segunda-feira, 18 de junho de 2012

A conquista do Tri

Brasil x Itália, final da Copa de 1970 (21/06)

Em mais um artigo especial da série sobre o Brasil nas Copas, um momento extraordinário do futebol brasileiro: a conquista do tricampeonato mundial do México em 1970. No dia 21 de junho após a vitória espetacular por 4 a 1 contra a Itália o Brasil conquistava em definitivo a cobiçada Taça Jules Rimet.

Mas Literatura na Arquibancada não irá resgatar esse momento mágico do futebol mundial, pelas jogadas e gols geniais de Pelé, Rivelino, Gérson, Tostão e companhia dentro dos gramados mexicanos. Naquela conquista histórica houve um ingrediente, antes de a competição começar para valer que poderia ter mudado completamente o desfecho dessa conquista (ou não). Faltando apenas três meses para o início do Mundial o Brasil foi surpreendido com a demissão de seu técnico, João Saldanha (menos ele, como se verá em breve). Quem iria substituí-lo? Quem teria coragem de assumir aquele verdadeiro “pepino”? Apesar de todos os craques brasileiros disponíveis naquele momento, havia no ar o clima político tenso provocado pela ditadura ferrenha dos militares de plantão. Um presidente da República palpitando sobre o time...Não seria fácil para qualquer um que assumisse. Dino Sani era o nome, mas declinou. A missão então coube a Zagallo.


Mas não foi tão simples assim. Os bastidores que envolveram o “sim” de Zagallo só poderia virar livro, após o final daquela conquista histórica. Se não tivéssemos vencido a Copa de 1970, Zagallo teria escrito o mesmo livro? Para o Literatura na Arquibancada, após tudo o que aconteceu, antes e depois a conquista do Tri, é a verdade da importância que os livros tem nesses episódios. Sem eles, como ficaríamos sabendo detalhes tão importantes, inéditos, ditos pelos próprios personagens que viveram toda a situação?

O livro em questão é “Lições da Copa” (Bloch Editores), publicado um ano após a conquista do México. Um livro autobiográfico de Zagallo. Suas explicações de como tudo aconteceu. Pena que o livro seja um artigo raro encontrado (talvez) em sebos. Hoje, apresentamos a versão de Zagallo para episódios polêmicos envolvendo a formação da equipe que iria disputar o Mundial, e amanhã, a versão de quem perdeu o cargo, o técnico Saldanha.  

Introdução
Por Zagallo


Aquele momento em que Carlos Alberto levantou a Taça Jules Rimet era o da consagração. Eu o sentia com um júbilo enternecido, no mais íntimo da alma, por haver contribuído, nos três campeonatos, para que a Taça pudesse ficar no Brasil em definitivo. Mas aquele momento não era meu, era nosso. Todos o que queríamos comemorar. Eu não acreditava que estivesse vivendo uma realidade. Só desejava um instante de paz, para que pudesse pensar e sentir a verdade daquelas cenas então desdobradas.

Abraços, beijos, correrias. Enfim, uma alucinação coletiva. Perguntava-me: “Será isto autêntico ou será sonho?”. Somente desejava um canto; queria estar sozinho para reencontrar-me comigo mesmo. Um mexicano, que também invadiu o campo do estádio, colocou-me sobre os ombros e saiu correndo comigo ao amplo das pistas. À frente das arquibancadas, vinham-me ovações. Alguns brasileiros gritavam:
– Chora Zagalo, chora!”
Voltou-me a hipótese de estar vivendo um sonho, tanto sonhei com aquele momento. Jamais passaria pela minha cabeça a ideia de suportar tantas emoções sem chorar. Mas, então, a verdade é que não tinha nenhuma vontade de chorar.


Voltei ao centro do campo. Fui logo assediado pelos repórteres com aquelas clássicas perguntas: “Como conseguiu vencer a Copa? Qual a tática? Qual o melhor jogador?”. Essa curiosidade era parte da minha vida cotidiana. Já estava acostumado. E a minha tormenta continuava. “Será verdade? Estarei vivendo um sonho?”. No meio daquela multidão, não tinha como encontrar-me com a solidão, ou de possuir quem me respondesse: “Seria verdade tudo?”.

