terça-feira, 5 de junho de 2012

Especial Copas (2): "Fatalidade, profecia e malandragem na Copa de 1962



No segundo artigo especial sobre a história das participações brasileiras em Copas do Mundo, um jogo pra lá de especial. Há 53 anos o Brasil conquistava, no Chile, o bicampeonato mundial, mas essa história poderia ter sido bem diferente caso, uma fatalidade, uma profecia e uma malandragem não tivessem existido. A fatalidade, com a contusão de nada menos do rei do futebol, Pelé, no segundo jogo brasileiro. A profecia, em torno do seu substituto, o jovem Amarildo, apelidado pelo genial Nelson Rodrigues de “Possesso”. E a malandragem, do craque Nilton Santos, a Enciclopédia do Futebol, que naquela Copa de 1962 contava com 37 anos.


Literatura na Arquibancada resgata agora duas obras-primas do dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues em torno desses dois momentos fundamentais para o Brasil naquele mundial. 

Como um profeta, imediatamente após o complicado jogo contra a Tcheco-Eslováquia (0 x 0), no dia 2 de junho, em Viña del Mar, Nelson Rodrigues escreveu uma crônica publicada no jornal O Globo, no dia 5 de junho, ou seja, há exatos 51 anos. Um texto antológico (como sempre), mas incrivelmente profético...

Um horizonte de chifres
Por Nelson Rodrigues

Pelé amparado por Mário Américo.

“Amigos, fui ontem à redação de um velho jornal. Entro lá e vejo, por toda parte, caras a meio pau. Deduzi imediatamente: ‘Pelé’. Era, sim, o luto, era a dor, era o velório da distensão. Desde sábado que todo o Brasil chora e todo o Brasil vela a contusão de Pelé. Como diria Brás Cubas, até a natureza se associa à melancolia nacional. Os ventos são mais tristes, os ventos são mais inconsoláveis.

E, súbito, na redação do jornal amigo, eu vejo o Cláudio Mello e Sousa, o poeta, o crítico, o ex-admirador do Paulo Francis. Com o seu perfil de lord Byron aos dezessete anos, ele meditava horrores sobre a distensão. Eu ia dizer, fazer a saudação brutal: ‘Olá, Cláudio!’. Mas já o colega se punha de pé. Com o olhar dos profetas – olhar varado de luz –, com a fronte alta e fatal, ele anunciava: ‘O Brasil vencerá a Espanha!’. Pausa. Novo arranco de vidente para completar: “A vitória do Brasil será um quadro de Goya!”. Foi só, ou por outra: não foi só. Em seguida, ele pôs-se a andar na redação, tumultuosamente, como um centauro truculento.

Amarildo, "O Possesso".

Vibrei ao ver o colega e amigo enchendo uma redação com suas rútilas patadas. Mas eu compreendi a sua ira e justifiquei a sua profecia. Hoje o brasileiro autêntico há de ter duas reações obrigatórias: luto porque Pelé saiu, euforia porque Amarildo vai entrar. A mesma fatalidade que roubou Pelé salvou Amarildo. E, aqui, abro um parêntese para uma breve meditação sobre a Fatalidade, com F maiúsculo.

Outrora, tudo que acontecia era destino, era sina, era o diabo. Pérez Escrich reabilitava e promovia suas adúlteras invocando a Fatalidade. Hoje já sabemos que há Sexo, há Economia por trás das atitudes sórdidas ou sublimes do ser humano. A Fatalidade já não explica mais, nem inocenta certas patifarias que os folhetinistas antigos idealizavam.

Todavia eu lhes digo: no presente Mundial, eis que a Fatalidade passa a funcionar novamente como nos tempos de Edmundo Dantès. Aí está Amarildo, o ‘Possesso’. Ele não ia entrar em hipótese nenhuma. Com suicida teimosia, Aymoré Moreira, Nascimento e Paulo Machado de Carvalho estavam dispostos a deixar Amarildo eternamente na cerca. Não percebiam que o craque alvinegro é possesso e que o ataque precisava de possessos. E, súbito, a Fatalidade põe o dedo no escrete do Brasil. Pelé, o divino, sofre a distensão mágica. Não recebeu nem um leve, imponderável toque. E caiu. Caiu como e por quê? Ninguém sabe, mas eu sei: a Fatalidade de Pérez Escrich.


O desespero está ventando por todo o país. Mas há uma possibilidade insuspeitada e genial: a de que Amarildo desponte como um novo Pelé, e repito: um Pelé branco, mas Pelé. Por outro lado, cada brasileiro deve ser como o confrade Cláudio Mello e Sousa, um profeta, um vidente do triunfo. E, de resto, cada um de nós precisa acreditar no Brasil com pesado e obtuso fanatismo. Graças a Deus, a Fatalidade interferiu anteontem no jogo México x Espanha. Faltavam trinta segundos para acabar o match. Era o empate e a classificação do Brasil.

