terça-feira, 19 de junho de 2012

Especial Copas (8): "A queda de Saldanha"


Em mais um artigo da série especial sobre Copas do Mundo, o “direito de resposta” de Saldanha sobre os episódios ocorridos sobre sua demissão do cargo de técnico da seleção. No último artigo (o de número 7) Zagallo, seu sucessor, explicou em seu livro autobiográfico todo esse clima, desde a demissão de Saldanha até a conquista do tricampeonato mundial, no dia 21 de junho de 1970.

João Saldanha, além de técnico de futebol era também jornalista, um dos melhores, da imprensa escrita e comentarista de rádio e TV da época. Assinava artigos diariamente em um dos principais jornais brasileiros, no O Globo, além de participar de programas de rádio e TV. Ou seja, o que João dizia, chegava longe. E nem mesmo assim, João resistiu aos bastidores sórdidos do poder e desmandos da ditadura militar.


O que Saldanha nunca entendeu, na verdade, não foi sua saída, mas por que teria sido convidado pelos “homens” que ele trata como “eles”. Literatura na Arquibancada recomenda um livro espetacular sobre João Saldanha, exatamente com o título de um de seus bordões clássicos: “Vida que segue – João Saldanha e as Copas de 66 e 70” (Editora Nova Fronteira, 2006), uma coletânea das crônicas de Saldanha, organizada pelo craque Raul Milliet.

Na obra, Milliet explica que, em 1988, em entrevista ao Núcleo Esporte e Cidadania, João Saldanha aprofundou o episódio de sua demissão da seleção brasileira.

Por que saí
Por João Saldanha


“Vamos deixar de hipocrisia. Fui chamado para tapar o buraco de uma baita crise no futebol, em um lance arriscado e inteligente do Havelange. Aceitei. Montado o esquema de trabalho, sem mistérios, os resultados apareceram. Fomos bem nos amistosos e nas eliminatórias. Tínhamos que matar um leão por dia. No início de 1970, o clima esquentou dentro e fora da seleção. A pressão foi ficando insuportável. A cada dia, uma nova casca de banana. Por gente da própria CBD e por gente da ditadura. Era difícil tolerar um cara com longa trajetória no PCB ganhando alguma força, bem debaixo da bochecha deles.

O clima na seleção também ficou pesado. Como não ficar? Era pancada de todos os lados. Havelange foi chamado, recebeu ordens e cumpriu. Fui demitido. Os pretextos foram sórdidos. Fui demitido pelo governo do maior ditador e maior assassino da história do país. Argüir o desempenho técnico não podiam. Apelaram. Reagi. O lado mais fraco não ganharia aquela parada nunca...


Querem fazer uma coisa? Juntem isso que eu falei com o que eu publiquei na época, que fica mais completo. É só pegar as crônicas da conjuntura, nas quais eu não podia me espalhar muito, como ‘Os fumantes’; ‘Por que saí’. (...)

Digo e repito: é só pegar o material da época e procurar fazer uma análise séria”.

E aí estão as duas crônicas a que João Saldanha se refere:

Os fumantes 
(O Globo, 19/3/1970)


"Um dia antes do “traço” o senhor Havelange declarou a toda imprensa: “Se o João Saldanha quiser sair eu impeço fisicamente”. Como o Havelange é muito forte, isso seria facílimo. O diabo é que eu não pensava em sair. Só pensava em botar no campo, domingo, o seguinte time: Leão; Carlos Alberto, Brito, Joel, Marco Antônio; Piazza e Gérson; e lá na frente o Jair, Dirceu, Tostão e Edu. Neste meio tempo, entre a reação física que o Havelange tinha avisado, e a entrevista com o Gilson Amado (criador, fundador e presidente por mais de 12 anos da TV Educativa. Um dos mais importantes radialistas e jornalistas do Brasil), ele apareceu na concentração. Me abraçou, não me beijou porque pegaria mal, rimos e falamos das árvores, dos frutos e frutas, dos pássaros e da beleza da paisagem.

Logo em seguida me pediram para ouvir a gravação do programa do Havelange, com o Gilson. Puxa vida, tocou meu coração. Se não fosse um marido fiel, palavra que eu deixava a Teresa e casava com ele.


Bem, vida que segue, e no dia seguinte fui chamado para uma reunião na CBD com a comissão técnica. Todos estranhamos. Por que não reunir na concentração onde até Concílio Ecumênico já foi realizado? Me explicaram baixinho que era porque teria de ser longe dos jogadores. Mesmo assim não entendi, a Casa dos Padres é tão grande que trezentas podem lá se reunir sem que outros trezentos moradores fiquem sabendo. Não tive remédio, botei a gravata e o terno, e toquei para a CBD.

Antes de um detalhe, o Antônio do Passo já tinha pedido demissão quatro vezes. Mais ou menos assim como Bernard Shaw explicava seu vício de fumante, e como se defendia do mal: “Ora, é a coisa mais simples do mundo, já deixei de fumar, neste ano, pelo menos umas oitocentas vezes. É a coisa mais fácil do mundo”. Assim como as demissões do Passo. São facílimas.

E houve a reunião. Foi a coisa mais cínica que presenciei na minha vida. Quanta fraqueza, quanta covardia. Não tenho outra maneira de definir. Amanhã tratarei de um problema muito sério: o médico de futebol".

Por que saí 
(O Globo, 24/03/1970)


"Por que saí é muito fácil de explicar. O que eu tenho dificuldade de explicar é por que eu entrei. Isto eu jamais entendi e no dia em que fui convidado para dirigir a seleção brasileira perguntei à minha mulher Teresa e ela também não soube responder. Quando eu disse: “topo”, eu sabia que estava topando lutar por todas as coisas que eu vinha pregando há dez anos na imprensa e no rádio. Mas pensei ingenuamente: bem, eles mudaram de ideias ou concepções. Claro que estão de acordo comigo e, então, mãos à obra. Foi por isto que pensei que entrei.