Aquilo que eu via como alimento da minha imaginação, para reviver as emoções de 58 e 62, era legítimo. Consegui livrar-me da multidão, indo para o vestiário. Fui o último a entrar. Ainda não tinha tido como abraçar os companheiros. Quando entrei, logo divisei o Pelé sentado ao lado de Brito; bebia água de uma bolsa térmica. Bati em seu ombro. O crioulo, que não me tinha visto, continuou a beber água. Talvez tivesse pensado que eu fosse algum chato em busca de autógrafos. Então, o Brito avisou ao Pelé:
– É o Zagallo, negão.
Virando-se rapidamente para mim, o negão estendeu os braços, deu-me um aperto e desandou a chorar. Permanecemos abraçados. Eu também não resisti. Chorei, pela primeira vez, depois de ter acariciado a Copa. Ainda chorei mais, quando Pelé, entre soluços, me disse uma frase que foi meu maior prêmio pela conquista do Tri:
– Zagallo, era preciso estarmos novamente juntos, para conquistarmos este Tri. Só você mesmo.


Comecei a sentir a realidade dos fatos. As palavras de Pelé tinham um significado muito grande para mim. Não vivia mais da imaginação. Sentei-me num canto do vestiário, querendo meditar. Mas vieram chamar-me; estava na hora de uma entrevista coletiva, prometida aos jornalistas estrangeiros. Saí. Dirigindo-me ao local improvisado para o encontro, fui desejando trancar-me em qualquer parte, para tentar a meditação. Então, já me sentia um tanto aliviado; tinha desabafado, apesar do meu estado emocional ainda possuir imensas reservas de choro.
Fui levado a uma sala em que pude dar a entrevista aos locutores de televisão. Ali conseguiria falar tranquilamente. Mantive-me à beira de um palco, à espera de que o técnico Valcareggi ultimasse as suas declarações. Enquanto esperava minha vez de falar, monologava: “Será que permanecerei calmo, para enfrentar esses homens?”.

Afinal de contas, eram mais de cem jornalistas estrangeiros. Eis quando tive o primeiro contato com o público. Subi ao palanque, cruzando com o técnico italiano, que muito gentilmente me cumprimentou pela vitória. Fui saudado de pé por todos os presentes. Contive-me; não deveria emocionar-me. Respondi a todos e, mais uma vez, a tranquilidade tomou conta de mim a ponto de ter podido corrigir a intérprete, que traduziu com sentido ambíguo uma de minhas respostas.

Saí escoltado pela polícia do estádio. Entrei no ônibus que nos levaria de volta à concentração. Ainda não seria dessa vez que poderia encontrar a tranquilidade daquele momento tão desejado. Eu o procurava tanto quanto o alcoólatra em busca de um trago. Todos queriam conversar. Como a viagem era rápida, pois nossa concentração estava bem próxima do estádio Asteca, a conversa imperou.

Comissão Técnica de 1970:
Parreira, Coutinho, Zagallo e Chirol.

Chegamos ao Centro de Capacitação Física. Uma enorme massa de torcedores, já à frente da concentração, procurava seus ídolos tricampeões do mundo. Suponho ter sido um dos primeiros a sair do ônibus. Disparei até meu quarto, numa corrida. Tranquei-me por dentro e, ainda meio atordoado, dirigi-me à mesinha da cabeceira de minha cama. Ali havia guardado uma garrafa de uísque. Enchi um copo. Queria diminuir a tensão nervosa que me acompanhava desde a véspera do jogo.

