seu alcance, desde os apaixonados pelo tema aos profissionais em gestão esportiva e especialistas em Ciência do Desporto e professores de Educação Física.

Introdução

Elio Carravetta
Lembro das tardes cinzentas de agosto de 63, eu e meus amigos descendo a Dom Pedro II (dessa vez sem os carrinhos de lomba), em direção à Sogipa. Eu tinha dez anos e, como qualquer criança, era movido pela curiosidade. Naqueles dias, uma curiosidade em especial: ver os treinamentos dos atletas estrangeiros que se preparavam para os Jogos Mundiais Universitários (Universíade). Um evento, naquela época, com a importância de uma Copa do Mundo de Futebol, ou mesmo de uma Olimpíada, e, o melhor de tudo, acontecendo em Porto Alegre, perto da minha casa.

Foi assim que eu e meus amigos descobrimos o Valery Brummel, um russo recordista mundial no salto em altura, a Tamara Press, campeã olímpica do arremesso de peso, e a ginasta húngara, Katalin Makray, todos com seus corpos imponentes, fazendo movimentos incríveis, desafiando a gravidade – embora ainda não soubéssemos o que eram as leis da física, sabíamos muito bem que heróis podiam voar. Descobrimos, com o basquete e o vôlei, que bolas provocam batalhas, e apitos acabam com elas num segundo; com o tênis, que o esporte pode ser elegante (até a primeira gota de suor); a natação, ou a “corrida na água”, nos ensinou o significado de equilíbrio, impulsão e outras palavras novas; através do atletismo, descobrimos que esforço, esforço de verdade, não era o que fazíamos para acordar e ir à escola. Descobrimos, enfim, o esporte e o treinamento desportivo.

Elio Carravetta, no Internacional.
Depois de assistir ao espetáculo da Universíade, como qualquer criança o faria, passei a sonhar com o meu lugar no mundo dos 10 atletas. Comecei pelos treinamentos no futebol, claro – na época, alimentava uma paixão a distância pelo imbatível time do Santos (Gilmar, Lima, Mauro, Dalmo e Calvet; Zito, Mengálvio e Pelé; Dorval, Coutinho e Pepe). Treinei com o talentoso e paciente Jofre Funchal, no campo do Nacional. Eu tinha explosão, velocidade e uma boa resistência. O problema era a gorduchinha, que me castigava. 

Nessa mesma época, fui chamado para participar de uma competição de atletismo no estádio Ramiro Souto, no Parque da Redenção. No fim do torneio, um representante do Inter me convidou para integrar a equipe de atletismo do clube, e, no dia seguinte, a Sogipa também me enviou uma carta-convite. Aceitei a proposta da Sogipa, e o lugar onde descobri o esporte como espectador agora me abrigava como atleta. Diariamente, passei a ter novas lições sobre esforço; a cada treinamento, aprendia que, embora a palavra seja sempre a mesma, cada cansaço é um cansaço diferente. Cansaço e também satisfação. Consegui quebrar o recorde brasileiro dos 800 metros rasos. Retornei aos Jogos Mundiais Universitários, desta vez como atleta, em Roma, no ano de 1975. Venci corridas, participei de seleções, entrei para a galeria dos atletas laureados da Sogipa. Crianças não têm medo de correr atrás dos sonhos. E eu fiz isso.    

Elio e o atacante uruguaio Forlán.
Ao longo do percurso, descobri também o caminho da Universidade (a academia, esse termo que remete à polivalência dos gregos), onde me dediquei à gestão de diferentes programas de treinamentos esportivos: educação física escolar, treinos individuais, ginástica para sedentários, iniciação esportiva, futebol de base e treinamentos para competição de alto rendimento. Concluí o curso de Educação Física com fôlego para muito mais. Me tornei docente da UFRGS, o que não significou um abandono das pistas, quadras e campos em favor da sala de aula. Ao contrário, o mundo acadêmico e o mundo do esporte, para mim, sempre foram um só. As pesquisas, o tempo de estudo e a busca de conhecimento eram somente novas etapas de uma mesma trajetória, a trajetória de um desportista. E como não se faz esporte na solidão, minhas descobertas pedagógicas não podiam ser validadas no gabinete; elas dependiam da descoberta 11 (e formação) de novos atletas e modelos inovadores de gestão em treinamento desportivo, trabalho realizado nas quadras, nas pistas, nas salas de ginástica e nos campos – é isso que faz com que a vida do esporte não pare.

Elio comanda treino físico no Inter.
Nas duas últimas décadas, na área de gestão de treinamento desportivo, procurei entender o que o futebol tem de simples e o que tem de complexo. E isso não é simples. Dia e noite no campo de estudo, com a mesma paixão de uma vida dedicada ao treinamento desportivo, observei a conduta dos jogadores de futebol, das comissões técnicas, dos dirigentes, dos especialistas dos setores de saúde e, sem os quais o quadro não estaria completo, dos conselheiros e dos torcedores. Ajudei a coordenar, no Sport Club Internacional, distintos programas no futebol; participei de comissões técnicas da equipe principal; orientei treinamentos e retreinamentos; estive em diferentes momentos de planejamentos estratégicos; fiz parte do escritório de qualidade (PGPQ) do clube. Com a ajuda das pessoas ao meu redor, procurei entender o futebol.

