domingo, 10 de junho de 2012

Os verdadeiros heróis do futebol


Eles deveriam ser os personagens mais bem tratados do espetáculo chamado futebol, mas no Brasil, infelizmente, a realidade não é bem essa. Seja domingo ou meio de semana, faça sol ou chuva, eles não abrem mão de sua maior paixão: as arquibancadas dos estádios para verem os seus clubes de coração jogar. O clube é o amor, a arquibancada o ingrediente fundamental para a química perfeita.

E ainda dizem que os craques são os heróis do futebol. Engano. São eles, os torcedores, os verdadeiros “Heróis do Cimento”. Um título que o jornalista Hilton Mattos transformou em um livro com histórias e personagens que a cada dia se tornam raros ou como se pertencessem a uma ficção. Não é a toa que “Heróis do Cimento – O torcedor e suas emoções” (Editora Revan) recebeu do Memofut – Grupo de Literatura e Memória do Futebol, a indicação de um dos melhores livros do ano de 2007. E eles, os heróis do cimento, continuaram para sempre em nossas memórias, mesmo sabendo que os cenários onde muitos deles surgiram já não são os mesmos.  

Sinopse:

Disse, certa vez, Nelson Rodrigues (...) sem torcedor não há futebol. Pode haver futebol sem jogador, mas não sem torcida. Devíamos erguer-lhe uma estátua à porta do estádio. O futebol só começou a ser histórico quando apareceu o primeiro torcedor (...) O trecho, extraído da crônica "O torcedor", é uma exaltação ao anônimo personagem que, por vezes, torna-se tão imprescindível ao espetáculo quanto o ídolo que arrasta multidões. Algumas de suas facetas deveriam ser contadas em verso e prosa. E eles, à sombra da realeza, mereciam a coroação.
Por que não juntá-los em uma obra? Por que não identificá-los? Por que não deixá-los recontar a história?

Hilton Mattos reúne em "Heróis do cimento – O torcedor e suas emoções", da Editora Revan, 24 dessas figuras com o objetivo de reviver jogos inesquecíveis a partir do testemunho de cada um. O resultado são 208 páginas de deliciosas histórias contadas em forma de romance.
Hilton descobriu em cada personagem feitos divertidíssimos, narrados em um texto carregado na emoção. Seja ele herói de um jogo só ou de passagens épicas de seus times. São milagreiros, como Tia Glória, que benzeu o Santo André antes do "Maracanazo" que tirou o título da Copa do Brasil do Flamengo. Globais às avessas, como o baiano que inventou de ser o Mister M brasileiro e logo na sua estreia, na geral, é claro, acertou o resultado de um jogo do Vasco.

Fatalistas, como um certo tricolor Heitor, que foi prestigiar a estreia do Fluminense na segunda divisão, num domingo de manhã, achando que só ele estaria no Maracanã. Eram 40 mil. O Flu perdeu. E ele virou ainda mais tricolor. Profetas, como Evandro Bocão, que quando viu Zico batendo um escanteio em 1978 previu o gol do título de Rondinelli logo contra o então favorito Vasco.

Para narrar a história desses anônimos heróis do cimento, Hilton Mattos foi buscar o aval de gente que entende — e muito — do assunto: de Zico — o Galinho de Quintino, assinando a orelha; de Sidney Garambone, editor do Globo Esporte, cujo texto emocionante para o prefácio inspirou o título do livro; de Juca Kfouri, escrevendo uma comovente contracapa, que explica — em tudo e por tudo — o motivo desse livro existir.

Orelha
Artur Antunes Coimbra (Zico)

Hilton Mattos e Zico
Quando recebi de Hilton Mattos o convite para escrever a orelha deste livro, peguei-me voltando no tempo, relembrando histórias maravilhosas de torcedores folclóricos. Afinal, o que seria do futebol se não fosse a torcida? E como seria o futebol sem essas figuras devotadas que encarnam o espírito do amadorismo e o levam até as últimas conseqüências? Acho que não teria a mesma graça sem eles, que têm suas vidas e problemas, mas que deixam tudo de lado e revelam um amor sem medir esforços, desprovido de preocupações políticas ou financeiras. Pessoas que são a pura paixão por um clube.

