quarta-feira, 4 de julho de 2012

Centenário Fla-Flu (3): "O Sobrenatural de Almeida"


Pode se dizer que ele perdeu o charme ou a mística de antigamente, mas ninguém seria maluco de afirmar que ele não continua a ser um dos clássicos mais importantes e famosos do futebol brasileiro. Ainda mais agora quando ele está perto de completar 100 anos de existência. No dia 7 de julho de 1912 foi disputado o primeiro jogo entre Flamengo e Fluminense, com vitória dos tricolores por 3 a 2. Um centenário que merece ser comemorado com todas as pompas possíveis. E isso já está acontecendo.

Troféu do designer Roberto Stein
Pena que o estádio do Maracanã não esteja pronto para a festa que será organizada pela Rede Globo. No dia 8 de agosto os dois times se enfrentam no estádio do Engenhão, pelo campeonato brasileiro, com direito a homenagens de primeira.  Os dois clubes e, evidentemente, a imensa torcida dos dois clubes, receberão diversas homenagens. Primeiro um jogo preliminar entre astros da TV, música e ex-craques das duas equipes. Há ainda um troféu, que será entregue pela TV Globo aos dois times. Mas não é um troféu qualquer. A obra é dividida em duas metades, cada uma para um clube. Criação do designer e diretor de arte da Rede Globo, Roberto Stein. A metade tricolor ganhou o batismo de Nelson Rodrigues e a outra, rubro-negra, Mario Filho.

Justa homenagem, não só aos dois clubes e ao clássico, mas também aos irmãos Rodrigues. Nelson, tricolor assumido de corpo e alma. Mario, dizem, rubro-negro.

Literatura na Arquibancada traz hoje o terceiro artigo da série especial sobre o clássico Fla-Flu, revivido em textos históricos publicados em livros ou na crônica esportiva. O primeiro deles, se você não sabe, foi uma crônica de Mário Filho, o “pai” do Fla-Flu. 

Agora, mais uma vez, o irmão de Mario, Nelson Rodrigues, que este ano, assim como o clássico Fla-Flu, completaria 100 anos, nos brinda novamente com uma crônica que tem tudo a ver com o jogo deste dia 04/07, a final entre Corinthians e Boca Juniors na Libertadores da América.

O texto é parte de um livro imperdível “Fla-Flu...e as multidões despertaram!” (Edição Europa, 1987), organizado por Oscar Maron Filho e Renato Ferreira e nele, Nelson nos apresenta um de seus personagens mais famosos: o “Sobrenatural de Almeida”. Um personagem que corintianos de coração nas mãos na noite de hoje podem e devem evocar.

À sombra das chuteiras imortais
Por Nelson Rodrigues

Entro na redação e sou avisado: “Tem aí um cara te esperando”. Digo, tirando o paletó: “Manda entrar”. Era o abominabilíssimo Sobrenatural de Almeida. É duro começar o trabalho com tão tenebrosa visita. Todavia, a natureza deu ao homem, para essas ocasiões, um cinismo impressionante.

Quando o Sobrenatural de Almeida aparece, eu o recebo com falsíssima efusão: “Quem é vivo sempre aparece!”. Com uma perna mais curta do que a outra, o visitante aproxima-se, mancando. Pergunto-lhe: “Como vai essa figura?”. O outro abre um sorriso de maus dentes: “Estou caprichando!”. Sentou-se e eu berro para o contínuo: “Dois cafezinhos, rápido!”.

E instalado na redação, o Sobrenatural de Almeida começa a falar: “Tens visto a minha atuação?”. Ao mesmo tempo que fala, abana-se com a Revista do Rádio. Sinto que ele está vaidoso de não sei de que ignóbeis feitos. Tive a vontade quase irresistível de perguntar: “Assaltaste algum chaffeur?”. Por delicadeza, esperei que o miserável fizesse a sua autopromoção. E, então, depois de limpar um pigarro, de estufar o peito magro, diz ele patético: “Eu venci o Fla-Flu! Eu!”.

Houve um suspense. Sobrenatural de Almeida dá um risinho de Chaliapine em Mefistófeles: “Ou não percebeste a minha influência no placar?”. Juntou gente em torno da minha mesa. Ao mesmo tempo, chegava o contínuo com dois cafezinhos na bandeja. E, então, mexendo o açúcar, o abjeto cidadão contou, para nosso espanto, a sua vil ação contra o Fluminense.

Ouvindo-o, eu encontrava explicação para uma série de fatos extraordinários. Os idiotas da objetividade só veem um jogo em seus termos estritamente técnicos e estritamente táticos. E o Sobrenatural de Almeida estava ali, provando que o futebol é muito mais do que puro e simples futebol. Qualquer clássico ou qualquer pelada tem uma aura.

Antigamente, os alvinegros soluçavam: “Há coisas que só acontecem ao Botafogo!”. Era verdade. Fatos espantosos aconteciam em General Severiano. Nos últimos jogos, o Fluminense também poderia clamar: “Há coisas que só acontecem ao tricolor!”.

A nossa equipe pode não ser o escrete húngaro de 54, mas é superior aos seus resultados. Por exemplo: contra o Vasco, Denílson deu um gol; contra o Bangu, Silveira deu outro gol; contra o Flamengo, Altair outro. Dir-se-ia que o tricolor cavou o próprio abismo. Mas é claro que o Fluminense não tem nenhuma vocação suicida. Por outro lado, Denílson, Silveira e Altair são “pós-de-arroz” apaixonados. Não estão lá para estraçalhar o próprio time. E por quê, em três partidas consecutivas, o Fluminense foi artilheiro contra si mesmo?

Trepando numa cadeira, em plena redação, o Sobrenatural de Almeida bate no peito: “Fui eu! Eu!”, alega o abominável indivíduo que, aproveitando a ausência do “Gravatinha”, sentou-se na alma tricolor. Eu ouço e calo. Ou por outra: faço-lhe a pergunta: “E domingo?”.

Sobrenatural de Almeida dá uma gargalhada satânica: “Entre o Botafogo e o Vasco, estou escolhendo a minha vítima. Hei de beber o sangue de alguém”. 

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