Não consegui ficar sozinho nem dois minutos. Mas estes foram suficientes para que volvesse o pensamento ao Brasil. Quanto gostaria de estar com os meus, com minha família! Afinal, precisava de alguém com quem pudesse comemorar em todas as minúcias a vitória plena. Alguém do meu afeto mais íntimo, ou um amigo do coração, que entendesse meus problemas, meus dissabores, minhas provações acumuladas desde que assumi a direção da equipe. Meu desejo foi atendido: bateram na porta.
– Zé, abra a porta. Sou eu, o Chirol.
Pressenti ser o Chirol, porque somente ele me trata por Zé. Amigo meu de muitos anos, fui de pronto abrir a porta. Afinal, não tinha tido oportunidade para abraçá-lo após a vitória. Entrou. Vendo-me com um copo na mão, foi logo dizendo:
– Me dá um copo desse troço que você está bebendo; eu também quero.
Servi-lhe uma dose e, então, tive a certeza de que realmente não estava sonhando. Espanquei minhas dúvidas sobre se aquilo tudo não passava de um sonho.
Perguntei ao Chirol:
– Chirol, diga-me se isto não é um sonho! Somos mesmo campeões?
– Que isto, Zé! Será que o título deu pra você ficar meio lelé da cuca?
– Não, Chirol, é que isso tudo é demais para mim. Se é verdade, Deus é muito bom para mim. Não mereço tanto.

Admildo Chirol carregado pelos jogadores da
seleção em treino antes da Copa.

Chirol não teve tempo de retrucar-me, pois, nesse momento, entrou seu irmão Achiles, convidado pela CBD, como jornalista, para fazer parte da delegação. Os dois ainda não se tinham visto desde o final do jogo decisivo. O Achiles desabafou:
– Meu irmão, somos campeões do mundo!
Os dois se abraçaram no mesmo choro. Eu estava presenciando aquela cena com minha grande reserva de emoções à procura de extravasamento. Os dois, chorando aos borbotões.

Olhei para os cantos em busca de algo em que me pudesse concentrar, desviando a vista daquele comovido flagrante. Não tendo onde deter a atenção, procurei um travesseiro a que me pudesse abraçar. Também não o encontrei. Até a camareira parecia-me contra mim.
Então, não me contive mais: tentei envolver a parede e chorei de braços estendidos. Chorei mesmo! Aquele meu choro não sei se foi de desabafo ou de nova emoção. Talvez chorasse por querer chorar, mesmo se não estivesse presenciando aquela cena. Só me contive quando um jogador famoso, cujo nome não importa, entrou no quarto e perguntou-me:
– Soube que há um negocinho, aí, para a gente tomar.
– Olhe, hoje, vale tudo. Pode tomar à vontade!
Dei-lhe a garrafa de uísque, ainda quase cheia. Daí em diante, todos se foram retirando do meu quarto. Somente permaneceu o Admildo Chirol, com quem comecei a relembrar os momentos ruins e bons do meu caminho para o Tri. Naquela ocasião, pude revelar-lhe alguma coisa que tinha guardado comigo. Uma coisa muito especial, pois até aquele momento me havia mantido calado. Não me pouparam um só instante, desde que me vi técnico da Seleção Brasileira. Então, comecei a narrar.

João Saldanha deixa o comando da seleção de 1970

Desde a demissão do técnico João Saldanha, ao anoitecer do dia 18 de março, a minha vida mudou. E mudou muito. Naquela noite mesmo começaram as especulações em torno do meu nome. Logo minha casa ficou sitiada pela gente da imprensa. Um repórter – o Washington Rodrigues, da Rádio Globo – veio àquela noite mesmo ao meu apartamento e ali fez plantão.
– Zagallo, você vai me desculpar, mas eu vou entrar e ficar aí, porque o técnico vai ser você. E somente vou sair quando tiver a confirmação do seu nome, pois quero saber dos seus planos como novo técnico da Seleção.

Até aquele momento, eu não sabia de nada. Mas, como o Washington é um dos muitos amigos que tenho na imprensa, deixei-o entrar. Fiquei em sua companhia, conversando. As horas foram passando. Nós dois permanecemos atentos aos noticiários das rádios e televisões, que não paravam de transmitir informações sobre os acontecimentos. Em certo instante, uma das emissoras noticiou que, juntamente com João Saldanha, toda a Comissão Técnica tinha sido demitida. Virei-me para o repórter presente, falando:
– Olhe, você entrou pelo cano. Se a Comissão Técnica vai demitir-se, inclusive o Chirol e o Lídio, eu também estou fora desta; todos sabem dos laços de minha amizade aos dois.
O Washington conformou-se; foi-se embora com a promessa de que lhe falaria, caso houvesse alguma novidade. Fui dormir e, no dia seguinte, logo pela manhã, o assédio da imprensa continuou. Atendi sempre a todos, dizendo-lhes o que poderia dizer.
– Vocês estão batendo em porta errada!

