quarta-feira, 13 de junho de 2012

Especial Copas (4): "30 anos Copa de 1982"


Na série especial sobre o Brasil nas Copas do Mundo, Literatura na Arquibancada resgata a partir de hoje a participação da seleção brasileira na Copa de 1982, uma seleção que, mesmo derrotada, entrou definitivamente para a história do futebol mundial.

Não há caso semelhante com o de outras seleções que já tivemos. A Copa de 1982 para o Brasil foi um “trauma”, estudado e pesquisado, em livros, teses e reportagens, por dezenas de “especialistas” que tentam até hoje explicar os motivos para que aquela seleção fantástica não vencesse a Copa.


Há 32 anos, o Brasil começava a trilhar seus primeiros passos naquele fatídico mundial. E se ouve alguém, entre os tantos estudos e pesquisas produzidos até hoje, nada melhor do que resgatar o olhar de quem entendia muito sobre futebol e que jamais se deixava influenciar pela euforia do momento. João Saldanha, técnico que formou a base da seleção brasileira tricampeã mundial de 1970 - aquela seleção também repleta de craques -, virou jornalista após o afastamento do cargo de treinador. E foi nessa atividade que, na Copa de 1982, ele escreveu diariamente suas análises sobre a participação brasileira naquele mundial. O trauma da bola – A copa de 82 por João Saldanha (Cosac Naify, 2002) é um quase diário do que Saldanha viu sobre erros e acertos cometidos pela seleção de Telê Santana e companhia.


Apenas como “introdução” ao que Saldanha relatou naquele início de trajetória na Copa de 1982, Literatura na Arquibancada resgata inicialmente da biografia de Telê Santana, o técnico da seleção no mundial, a maneira como chegamos para a Copa e o contexto daquele jogo inicial contra a União Soviética.

A estreia: Brasil x União Soviética, Copa de 1982:

“Enfim o momento esperado! Telê Santana chega à Espanha para disputar sua primeira Copa do Mundo como treinador da seleção brasileira.

Por mais tranquilo que pudesse estar, a expectativa pela estreia da equipe era grande. Os primeiros adversários seriam os soviéticos, time que vencera o Brasil em pleno Maracanã, por 2 a 1, no segundo amistoso da seleção dirigido por Telê. A ansiedade dos jogadores também era enorme; dos 22 convocados, catorze participavam pela primeira vez do Mundial.


Para condicionar melhor os jogadores brasileiros ao horário das partidas da primeira fase da Copa, o treinador decidiu promover os últimos treinos à noite. Para manter-se distante do assédio da imprensa internacional e, principalmente, dos torcedores, a seleção ficou concentrada numa antiga fortaleza romana, chamada mais tarde pelos mouros de Parador de Carmona. Entrevistas, somente durante o dia, em “janelas” que não poderiam exceder trinta minutos. Telê só falaria aos jornalistas nesse espaço de tempo. A regra valia para a imprensa brasileira e internacional.

O técnico Zezé Moreira e Jairo dos Santos eram os “olheiros” do treinador durante a Copa. Eles foram incumbidos de acompanhar os jogos das outras seleções. Com a escolha de Zezé Moreira, Telê quis demonstrar a gratidão a um velho amigo e também responsável pelo seu lançamento como jogador profissional no Fluminense em 1951.


Ao longo dos dois anos de preparação do selecionado, a definição de quem seria o camisa 9 titular tinha sido, talvez, a maior dor de cabeça para o treinador. A dois dias do início da Copa, o mesmo fantasma voltaria a perturbá-lo. Roberto Dinamite não tinha sido incluído na lista dos 22 convocados mas, Careca, o jovem escolhido por Telê, tinha se contundido seriamente, obrigando o técnico a chamar Roberto para substituí-lo. Careca sofrera uma distensão muscular séria e foi o próprio Telê quem anunciou o corte do centroavante em uma coletiva:

‘Infelizmente não houve esperanças para o Careca. O doutor Neylor Lasmar examinou-o esta manhã novamente e chegou À conclusão de que dificilmente ele teria condições de se recuperar a tempo de disputar a Copa do Mundo. Assim, decidimos cortá-lo e chamar o Roberto, do Vasco da Gama, uma vez que seu nome já estava na lista dos 40’.

Depois de várias experiências e testes em diversas posições, o Brasil finalmente tinha sua equipe definida para a estreia da Copa do Mundo da Espanha: Valdir Peres; Leandro, Oscar, Luizinho e Júnior; Falcão, Sócrates e Zico; Dirceu, Serginho e Éder.

