segunda-feira, 11 de junho de 2012

José Miguel Wisnik: Veneno Remédio


Ele é hoje um dos principais intelectuais e artistas brasileiros e também apaixonado pelo tema futebol. José Miguel Wisnik é também professor de Teoria Literária na USP e um dos grandes compositores da música brasileira, parceiro de gente como Alice Ruiz, Luiz Tatit, Caetano Veloso e Tom Zé.

Mas Wisnik, ou melhor, “Zé Miguel”, como os amigos o tratam, grande intelectual que é, não iria ficar apenas no discurso sobre o tema que ele conhece bem de perto e sabe quanto influencia a sociedade brasileira e mundial: o futebol. Em 2008 a editora Companhia das Letras lançou o livro escrito por Zé Miguel, “Veneno Remédio – O futebol e o Brasil”, e rapidamente, o livro foi aclamado como um dos melhores da literatura esportiva brasileira. Literatura na Arquibancada está entre esses e não é difícil se convencer.

Sinopse
(Da editora)


Os estudos de grande abrangência sobre o futebol, ao abordar as questões políticas, sociais, econômicas e comportamentais em torno do esporte, costumam deixar de lado o essencial: o jogo em si, aquilo que faz dele uma atividade capaz de apaixonar bilhões de pessoas dos mais remotos cantos do mundo.

O futebol, tal como foi incorporado e praticamente reinventado no Brasil, tem muito a dizer, com sua linguagem não-verbal, sobre algumas de nossas forças e fraquezas mais profundas, ajudando a ver sob outra luz questões centrais da nossa formação e identidade.

Temas recorrentes na melhor ensaística brasileira, como a "democracia racial", o "homem cordial" e a deglutição antropofágica do influxo cultural estrangeiro, encontram aqui um viés inesperado e original como um corta-luz, um drible de corpo, um lançamento com efeito ou uma folha-seca - jogadas que os craques brasileiros inventaram ou desenvolveram, encontrando novos caminhos para chegar ao gol e à vitória.


Lançando mão de um sofisticado instrumental crítico que bebe na filosofia, na sociologia, na psicanálise e na crítica estética, José Miguel Wisnik desce às minúcias do jogo da bola e de sua evolução ao longo das décadas. Nas páginas deste ensaio, craques como Domingos da Guia, Pelé, Garrincha e Romário põem à prova, com sua linguagem não-verbal, ideias sobre o país de escritores como Machado de Assis, Mário e Oswald de Andrade, sociólogos como Gilberto Freyre, historiadores como Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior.

O futebol, em Veneno remédio, não é mero "reflexo" da sociedade, mas tampouco se desenvolve à margem dela. É, como mostra Wisnik, uma instância em que as linhas de força e de fuga do embate social e da construção do imaginário se apresentam de modo ao mesmo tempo claro e cifrado, como costuma acontecer com as expressões artísticas.

Literatura na Arquibancada apresenta a introdução da obra espetacular de José Miguel Wisnik, fundamental para qualquer amante da boa literatura esportiva brasileira:

LIVRO E FUTEBOL
Por José Miguel Wisnik


O leitor a quem se dirige esse livro não é evidente: em geral, quem vive o futebol não está interessado em ler sobre ele mais do que a notícia de jornal ou revista, e quem se dedica a ler livros e especulações poucas vezes conhece o futebol por dentro. Pierre Bourdieu observa, por exemplo, que a sociologia esportiva é desdenhada pelos sociólogos e menosprezada pelos envolvidos com o esporte. A observação pode valer também para ensaios como este aqui, embora ele não seja do gênero sociológico. No limite, a onipresença do jogo de bola soa abusiva e irrelevante para quem acompanha a discussão cultural. Assim, mais do que um desconhecimento recíproco entre as partes, pode-se falar, de fato, de uma dupla resistência. Viver o futebol dispensa pensá-lo, e, em grande parte, é essa dispensa que se procura nele.

Os pensadores, por sua vez, à esquerda ou à direita, na meia ou no centro, têm muitas vezes uma reserva contra os componentes antiintelectuais e massivos do futebol, e temem ou se recusam a endossá-los, por um lado, e a se misturar com eles, por outro. Tudo isso, por si só, já daria um belo assunto: o futebol como o nó cego em que a cultura e a sociedade se expõem no seu ponto ao mesmo tempo mais visível e invisível. E esse não deixa de ser o tema deste livro, que talvez possa interessar a quem esteja disposto a lê-lo independentemente de conhecer o futebol ou de ser ou não "intelectual".