Já então, não tinha a menor esperança de ser convidado. O Botafogo, naquele dia, treinaria à tarde. Eu pensava comigo mesmo: “Bem, não vou ser mesmo convidado”. Saí para o treino do clube, no Forte São João (Urca). Pelo caminho, ouvi as rádios informarem, em edições extras, que o novo técnico da Seleção Brasileira seria Dino Sani, estando marcada sua apresentação aos jogadores no treino que se realizaria às 16 horas no Itanhangá. Naquele momento, senti-me um tanto decepcionado. Mas a vida passa; continuaria a ser como sou. Técnico novo, ainda poderei ter outras oportunidades.


A decepção de não ser escolhido tinha sua razão de ser: todos sabem que o profissional de futebol tem em mente a Copa do Mundo. Ali eu via por terra uma esperança que durou menos de vinte e quatro horas. Cheguei ao Forte São João, mudei de roupa e iniciei o treino. Eis quando o preparador físico Luiz Henrique, substituto de Chirol, por estar este servindo à Seleção, chamou-me à parte e disse-me:
– Zagallo, o Chirol e o Dr. Antônio do Passo querem falar contigo e estão te esperando num carro vermelho, lá na Praia Vermelha.

Realmente, não entendi o porquê. Para mim, o caso da escolha do novo técnico já estava resolvido com a indicação de Dino Sani. Nem mudei de roupa. Saí como estava, com o uniforme de treinamento. Entrei no meu carro e fui ao encontro deles. Para que não houvesse suspeita, pedi ao Luiz Henrique: “Diga aos jogadores que recebi um chamado do clube; o Toniato quer falar-me sobre a renovação do meu contrato”.

Cheguei à Praia Vermelha e fiquei num canto, esperando. O Dr. Antônio do Passo apareceu logo e todos vieram para o meu carro conversar. Não poderia deixar a viatura com a roupa que tinha sobre o corpo. Não demoraram dez minutos; os repórteres apareceram por todos os lados. Pegaram a gente no maior flagrante. O Dr. Antônio do Passo, desejoso de que nosso encontro fosse o mais sigiloso possível, chegou a irritar-se:
– Não batam fotografias, estamos apenas conversando. Zagallo, vamos sair daqui.

Zagallo e integrantes da comissão técnica de 1970

Arranquei. Passei por uma primeira rua, por uma segunda...O negócio ficou até engraçado: íamos à frente, mas éramos perseguidos pelos repórteres que iam dentro de uma camioneta. Perseguição igual só a daquele filme Bullitt. Em certo ponto, conseguimos nos livrar dos perseguidores. Então, pude conversar com o Dr. Antônio do Passo. Este perguntou-me como eu encararia um convite para ser o técnico da Seleção. A resposta estalou em minha boca:
– Não há nenhum problema. Não sou de intimidar-me com dificuldades. Aceito a luta.
Mas não deixei de acrescentar:
– É necessário que haja algumas novas convocações.
O Dr. Passo perguntou-me quais seriam, acrescentando:
– Novas convocações trarão problemas, pois imporão alterações em todo o esquema de trabalho.
Mas fui irredutível:
– Somente aceitarei o convite se tiver autorização para convocar novos jogadores, apesar de ter consciência do transtorno resultante.

Mais isto seria imprescindível; assim me parecia, como observador da Seleção. Em certas posições havia gente de sobra, como, por exemplo, no meio-de-campo. Aliás, para mim, dentre os já escolhidos, alguns não eram os melhores. Desejaria modificar um pouco. Além de haver meio-de-campo demais, eu achava que tínhamos deficiência de pontas-de-lança.
Outro problema consistia em que os jogadores já convocados para o meio-de-campo não se adaptariam ao sistema que eu queria adotar. Principalmente, para preencher o papel que o Clodoaldo tão bem desempenhou na Copa. Eu tinha um outro nome: Carlos Roberto, do Botafogo. Mas, como o problema consistia no excesso de jogadores, naquela posição, não se justificaria a sua convocação. Provocaria a crítica dos cronistas de futebol, que me atribuiriam favoritismo clubístico.