Pois bem. A mesma Fatalidade que derrubou Pelé, que escalou Amarildo, a mesma Fatalidade, dizia eu, salvou a Espanha. Seu gol nasceu na última gota da partida e, ao contrário do que se pensa, foi bom. Um bicampeão não pode depender de nenhum México. Insisto: um bicampeão terá que levantar a Jules Rimet a mãos ambas, com o próprio amor e com a própria paixão. De mais a mais, o perigo viriliza, enternece e ilumina o Brasil. Sim, o perigo desperta e açula no Brasil sombrias potencialidades. Vamos enfrentar a Espanha. Diante de nós abre-se todo um horizonte de chifres, ensanguentado de chifres.


Vejam vocês o que é a chance histórica. A distensão de Pelé foi para Amarildo como a Revolução Francesa para Napoleão. E eu imagino como andará o craque alvinegro no Chile. Antes da distensão de Pelé, que fazia ele? Como o pescador de O velho e o mar, sonhava com leões. Mas o adversário é a Espanha. E, então, Amarildo sonha com chifres e sangue. Ele próprio, como no soneto célebre, é um negro touro ‘saudoso de feridas’”.

Dois dias depois, o jornal O Globo voltaria a publicar outra crônica escrita por Nelson Rodrigues a respeito do espetacular jogo contra a Espanha e a incrível atuação de Amarildo, “O Possesso”, profetizada por ele.

O “Possesso”
Por Nelson Rodrigues


“Amigos, não é hora de escrever bem. Fosse eu um Goethe na Itália e, diante do triunfo de ontem, estaria escrevendo horrendamente mal. Ganhamos. E que fazer agora, senão arrancar do nosso peito um gemido solene e fundo, como um mugido cívico? Quando acabou o jogo, quando a vitória uivou, vimos o seguinte: era esta uma cidade espantosamente bêbada. Cada um de nós foi arremessado do seu equilíbrio chato, foi arrancado do seu juízo medíocre e estéril.

Saímos à rua. Eu disse “cidade bêbada” e já explico: fomos uma nação em pileque unânime. De pileque sem ter bebido nem água da bica. E é lindo, e gostoso, e sublime quando não há, entre 75 milhões de sujeitos, não há um único sóbrio. E já um nome me ocorre: Amarildo, o “Possesso”.

Amigos, dizia eu que os profetas andavam por aí aos borbotões. Repito: os profetas escorriam como a água das paredes infiltradas. Não se dava um passo sem tropeçar, sem esbarrar num profeta. E o que diziam eles? Diziam a vitória do Brasil e mais: profetizavam o nascimento de um novo Pelé. Eu próprio escrevi, na minha crônica de anteontem: o novo Pelé era moreno, e antecipei minúcias e fui mais longe. Dei o nome do novo Pelé: Amarildo.


Vejam vocês o que é o Brasil. O sujeito quer um idiota e não acha um idiota. No Brasil de hoje, o imbecil chapado, o imbecil total é uma impossibilidade. Mesmo o menos dotado dos brasileiros contemporâneos há de ter a sua chispa, a sua centelha, por vezes incubada, mas funcionante. Mas, se a pátria precisa de um gênio, logo o encontra. Aí está a Copa do Mundo: perdemos um Pelé, e no mesmo instante, apareceu outro Pelé. Feliz o povo que, na vaga de um gênio, põe outro gênio.

Dizia o profeta quase profissional Cláudio Mello e Sousa que a vitória brasileira seria um quadro de Goya. Aí está o quadro, aí está o Goya. Mas eu falava de Amarildo. Após o jogo, os colegas me cumprimentavam como se fora eu o autor de Amarildo. Eu tinha de retificar: “O autor de Amarildo é o Dostoievski!”. E, realmente, nunca vi na vida real um sujeito tão possesso e, por carambola, dostoievskiano.

                                          Os gols do jogo Brasil x Espanha, na Copa de 1962.

O primeiro gol do Brasil ontem foi obra de um possesso. E repito: só um possesso em último grau, montado num demônio, ou por este montado, só um possesso faria aquilo. Eu não estava lá, claro. Mas, desde ontem, cada brasileiro está possuído de uma imensa, de uma implacável vidência. Dir-se-ia que, apesar da estúpida distância física, todo o Brasil era testemunha visual e auditiva de cada lance da partida. E eu “vi”, no momento do gol, “vi” Amarildo, a cara, o peito, a loucura de Amarildo. De seu lábio pendia a baba elástica e bovina dos possessos. Nas páginas de Dostoievski é assim que os possessos babam profissionalmente.