Não é incomum, também, que intelectuais vivam intensamente o futebol, sem pensá-lo, e que resistam, ao mesmo tempo, a admiti-lo na ordem do pensamento. Nesse caso, aqueles dois personagens a que nos referimos no começo podem se encontrar numa pessoa só. Um exemplo do desencontro entre o que se pensa e o que se vive do futebol pode ser lembrado no fato conhecido - que o filme O ano em que meus pais saíram de férias incorporou a seu modo - de que muitos dos que se decidiram a torcer pela Tchecoslováquia contra o Brasil, na primeira partida da Copa de 1970, por identificarem a seleção com a ditadura militar, viraram do avesso a decisão inicial assim que a partida esquentou: a verdade é que, apesar das boas razões políticas que os guiavam, o tempo do jogo os devolvia a um lugar em que o time de futebol, contra aquilo que pensavam, não se confundia com o regime, mas se mostrava ligado a eles mesmos através de uma identificação inesperada e mais profunda.

É com ziguezagues como esse que temos de lidar. E com mais um agravante: dada a extensão que tem o futebol no Brasil, a imersão na vida futebolística se faz de uma maneira tal que não passa por uma atividade refletida, ou então passa tanto que todo mundo se considera mais na posição de ensinar futebol do que de aprender sobre ele. Afinal, trata-se do fenômeno em relação ao qual parecemos estar sempre ou muito por dentro ou muito por fora, obnubilados por ele ou desconectados da sua verdade sob a espécie de uma "superioridade" crítica.

Pier Paolo Pasolini

A primeira motivação para encarar o assunto me veio dos esboços quase brincalhões de uma teoria do futebol, escritos pelo ensaísta-cineasta Pier Paolo Pasolini, que um amigo - Michel Lahud - me mostrou no início dos anos 80. Pasolini dizia que o futebol é uma linguagem, e comparava jogadores italianos com escritores seus contemporâneos, vendo analogias entre os estilos e as atitudes inerentes aos seus "discursos". Mais do que isso, falava, escrevendo em 1971, de um futebol jogado em prosa, predominante na Europa, e de um futebol jogado como poesia, referindo-se ao futebol sul-americano, e, em particular, ao brasileiro. Essas ideias, que se tornaram mais conhecidas recentemente, foram muitas vezes banalizadas e reduzidas à superfície, sem que se atentasse para o alcance inédito das suas sugestões. Apesar de seu caráter apenas indicativo, Pasolini não falava de poesia no sentido vago e costumeiro de uma "aura" lírica qualquer a cercar o futebol.


Também não estava projetando "conteúdos" narrativos para dentro do campo. Em vez disso, influenciado, e não sem humor, pela voga semiológica da época, identificava processos comuns aos campos da literatura e do futebol: pode-se dizer que via na prosa a vocação linear e finalista do futebol (ênfase defensiva, passes triangulados, contra-ataque, cruzamento e finalização), e na poesia a irrupção de eventos não lineares e imprevisíveis (criação de espaços vazios, corta-luzes, autonomia dos dribles, motivação atacante congênita). Sugeria com isso, pela via estética, uma maneira de abordar o jogo por dentro, e nos dava, de quebra, uma chave original para tratar da singularidade do futebol brasileiro. Embora sumária, e aparentemente esquemática, a sua teoria do futebol contemplava a necessária imbricação da "poesia" e da "prosa" no tecido do jogo (sem afirmar a superioridade de uma sobre a outra), e pontuava genericamente suas gradações, passando por aquilo que ele via como a prosa realista de ingleses e alemães, a prosa estetizante dos italianos e a poesia sul americana, chegando por todas essas vias ao delírio universal do gol, que suspende as oposições porque é necessariamente um paroxismo poético.


