domingo, 29 de julho de 2012

Osmar Santos: o pai da matéria


Há 65 anos nascia um dos maiores nomes do rádio esportivo brasileiro. No dia 28 de julho de 1949, na cidade de Oswaldo Cruz, interior de São Paulo, Osmar Santos começava sua trajetória de vida. Vida esta interrompida tragicamente no dia 22 de dezembro de 1994 quando sofreu um grave acidente automobilístico. O locutor que encantava multidões com seu estilo único de narração perdeu o maior dom que Deus lhe dera: a voz.


Mas surgia aí também o que seu biógrafo, Paulo Mattiussi, definiu muito bem no subtítulo do livro publicado em 2004, pela Editora Sapienza: “Osmar Santos – O milagre da vida”. 

Isso mesmo, um milagre fez com que Osmar continuasse a batalha pela vida. Virou artista e continua perambulando por aí, nos estádios e na mídia, com todas as limitações físicas que lhe foram impostas. 

Quem o viu narrar, jamais se esquecerá do estilo inconfundível. Parabéns Osmar Santos. E “pimba na gorduchinha” porque o jogo da vida tem que continuar.


Literatura na Arquibancada destaca abaixo fragmentos da obra de Paulo Mattiussi, que acabou morrendo três anos após o lançamento da biografia do amigo Osmar Santos. Um livro emocionante, obrigatório em qualquer biblioteca dos amantes da literatura esportiva.

“Nasceu na roça, filho de colono sem-terra. Construiu o seu sonho. Conquistou fama, dinheiro, reconhecimento, idolatria. Nunca perdeu sua família de vista. Arriscou tudo na luta pela redemocratização do Brasil, o seu país. Só não conseguiu driblar o destino”.

Prefácio
Por Édson Arantes do Nascimento, Pelé


“Difícil não é marcar mil gols como Pelé; Difícil é marcar um gol como Pelé”
(Carlos Drummond de Andrade, poeta mineiro)

Só Deus poderia explicar a razão, de eu ter o privilégio de escrever algo sobre alguém, que narrava com tanto entusiasmo e criatividade, grandes jogadas do Pelé em campo, como das grandes equipes do futebol.

O Osmar fazia com que o jogo de futebol chegasse aos ouvintes de forma vibrante, criando na imaginação um maravilhoso visual do maior espetáculo da terra.


Tanto Osmar como Pelé, levavam alegria aos ouvintes, cada um no seu trabalho, cada um à sua maneira, mas ambos atuando com muito amor e dedicação e respeito ao torcedor brasileiro.

A gorduchinha que ele falava com tanto carinho foi, quem abriu as portas do mundo e deu ao Pelé, tudo o que tem hoje. Mesmo amando-a, ele sempre a tratava aos pontapés, mas também a recebia no peito de todo coração.

Comunguei com muitos ideais do Osmar que eram meus também, falando das injustiças sociais, dando o alerta em favor dos excluídos, induzindo ao despertar do patriotismo e muitas coisas mais.


Tenho certeza que o Osmar, do alto do seu talento, está muito feliz com o legado que deixou no mundo esportivo brasileiro, ao introduzir uma forma nova e criativa de locução, como também do seu comportamento ético e digno, que o faz ser admirado por todo povo brasileiro.

Que Deus o abençoe hoje e sempre, e que seu exemplo de tenacidade e luta sejam paradigmas para os jovens, que estão iniciando suas vidas nesse mundo tão sedento de paz e amor.

A vida é assim. Às vezes temos que entender os desígnios de Deus, que tirou o que lhe era mais precioso, a voz, que o impede de continuar narrando os jogos de futebol, mas o tornou imortal.

P.S: Pelé começou a conviver com Osmar em 1972. O rei do futebol nunca escondeu sua predileção por aquele garoto de estilo irreverente, que fazia as perguntas mais ousadas de uma maneira displicente, infantil. Tanto que fez questão de escrever o texto acima. O texto foi escrito durante a madrugada de uma viagem de avião da Coréia para o Brasil e foi enviado por e-mail com uma exigência: deveria ser assinado não pelo personagem Pelé que encantou o mundo da bola, mas pelo homem Edson Arantes do Nascimento.

Apresentação
Por Paulo Mattiussi

Osmar e Mattiussi

Conheci o Osmar num jantar de negócios, logo depois da Copa de 1974. Foi na Cantina do Júlio, no Bexiga, o segundo restaurante mais antigo de São Paulo. Saboreando um fuzile com frango frito – especialidade da casa até hoje –, discutimos a participação dele num projeto de esportes de uma distribuidora de gás de São Paulo. Osmar já era o Osmar da Pan, conhecido, idolatrado, mas extremamente simpático e atencioso com todo mundo.

Com a convivência – pessoal desde aquela noite; profissional entre os anos de 1978 e 1992 –, aprendi que aquele bom humor não era só a manifestação de um garotão nascido na roça, deslumbrado com a boa vida da capital, onde, antes de completar 25 anos, já tinha conquistado salário de gente grande e destaque entre os principais locutores esportivos da história do rádio no Brasil.


O bom humor, a irreverência, a solidariedade, a simpatia e a determinação são características de sua personalidade até hoje, apesar das marcas deixadas pelo acidente que sofreu na semana do natal de 1994.

O Osmar de hoje fala duas, três palavras de cada vez. Mas a gente entende o que ele quer dizer. O Osmar de hoje anda com dificuldade. Mas consegue estar sempre ao nosso lado. E o Osmar de hoje, como o Osmar de ontem, vive da maneira como sempre gostou de viver. Em constante movimento e agitação.

É figura assídua nos principais restaurantes, vai a shows, teatros, óperas, jogos de futebol e cinema (quase todos os dias); visita amigos, novos e antigos patrocinadores, faz fono, fisioterapia, passa pela rádio, pela produtora: enfim, cumpre uma maratona que faz do seu carro um dos mais rodados do país (são mais de 7 mil quilômetros por mês) e que não impede que ele extravase sua criatividade como artista plástico, pintor impressionista, que vende pelo menos um quadro por semana, conquistando o aval do mestre Aldemir Martins.


