sexta-feira, 29 de junho de 2012

O centenário do Fla-Flu


Pode se dizer que ele perdeu o charme ou a mística de antigamente, mas ninguém seria maluco de afirmar que ele não continua a ser um dos clássicos mais importantes e famosos do futebol brasileiro. Ainda mais agora quando ele está perto de completar 100 anos de existência. No dia 7 de julho de 1912 foi disputado o primeiro jogo entre Flamengo e Fluminense, com vitória dos tricolores por 3 a 2. Um centenário que merece ser comemorado com todas as pompas possíveis. E isso já está acontecendo.

Troféu confeccionado para a festa do centenário do Fla-Flu
Pena que o estádio do Maracanã não esteja pronto para a festa que será organizada pela Rede Globo. No dia 8 de agosto os dois times se enfrentam no estádio do Engenhão, pelo campeonato brasileiro, com direito a homenagens de primeira.  Os dois clubes e, evidentemente, a imensa torcida dos dois clubes, receberão diversas homenagens. Primeiro um jogo preliminar entre astros da TV, música e ex-craques das duas equipes. Há ainda um troféu, que será entregue pela TV Globo aos dois times. Mas não é um troféu qualquer. A obra é dividida em duas metades, cada uma para um clube. Criação do designer e diretor de arte da Rede Globo, Roberto Stein. A metade tricolor ganhou o batismo de Nelson Rodrigues e a outra, rubro-negra, Mario Filho.

Justa homenagem, não só aos dois clubes e ao clássico, mas também aos irmãos Rodrigues. Nelson, tricolor assumido de corpo e alma. Mario, dizem, rubro-negro.

Literatura na Arquibancada começa hoje uma série especial sobre o clássico Fla-Flu, revivido em textos históricos publicados em livros ou na crônica esportiva. E, claro, nada melhor do que iniciarmos essa viagem centenária com uma crônica do “pai” do Fla-Flu. É Mario Filho o criador da expressão Fla-Flu, o “clássico das multidões”. 

O texto é parte de um livro imperdível “Fla-Flu...e as multidões despertaram!” (Edição Europa, 1987), organizado por Oscar Maron Filho e Renato Ferreira.






Epidemia de Fla-Flu
Por Mario Filho


Equipes do primeiro Fla-Flu, em 1912.
"O Fluminense devia perguntar-se, em certos momentos, como gerara um Flamengo. E era natural que o gerasse, pela ânsia de liberdade ou de aventura que todos temos, lá no fundo, e que sufocamos com medo de sair da segurança da rotina. Alguma coisa, porém, denunciava a futura grandeza do Flamengo. Lembro-me que, numa noite de terça-feira de Carnaval, eu estava no Nice, à espera do préstito dos Democráticos, quando ouvi umas moças, hoje brotos, cantando “Piranha eu sou de coração, Flamengo até debaixo d’água”. Aquilo me surpreendeu, como uma revelação. Um clube vinha para a música popular, era cantado no Carnaval. Então não me espantou mais uma certa arrogância do Flamengo. Porque não era à toa que um clube virava marcha de carnaval, canção ou hino.

O Fluminense tinha um hino, música do maestro Cardoso de Meneses Filho, que não era cantado. Quer dizer: bem que o quiseram cantar. Mas começava assim: O Fluminense é um crisol. Os moleques emendaram: é um urinol. E acabou-se o hino, só tocado, de longe em longe, por orquestras, de violino e tudo. Quando apareceu o hino do Flamengo ou quando o Flamengo achou que era o momento do hino, quem era Flamengo cantou-o como um God Save the King.

Ari Barroso e sua gaitinha.
Ari Barroso tornou-se speaker de futebol por causa do Flamengo. Num gol do Flamengo a gaitinha do Ari chegava a gargalhar. Era para isso que a usava, embora, algumas vezes, tivesse que tocá-la mais baixo, sem entusiasmo, num gol do outro clube. E Ari Barroso fora tricolor. Em Álvaro Chaves sentia-se em casa, até o dia em que, depois de uma derrota, vieram chama-lo, como se não tivesse acontecido nada, para distrair os sócios, ao piano, num chá-dançante. Naquele momento o compositor da Aquarela do Brasil descobriu que era Flamengo desde criancinha. Pretextos não faltavam para quem quisesse ser Flamengo.

O amor do povo pelo Flamengo, como que secreto, desabrochou com a força de uma primavera. Deu para aparecer Flamengo por todo lado. Parecia uma praga.

O pretexto era o Fla-Flu. Hoje ninguém acha nada demais que fosse o Fla-Flu. Mas o primeiro Fla-Flu do futebol profissional, em 33, rendeu dois contos e quatrocentos mil réis.

Era verdade que o match tinha uma mística ou foi possível criar-lhe uma mística. A da rivalidade pura que colocava, como adversários, clubes do mesmo sangue, carne da mesma carne, irmãos do esporte. E tome Fla-Flu. A CBD mandava buscar em Buenos Aires o River Plate e o Boca Juniors, contando com o público do Vasco, com São Januário que era o maior estádio da América do Sul, e com a fraqueza ou o béguin do brasileiro pelo argentino, sobretudo pelo tango e pelo futebol argentinos. No dia do Vasco e River Plate ou do Botafogo e Boca Juniors, marcava-se um Fla-Flu. A multidão ia para o Fla-Flu e o estádio do Fluminense não cabia de tanta gente. Era uma febre, uma epidemia de Fla-Flu. Ninguém estava livre dela: pegava feito visgo.’’

Vale conferir a reportagem do programa Esporte Espetacular, produzida em 2011, sobre as origens do clássico Fla-Flu:


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