Seleção Brasileira na estreia contra a União Soviética.

A grande surpresa fora, sem dúvida, o nome de Dirceu na ponta-direita. Paulo Isidoro, o jogador mais testado na posição, ficaria na reserva. Na concepção do treinador, Dirceu era o jogador que mais se encaixava na sua definição de versátil, sem falar que sua escalação também poderia causar surpresa aos outros treinadores, acostumados a ver Paulo Isidoro na posição.

No dia 14 de junho de 1982, o Brasil inteiro parou para acompanhar a estreia da seleção na Copa do Mundo da Espanha. Eram cerca de 120 milhões de torcedores angustiados na frente de televisões e rádios, em bares, restaurantes ou em qualquer lugar onde se pudesse acompanhar esse primeiro jogo. Até mesmo o presidente da República, general João Batista Figueiredo, anunciara que naquela segunda-feira não despacharia para poder assistir ao jogo do Brasil.

Do time que sairia jogando, apenas Zico, Dirceu e Oscar já tinham sido titulares da seleção verde e amarela em um Mundial. Até mesmo Telê era estreante. A reação dos outros oito jogadores era uma incógnita.

Para contrabalançar, o forte calor de Sevilha poderia ser um importante aliado do time brasileiro contra os soviéticos. Não fora à toa que Telê fizera questão de chegar a Sevilha uma semana antes da partida, para que a seleção pudesse se adaptar ao clima. Os soviéticos tinham achado melhor chegar um dia antes.

Mas não foi o fuso horário nem o clima; foi o peso da estreia que acabou influenciando negativamente o time brasileiro. Aos 34 minutos do primeiro tempo, um daqueles 8 estreantes entregou o ouro aos soviéticos. O atacante soviético Bal chutou de fora da área e o goleiro Valdir Peres tomou um autêntico “frango”.

Era de se imaginar que o Brasil se desestruturaria, mas, se até o final da primeira etapa não empatara, também não tomaria outro gol, como a torcida chegou a temer.


Na segunda etapa, o Brasil voltou mais motivado. O estreante Dirceu não agradou e em seu lugar Telê colocou Paulo Isidoro. Com o passar do tempo, os soviéticos começaram a demonstrar sinais evidentes de cansaço, por causa do forte calor que fazia em Sevilha. Aos vinte minutos do segundo tempo, Sócrates empata a partida. O empate já parecia um ótimo resultado, ainda mais depois de dois pênaltis cometidos pelo zagueiro brasileiro Luizinho e não assinalados pelo árbitro espanhol, Lamo Castillo. Faltando apenas dois minutos para o jogo acabar, o ponta-esquerda Éder salvou a pátria brasileira e decretou a virada do placar: Brasil 2 a 1. Não foi uma boa estreia, porém, o mais importante era a vitória. Teoricamente, essa partida era decisiva para a classificação, pois os outros dois adversários do grupo eram considerados mais fracos”.

Na orelha do livro “O trauma da bola – A copa de 82 por João Saldanha” escrita por Ruy Castro, o resumo de uma obra fundamental para compreendermos e, talvez, encontrarmos algumas respostas para o fracasso brasileiro naquele mundial.

Orelha
Por Ruy Castro


“O erro não foi não ganhar. O erro foi o de ganhar antes. Não se ganha Copa do Mundo com musiquinha ou batendo bumbo”, escreveu João Saldanha, num dos candentes artigos que compõem este livro. Na Copa da Espanha, em 1982, tivemos musiquinha (“Voa, canarinho, voa”) e uma nação inteira batendo o bumbo. Mas tínhamos também meio time de supercraques – Zico, Falcão, Sócrates, Cerezo e Júnior – e vários coadjuvantes de respeito. O treinador era Telê Santana. E, pelo que víamos na TV, não havia adversário que assustasse.

Nenhuma outra Seleção Brasileira conheceu tanto o amor de um povo como naquelas três semanas de 1982. Talvez por isso a eliminação para a Itália tenha sido tão dolorosa. Mas a culpa não foi dos torcedores no Brasil. Não foram eles que escalaram o time, que exageraram nos treinamentos físicos (esgotando os jogadores antes das partidas) ou que não souberam resolver os problemas dentro de campo.