Escrever um livro sobre a vida de Osmar, seus dramas, suas glórias, sua história, era algo em que comecei a pensar desde fevereiro de 1995, quando ouvi pela primeira vez a notícia de que ele tinha perdido o dom da fala. Justo ele, exemplo de eloquência, que matraqueava até cem palavras por minuto durante a transmissão de um jogo de futebol.

Mas o projeto foi se perdendo no tempo, trocado por atos de imediata sobrevivência, superado por momentos de insegurança em radiografar com sinceridade e competência o chefe e revelar todos os segredos e as falhas do amigo.


No começo de 2002, finalmente, com a aprovação do próprio Osmar e com o estímulo dos irmãos Oscar e Odinei, este livro começou a tomar forma. Foram mais de cem horas de entrevistas com 86 diferentes personagens que, de alguma maneira, participaram da vida pessoal, amorosa e profissional dele.

Foram horas e horas rebuscando arquivos de jornais, de revistas e das bibliotecas municipais, em busca de informações que relembrassem o que, hoje, ele não consegue mais contar.
Foi assim que a vida de Osmar Santos, o mais popular e importante locutor esportivo da história do rádio brasileiro, se transformou num livro aberto. Literalmente.

Sobre Paulo Mattiussi:

Iniciou a carreira no jornalismo aos 17 anos, como repórter do jornal O Estado de S. Paulo. Na imprensa escrita, passou ainda por Folha da Tarde, Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil e pelas revistas Veja, Contigo, Realidade e Cláudia. De 1978 a 1985, trabalhou na Rádio Excelsior (atual CBN), onde criou ao lado de Osmar Santos o programa Balancê, um marco da radiodifusão brasileira que virou referência em faculdades de Comunicação de São Paulo. Mattiussi também trabalhou em diversas emissoras de televisão. Foi editor de telejornais da Rede Globo, Diretor de Esportes da Rede Bandeirantes, Rede Record e Diretor de Jornalismo e Superintendente de Operações da CNT. Nesta última, lançou nomes como Adriane Galisteu, no programa Ponto G, e Luciano Hulk, no Circulando. Como publicitário, especialista em marketing político, realizou campanhas em todo o país desde 1986. Participou ainda de diversas coberturas internacionais (todas as Copas de 1970 a 1990 e os Jogos Olímpicos de 1972 a 1988) e passagens por redes de televisão fora do Brasil. Morreu em 2007.


sábado, 28 de julho de 2012

Formador de campeões


Um livro imperdível para quem quer entender a formação de clubes campeões, por dentro e, principalmente, fora das quatro linhas. Elio Carravetta sabe do que fala porque vivenciou o esporte em todas as suas fases, desde atleta, passando pela formação como professor e, finalmente, como gestor de futebol. Carravetta participou das grandes conquistas do Internacional, do Rio Grande do Sul, na última década. Mas também viu de perto fracassos de vários treinadores e equipes.

“Futebol: a formação de times competitivos”(Editora Sulina), de Elio Carravetta, é obra obrigatória para os amantes da boa literatura esportiva.

Sinopse (da editora):

A genealogia do futebol, os primórdios de um esporte que mexe com a alma, com o social e que envolve multidões em torno do mundo da bola. O autor procura neste estudo fazer esta abordagem, dos primeiros passos do futebol no século XIX ao passado recente de crise e hipoteca patrimonial nos clubes nacionais, em que abrange assuntos variados para que o leitor possa compreender sobre o tema. Como o futebol surgiu, e ressurgiu através de transformações políticas e novos modelos de gestão. 

O livro contém historias longínquas e experiências recentes. Casos de bastidores, registros factuais e treinamentos técnicos, táticos e físicos. Mas antes de qualquer coisa, é um convite a se pensar o futebol em todo o seu alcance, desde os apaixonados pelo tema aos profissionais em gestão esportiva e especialistas em Ciência do Desporto e professores de Educação Física.

Introdução

Elio Carravetta
Lembro das tardes cinzentas de agosto de 63, eu e meus amigos descendo a Dom Pedro II (dessa vez sem os carrinhos de lomba), em direção à Sogipa. Eu tinha dez anos e, como qualquer criança, era movido pela curiosidade. Naqueles dias, uma curiosidade em especial: ver os treinamentos dos atletas estrangeiros que se preparavam para os Jogos Mundiais Universitários (Universíade). Um evento, naquela época, com a importância de uma Copa do Mundo de Futebol, ou mesmo de uma Olimpíada, e, o melhor de tudo, acontecendo em Porto Alegre, perto da minha casa.

Foi assim que eu e meus amigos descobrimos o Valery Brummel, um russo recordista mundial no salto em altura, a Tamara Press, campeã olímpica do arremesso de peso, e a ginasta húngara, Katalin Makray, todos com seus corpos imponentes, fazendo movimentos incríveis, desafiando a gravidade – embora ainda não soubéssemos o que eram as leis da física, sabíamos muito bem que heróis podiam voar. Descobrimos, com o basquete e o vôlei, que bolas provocam batalhas, e apitos acabam com elas num segundo; com o tênis, que o esporte pode ser elegante (até a primeira gota de suor); a natação, ou a “corrida na água”, nos ensinou o significado de equilíbrio, impulsão e outras palavras novas; através do atletismo, descobrimos que esforço, esforço de verdade, não era o que fazíamos para acordar e ir à escola. Descobrimos, enfim, o esporte e o treinamento desportivo.

Elio Carravetta, no Internacional.
Depois de assistir ao espetáculo da Universíade, como qualquer criança o faria, passei a sonhar com o meu lugar no mundo dos 10 atletas. Comecei pelos treinamentos no futebol, claro – na época, alimentava uma paixão a distância pelo imbatível time do Santos (Gilmar, Lima, Mauro, Dalmo e Calvet; Zito, Mengálvio e Pelé; Dorval, Coutinho e Pepe). Treinei com o talentoso e paciente Jofre Funchal, no campo do Nacional. Eu tinha explosão, velocidade e uma boa resistência. O problema era a gorduchinha, que me castigava. 

