sexta-feira, 15 de junho de 2012

Especial Copas (6): "1962 - Bicampeões Mundiais"


Há 52 anos o Brasil conquistava no Chile o bicampeonato mundial de futebol. E é sobre ele o sexto artigo da série especial sobre o Brasil nas Copas. E não houve até hoje, mesmo depois de conquistarmos outras quatro copas do mundo, um livro feito sobre uma conquista mundial como o de Mario Filho, em 1962.

“Copa do Mundo, 62” não é um livro com súmulas e resumos dos seis jogos feitos pela seleção brasileira. Não fala diretamente sobre a vitória contra o México por 2 a 0, na estreia; ou do empate em 0 a 0 contra a Tchecoslováquia logo a seguir; nem da sofrida vitória sobre a Espanha, por 2 a 1; dos 3 a 1, contra a Inglaterra; da goleada por 4 a 2 contra os donos da casa, o Chile, nas semifinais; e nem na final, contra a Tchecoslováquia, quando vencemos por 3 a 1 e conquistamos a nossa segunda Copa do Mundo.


A obra de Mario Filho é quase um romance, construído com personagens reais que participaram de alguma forma desta conquista. Do massagista aos jogadores. Dos dirigentes a juízes e bandeirinhas. De jornalistas a torcedores. Descreve cada lance disputado em cada partida da seleção dentro de algum contexto repleto de emoção e com uma prosa que só mesmo Mario Filho é capaz.

E tudo isso, sem ganhar um centavo pela publicação da “Edições O Cruzeiro”, porque Mario Filho escreveu a obra como uma homenagem aos bicampeões preferindo abrir mão de seus “direitos autorais”. E como o livro vendeu. Infelizmente, a obra não recebeu uma reedição e só pode ser encontrada (dificilmente) em algum sebo do país. Um documento histórico não somente pela qualidade do texto do autor, mas também pelo fato de que apenas quatro anos depois, Mario Filho morreria.


Literatura na Arquibancada resgata um capítulo de “Copa do Mundo, 62” onde Mario Filho registra com o seu olhar cada segundo ocorrido após o apito final do jogo final contra os tchecos. Instantes de pura magia dificilmente registrados em futuras conquistas brasileiras. Flagrantes de quem estava lá, atento a cada gesto e movimento dos bicampeões mundiais.

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“Gilmar viu Latychev botar a bola debaixo do braço. Então deu um salto levantando os braços, dobrando as pernas, para trás, abrindo a boca para o grito. Gritou mostrando os dentes todos como se risse, como se em vez de gritar estivesse rindo. Era o momento dele, o momento da libertação. E com a vitória. Com a maior vitória da vida dele.


O que lhe passava pela cabeça passava tão depressa, e eram tantas coisas, que Gilmar não pensava, sentia apenas. Sentia a glória nos dedos, que o acariciavam, de brisa leve. Mas sentia, mais do que a glória, a justiça. Para ele e para os outros. Ninguém lhe perguntaria mais como fora aquele gol da Espanha, aquele gol da Inglaterra, aquele gol do Chile. E ele não se magoaria mais, como se magoara.

Só havia lugar no coração dele para a alegria, para aquela alegria que lhe dava asas e que o fazia subir e pairar no espaço e não ver nada senão o céu, muito azul e limpo.



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Mário Américo saiu correndo, os joelhos quase lhe batendo no peito. Lá estava o juiz russo, cujo nome não guardara, e que para ele devia ter um of no fim, e que estava com a bola debaixo do braço e que a ia levar. Era preciso tomar a bola do juiz. Mário Américo sentia a maciez da grama, num toque leve. Pisava-a de metro em metro. Tocava-a apenas, aproximando-se cada vez mais do juiz russo que não estava mais de costas, que agora estava de frente, todo de preto, exceto pela gola branca da blusa, e que tinha as pernas abrindo num vê invertido dos joelhos para baixo.

Mário Américo

Latychev não pode dar o primeiro passo. Tinha levantado um pé, marcialmente, quando Mário Américo enfiou os cinco dedos, aliás, quatro, porque o polegar era curto, talvez três, porque o dedo mínimo era uma espécie de filho ou irmão mais moço, na bola, bem redonda e amarela, que o juiz russo levava na asa do braço esquerdo. A bola caiu, quicando, e Mário Américo já a segurava e fugia com ela.

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Aimoré não sabia a quem abraçar primeiro nem depois. Tinha de abraçar todos. Estreitou Djalma Santos de encontro ao peito. Correu para Mauro. Os jogadores se procuravam para se abraçarem e beijarem. Foi quando Aimoré viu Zagalo, a formiguinha, vindo do outro lado e chorando. Zagalo não chorava apenas derramando lágrimas. Vinha desarvorado, cambaleando, como uma criança perdida, que bota a boca no mundo, entregue ao desespero. E aquilo acabou com as resistências de Aimoré. Até então tinha aguentado, um pouco tonto, não se dando conta da realidade.