Carlos Roberto

Mas de uma coisa eu estava certo: se não obtivesse êxito, durante o treinamento, arcaria com as consequências; convocaria o Carlos Roberto. Tanto era este meu propósito que ele foi incluído na lista dos quarenta jogadores brasileiros inscritos na FIFA. Após o convite oficial do Dr. Passo, retornei à minha residência.

Quando cheguei em casa, parecia existir ali algum velório: carros de jornais, de televisão e de revistas se amontoavam. Muita gente à minha espera. Todos queriam saber quando eu iria apresentar-me à Seleção e quais seriam os novos convocados. Consegui dispersar quase todos os interpelantes, dizendo-lhes que somente me apresentaria no dia seguinte, pela manhã, e que, simultaneamente, com minha apresentação, divulgaria a relação final dos jogadores a serem experimentados na formação do selecionado. Jantei e fui para o Retiro dos Padres, onde seria levado à rapaziada até então escolhida. Ali comecei a sentir a mudança radical que meu destino teria.

Cheguei à concentração e tive a minha primeira grande alegria: a boa acolhida que os jogadores me deram. Fui apresentado a eles pelo presidente João Havelange e pelo Dr. Antônio do Passo. O ambiente que encontrei foi excelente. Todos já sabiam do meu passado, como bicampeão do mundo; alguns, como Pelé e Gérson, tinham sido meus colegas, como jogador. Outros já conheciam meu trabalho, pois haviam pertencido comigo à Seleção guanabarina que me teve como técnico: Marco Antônio, Brito e os jogadores do Botafogo (Jairzinho, Rogério, Paulo César e o próprio Gérson).

Gerson (2º agachado da esquerda para a direita), no Botafogo
campeão carioca de 1968.

Gérson conseguiu o seu primeiro título sob meu comando. Isto tudo me ajudou muito. Além do meu passado de jogador disciplinado (cheguei a ganhar o Belfort Duarte), consegui em pouco tempo, como técnico profissional, vários títulos para o meu clube, para o Botafogo. Assim, a minha folha de serviços dava para impor certo respeito e razoável tranquilidade aos jogadores. Depois, soube que, durante toda a crise que culminou com a saída do Saldanha, vários jogadores, liderados pelo Gérson, Jairzinho e Paulo César, estavam fazendo força e torcendo para que o técnico escolhido fosse eu.

Nessa noite, retornando a minha casa, dediquei-me ao estudo da escolha dos novos jogadores que deveriam ser convocados para fazer testes na Seleção. Sentia que esta não estava bem; precisava de algo. Fiz as novas convocações. Félix, Leônidas, Roberto, Dario e Arílson. Sei que isto criou certo receio ao pessoal já concentrado, principalmente ao Arílson. Aliás, este último era um dos nomes certos que tinha desejo de incluir na Seleção. Minha ideia inicial era ter Paulo César com titular, com a mesma função que exercia no time do Botafogo, e o Arílson como reserva, pois joga no Flamengo com o mesmo estilo. O Edu também seria incluído, assim como uma alternativa tática, caso o esquema não funcionasse em hora decisiva.

Não sou técnico montado em apenas um esquema tático, como supõe muita gente. Tudo estava sendo pensado, inclusive em face da necessidade de jogar-se totalmente diferente. Assim aconteceu no México. Mas o Arílson não se conduziu bem, durante o treinamento. Dei-lhe oportunidades, mas sempre esteve acanhado. Creio que todos observaram isto. No treinamento, esse jogador foi muito analisado por mim; manteve-se muito discreto. Não iria coloca-lo para jogar; sabia que o poderia queimar, naquele momento em que Paulo César era o titular. Teria que o convocar para a suplência.

Da esquerda para a direita: Carlos Alberto, Gérson, Arilson,
Félix, Fontana e Piazza, na concentração da seleção
brasileira, em 1970.
Crédito: Arquivo do Estado de SP

Segundo meu esquema, ninguém poderia substituir Paulo César, até então, salvo no caso de contundir-se. Acho que fiz bem em convocar o Arílson, jogador que estava suspenso por um ano, pelo Tribunal de Justiça, em consequência de briga num jogo do Flamengo, lá em Vitória. Com a sua convocação, a pena que sofria foi relaxada. Assim, beneficiei-o e ao Flamengo.