Nessa mesma época, fui chamado para participar de uma competição de atletismo no estádio Ramiro Souto, no Parque da Redenção. No fim do torneio, um representante do Inter me convidou para integrar a equipe de atletismo do clube, e, no dia seguinte, a Sogipa também me enviou uma carta-convite. Aceitei a proposta da Sogipa, e o lugar onde descobri o esporte como espectador agora me abrigava como atleta. Diariamente, passei a ter novas lições sobre esforço; a cada treinamento, aprendia que, embora a palavra seja sempre a mesma, cada cansaço é um cansaço diferente. Cansaço e também satisfação. Consegui quebrar o recorde brasileiro dos 800 metros rasos. Retornei aos Jogos Mundiais Universitários, desta vez como atleta, em Roma, no ano de 1975. Venci corridas, participei de seleções, entrei para a galeria dos atletas laureados da Sogipa. Crianças não têm medo de correr atrás dos sonhos. E eu fiz isso.    

Elio e o atacante uruguaio Forlán.
Ao longo do percurso, descobri também o caminho da Universidade (a academia, esse termo que remete à polivalência dos gregos), onde me dediquei à gestão de diferentes programas de treinamentos esportivos: educação física escolar, treinos individuais, ginástica para sedentários, iniciação esportiva, futebol de base e treinamentos para competição de alto rendimento. Concluí o curso de Educação Física com fôlego para muito mais. Me tornei docente da UFRGS, o que não significou um abandono das pistas, quadras e campos em favor da sala de aula. Ao contrário, o mundo acadêmico e o mundo do esporte, para mim, sempre foram um só. As pesquisas, o tempo de estudo e a busca de conhecimento eram somente novas etapas de uma mesma trajetória, a trajetória de um desportista. E como não se faz esporte na solidão, minhas descobertas pedagógicas não podiam ser validadas no gabinete; elas dependiam da descoberta 11 (e formação) de novos atletas e modelos inovadores de gestão em treinamento desportivo, trabalho realizado nas quadras, nas pistas, nas salas de ginástica e nos campos – é isso que faz com que a vida do esporte não pare.

Elio comanda treino físico no Inter.
Nas duas últimas décadas, na área de gestão de treinamento desportivo, procurei entender o que o futebol tem de simples e o que tem de complexo. E isso não é simples. Dia e noite no campo de estudo, com a mesma paixão de uma vida dedicada ao treinamento desportivo, observei a conduta dos jogadores de futebol, das comissões técnicas, dos dirigentes, dos especialistas dos setores de saúde e, sem os quais o quadro não estaria completo, dos conselheiros e dos torcedores. Ajudei a coordenar, no Sport Club Internacional, distintos programas no futebol; participei de comissões técnicas da equipe principal; orientei treinamentos e retreinamentos; estive em diferentes momentos de planejamentos estratégicos; fiz parte do escritório de qualidade (PGPQ) do clube. Com a ajuda das pessoas ao meu redor, procurei entender o futebol.

Vivi experiências que marcaram mudanças de paradigmas no futebol. Momentos de turbulência, insegurança e crises no interior do clube. Entre dois Campeonatos Brasileiros, a iminência de um rebaixamento para a segunda divisão. O trabalho espontâneo e incansável de muitos dirigentes que buscavam alternativas políticas e administrativas para o crescimento do clube. E, por fim, uma década de glórias (2006 – Libertadores da América; 2006 – Copa do Mundo de Clubes da FIFA; 2007 – Recopa Sul-Americana; 2008 – Dubai Cup; 2009 – Copa Suruga Bank (aqui, o Inter ultrapassou a barreira dos 100.000 sócios); 2010 – Bicampeão da Copa Libertadores da América; 2011– Bicampeão da Recopa Sul-Americana). 

Conquistas memoráveis que marcaram o trabalho de conselheiros, dirigentes, funcionários, torcedores e jogadores. Na área de desenvolvimento técnico, esse período me permitiu acompanhar a trajetória de treinadores, muitos deles jovens, competentes, que alcançaram o ápice na profissão, outros, renomados, com uma rica trajetória profissional; cada um, tomado individualmente, faz parte de uma história única, com lições inconfundíveis. Conheci 12 profissionais e dirigentes sem os quais o clube não teria chegado onde chegou. Acompanhei os passos de jogadores tidos como promessas nas categorias de base, mas que não chegaram na primeira divisão do futebol brasileiro. Talentos que se perderam na vida noturna com mulheres e bebidas.  Outros alçaram voos para times de ponta do futebol internacional. E ainda há aqueles que insistem em contrariar as opiniões fáceis: os que não eram apostas e se firmaram como profissionais de sucesso.

Reuni, neste estudo, informações e análises conceituais que vêm carregadas de experiências vivas. É assim que pretendo explicar, tanto quanto possível, o futebol e a formação de times competitivos sob a ótica da gestão do treinamento desportivo. Em dez capítulos, proponho pensar o futebol de elite como um sistema aberto, formado por estruturas internas e externas. A estrutura interna equivale ao jogo de futebol propriamente dito. Na estrutura externa, estão a FIFA, os clubes, os responsáveis pelas equipes e pela formação dos jogadores: em poucas palavras, as entidades e pessoas que, mesmo sem jogar o jogo, colocam o futebol em ação.

O capítulo um contém uma aproximação teórica com a genealogia do futebol.  Apresenta o surgimento dos jogos com bolas nas grandes civilizações até o aparecimento do esporte moderno.

No capítulo dois, são apresentados os fundamentos da cultura organizacional do futebol brasileiro. Na continuação, o terceiro capítulo estuda o que é o futebol, repassando, da teoria para a prática, os processos da gestão do futebol brasileiro. No capítulo quatro, trato das decisões estratégicas, da estrutura e do planejamento. A seguir, no capítulo cinco, são estudadas a gestão política, a estrutura funcional dos clubes brasileiros, assim como o papel das comissões técnicas, da equipe de saúde e do diretor técnico no departamento de futebol. 

O capítulo seis apresenta a evolução das linhas metodológicas do treinamento desportivo no futebol. No capítulo sete, são analisados os pressupostos básicos da formação do jogador. O oitavo capítulo configura os treinamentos para o elevado rendimento de um time de futebol. No capítulo nove, escrevo sobre a organização do 13 planejamento dos times brasileiros. Por fim, o capitulo dez aborda a gestão dos treinamentos no futebol brasileiro. 