Nada impede de dizermos a partir dele, sem dualismos rígidos, que os lances criativos mais surpreendentes não dispensam a prosa corrente do "arroz-com-feijão" do jogo, necessário a toda partida. Ou de constatar, na literatura como no futebol, que a "prosa" pode ser bela, íntegra, articulada e fluente, ou burocrática e anódina, e a "poesia", imprevista, fulgurante e eficaz, ou firula retórica sem nervo e sem alvo. Pois a mais importante conseqüência de sua rápida semiologia exploratória, a meu ver, é de que o futebol é o esporte que comporta múltiplos registros, sintaxes diversas, estilos diferentes e opostos e gêneros narrativos, a ponto de parecer conter vários jogos dentro de um único jogo. A sua narratividade aberta às diferenças terá relação, muito possivelmente, com o fato de ter se tornado o esporte mais jogado no mundo inteiro, como um modelo racional e universalmente acessível que fosse guiado por uma ampla margem de diversidade interna, capaz de absorver e expressar culturas. O mote pasoliniano, formulado num momento muito particular do apogeu do futebol-arte, em que a distinção entre a prosa e a poesia futebolística era de uma evidência e de uma pertinência centrais, permanece, a meu ver, como um modelo simples e estimulante para comentar, mesmo quando pelo avesso, as transformações do futebol durante esses tempos e a insistente natureza elíptica do futebol brasileiro - sua ancestral compulsão a driblar a linearidade do esporte britânico.


Acresce ainda que esse viés estético-analítico, no caso de Pasolini, é inseparável de sua paixão pelo esporte, do sentimento de sua impregnação na vida e do modo como ele testemunha as relações humanas. A sua paixão pelo futebol é uma paixão do real, sem afetações ou restrições moralistas. O futebol era para ele o terreno em que se dava ainda o grande teatro e o rito da presença, expondo ao vivo, em corpo e espírito, um largo espectro da escala humana. Sendo assim, uma zona de contatos lúdicos, primária e refinada, física e metafísica, que desafia e desencadeia o desnudamento da existência autêntica. Por isso mesmo, afirmava que jogar futebol era um dos seus maiores prazeres, junto da literatura, do eros e do cinema, além de ser, como para Albert Camus ou Eugenio Evtuchenko, um campo de aprendizado total, uma espécie de romance de formação.


A recente publicação de seus escritos reunidos sobre esporte mostra que, mesmo tendo percebido desde longa data o movimento da tomada desse terreno real pela irrealidade dos simulacros da mídia burguesa, pela vacuidade da sua espetacularização e pela sagração de suas vedetes como paradigmas do consumismo, e mesmo tendo se tornado um dos críticos mais contundentes desse fato, nem por isso se permitia atacar o futebol enquanto tal. Na verdade, era nesse ponto de estrangulamento, de certa forma desesperado, inquieto e fecundo, que a sua paixão viva não se deixava anular nem separar de sua consciência crítica, exigindo ver o futebol ao mesmo tempo de dentro e de fora, suportando a consciência daquilo que ele tem de alienante e manipulado em nome daquilo que tem de autêntico, memorável, apaixonante e inesperado - em outros termos, bem seus, naquilo que ele tem de popular e real.


No Brasil, a incapacidade de combinar a paixão e a crítica tornou- se um traço recorrente, dominando em boa parte a cena pública invadida a todo momento pelo futebol: é como se fôssemos obrigados a estar muito colados ao fenômeno ou muito fora dele, como se só pudéssemos ser ou frívolos ou graves, para usar aqui a famosa definição de Brás Cubas para as "duas colunas máximas da opinião". Um futebolismo avassalador, multiplicado pela mídia e euforizado ainda mais pela propaganda, tem como contraponto quase obrigatório as vozes altivas que se põem no que parece ser a posição pensante e que timbram por minimizar o futebol em si, destituindo-o de qualquer relevância cultural. No momento que agora se abre, com a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, a conhecida combinação brasileira de sucesso futebolístico com desmando político acaba por chapar o processo, fazendo dele inteiro uma só medalha, com uma face eufórica e outra disfórica a se revezarem infinitamente (papel exercido pelo duplo viés de exaltação e bombardeio acusatório com que a imprensa trata comumente o assunto). Aqui, a tentativa é fazer contato com a experiência total do futebol na vida brasileira sem cair na gangorra onipresente que balança entre o veneno da crítica ou a droga euforizante - pólos que se equivalem, quando falsamente contrapostos, em nivelar e esconder a questão.

Sobre José Miguel Wisnik:
Nasceu em São Vicente, São Paulo, em 1948. É professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo, além de pianista e compositor. Algumas obras publicadas: - Coro dos contrários - a música em torno da semana de 22. São Paulo, Duas Cidades. - O nacional e o popular na cultura brasileira - música (com Ênio Squeff). São Paulo, Brasiliense.

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