Agora, por que saí? Eu estava atrapalhando muita gente. Vejam por exemplo: viajei 56 horas de avião a jato, pela Europa, credenciado pela CBD para arrumar jogos contra equipes europeias, o que julgava de maior importância. Falava com os homens dirigentes das Federações europeias, era muito bem recebido com caviar, champanha e morango com creme, mas o jogo não ficava resolvido.


Fazíamos todas as concessões possíveis e imagináveis e os homens se fechavam. Parecia aquela tal conferência do desarmamento que funciona desde 1908 em Genebra, e que cada dia inventam mais armas e matam mais. No dia seguinte, do papo oficial, do caviar e da champanha, indefectivelmente aparecia em nosso hotel um empresário. Ou o Borje Lantz, em nome da Federação Soviética, ou o senhor Duraincie, em nome das várias federações, ou o Ellas Zacour (homem de negócios ligado ao futebol que habitualmente empresariava jogos da seleção e de clubes) – que particularmente foi muito honesto, mas enfim todos eles garantiam que arrumariam os jogos. Menos os ingleses, italianos e alemães, que mandaram dizer de cara que não poderiam jogar. Os outros, todos, recusavam os jogos e mandavam os empresários no dia seguinte. Por que empresário no meio, se havia um entendimento direto entre as entidades? Cumpri fielmente as ordens do senhor Havelange, que me afirmou não aceitar entendimentos com empresários, que, por sinal, ele chamava muito propriamente de “atravessadores”. E o resultado todos sabem: não conseguimos nenhum jogo contra equipes europeias. Agora fico estarrecido em saber que estão programando vários jogos contra europeus. Há algo de podre no meio do troço.

Brasil x Paraguai, 1969.

Não me admiro em saber o que sei de sobra. A seleção brasileira jogava contra equipes nacionais (de clubes ou seleções estaduais) por vinte, trinta, ou quarenta milhões de cruzeiros velhos. Quando eu e o Russo assumimos, passamos a exigir 115 milhões por jogo e todos pagaram sem estrebuchar. Houve um até, de Belo Horizonte, que mandou o emissário Hélio Rolemberg, meu companheiro de imprensa, me oferecer trinta milhões de cruzeiros, por fora, para um jogo em Belo Horizonte. De onde sairiam esses trinta milhões por fora, nem Cristo sabe. Então respondi que jogaríamos em Belo Horizonte por 145 milhões de cruzeiros, isto é, os 115 da cota normal e os tais 30, que o homem (senhor Carlos Alberto Naves) arrumava por fora. O jogo foi feito e a CBD recebeu os 145 milhões, honestamente pagos pelos promotores do jogo.

Houve também o caso de um senhor de Campinas, que ofereceu cinquenta milhões de cruzeiros – também por fora – ao supervisor Russo para um jogo naquela cidade. O homem dizia que o resto, isto é, a cota da CBD, não era problema. Foi repelido, e o nosso supervisor sofreu séria campanha de intrigas e calúnias.


Na compra do material esportivo europeu, tratamos de adquirir o que aqui no Brasil não existia. Um fabricante, da indústria de nome “Puma”, nos ofereceu 15 mil dólares para que fosse nosso fornecedor. O material do outro fabricante era superior. Tenho até hoje em meu poder o oferecimento desse senhor, mas cumpre esclarecer que lá na Europa isto não é considerado corrupção, e sim, com dizem eles com toda a franqueza: “Comissão de agência”.
Mesmo a fábrica que nos forneceu o material, de excelente qualidade, deu-nos o seguinte desconto: 25% de desconto normal e mais 50% de desconto de agência. Então foi de 75% do preço de custo o preço do material que a CBD comprou. Lidamos com “gangsters” ou comerciantes espertos ou não sei o quê. Minha ingenuidade e inexperiência não dão para alcançar onde começa o espírito legal de comércio ou onde termina a desonestidade.

E as balizas para o campo do Itanhangá, que custariam 5 milhões de cruzeiros, e foram compradas no dia seguinte por um milhão e seiscentos? Isso era encrenca diária, e por isso não me admirei ser posto para fora. O que admira até hoje é que, sendo conhecido até hoje como um homem de luta, por escrito e assinado, tenha sido convidado para entrar na coisa. Pensei que “eles” tinham mudado, mas jamais poderia pensar que “eles” contavam comigo para comprar balizas por aquele preço".


Literatura na Arquibancada recomenda ainda a leitura de outra obra importante sobre o episódio de sua demissão. Trata-se do livro “Quem derrubou João Saldanha” (Livros de futebol.com, 2010), de Carlos Ferreira Vilarinho, um relato preciso e cuidadoso deste sombrio episódio do futebol brasileiro, demolindo inclusive a versão “oficial” a respeito da formação do time tricampeão mundial. O livro marcou os 40 anos dos bastidores destes fatos lamentáveis e teve enorme repercussão.

E para conhecer melhor ainda o pensamento de João Saldanha, vale a pena assistir ao programa Roda Viva, da TV Cultura. Um arquivo raro e espetacular. Imperdível. E em tempos de “formação” de uma nova seleção brasileira, uma frase de Saldanha neste programa é definitiva e serve de alerta para Mano Menezes e Cia: “Seleção não é futuro. Seleção é presente”.

                                          1ª parte

                                          2ª parte

                                          3ª parte

Um comentário:

  1. O livro "Quem derrubou João Saldanha" está à venda em http://migre.me/9yZa9

    ResponderExcluir