Dos primeiros passos do futebol no século XIX ao passado recente de crise e hipoteca patrimonial dos clubes nacionais, abranjo assuntos variados para que o leitor possa compreender o futebol; como ele surgiu, e ressurgiu através de transformações políticas e novos modelos de gestão.

Este livro contém histórias longínquas e experiências recentes. Casos de bastidores, registros factuais e termos técnicos.

Mas, antes de qualquer coisa, é um convite a se pensar o futebol em todo o seu alcance.

Sobre Elio Carravetta:
Experiência de 38 anos, na área técnica de esportes de elevado rendimento. Com participação em campeonatos Estadual, Nacional, Sul Americano, Mundial e Jogos Olímpicos. Atua dede 1997 no Departamento de Futebol do Sport Club Internacional: Coordenação de Preparação Física e Reabilitação Física. É autor também do livro “Modernização da gestão no futebol brasileiro” e “Os magos da preparação física” (em coautoria com Paulo Paixão).

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Mais um ano sem o Mestre Telê Santana


Mais um ano sem o mestre Telê Santana, que nos deixou há seis anos. Neste dia 26 de julho ele completaria 84 anos. Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre a vida do homem, técnico e ex-jogador, vale a leitura de sua biografia, "Fio de Esperança", lançada em primeira edição no ano de 2000 (Ed. Gryphus) e mais recentemente, atualizada pela Editora Cia dos Livros.

Apresentação
Por André Ribeiro

Logo após a conclusão de O Diamante EternoBiografia de Leônidas da Silva, meu primeiro trabalho biográfico, fiquei imaginando quem poderia ser a próxima personagem ou fato, entre tantas do futebol brasileiro, que deveria ter a história contada.

Decidi que, se fosse para investir em outra personagem, deveria ser um nome que não repetisse o período pesquisado para resgatar a vida de Leônidas da Silva, décadas de 1930 a 1950. A razão era simples: meu interesse pessoal na descoberta de fatos e personagens da nova fase do futebol brasileiro, denominada pelos especialistas de a “fase da profissionalização” do esporte número um do Brasil.

O escolhido foi Telê Santana. Isso porque sua vida profissional coincidia exatamente com esse período. Se Leônidas da Silva, o Diamante Negro, reinou durante a era “romântica”, Telê é o nome que pode nos ajudar a compreender melhor a evolução do futebol entre os anos 1950 e 1990. Suas conquistas como jogador e mais tarde como técnico podem dar ao leitor uma ideia geral do que aconteceu nos últimos cinquenta anos do século 20 dentro do futebol mundial.

O resgate de sua vida como jogador profissional, no início dos anos 1950, quando o futebol carioca teve seu apogeu, deixa bem claro a principal mudança ocorrida em relação aos tempos modernos. Telê jogou durante doze anos seguidos pelo mesmo clube, coisa rara ou praticamente impossível nos últimos anos. Com o Fluminense de Didi, Castilho e Pinheiro, viveu dias de glória dentro de um campo de futebol.

O primeiro título brasileiro pelo Atlético MG.
Fora das quatro linhas, passou à função de técnico profissional. Homem de personalidade forte e marcante durante toda a carreira, sempre se revelou um apaixonado por futebol. Seus atos e gestos nunca foram muito bem compreendidos e muito menos aceitos nos bastidores do futebol, principalmente pelos jogadores, os principais protagonistas desse espetáculo.

A obsessão pela vitória foi sempre sua principal característica, embora isso não significasse que ele queria vencer a qualquer custo. Ao contrário, foi quem mais combateu o chamado futebol de resultados. Ficou famoso justamente na derrota da seleção que comandou no Mundial de 1982. O futebol-arte, proclamado por Telê e exibido por seu grupo de jogadores na Espanha, deu ao resto do mundo a sensação de que aquele era o modelo que todos queriam ver, principalmente numa Copa do Mundo. Pareceu que a derrota para os italianos não havia acontecido. Tanto que Telê voltou a dirigir a seleção brasileira no Mundial seguinte, fato inédito na história do futebol brasileiro.

Com as duas derrotas consecutivas em Copas do Mundo, Telê passou a ser chamado de pé-frio, azarado. Os que conviveram com seus métodos, porém, sabiam que sua obsessão pela perfeição um dia haveria de dar certo. Nos anos 1990, tornou-se o técnico mais badalado do Brasil, com a conquista de dois títulos mundiais e mais uma infindável coleção de torneios e competições nacionais e internacionais.

Como um pai que ensina os primeiros passos ao filho, Telê sempre foi paciente ao extremo com jogadores de qualidade técnica inferior, mas dava o mesmo tratamento aos que se achavam perfeitos ou craques. Não poderia haver distinção na hora das cobranças por um passe certo ou na forma de se chutar corretamente uma bola. Conceitos tão simples para muitos, para Telê eram ponto de partida para qualquer trabalho.

Não foi à toa que ganhou o apelido de “Mestre”, “Mestre Telê Santana”. Como um professor, tinha a paciência de poucos no seu meio profissional. Por tudo isso, ganhou o respeito da maioria dos críticos e, principalmente, dos torcedores do futebol brasileiro e mundial.

Quando se afastou dos gramados em 1996, ao sofrer uma isquemia cerebral, o futebol se ressentiu das polêmicas e confusões provocadas por Telê Santana. Nunca árbitros e dirigentes tiveram tanto sossego para administrar o futebol brasileiro.

Como Tele mesmo sempre afirmou, ele nunca teve “rabo preso” para criticar quem quer que fosse dentro do futebol. A luta pela qualidade, no período em que se manteve afastado dos gramados, restringia-se à maneira de viver o dia a dia ao lado da família, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Durante quase um ano, mesmo com a saúde debilitada, o prazer de resgatar detalhes tão distantes de sua vida pessoal e profissional ajudou Telê a reforçar a convicção de que um dia ainda voltaria a comandar um time de futebol. O retorno aos gramados era o único sonho que sustentava sua luta pela vida. Com garra e tenacidade, Telê demonstrou que, dentro ou fora dos campos de futebol, sempre haverá um “fio de esperança”.

Prefácio
Por Juca Kfouri


Qual Telê?