Convoquei Leônidas porque era um elemento que tinha demonstrado ser, dentro do Botafogo, um jogador excelente. Admiti a remoção médica do seu problema, pois sempre o vi jogando no Botafogo com a lesão que possuía. Não entendo de Medicina, nem tinha conversado com o Dr. Lídio Toledo, antes de convocá-lo. Apenas comuniquei ao Dr. Passo que queria o Leônidas convocado. Mas o jogador exemplar foi cortado pelo médico. O Dr. Lídio conversou comigo e disse-me que o Leônidas tinha problema, não poderia seguir. A palavra do Lídio, para mim, possuía força de veredicto.

A convocação do Leônidas também merece uma explicação: estava observando certa deficiência na quarta zaga. Fontana e Joel não iam bem. A convocação do Leônidas poderia permitir o aumento da produção dos dois quartos-zagueiros convocados. Meu raciocínio procedia, tanto que o Leônidas foi cortado, logo em 31 de março, e eu não convoquei mais ninguém. Embora isto, ainda não me tinha convencido quanto às atuações dos dois que restaram. Por isto, prevendo problemas de contusão, no decorrer de um treino, coloquei o Piazza de quarto-zagueiro. Gostei do seu desempenho. Mantive-o no treino seguinte. Depois, submeti-o a um teste decisivo no jogo realizado no Estádio Mario Filho contra a Áustria. Ali, Piazza ganhou a posição em caráter definitivo.

Não é verdade que tenha convocado o Dario por influência da imprensa ou porque o Presidente da República o admirasse. Nada disso, tanto que ele não foi titular, nem figurou na regra três, o que aconteceria se eu estivesse querendo agradar a uma classe ou a uma altíssima autoridade. O certo é que meu apreço ao Dario vem de muito tempo. Quando assumi a direção técnica do Botafogo, em 1967, registrei dois nomes de jogadores a serem contratados: Dario e Dionísio. Eles eram meninos, naquela época. Em 1966, quando técnico da equipe juvenil do Botafogo, vi no Dario, dentro da equipe do Campo Grande, e no Dionísio, na equipe do Flamengo, dois jogadores de raça, apesar de estarem ambos apenas começando e de não terem cartaz. Meu vaticínio não foi errado; em 1970, ambos poderiam estar na Seleção Brasileira. Dionísio foi menos feliz, por encontrar-se lesionado.

Presidente Médici com a taça Jules Rimet

Dario e Roberto seriam, sem dúvida, os substitutos eventuais de Pelé e Tostão; Dario, com seu estilo rompedor, e Roberto com mais técnica, mais toque de bola e a mesma velocidade. No meu entender, não podemos levar à disputa de uma Copa do Mundo somente jogadores de meio-de-campo. Caso Pelé e Tostão se machucassem ao mesmo tempo, o que não seria impossível, quem poderia ser lançado como Zé Carlos e Dirceu?

A prova da procedência do meu pensamento esteve no jogo contra a Romênia; então, não jogaram Rivelino nem Gérson. Poderiam estar de fora Tostão e Pelé. Daí o corte dos dois homens do meio-de-campo, Zé Carlos e Dirceu Lopes, substituídos por dois homens de área. Caso houvesse qualquer novo problema com a vista de Tostão, também possuiríamos dois reservas. Eis porque tive que sacrificar dois homens excelentes, durante a disputa da Copa. Se eu necessitasse mudar o estilo de jogo da Seleção, teria como: no banco, estariam Roberto e Dario.

Félix, o titular de Zagallo.

Muitos estranharam a reconvocação do Félix, arqueiro do Fluminense. Reconvoquei-o, não por considerar Ado e Leão desprezíveis, mas por julgá-los imaturos. A entrada de Félix, para mim, era como uma espécie de presença contra a tremedeira. Os treinos foram se sucedendo e a posição de Félix foi se firmando, como titular absoluto. Realmente, sua atuação na Copa foi de grande importância para a nossa Seleção.

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