quinta-feira, 7 de junho de 2012

João Batista Freire: "Ensinar esporte, ensinando a viver


Para um país que irá sediar um dos mais importantes eventos esportivos do planeta, os Jogos Olímpicos, seria fundamental existir uma política esportiva clara e consistente a respeito da formação esportiva no país. Mas, infelizmente, todos sabemos, não é isso o que acontece. Afinal, esporte não é somente aquele das competições que estamos acostumados a assistir pelos meios de comunicação, ou ao vivo, em estádios, ginásios e quadras. Esporte é algo que começa bem longe desses lugares. Esporte é algo que as autoridades esportivas ou não desse país, desconhecem sua real e verdadeira importância na formação de qualquer cidadão.

Prof. João Batista Freire
E se há um profissional que conheça muito bem sobre tudo isso é o professor João Batista Freire, um dos mais importantes nomes da pedagogia da Educação Física brasileira. 

Um homem que entende o esporte da maneira mais ampla possível na formação de vida das pessoas. 

E mestre João Batista não desiste do seu discurso. Há dois anos ele lançou mais um de seus livros espetaculares: “Ensinar esporte, ensinando a viver” (Editora Mediação).

Não desiste porque ele não cansa de escrever sobre esse importante tema. É autor de obras importantes e saborosas de se ler como Educação de corpo inteiro, da Editora Scipione, Educação como prática corporal, da Editora Scipione, De corpo e alma, da Editora Summus, Pedagogia do futebol e O Jogo: entre o riso e o choro da editora Autores Associados.

Na apresentação da obra feita pela Editora Mediação a afirmação de que o novo livro do professor João Batista é “leitura muito importante para professores do Ensino Fundamental e Médio”, deveria, na verdade, ampliar sua importância do público leitor para toda e qualquer pessoa interessada na literatura esportiva brasileira. A apresentação segue dizendo que “o livro traz profundos ensinamentos sobre o esporte educacional em benefício a todas as crianças e jovens deste país.

O autor, que trabalhou muitos anos com jovens atletas, narra, com entusiasmo e sensibilidade, como aprender a ser professor e, sobretudo, a gostar de ensinar, com reflexões e relatos sobre sua própria maneira de agir no sentido de fazer do esporte uma contribuição para a vida de milhares de alunos com quem conviveu. Ele salienta que o esporte educacional não deve ter por objetivo principal buscar talentos ou formar atletas campeões. Sua finalidade é formar alunos vencedores na vida pelos ensinamentos que o esporte lhes propicia”.

Além de escritor, mestre João Batista mantém um blog que deve sempre ser lido, o http://blog.cev.org.br/joaofreire/. É nele que encontramos a explicação sobre a importância deste seu mais recente livro: “Saiu meu novo livro, o que demorei mais tempo para escrever, o que relata minha primeira e mais forte experiência pedagógica. Foram sete anos ensinando esporte para mais de cinco mil crianças e adolescentes. Uma das primeiras experiências de esporte educacional no Brasil. Isso aconteceu em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, em um centro esportivo na Vila Euclides, que chamávamos de Elni”.

“Ensinar esporte, ensinando a viver” é, portanto, muito mais do que um livro sobre a importância da pedagogia esportiva, mas um retorno à essência de que todos (mestres e alunos) deveriam ter em relação ao esporte: a paixão. E mestre João Batista explica como tudo isso começou:

“Depois que larguei a fábrica e a Faculdade de Administração, senti uma enorme sensação de alívio. Eu tinha meus projetos, mas eles tinham seus obstáculos. Havia uma realidade para encarar. Larguei a fábrica e fiquei sem emprego e meu único vínculo com a Educação Física era o atletismo que, em São Bernardo, naquela época, antes de tudo que aconteceu na Elni depois daquela tarde chuvosa, não era quase nada. A equipe de atletismo que existia então, reduzia-se a poucos atletas como eu, que treinavam nos reduzidos tempos que sobravam entre um trabalho e outro. Sem contar que nossa equipe estava acabando, ninguém mais aparecia para treinar.

E foi assim que, na tarde seguinte à minha saída da fábrica, fui para a Elni, para aquela ruína de estádio, sem emprego, sem companheiros para treinar, sem nada, só eu e meus sonhos. Estava tudo muito vazio e me deu uma tristeza danada. Fiquei sozinho um tempo, pensando no que fazer, sabendo que, lá fora, quem usava farda mandava e desmandava, prendia, exilava e até matava quem não fosse simpático ao regime. Como era fácil governar o Brasil! Como sempre foi tão fácil! Um país sem balcão de reclamações. A fábrica, a confusão de gente pelas ruas, a maioria das pessoas não sabendo ou não se importando com o que acontecia.

Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo,
antes, as instalações precárias da Elni.
Estudantes fugiam dos cavalos, dos cachorros, dos soldados. E foi assim que tudo começou, eu meio perdido, sem ter para onde ir, por isso fui ali, na Elni, sonhar com alguma coisa boa que pudesse fazer. Nos meus sonhos, eu seria professor justamente naquele lugar, naquele estádio de atletismo em ruínas, mas nem imaginava que teria milhares e milhares de alunos um dia.” (página 30).

Em “Ensinar esporte, ensinando a viver”, mestre João Batista ainda reforça:

“As autoridades responsáveis pela formação de jovens para o esporte, ligadas a governos ou empresas, raramente compreendem que a melhor maneira de formar, inclusive, os atletas de mais alto nível, é ensinar a todos. O Brasil deveria ter um projeto governamental que objetivasse ensinar esporte a todos, sem exclusões, sem discriminações. É terrível para um jovem ver-se discriminado e excluído do esporte após ser comparado com outros de mais talento. Se ensinássemos a todos, além de reconhecer um justo direito que todos têm de aprender esporte, teríamos também, em meio a tantos, aqueles que poderiam ser campeões.
Os campeões não poderiam ser o objetivo maior de um projeto esportivo, mas sim o detalhe de um grande projeto de educar um povo. É muito óbvio o interesse das crianças e jovens no esporte. Quando os chamamos para fazer esporte, quase todos querem, entregam-se voluntariamente. Esse é o aluno perfeito, aquele que quer aprender.

Ora, se, ao ensinar esporte, ensinássemos também mais que o esporte, isto é, ensinássemos as coisas que serão boas para uma vida independente, teríamos um belo projeto educacional. A realidade é que a esmagadora maioria de quem passa pela formação esportiva nunca será atleta de alto nível. Será gente comum: estudantes, trabalhadores, políticos, artistas. Se forem bem tratados no esporte, serão amigos dele, farão de tudo para que o esporte exista, cresça, faça bem para todos. Essa gente comum que passa pela formação esportiva, compreenderá, com o tempo, que aquilo que aprendeu servirá para muitas coisas: para se divertir no tempo livre, para fazer amigos, para ter mais saúde, para ter uma melhor percepção própria, e assim por diante. São muitos os benefícios para quem aprende esporte tanto do ponto de vista dos benefícios pessoais quanto dos benefícios sociais, esportivos”. 

“Ensinar esporte, ensinando a viver” tem ainda os seguintes capítulos a serem saboreados:

Na pedagogia do convívio, o esporte é um veículo 
Ensinando além das pistas 

Dar aula é difícil 
Alunos são mais que alunos, são seres humanos 

Ensinar para além do esporte 
A função pedagógica do buraco no muro 

O esporte não é um caso à parte
A seleção precoce é excludente e injusta 

Muito mais do que correr e saltar
O aumento da autoestima

Nem só a razão ao ensinar
A coragem para mudar

A vida é algo para celebrar
Oportunidades para educar não faltam

Agregando procedimentos pedagógicos 
a um projeto de mundo

Tragédias que não deveriam acontecer

Educar é também combater o mal
Festivais e prepotências

Experiência do professor e surpresas de tocaia
Vencedores em lugar de campeões

Aprender esporte brincando de fazer esporte
Tragédias e comédias

Escola por si só não basta, é preciso ensinar bem!
Medalhas devolvidas

A seleção e a exclusão desrespeitam 
o direito do esporte para todos

Até a festa da vitória pode ofender

Ensinar esporte ensinando a viver
Esporte educacional


A musa do esporte
Uma enorme distância

A descoberta de cada um
Brincadeiras e aprendizagem

O envolvimento emocional do professor
Sensibilidade e preconceito

A boa educação é um escudo
Educar pessoas e não formar atletas

Epílogo: o esporte é direito de todas 
as crianças e jovens

A Associação Sambernardense de Atletismo

Uma equipe e tanto...

Sobre João Batista Freire:
Minha carreira profissional em EF começou no Atletismo, onde fui professor de crianças e técnico durante uns 10 anos. Depois trabalhei com vários esportes, até 1999. Dei aulas em várias Faculdades de Educação Física e escolas da rede pública. Me aposentei como professor MS-5, Livre Docente, na Unicamp, depois de trabalhar nessa instituição por 15 anos. Antes disso trabalhei na USP e na Univ. Federal da Paraíba. Depois de me aposentar na Unicamp trabalhei por alguns anos na Universidade do Estado de Santa Catarina. Atualmente sou consultor do Instituto Esporte Educação - IEE em São Paulo e colaborador da Universidade do Futebol.

Literatura na Arquibancada recomenda ainda que você, leitor, também assista aos vídeos abaixo: uma entrevista de Juca Kfouri com o mestre João Batista Freire.

                                          Juca Entrevista - parte 1

                                          Juca Entrevista - parte 2

                                          Juca Entrevista - parte 3

                                          Juca Entrevista - parte 4

                                          Juca Entrevista - parte final


Um comentário:

  1. Vanusa Peixoto11:31

    Maravilhoso mestre, estará em Manaus e será muito bem recebido, por todos os professores de Educação Física.

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