Lembrei-me de minha homônima, a Zica, do Gerdau gritando na geral, do Moraes na Libertadores, em Tóquio e até em Udine, e de tantos outros que sempre jogaram ao lado do Flamengo e nos ajudaram a levantar troféus. Inevitavelmente, recordei-me também dos anônimos vascaínos, tricolores, botafoguenses, que estavam firmes do outro lado para dar ainda mais emoção. Esses oponentes leais e igualmente incansáveis inspiraram jogadores e naturalmente eu os admirei também ao longo da minha carreira.

Ao abrir espaço para a versão dos torcedores relembrando partidas emocionantes, ao buscar um pouco da própria história desses personagens, o livro "Heróis do Cimento" presta uma justa homenagem aos verdadeiros craques escondidos no meio da multidão, que a maioria é incapaz de reconhecer. Figuras perdidas no meio das fotografias da torcida, mas vivas na memória de quem freqüentou a arquibancada, geral ou estava lá dentro do campo, como é o meu caso.

Hilton me disse que sou uma das razões de sua paixão pelo futebol e que, conseqüentemente, inspirei-o na produção desta obra. Ao ouvir fiquei muito orgulhoso. E mais contente ainda depois de ver que o livro – fruto de um belo trabalho de pesquisa – resgata autores de gols de placa que nunca tiveram seus nomes gritados pelos narradores.

Prefácio
Sidney Garambone

Hilton Mattos é um corajoso. Diariamente, há muitos anos, a rotina dele é dar voz a jogadores milionários sem nada a dizer, a treinadores boquirrotos cheios de palavrões e a juízes que têm a petulância de macular o divino hábito do futebol. Hilton é jornalista. Percorreu estádios, ouviu rádios e se cansou. E quieto, dentro do carro do jornal onde trabalhava, ficava matutando, taciturno, deixando fotógrafo e motorista desconfiados. Que cara esquisito. Esquisito e cansado de contar e recontar histórias através dos mesmos personagens.

Hilton Mattos foi um corajoso. E abandonou aquela turma que veste a camisa e entra em campo. Que, quando iluminada, brilha no gramado fazendo gols e produzindo lances antológicos. Deixa a imprensa atrás dele. Deixa a câmera da Globo registrar o drible magnífico. Deixa o locutor berrar o gol na gaveta. Deixa o fotógrafo capturar a defesa no ângulo. Deixa o chato fazer as contas de quanto um time chutou, como se a matemática explicasse o futebol.

Hilton Mattos teve a coragem de abrir mão dos heróis. E foi tocar a campainha dos donos dos aplausos. Da moldura do espetáculo. Da sonoplastia do gol. Foi atrás de mim, de você, de todos os brasileiros viciados em futebol. Torcedores. Não importa o time. São torcedores. Emblemáticos ou sintomáticos. Que fazem o show todos os domingos ou que tiveram alguns minutos de fama. Gente simples que ficou famosa e voltou a ser simples.

O futebol é corajoso. Pois num país cruel como o Brasil, que isola seus filhos atrás de grades em condomínios, que relega a sarjeta a tantos, que não tem vergonha de passar fome no século 21, o futebol atravessa democrático e igualitário todas as classes sociais. Um executivo debatendo com o ascensorista do prédio? Futebol. Um deputado de esquerda abraçando um de direita? Futebol. Um pobre humilhando com palavras um rico? Futebol. Um mendigo conversando com um estudante? Futebol. Um preso dando lição a um delegado? Futebol.