O Telê sério, rabugento, quase intratável?

Ou o Telê, alegre, piadista, pregador de peças?

O Telê leal, solidário, afetuoso?

Ou o Telê dissimulado, solitário, frio?

O Telê ganhador ou o Telê perdedor?

O Telê autoritário ou o Telê democrático?

Todos esses Telê Santana estão nesta biografia, mais um belo trabalho do jornalista André Ribeiro.

Posso dizer que conheço bem Telê Santana.

Fomos companheiros de trabalho no SBT por um bom tempo, além de eu tê-lo acompanhado de perto tanto na Copa de 1982 quanto na de 1986, além das eliminatórias um ano antes. De perto mesmo, marcação cerrada.

Apesar disso, o livro me surpreendeu em diversos momentos.
E convivi com todos os Telê acima citados, embora, na verdade, jamais o tenha visto como perdedor. Muito ao contrário.

Telê sempre foi um obstinado na defesa do futebol bonito e limpo e sua indignação com as tantas coisas erradas em nosso futebol certamente há de ter contribuído para seu estresse e para o acidente vascular cerebral que sofreu.

Mas vi um Telê enclausurado na Copa de 1986, desconfiado de tudo e de todos, até de seus melhores companheiros.

Vi um Telê frio, principalmente quando São Paulo e Corinthians disputavam jogos importantes, decisões de campeonato, como no Brasileiro de 1990.

O vi dissimulado, quando, alta madrugada, tocou o telefone no quarto que dividíamos em Santiago, horas depois da derrota da seleção brasileira de Evaristo de Macedo para o Chile.

Ele atendeu e conversou monossilabicamente com seu interlocutor, um pouco por ter sido acordado, outro pouco, desconfiei, por não querer que eu soubesse com quem falava e qual era o teor da conversa.

Tão logo desligou, perguntei: “Era o Giulite, Telê?”

“Vira pro outro lado e dorme”, respondeu.

“Ele te convidou pra assumir a seleção, o SBT perdeu um comentarista?”, retruquei.

“Cala a boca e me deixa dormir”, devolveu.

Só que não dormiu, virava para lá e para cá, até o amanhecer.

Horas depois, recebeu o convite e agiu exatamente como está no livro, com extrema lealdade.

A mesma que inspirou o gesto solidário, e inesquecível, poucos meses depois, que o levou a convencer a CBF que o jogo contra o Paraguai, pelas eliminatórias da Copa, no Maracanã, deveria ser precedido por um minuto de silêncio em homenagem ao meu pai, morto por uma bala assassina no dia anterior.

Na cabine do SBT no estádio, ao ouvir o alto-falante anunciar a homenagem, quase morri eu, tamanha a emoção.

Como, em diversas ocasiões, na Espanha, em 1982, ou nas viagens que fizemos para comentar jogos, quase morri de tanto rir com suas piadas e com as peças que pregava em Jorge Kajuru, repórter do SBT e seu grande amigo, quase filho.

O Telê Santana que fez Sócrates e Raí, na base da conversa, jogarem sob seu comando como jamais jogaram nem antes nem depois, o mesmo Telê capaz de barrar Renato Gaúcho e Leandro, na sua opinião o maior lateral-direito que viu jogar.

Um Telê de carne e osso que aparece inteiro neste belo “Fio de Esperança”.

Orelha
Por Raul Drewnick

Técnico de futebol e juízes tem muito em comum: nervos de aço, ouvidos moucos, mães vulneráveis. Sempre de plantão, a ira do torcedor, quando seu time perde, volta-se quase invariavelmente contra esses dois personagens e não perdoa: um é burro, o outro é ladrão.

Reconhecer que um juiz apitou bem é uma heresia que o torcedor jamais cometerá. Para ele, os homens do apito só estão em campo para prejudicar os astros do espetáculo: o centroavante, o goleiro, o volante, o zagueiro central. Outro reconhecimento que o fanático por futebol dificilmente está disposto a fazer é o do trabalho do técnico. Para ele, não há dúvida: técnico perde jogo.

Uma exceção a essa regra, talvez a mais expressiva, sempre foi Telê Santana. Jogadores, jornalistas, comentaristas e torcedores, que costumam divergir em tudo desde que o futebol é futebol, concordam nisto: Telê ganhava jogo. E, o que era muito importante: ganhava bonito.

Alguns, é verdade, ainda são capazes de dizer que ele perdeu a Copa de 1982 exatamente por isto: por querer fazer a seleção jogar bonito. Esses mesmos, se perdêssemos jogando na retranca, diriam que perdemos por violentar o estilo brasileiro, o futebol-arte. Desse episódio, o que fica, objetivamente falando, é isto: perdemos, mas nossa seleção é até hoje considerada a melhor daquela Copa. Quer dizer: Telê foi tão grande, tão superior, que o seu martírio foi a sua glória.

André Ribeiro, se fosse técnico, teria o estilo de Telê. Já no brilhante livro que escreveu sobre Leônidas da Silva, ele mostrou isso. André reúne todos os ingredientes de uma boa biografia – depoimentos, fatos, informações, documentos, histórias –, e deixa cada um atuar com o que possui de mais significativo. O resultado só podia ser este: o melhor que pode dar o jornalismo é o máximo que pode oferecer a emoção.

Um gol de placa, digno do Telê técnico e também do Telê jogador – esse homem que amou uma bola de futebol como nenhum outro e recebeu dela um amor que só alguns, muito poucos, mereceram.