Via-a agora no rosto decomposto de Zagalo, no choro convulsivo que o sacudia. Aimoré abriu os braços e foi para Zagalo, chorando também. Aquela era a única linguagem. Que se podia dizer? Tudo o que se dissesse não teria sentido. O que tinha sentido eram os soluços de Zagalo, eram os soluços dele, Aimoré.

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Carlos Lemos ainda começara a chorar. Tinha uma coisa a fazer, de enorme importância. Precisava garantir, para ele, a camisa seis de Nilton Santos. Daí a frieza de Carlos Lemos a gritar por Nilton Santos. Chamava-o, e bem o sentia, como se o Brasil não fosse ainda bicampeão do mundo, como se tivesse apenas de dar-lhe um recado ou lembrar-lhe alguma coisa.
– Nilton Santos! Nilton Santos! – Carlos Lemos recebia, no peito magro, as batidas sucessivas da máquina fotográfica que trazia a tiracolo. Quando a máquina fotográfica se inclinava e batia de lado, de cima para baixo, no peito de Carlos Lemos, doía.
– Nilton Santos! Nilton Santos!
Nilton Santos despregou-se dos braços de Didi, estava com os olhos inchados, as lágrimas brilhando. As mãos de Carlos Lemos o puxavam pelo braço, com força.
– Quero a tua camisa, Mestre, a tua camisa, a tua camisa é minha, quero sair de número seis às costas.
Nilton Santos sorriu um sorriso tímido e fez que sim com a cabeça. Garantida a camisa número seis, Carlos Lemos pode chorar.

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Pelé corria para Amarildo. Esquecera-se que estava com a distensão, que não devia correr, que tinha de andar apenas, e devagar. Mas precisava abraçar e beijar Amarildo. O Brasil devia muito a Amarildo, mas ele devia mais. Ele devia a Amarildo a tranquilidade que ia ter. Se não fosse Amarildo ele não se perdoaria nunca o ter ficado de fora. Não fora culpa dele, mas, se o Brasil perdesse? Se o Brasil perdesse ele ficaria remoendo a derrota pela vida afora, como se tivesse faltado a um compromisso.

Amarildo o viu, bem que o viu porque não quis saber de mais ninguém e veio para ele, chorando e rindo, de braços abertos. Pelé apertou Amarildo bem apertado, beijou-o no rosto e bebeu-lhe as lágrimas. De quem seriam aquelas lágrimas? Dele ou de Amarildo. Ele chorava também e tinha orgulho porque chorava, porque abraçava Amarildo e Amarildo o abraçava.

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Foram os jogadores e as jogadoras de vôlei os primeiros a entrar em campo. Estavam ao lado da cadeira de rodas de Wilton Magalhães, à espera que Latychev desse o último apito.
Latychev parou o jogo e botou a bola debaixo do braço a menos de dez metros dos pentacampeões sul-americanos de vôlei. Foi o sinal para que os macacões azuis aparecessem subitamente no campo, aos pulos, para rodar, rapazes e moças, nos braços dos jogadores. Eu não queria perder um detalhe. Era impossível ver tudo ao mesmo tempo. O gramado se transformara subitamente numa praça em dia de festa.


Os jogadores corriam, de um lado para o outro, sem saber onde ir, presos e livres. Sabiam que tinham de ficar no campo mas queriam sentir-se livres e corriam, e pulavam, e iam e voltavam.
Belini não sabia como abraçar Mauro. Não era de grandes efusões. Mauro também não era. Só no campo, durante o jogo, é que Belini se sentia inteiramente Belini. Quando enchia o pé numa bola para mandá-la além do meio de campo, quando rodava a cabeça para bater na bola com a violência de um chute.

Quem ia levantar a Copa era Mauro, como ele quatro anos antes atrás. Mauro tinha tudo para levantar a Copa nas duas mãos, bem acima da cabeça e imobilizar-se, um momento, como uma estátua. Se eu chorar Mauro pode pensar que eu queria estar no lugar dele. Tenho de ficar firme. Se eu não chorar Mauro pode pensar que estou magoado.

Diante de Mauro, Belini sentiu os olhos ardendo. Mauro sorria. Parecia que Mauro compreendia tudo. Belini foi para os braços de Mauro.
- Capitão – disse Mauro encostando o rosto no rosto de Belini.
- Capitão - respondeu Belini com a voz trêmula.

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Sandro Moreira se sentia um pouco Scarlet O’Hara. Pensara em Scarlet O’Hara quando vira Ashley e fora andando ao encontro dele. Eu sou Ashley, quis corrigir Sandro Moreira, e Nilton Santos é Scarlet.