E lá foi Hilton atrás destes torcedores malucos. Personagens de um jogo só ou de campanhas épicas de seus times. Milagreiros, como Tia Glória, que benzeu o Santo André antes do "Maracanazo" que tirou o título da Copa do Brasil do Flamengo. Globais às avessas, como o baiano que inventou de ser o Mister M brasileiro e logo na sua estreia, na geral, é claro, acertou o resultado de um jogo do Vasco. Fatalistas, como um certo tricolor Heitor, que foi prestigiar a estreia do Fluminense na Segunda Divisão, num domingo de manhã, achando que só ele estaria no Maracanã. Eram 40 mil. O Flu perdeu. E ele virou ainda mais tricolor. Profetas, como Evandro Bocão, que quando viu Zico batendo um escanteio em 1978 previu o gol do título de Rondinelli logo contra o então favorito Vasco.

Mister M, o misterioso torcedor do velho Maracanã.
Hilton ouviu deles e de mais duas dezenas de torcedores especiais histórias e versões de jogos inesquecíveis. Através deles, lembramos e invejamos não sermos eles. A leitura deste livro é um convite à deliciosa fossa. E quase uma convocação à traição. Se você é rubro-negro, vai querer ter sido vascaíno, se és tricolor, pensará duas vezes antes de torcer contra o Botafogo e por aí vai. Hilton nos convence que o bom é torcer pelos torcedores. E reforça a tese, por alguns defendidas e quiçá seja a verdade absoluta daqui a alguns anos, de que futebol não é esporte. É cultura. Cultura cardíaca, cultura popular, cultura afetiva. Fosse este um trabalho chamado "Jogos Inesquecíveis" logo cairia no esquecimento.

Fica o convite para jornalistas paulistas, mineiros, gaúchos, paranaenses, baianos, pernambucanos, enfim... para que façam versões desta enciclopédia de grandes heróis do cimento. Não há como não se identificar com todos os torcedores deste livro, seja qual a cor da camisa. É fechar a última página e sair correndo para ver a tabela do campeonato em andamento. Quando é o próximo jogo do meu time? E prometer a si mesmo que nunca mais vai abandonar os estádios. E aprender que não é só no intervalo que a gente olha para o lado. É desde o primeiro minuto. Porque o espetáculo não está só no gramado. O espetáculo somos nós. Eles. Vocês.

Quarta capa
Juca Kfouri

Ela nunca tinha pisado no solo sagrado do Maracanã.
Estreou num dia de Fla-Flu.
Decisão do título carioca de 1995, aquele, do gol de Renato Gaúcho de barriga.
Ela nem viu, na verdade.
Porque o que acontecia no gramado não tinha a menor importância.
Ela estava extasiada com o espetáculo das arquibancadas.
Foi a primeira vez em que vi o que significava, literalmente, alguém ficar boquiaberto.
Ficou ao sair do elevador e entrar no corredor para a área das tribunas, ainda antes da borboleta.
Como eu sabia que alguma reação haveria, adiantei-me para poder voltar e vê-la de frente.
Boquiaberta.

Quando se deparou com a multidão, com as cores, com a cantoria, ficou paralisada.
E boquiaberta.
De queixo caído, vá lá.
Ela existe mesmo, se chama Leda e é minha mulher.
Poucas vezes antes eu a tinha visto daquele jeito, talvez diante da Guernica ou da Pietà.
E foi dessas reações absolutamente naturais que dão a dimensão do que é o torcedor, do que é um Fla-Flu, do que é o Maracanã lotado.
Interpretei, também, como uma homenagem ao meu ofício ou, ao menos, mais uma ficha que caía para compreender o tamanho da paixão.
Homenagem como esta, devida mesmo, que Hilton Mattos faz ao herói anônimo que é a razão de tudo e nem por isso recebe o tratamento que merece.
Mas Hilton tratou de lhe dar, com brilho, sua parte neste latifúndio.

Sobre o autor:
Carioca, 35 anos, Hilton Mattos é jornalista, formado pela Universidade Estácio de Sá. Como repórter, passou pelas redações do “Jornal dos Sports”, “O Dia” e da revista “Placar”. Foi também chefe de reportagem do diário “Lance!”, do site “Globoesporte.com” e fez parte do Comitê Organizador dos Jogos Pan-Americanos Rio 2007.

Um comentário:

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