Sobre André Ribeiro

É jornalista, pesquisador, produtor de televisão, desde 1978, quando ingressou na extinta TV Tupi. De 1983 a 1988, trabalhou na TV Manchete. Foi produtor executivo na TV Cultura de São Paulo durante treze anos. A partir de 1998, escreveu: Diamante Eterno – Biografia de Leônidas da Silva (Editora Gryphus, 1998); Fio de Esperança – Biografia de Telê Santana (Editora Gryphus, 2000); A magia da camisa 10 (Verus Editora, 2006), publicado no Brasil, Portugal, Hungria, Polônia e Japão; Uma ponte para o futuro (Editora Gryphus, 2007); Os donos do espetáculo – Histórias da imprensa esportiva do Brasil (Editora Terceiro Nome, 2007); Uma janela para a serra – A história de Extrema, Portal de Minas (Prefeitura de Extrema, MG, 2008); Leopoldo – Os caminhos de Leopoldo Américo Miguez de Mello para um Brasil maior (Editora Cenpes/Petrobras, 2010). 

domingo, 22 de julho de 2012

O Pontapé Inicial



O Pontapé Inicial – Memória do Futebol Brasileiro é um dos mais sérios estudos desse importante produto lúdico de nossa cultura: o futebol. Nele, o autor analisa a trajetória do futebol brasileiro da fase amadora à profissional, tendo como base das análises não apenas o futebol, mas o contexto político-social desse período, a economia, a cultura e, sobretudo, a luta dos jogadores para serem reconhecidos como categoria profissional. Um momento do nosso futebol onde até se poderia falar de luta de classes.

O Pontapé Inicial pode ser classificado agora, depois de muitos estudos realizados no meio acadêmico como um clássico da literatura esportiva brasileira. A obra editada pela Ibrasa – Instituição Brasileira de Difusão Cultural, em 1990, contribuiu de maneira decisiva para que outros pesquisadores decidissem pelo estudo do tema futebol quebrando assim um preconceito anterior no meio acadêmico.

O Pontapé Inicial

Apresentação
Por Waldenyr Caldas

Escrever um trabalho acadêmico sobre o futebol brasileiro é uma tarefa fácil e difícil ao mesmo tempo. Esta ambiguidade inevitável a qualquer pesquisador que se propuser a realizar este empreendimento tem suas explicações. Comecemos pelo aspecto mais fácil da questão. Não é à toa que o Brasil é internacionalmente conhecido como o “país do futebol” por onde corre samba nas veias. Realmente, samba, carnaval e futebol são, sem dúvida, os três produtos mais importantes da nossa cultura popular. Da mesma forma, não é sem motivo também, que se costuma afirmar o seguinte: ‘somos uma população formada por 130.000.000 de técnicos em futebol’. Esta é uma frase que já se transformou em provérbio popular. Ela quer dizer, noutros termos, que todos nós (uns mais outros menos), de alguma forma, entendemos muito desse esporte. Até mesmo aqueles que não acompanham o dia a dia do futebol, de vez em quando arriscam dar seu palpite, suas impressões e analisar o desempenho do seu time ou da nossa seleção.

A explicação para isso é muito simples. O futebol no Brasil atingiu um nível de desenvolvimento tão grande que hoje é quase impossível (principalmente entre a população masculina) encontrar pessoas que desconheçam os fundamentos norteadores do chamado ‘esporte bretão’. Quase sempre, nas aglomerações públicas, nos parques, nas igrejas, nos bares, nos escritórios, nos pontos de ônibus, nas estações do Metrô e, obviamente nos estádios e ginásios esportivos, entre tantos outros lugares, haverá sempre uma ou mais pessoas discutindo e mencionando uma nova informação sobre o futebol brasileiro ou internacional. Isto é bom, a nosso ver. Esta quase erudição beneficia muito ao pesquisador. Digo isso por experiência própria. Foram inúmeras, muitas mesmo, as informações precisas (algumas imprecisas e poucas inverídicas) que recebemos de pessoas alheias ao universo acadêmico sobre o nosso futebol.

Marcos Carneiro de Mendonça
Em certos momentos, recebi verdadeiras aulas sobre a memória desse esporte no Brasil. O sr. Marcos Carneiro de Mendonça, ‘goal keeper’ da primeira seleção brasileira (1914) e falecido recentemente me deu, durante cinco dias, entrevistas que foram verdadeiras aulas. Uma espécie assim de ‘arqueologia’ do futebol brasileiro. Curiosamente, no entanto, nosso antigo ‘goal keeper’ (apenas para manter a expressão usada em sua época) tornar-se-ia historiador, mas nunca se interessou em escrever uma só linha sobre futebol. Em compensação, seu apoio à nossa pesquisa foi pleno e irrestrito. Sua privilegiada memória e a vasta documentação que possui foram de grande valia para este trabalho. O mesmo posso dizer do sr. Ademir Marques de Menezes (o ‘Queixada’), jogador dos anos 40 e 50, centroavante da seleção brasileira que disputou o campeonato mundial de 1950 no Brasil, quando perdemos para o Uruguai, no Maracanã, a 16 de julho desse ano. Poderíamos citar muitas outras pessoas que nos deram informações e dicas verdadeiramente preciosas. Para isso, no entanto, nos alongaríamos um pouco mais, o que não nos parece conveniente, pelo menos nesse momento. Acreditamos que, com as colocações feitas até aqui, respondemos a primeira questão colocada por nós: porque é fácil escrever um trabalho acadêmico sobre o futebol brasileiro.

Passemos, agora, a outra questão: porque é difícil realizar este mesmo trabalho. As dificuldades do pesquisador já começam pelo próprio caráter polissêmico que o futebol adquiriu no Brasil. Ele não é só lazer, paixão, brincadeira, coisa séria, instrumento político, catarse coletiva, profissão, dor, alívio, derrota e vitória. É também um dos mais importantes produtos culturais do Brasil e, seguramente, um dos menos pesquisados por nossos cientistas sociais. Assim, dada esta polissemia do futebol brasileiro e por ser um tema pouco explorado torna-se fácil e difícil, ao mesmo tempo, delimitar a área de ação da pesquisa e a metodologia a ser usada. Qualquer que seja a escolha, haverá sempre algo a se fazer, um pouco mais a se acrescentar, um dado a mais que ficou para trás, um veio que poderia ser melhor explorado e assim por diante. E não adianta sistematizar meticulosamente a pesquisa (é obrigatório que se faça, claro) objetivando suprir todas as questões, porque com isso conseguiremos apenas minimizá-las. A magnitude do futebol brasileiro não permite perfeccionismos ao pesquisador. É um tema quase virgem. Por esse motivo é que optamos por realizar uma longa pesquisa sobre a memória do futebol brasileiro, da qual este ‘Pontapé Inicial’ é parte fundamental no conjunto do trabalho que receberá, depois de concluído, o nome ‘História Sociológica do Futebol Brasileiro’.

