quarta-feira, 20 de junho de 2012

Platini: o verdadeiro camisa 10


Ele é um dos maiores camisas 10 revelados pelo planeta bola e está completando 58 anos de uma vida quase inteira dedicada ao futebol. Genioso e genial, Michel Platini é ídolo na França, mas admirado por todos aqueles que gostam do futebol bem jogado. Craque da bola, quando deixou os gramados tentou sem sucesso a carreira de técnico da seleção francesa. Virou então dirigente esportivo. É o “homem forte” da Uefa desde 2007, e, quem sabe, em breve, da Fifa. A depender de seu histórico de conquistas no futebol, suas aspirações políticas poderão se concretizar em futuro próximo.

França - Copa 1982

Platini deixou os gramados cedo, com apenas 32 anos, mas no auge, diferente de muitos outros craques do mundo da bola. Infelicidade ou pura ironia do destino, Platini, como vários outros gênios do futebol, nunca foi campeão mundial, o único título que não possuí em sua trajetória de vitórias. 

Na Copa de 1982, muitos se esquecem de que não foi apenas a seleção brasileira a encantar o mundo com o futebol-arte, pois também havia Platini e seus companheiros geniais.

Os brasileiros não tiveram a sorte de que alguma editora se dispusesse a publicar no Brasil pelo menos um livro sobre sua vida (Platini – Ma vie comme um match, de Robert Laffont; ou Platini: Le roman d’um joueur, de Jean-Philippe Leclaire).


Então, Literatura na Arquibancada destaca o capítulo dedicado a ele no livro “A Magia da Camisa 10” (Verus Editora, 2006).  

“O inesquecível francês Michel Platini esteve muito próximo de conquistar um título no Mundial de 1986. 

Ainda que esse sonho tenha ruído no confronto histórico contra a Alemanha, a vitória sobre o Brasil nas quartas-de-final foi uma das mais belas partidas daquele mundial.


Platini no Nancy

Um momento mágico vivido pelo menino que um dia viu a bola desaparecer dos seus sonhos ao ouvir um diagnóstico. Os médicos que o examinaram no clube Metz foram breves na afirmação de que sua capacidade respiratória era sofrível e de que seu coração não tinha vitalidade suficiente. Esses mesmos médicos, certamente, devem ter respirado fundo, sentindo uma dor no peito ao ver como a história se desenrolou.

Michel François Platini nasceu em 21 de junho de 1955, na pequena cidade de Joeuf, distante apenas cem quilômetros da fronteira francesa com a Alemanha. Descendente de italianos do norte, emigrados logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial, Platini tomou contato com o futebol muito cedo, já que o pai, sr. Aldo, atuava como capitão do Jovicienne. Platini foi um craque com fama de genioso. Não sonhava com o futebol, e o apelido dado pelos amigos o incomodava ao extremo. Era chamado de Anão pela sua baixa estatura. Mas com apenas 13 anos o futebol já era de gente grande, tanto que passou a defender o Joeuf, principal time da região onde morava. Aos 16 já era jogador profissional do mesmo Joeuf.


Depois de ser desencorajado pelo Metz, em 1972, encontraria no Nancy a chance que esperava. A equipe não atravessava um bom momento e acabou rebaixada para a segunda divisão. Na temporada seguinte, já ambientado, Platini seria o principal protagonista da volta do clube à elite do futebol francês. Uma campanha memorável: em 32 jogos Platini e seus companheiros marcaram 73 gols. A partir daí nada mais intimidaria seu futebol elegante. Foi um dos destaques da seleção francesa nas Olimpíadas de Montreal, em 1976, mesmo ano em que estreou na equipe nacional vencendo a Tchecoslováquia por 2 a 0.

Dois anos mais tarde defendeu o time azul em sua primeira Copa do Mundo. O Mundial da Argentina não foi como os franceses haviam imaginado, e as derrotas para a Itália e para os donos da casa colocaram um ponto final na trajetória francesa.

A permanência no Nancy durou até 1979. Depois de conquistar duas Copas da França e encantar os torcedores com seu toque de bola objetivo e plástico, Platini alcançou um lugar de destaque. Negociado com o St Etienne, em 1981, sagrou-se campeão francês pela primeira e única vez em toda a carreira.

França e Alemanha, a primeira decisão nos pênaltis em Copas

Novamente na disputa de uma Copa do Mundo, a da Espanha, em 1982, Platini fez a França sonhar uma vez mais com o título mundial. O placar de 3 a 1 imposto pelos ingleses na primeira partida foi superado, e na segunda fase, sem Platini, um magro 1 a 0 em cima da Áustria deu continuidade ao sonho. Com o retorno do camisa 10 diante da Irlanda do Norte, a tarefa de vencer pareceu mais fácil, e o placar terminou em 4 a 1 para os franceses. Na semifinal, o adversário foi a Alemanha, que abriu o placar. Platini empatou o duelo. Na prorrogação a França chegou a fazer 3 a 1, mas os alemães igualaram e em seguida venceram nos pênaltis. Considerado um dos melhores jogos realizados em Copas do Mundo, Platini jamais se esqueceu daquele dia triste. Os franceses, menos ainda. Choraram a derrota como se fosse um título perdido. A imagem que ficou registrada na memória de Platini não poderia ser esquecida:      

“Naquela noite eu vivi uma versão reduzida de emoções de uma vida inteira”.