Em sua coluna diária durante a Copa, no Jornal do Brasil, Saldanha esforçou-se para não deixar que sua euforia de brasileiro lhe turvasse a lucidez. Ele via todos esses erros e os apontava – enquanto iam sendo cometidos. O trauma da bola é um testemunho sobre um momento crucial do futebol brasileiro e mundial – porque, para muitos, a derrota do Brasil naquela Copa decretou o fim do futebol-arte. E o estilo deste livro é puro Saldanha: a escrita direta e clara, com o mesmo humor e charme de sua maneira de falar, além das constantes referências ao mundo extrafutebol, dando ao leitor, de quebra, um instigante panorama de sua época”.

Um dia após a estreia sofrida da seleção brasileira contra a União Soviética, o Jornal do Brasil publicou o artigo escrito por João Saldanha.  Um olhar crítico, como sempre, sobre a vitória por 2 a 1.

Experiência muito cara
Por João Saldanha


“Sofreu a torcida brasileira. A catastrófica entrada de Dirceu levou nosso time a uma total insegurança. Confesso que não acreditei nas informações dos repórteres quando voltaram do campo de treino. Todos diziam: vai jogar Dirceu. E eu não acreditava. Claro, então Isidoro joga quase dois anos de efetivo e sai para entrar em seu lugar um jogador vindo de longe, que não andava bem em seu time de origem e que jamais foi um homem que soubesse jogar do lado direito do campo?

Mas era verdade. Uma verdade que simbolizava duas coisas. A primeira, uma teimosia siderúrgica do treinador do time. A segunda, a desarrumação total do sistema de ataque. Sou obrigado a declarar que entrou em campo o pior ataque que uma Seleção Brasileira apresentou desde a primeira Copa do Mundo de 30.

Nosso time se descontrolou e ninguém acertava. Apenas Júnior com sua elevada categoria de craque, que acreditava em sua capacidade, estava bem. Os demais, péssimos. E sobretudo o que ficou patente foi a insegurança que se apoderou da equipe. Claro, pois se um jogador efetivo sai depois de dois anos de boas partidas, isto poderia acontecer com qualquer um. Nosso time bisonhamente tentava apenas uma jogada alta sobre a área, justamente em cima de um altíssimo e excelente goleiro. E tome bola alta e mais bola alta.

                                          Compacto do jogo Brasil x União Soviética

O time soviético entrava visivelmente para não perder. Mesmo quando se avantajou com o gol incrível de Bal, ficou temeroso e passou a jogar contra o relógio. O árbitro nos ajudou nos dois pênaltis de Luizinho. Não sei se isto alteraria o jogo. O time soviético, depois de fazer seu gol inesperado, passou a se defender. Mesmo jogando mal, atacávamos. Acontece que Serginho estava muito isolado. E Dirceu parecia alguém sem faro procurando sentir o jogo.

A entrada de Paulo Isidoro fez mudar tudo. Espero que isto tenha servido de lição. O neguinho, além de jogar muito bem, restabeleceu a confiança nos demais. Sócrates, por exemplo, depois de um primeiro tempo sofrível, passou a mandar no jogo. Zico, que queria fazer coisas, estava mal e cresceu. Serginho, isolado do primeiro tempo, encontrou gente na área.


Foi tão gritante a melhor atuação do time com a entrada de Isidoro que espero que Dirceu não seja mais efetivo. Ouso também esperar que apenas entre Cerezo no time, em seu lugar de sempre, e nada mais aconteça.

Passamos mal e poderíamos ter perdido. Os erros do árbitro foram a nosso favor. Creio que não deveremos contar com este fator e espero que depois deste susto nosso time esteja definido. Definido com onze titulares. O tal negócio de que todos são efetivos e todos reservas é falso. Com esta vitória penso que ganharemos o grupo. Mas cometemos erros incrivelmente primários. A experiência foi muito cara. Experiência se faz em come-dorme, jamais em Seleção”.

Sobre João Saldanha:

Nascido em Alegre (RS), em 1917, era considerado patrimônio do Rio. Foi treinador bissexto do Botafogo (campeão carioca de 1957) e da Seleção Brasileira (nas eliminatórias da Copa de 70), e teve longa atuação como comentarista esportivo em rádio, TV e jornal. Seu livro Subterrâneos do futebol (Tempo Brasileiro, 1963) é um clássico do gênero. Morreu em 1990, na Itália, durante a cobertura da 14ª Copa do Mundo – a 12ª que ele assistia.

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