Nossa opção pelo tema futebol teve algumas explicações que, a partir de agora, gostaríamos de enumerá-las. A primeira, de certa forma, já está implícita acima e diz respeito a um reduzido número de trabalhos científicos sobre o tema. O conjunto da literatura futebolística do Brasil mostra muito bem esta lacuna. Acreditando que poderíamos colaborar no sentido de diminuir este vácuo é que nos decidimos pelo futebol. É curioso se observar, por exemplo, as publicações sobre livros de História do Brasil e até mesmo sobre a História da Cultura Brasileira. Eles não trazem menções nem discussões sobre o futebol brasileiro. Ao mesmo tempo, é comum se encontrar capítulos sobre a música popular brasileiro, teatro popular, carnaval, entre outros produtos culturais. Com exceção do trabalho do jornalista Mário Filho que escreveu O Negro no Futebol Brasileiro, em 1964, quase nada se conhece antes de 1970. Mesmo assim, depois desse ano, existem alguns ensaios tratando do assunto apenas como referência a alguma coisa ou então só de passagem, de forma genérica, embora o futebol já seja um produto cultural importante no nosso país, desde 1923.

A segunda explicação para optar pelo futebol tem a ver com simpatia e empatia. Como já disse em meu livro, A Literatura da Cultura de Massa, os chamados produtos ‘menores’ da cultura de massa sempre me atraíram. Além disso, até hoje, todas as vezes em que pesquisei obtive bons resultados. Foi assim com a música sertaneja (mestrado) e com a paraliteratura brasileira (doutoramento) concentrada nas obras de Adelaide Carraro e Cassandra Rios. O futebol, se não chega a ser considerado um produto ‘menor’, seguramente não possui o ‘status’ de tema ‘nobre’.

A terceira explicação é, na verdade, um desdobramento da segunda. Da mesma forma que há um número considerável de pesquisadores estudando os chamados produtos eruditos, da alta cultura (apenas para usar a expressão de Theodor W. Adorno) e realizando trabalhos extremamente importantes, há também estudiosos se dedicando aos produtos da cultura popular de massa (para usar a expressão de Renato Ortiz). Eu me localizo nesse segundo grupo. Entendo que meu trabalho, minha contribuição é mais útil aos produtos da nossa cultura popular.

Waldenyr Caldas
A quarta e última explicação tem a ver com meus amigos Gabriel Cohn, Gilberto Vasconcelos e Sérgio Miceli. Quando os procurei para discutir a ideia de realizar um trabalho de pós-doutoramento sobre futebol, me apoiaram plenamente. Me entusiasmaram. Daí para frente, foi só fazer a pesquisa bibliográfica, as leituras, pegar a caneta, o papel e redigir o projeto de pesquisa. Depois, pô-lo em andamento. Isto aconteceu em agosto de 1983. De lá para cá, fiz inúmeras leituras da literatura futebolística internacional e brasileira, visitei por diversas vezes o Museu dos Esportes de São Paulo, Museu dos Esportes do Rio de Janeiro, MIS – Museu da Imagem e do Som de São Paulo, MIS – Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, Casa das Retortas em São Paulo, entre outros. Fui aos estádios assistir partidas de futebol, entrevistei jornalistas esportivos como João Saldanha, Pedro Luís Paoliello, jogadores como Ademir Marques de Menezes, Marcos Carneiro de Mendonça, Sócrates, Casagrande, entre outros. Coletei material dos jornais do Rio e de São Paulo; de revistas e almanaques. De posse desse material comecei a sistematizá-lo para posteriormente analisá-lo, objetivando a redação do trabalho iniciada em agosto de 1987 e concluída em junho de 1988. Durante esse período, o material novo que aparecia era incorporado ao trabalho quando necessário. Eu aprendi com meus mestres Gabriel Cohn e Ruy Coelho que, para entendermos profundamente um assunto, o melhor caminho é iniciarmos a trajetória do seu estudo pela gênese do tema a que nos propusemos pesquisar. Foi isto, precisamente, o que eu fiz com o futebol brasileiro, cuja parte fundamental estou apresentando como tese de livre-docência.

Vejamos agora a questão metodológica do trabalho.

Algumas informações empíricas constantes deste estudo são memoráveis na história do futebol brasileiro. Citá-las tornou-se, a meu ver, duplamente imprescindível. Primeiramente, para que pudéssemos melhor entender a trajetória desse esporte no Brasil e, em segundo lugar, porque o percurso sinuoso do nosso futebol ficaria mais fácil de entendê-lo situando em certos momentos, no tempo e no espaço, acontecimentos que definitivamente permanecerão na história desse esporte no Brasil. Não bastassem esses dois aspectos, até por uma questão metodológica, como sabemos, a informação e o dado empírico, quando menos corroboram a análise científica dando ao pesquisador a consciência e a segurança de que deve prosseguir, ou não, em suas análises. Essa é, a meu ver, uma forma consciente e criteriosa de resolver e de buscar a verdade científica. E ainda uma forma de solucionar o problema construído quando se estabelecem os critérios metodológicos da pesquisa científica. Mesmo o trabalho científico essencialmente teórico não pode, a meu ver, prescindir de todo, da informação dos dados empíricos.

Nesse aspecto, considero de fundamental importância o trabalho do pensador austríaco Karl Popper, intitulado A Lógica da Pesquisa Científica, publicado pela Editora Cultrix, em 1988. Nessa obra, o autor procura mostrar o que o mais importante no universo da ciência não é reduzir o trabalho apenas à produção de teorias científicas, nem sempre pertinentes a seu tempo, à sua época e, algumas vezes, útil apenas à comunidade científica. A ‘atitude crítica’, diz Popper, é tão científica como a própria teoria científica. A hipótese de trabalho tornar-se-á verdade científica se assim a pesquisa empírica comprovar. Ela será testada por essas experiências empíricas e, como tal, poderá ou não, ser refutada. Nesse último caso, a hipótese seria falsa. Mas, nem isso invalidaria o trabalho, diz Popper. O pesquisador deveria prosseguir em sua pesquisa e ter sensibilidade e sensatez para refutar cientificamente (de posse dos dados empíricos) a própria hipótese que construiu. Eventualmente, diz ele, já contando com a sensibilidade do pesquisador, poder-se-ia mudar até a estratégia metodológica do trabalho. É nesse momento, na fronteira do científico e do não científico, que o pensador austríaco exclui o marxismo e a psicanálise do campo da ciência. Isto porque, para ele ‘não há uma experiência que possa refutá-las’.