Vivi experiências que marcaram mudanças de paradigmas no futebol. Momentos de turbulência, insegurança e crises no interior do clube. Entre dois Campeonatos Brasileiros, a iminência de um rebaixamento para a segunda divisão. O trabalho espontâneo e incansável de muitos dirigentes que buscavam alternativas políticas e administrativas para o crescimento do clube. E, por fim, uma década de glórias (2006 – Libertadores da América; 2006 – Copa do Mundo de Clubes da FIFA; 2007 – Recopa Sul-Americana; 2008 – Dubai Cup; 2009 – Copa Suruga Bank (aqui, o Inter ultrapassou a barreira dos 100.000 sócios); 2010 – Bicampeão da Copa Libertadores da América; 2011– Bicampeão da Recopa Sul-Americana). 

Conquistas memoráveis que marcaram o trabalho de conselheiros, dirigentes, funcionários, torcedores e jogadores. Na área de desenvolvimento técnico, esse período me permitiu acompanhar a trajetória de treinadores, muitos deles jovens, competentes, que alcançaram o ápice na profissão, outros, renomados, com uma rica trajetória profissional; cada um, tomado individualmente, faz parte de uma história única, com lições inconfundíveis. Conheci 12 profissionais e dirigentes sem os quais o clube não teria chegado onde chegou. Acompanhei os passos de jogadores tidos como promessas nas categorias de base, mas que não chegaram na primeira divisão do futebol brasileiro. Talentos que se perderam na vida noturna com mulheres e bebidas.  Outros alçaram voos para times de ponta do futebol internacional. E ainda há aqueles que insistem em contrariar as opiniões fáceis: os que não eram apostas e se firmaram como profissionais de sucesso.

Reuni, neste estudo, informações e análises conceituais que vêm carregadas de experiências vivas. É assim que pretendo explicar, tanto quanto possível, o futebol e a formação de times competitivos sob a ótica da gestão do treinamento desportivo. Em dez capítulos, proponho pensar o futebol de elite como um sistema aberto, formado por estruturas internas e externas. A estrutura interna equivale ao jogo de futebol propriamente dito. Na estrutura externa, estão a FIFA, os clubes, os responsáveis pelas equipes e pela formação dos jogadores: em poucas palavras, as entidades e pessoas que, mesmo sem jogar o jogo, colocam o futebol em ação.

O capítulo um contém uma aproximação teórica com a genealogia do futebol.  Apresenta o surgimento dos jogos com bolas nas grandes civilizações até o aparecimento do esporte moderno.

No capítulo dois, são apresentados os fundamentos da cultura organizacional do futebol brasileiro. Na continuação, o terceiro capítulo estuda o que é o futebol, repassando, da teoria para a prática, os processos da gestão do futebol brasileiro. No capítulo quatro, trato das decisões estratégicas, da estrutura e do planejamento. A seguir, no capítulo cinco, são estudadas a gestão política, a estrutura funcional dos clubes brasileiros, assim como o papel das comissões técnicas, da equipe de saúde e do diretor técnico no departamento de futebol. 

O capítulo seis apresenta a evolução das linhas metodológicas do treinamento desportivo no futebol. No capítulo sete, são analisados os pressupostos básicos da formação do jogador. O oitavo capítulo configura os treinamentos para o elevado rendimento de um time de futebol. No capítulo nove, escrevo sobre a organização do 13 planejamento dos times brasileiros. Por fim, o capitulo dez aborda a gestão dos treinamentos no futebol brasileiro. 

Dos primeiros passos do futebol no século XIX ao passado recente de crise e hipoteca patrimonial dos clubes nacionais, abranjo assuntos variados para que o leitor possa compreender o futebol; como ele surgiu, e ressurgiu através de transformações políticas e novos modelos de gestão.

Este livro contém histórias longínquas e experiências recentes. Casos de bastidores, registros factuais e termos técnicos.

Mas, antes de qualquer coisa, é um convite a se pensar o futebol em todo o seu alcance.

Sobre Elio Carravetta:
Experiência de 38 anos, na área técnica de esportes de elevado rendimento. Com participação em campeonatos Estadual, Nacional, Sul Americano, Mundial e Jogos Olímpicos. Atua dede 1997 no Departamento de Futebol do Sport Club Internacional: Coordenação de Preparação Física e Reabilitação Física. É autor também do livro “Modernização da gestão no futebol brasileiro” e “Os magos da preparação física” (em coautoria com Paulo Paixão).

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