Abatido, o time azul deixou escapar até o terceiro lugar, perdendo para a Polônia. Apesar de não ganhar a Copa, Platini deixou a Espanha com o título de melhor jogador do Mundial.

Platini, ídolo da Juventus, Itália.

Passada a Copa da Espanha, e reconhecido por todos como um verdadeiro estrategista na armação das jogadas, Platini fez uma exibição espetacular contra a Itália. Além das jogadas geniais, a vitória por 2 a 0 colocou um ponto final em um tabu que já durava 62 anos. Aclamado, o garoto um dia recusado pelo pequeno Metz tomou o mesmo caminho dos melhores camisas 10 de sua geração. Foi comprado por um time italiano que decidiu gastar 11 milhões de dólares para ter o camisa 10 mais elegante do planeta.    

A equipe era a Juventus, de Turim, e logo no primeiro ano Platini venceu o Campeonato Nacional. No segundo, a Copa da Itália, seguida da Bola de Ouro, que ainda ganharia nos dois anos seguintes. O amadurecimento de Platini apurou seus dribles curtos, seus lançamentos, e ficou quase impossível segurar seus avanços.      


Em 1984, além do Campeonato Italiano, viveu a alegria de conquistar a Eurocopa com a seleção de seu país. Não era tudo; o ano de 1985 seria a consagração. No dia 29 de maio, em Bruxelas, na Bélgica, a Juventus comandada por Platini venceu o Liverpool e conquistou a Copa dos Campeões da Europa, em uma partida que entrou para a história também como palco de um dos acontecimentos mais tristes do futebol mundial. Uma briga entre hooligans ingleses e torcedores italianos deixou 39 pessoas mortas por asfixia e feriu outras 600. Meses mais tarde, uma vitória nos pênaltis por 6 a 4, depois de um empate por 2 a 2 no tempo normal, contra o Argentinos Juniors, levou Platini e a Juventus ao título do Mundial Interclubes. Com tantos resultados positivos, Platini recebeu a Bola de Ouro pela terceira vez consecutiva, honra inédita para um jogador.

Itália x França, Copa 1986.

A Copa do México, em 1986, tinha tudo para ser o Mundial da consagração de Platini. A França era considerada a melhor seleção do mundo, credenciada pelo título europeu conquistado em 1984. Com o transcorrer dos jogos a teoria se comprovava. A França classificou-se para as oitavas-de-final com vitórias sobre Canadá e Hungria, além de um empate por 1 a 1 contra a União Soviética.

Na fase seguinte, Platini teve o dissabor de enfrentar a Itália, recheada de jogadores que vestiam a mesma camisa da Juventus, que ele defendia. A vitória por 2 a 0 teve um gol de Platini, mas foi no jogo seguinte, contra o Brasil, o dia em que Platini viveu o céu e o inferno. 


Gol de Platini contra o Brasil, Copa 1986.

Foram 120 minutos de pura emoção. O jogou terminou empatado por 1 a 1 no tempo normal, com um gol de Platini. Na prorrogação, novo empate, por 0 a 0. Nos pênaltis, por pouco Platini não se transforma em vilão ao deixar de converter sua cobrança. Bats, o goleiro francês, foi o herói naquela tarde. A França ganhou por 4 a 3 e partiu para a semifinal com a esperança da conquista de um título mundial.

No jogo que valia a vaga na final, a França perdeu para a Alemanha por 2 a 0, e Platini, a chance de ganhar uma Copa. A justificativa para o fracasso do craque francês pode soar como desculpa, mas só ele mesmo sabia o que sentia quando entrava em campo:

França x Alemanha, Copa do Mundo 1986.

“Na verdade, eu estava sentindo tanta dor que cortei o calcanhar de minhas chuteiras. Eu estava tomando comprimidos há dois meses para parar de mancar e diminuir o inchaço... Eu realmente não estava me sentindo bem: os analgésicos, estar longe de casa por dois meses, o quarto do hotel... Lembro-me de ter conversado com o Gaetano Scirea [da seleção italiana] na noite anterior que queríamos ganhar, mas que não seria tão ruim perder e voltar para casa! Em momentos como aquele, é difícil lembrar o que está em jogo, que a história está sendo escrita. Às vezes, como jogador, você se sente tão tolhido, que pode ser muito difícil... É por isso que jogar em casa é uma grande vantagem”.

A carreira de um dos maiores jogadores franceses da história do futebol terminou em 1987, em grande parte por causa de contusões e pela desilusão com a maneira como vinha sendo administrado o clube italiano.

Em 1990, na condição de treinador, Platini não conseguiu classificar a seleção para o Mundial da Itália, feito que jamais o incomodou, porque sempre gostou de ensinar a seus discípulos:

Nunca se esqueça, futebol é apenas um jogo”.


Ver a França conquistar uma Copa do Mundo foi um feito que o destino só permitiu a Michel Platini em 1998, ano em que o país foi sede do torneio, e ele o co-presidente do Comitê Organizador.

Como na história de tantos outros magos da camisa 10, o título da Copa do Mundo não fez parte das conquistas do Platini jogador de futebol. Sua despedida da equipe nacional, em 1988, foi feita durante um jogo entre a França e um selecionado do resto do mundo”.

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