Quero agora finalizar, acrescentando que O Pontapé Inicial objetiva dar uma visão minuciosa do que foi o futebol brasileiro desde as suas origens em 1894; quando Charles Miller chega ao Brasil com uma bola de futebol, até o ano de 1933, quando se oficializa o profissionalismo. Pela minha própria formação acadêmica, procurei analisar esse período sob a óptica da Sociologia, considerando os aspectos políticos, sociais, econômicos e culturais que tanto movimentaram a sociedade brasileira da chamada Velha República. Uma época que, segundo os historiadores estende-se de 1889, com o presidente Manuel Deodoro da Fonseca, até 1937 com o governo Vargas. Seria prejudicial a este estudo realizá-lo sem conhecer a História do Brasil nesse período. Fomos ler e pesquisá-la. Autores como Edgard Carone, Leôncio Basbaum, Caio Prado Júnior, Carlos Guilherme Mota e Boris Fausto foram de grande valia para nós. Já no tocante ao futebol propriamente, o trabalho de pesquisa foi muito sobre o material empírico da época, principalmente os matutinos cariocas microfilmados na Biblioteca Nacional, jornais de São Paulo e, excepcionalmente, alguns poucos livros que tratam do tema.

Sobre Waldenyr Caldas:
Professor de Sociologia da Cultura Brasileira na ECA – Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor de vários livros, entre eles Acorde na Aurora, A Literatura da Cultura de Massa, Cultura de Massa e Política de Comunicações, Uma Utopia do Gosto. Publicou, ainda, diversos ensaios em revistas especializadas. Realizou pos-doutoramento em Sociologia da Cultura na Università Degli Studi Romanzi “La Sapienza”, em Roma.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O Dia Nacional do Futebol


19 de julho é o Dia Nacional do Futebol. A data foi criada pela CBD, atual Confederação Brasileira de Futebol, CBF, em 1976, para homenagear o primeiro time registrado como clube no Brasil, o Sport Clube Rio Grande, fundado em 1900. E para homenagear a efeméride do esporte mais popular do país Literatura na Arquibancada recorre a prosa e aos versos de mestre Armando Nogueira.

No livro “O homem e a bola” (Editora Globo, 1986), Armando retrata o principal objeto do futebol. Sem a bola, o espetáculo não existiria. Sem a bola, não haveria torcedores. Sem a bola, não haveria nada. E no dia nacional do futebol, a bola é quem merece os parabéns.

Em frases curtas, extraímos a síntese da relação entre esse objeto, a bola, e o homem...

O Homem e a Bola
Por Armando Nogueira

“Orgulha-me ver que o futebol, nossa vida, é o mais vibrante universo de paz que o homem é capaz de iluminar com uma bola, seu brinquedo predileto”.

“Abençoada a obra que nasce do esporte, a ação entendida como brincadeira pura. E se do gesto participa uma bola, aí, então, amigo, aí principia o jogo que há de levar o homem à purificação”.

“Em nome da bola, forma sublime, em nome da grama que floresce da infância, em nome do gesto gratuito que faz o encanto do esporte, deitemos fora a aritmética do futebol. E que as portas dos estádios se reabram no tempo próximo para que lá, como Albert Camus, possamos viver outra vez doces momentos de inocência”.

“Chegue para ficar, menino-que-chega, porque é aqui que está a bola – a bola da minha, da tua, da nossa infância; aqui está a bola que, rolando, descobre o céu, brinquedo mágico, forma perfeita, forma divina. Deus é esférico”.

“Couro de gato, bola de couro, quicando e repicando pela glória de uma cidade que não tem por que chorar tristezas. Rio.”

“...aí está ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada, maltratada até, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha”.

“Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo que dança conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e quica com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula. Em compensação, num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quica no meio-fio, para de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho”.

“Não quero a bola dos homens – meio de vida; quero a bola dos meninos – vida. Aprendi nos estádios que o grito dominical da multidão é muito mais guerra que paz. É benção e maldição: deuses e bandeiras divididos na abstração do gol, emocionante mentira que glorifica e fere. A bola dos homens é o castigo do gandula, que tem nas mãos, quando devia ter nos pés, o brinquedo proibido. A bola dos homens é arma de fogo, tiro certeiro no coração do velho torcedor. A bola dos homens é a solidão do juiz, ponto morto correndo na diagonal do jogo (...) Cara-ou-coroa, glória e desgraça no destino eqüidistante de uma bola. O juiz apita a saída. É hora de sair, amigo. Vamos embora do estádio. Vamos, depressa, que a bola deixou de ser brinquedo, o homem deixou de ser criança, o jogo deixou de ser ilusão. Voltemos todos, depressa, à infância do futebol que é o futebol da própria infância; as crianças correndo, em bandos, atrás da bola que rola no campo, incansável, graciosa – pelada”.

“Brincar contigo é descobrir a harmonia e o equilíbrio do universo. Brincar contigo é brincar com Deus, de cuja plenitude nasce a esfera, inspiração da bola. Bola é magia, bola é movimento. É vida nas mãos de uma criança. Louvado o homem que faz da bola parceira e cúmplice de seu próprio destino (...) Um dia, antes do apito final, ela há de morrer, como um gol, no fundo do meu coração”.

“No futebol, matar a bola é um ato de amor”.

“Se a bola soubesse o encanto que tem, não passaria a vida rolando, de pé em pé”.

“É isto que explica o fascínio da bola: essa criança de 3 anos, no máximo, brincando com o irmãozinho mais velho, vibra cada vez que vê rolar a bola por ele chutada. Brinquedo mágico que se submete suavemente à vontade do homem. Vivo, desde menino, no rastro de uma bola branca que persigo sem jamais tê-la alcançado. Bola de tantos sonhos perdidos pela linha de fundo. Círculo, inspiração do sol, forma divina.