Nilton Santos o vira e vinha para ele, sem apressar o passo. Recebendo um abraço e depois continuando, sempre na direção dele. Sandro Moreira não tirava os olhos de Nilton Santos. Quem era Scarlet, quem era Ashely? Por que pensei em Scarlet? Pensei em Scarlet porque foi assim. Somos dois amigos e vamos um de encontro ao outro num grande momento.
Sandro Moreira sufocou um soluço, não queria chorar a tantos metros de Nilton Santos. Quando eu abraçar Nilton Santos, choro. Marcava um encontro com as lágrimas. Mas as lágrimas enchiam-lhe os olhos, e os soluços voltavam. Sandro Moreira apressou o passo, quase correu. Não corria com medo de não poder correr, de parar soluçando.

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Alfredo e Sérgio, os filhos de Alfredo Carvalho Machado, viam o pai derramando champagne na cabeça dos jogadores. Os dois tinham o mesmo pensamento: correr para abraçar o pai que os tinha mandado buscar. Cada um segurava um braço da mãe e que estava de pé e chorava. Eles também choravam. Tinham visto o Brasil ser campeão do mundo. Era uma coisa que não esqueceriam jamais. Choravam porque o Brasil era bicampeão do mundo. Se estivessem no Rio haviam de chorar também. Quem não estava chorando, no Brasil, e rindo e pulando? Mas não choravam só porque o Brasil era bicampeão. Choravam também porque o pai os mandara buscar, porque eles estavam ali e viam o pai saltando, derramando champagne na cabeça dos jogadores, um pouco desajeitado, porque era alto, muito alto e não movimentava as pernas compridas com facilidade.

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Eu estou chorando, Geraldo Romualdo procurava arranjar uma explicação, porque dona Célia e Mario Filho estão chorando. Quando me levantei para cumprimentar dona Célia, para abraçar Mario Filho, não estava chorando. Dona Célia chorava menos que Mario Filho, agarrada ao braço dele, se apoiando nele. Quem chorava mesmo era Mario Filho, de lenço na mão, enxugando os olhos, sem nenhuma vergonha de chorar, pelo contrário, de peito estufado, como se o certo, o próprio, a única coisa que tinha a fazer era chorar.

Mario Filho

Por isso não aguentei. Nem quando Paes Lemes quase me triturou num abraço e me beijou, eu chorei. Mas vendo Mario Filho pedir outro lenço a dona Célia, porque o lenço dele já não enxugava mais nada, não aguentei mais. Se ficar aqui vou chorar feito uma criança. O melhor é ir para o campo. Lá ninguém me vê, eu sou um no meio de centenas de brasileiros e posso correr, posso andar de um lado para o outro, todo mundo só olhando para os jogadores. Lá embaixo chorarei à vontade e talvez deixe de chorar.

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Quando o jogo acabou, Zózimo saiu correndo sem destino. Fugia não sabia de que, procurava não sabia o que. Vendo Mário Américo, Zózimo se lembrou da bola. A bola, a bola, vou tomar a bola do juiz. Depois dou a bola a Mário Américo.

Zózimo não tomou a bola do juiz, tomou a bola do bandeirinha, mais amarela, mais nova, sem um arranhão. O bandeirinha olhou para ele espantado e Zózimo, olhando a bola nova, fugiu para o meio do campo. Estava tonto, não tinha noção do que fazia. Sabia apenas que precisava fazer alguma coisa, mais importante do que tudo, e não se lembrava. Era porque se lembrava que poucos o queriam no scratch, que jogara sentindo olhos quase hostis que lhe esquadrinhavam cada jogada. Por isso não lera um jornal, não queria ler nenhum jornal. Nem agora nem depois, quando talvez só tivesse elogios. Mas não queria esses elogios de depois.


Foi quando a Banda da Escola Militar do Chile apareceu no portão monumental das arquibancadas. Então Zózimo se lembrou vagamente do que precisava fazer. Primeiro preciso ficar junto dos companheiros. O meu lugar é junto deles. A cerimônia vai começar.

Zózimo correu de novo, com a cabeça mais clara. Não, não era aquilo o que precisava fazer. O que precisava fazer, Zózimo lembrava-se bem, era a agradecer a Deus.

E Zózimo levantou os braços para o céu, olhando para cima, o céu estava azul, antes de dobrar os joelhos. Dobrou os joelhos lentamente, caindo como se cai num genuflexório, os braços mais altos, mais altos, o olhar vendo mais o céu. E aí começou a chorar e dizer alto, bem alto:
- Graças, graças, meu Deus, graças minha Nossa Senhora Aparecida”.


Para saber mais sobre Mario Filho, acessar: http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Rodrigues_Filho

Um comentário:

  1. O Mário Filho é tão perfeito em suas crônicas esportivas quanto seu irmão, Nelson Rodrigues. Pena os textos dele serem tão raros.

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