Amigos, era ali ou nunca. Setenta e cinco milhões de brasileiros precisavam mais do gol que todo o Nordeste de água e pão. O possesso sentiu que era chegado o instante. Caçaram Amarildo. Entre ele e o gol havia toda uma flora de rapas, de pés na cara, palavrões, chifres. Só faltaram chupar-lhe a carótida como a um aspargo. A palavra “madre” circulava copiosamente. Naquele momento Amarildo não era um só: era o possesso, era um dostoievskiano e, ao mesmo tempo, era um touro de soneto, “saudoso de feridas”.

Era também, por conta de Dostoievski, um rútilo epiléptico. Amigos, nunca um só foi tantos. E esse múltiplo, esse numeroso Amarildo acabou enterrando o seu gol, até o fundo, no coração da Espanha. Ali se cumpria a grande profecia: um novo Pelé estava nascendo. E os Andes estupefatos viram erguer-se o astro recentíssimo, com o seu frenético fulgor.

Garrincha corre para abraçar Amarildo.

E o segundo gol, amigos, o segundo gol! Vamos ao lance. O Mané apanha a bola. E, entre parênteses, tem razão o poeta e psicanalista Hélio Pellegrino quando afirma que Garrincha é a maior sanidade mental do Brasil. Exato. O próprio Freud, se conhecesse o Mané, havia de reconhecer, com a humildade dos sábios: “Rapaz, se todo mundo tivesse a tua sanidade, eu ia acabar apanhando papel na esquina!”. Ontem todo mundo estava emocionalmente em pandarecos. Menos o Mané. Pegava a bola e era o mesmo, sempre o mesmo, eternamente o mesmo, assim na terra como no céu.

No segundo gol, Mané deu uns dez salames dionisíacos. Comeu com aquele apetite imortal toda a defesa inimiga. E comeu o juiz e comeu o bandeirinha. Tudo isso com uma saúde de passarinho, e insisto: tudo isso com alegria, com bondade, com pureza. No fim, não havia mais ninguém para driblar, ninguém. E Mané, que no fogo mais infernal tudo vê e tudo sabe, passa para Amarildo. Mas não foi um passe qualquer. Nem a cabeça de São João Batista foi tão na bandeja como aquela bola de Garrincha. Estava lá Amarildo, o possesso Amarildo, o rútilo epiléptico. E então ele enfiou a sua cabeçada mortal. Aquilo era o Brasil”.

O "migué" de Nilton Santos contra os espanhóis.

Mas há um momento decisivo neste jogo dramático contra a Espanha e que poucos se recordam ou dão o devido valor histórico. Não fosse a malandragem do craque Nilton Santos, naquele Mundial com 37 anos nas costas, fatalmente o Brasil não teria passado pela Espanha e, consequentemente, não chegaríamos à conquista do bicampeonato mundial. O Brasil perdia o jogo por um a zero e numa jogada na entrada da área brasileira, Nilton Santos comete uma falta, dentro da área. Com um passo a frente, sem saber, Nilton Santos começava a reescrever a história de um título mundial...Em seu livro de memórias, “Minha Bola, Minha Vida” (Editora Gryphus, 1998) ele relembra as horas que antecederam àquele jogo decisivo contra a Espanha, as conversas com o jovem Amarildo e o lance de falta que poderia ter mudado a história de sua vida e daquela Copa do Mundo. E tudo começou com uma das tais profecias já citadas por Nelson Rodrigues a partir do momento em que se soube que Pelé não iria mais jogar contra a Espanha:

Garrincha e Amarildo no Botafogo.

“... ‘Dr Paulo, nós vamos ganhar essa Copa. Em 1958, foi pior, nós não sabíamos se o Pelé podia jogar, Garrincha estava de fora até o terceiro jogo. Mudamos e deu certo. Agora é a vez do Papagaio (apelido de Amarildo), e ele é bom’”. Nessa noite e em todas as outras, comecei a visitar o Amarildo. Tomar conta dele mais de perto, tentando prepara-lo para estrear no lugar de Pelé. Dizia para ele que o Pelé era o Pelé, que ia substituí-lo, mas que não era ele. Amarildo era o Amarildo. ‘Você foi convocado pelo futebol que joga no Botafogo. Não queira fazer nada além disso. Jogue o futebol que sabe, sem se preocupar no lugar de quem foi escalado. Sei que não é fácil substituir um jogador feito Pelé, mas você tem a vantagem de estar acostumado a jogar com o Didi, Garrincha e Zagallo, portanto, vai ser mais fácil para você, pense sempre nisso e jogue o que sabe, não queira inventar’. Não contei isso a ninguém, ia quieto ao chalé dele para conversar todas as noites. Amarildo entrou, deu certo e, por alguns dias nos esquecemos do Pelé.

Didi e o desafeto Di Stefano.

A mesma coisa fiz com o Didi, antes do jogo da Espanha. Ele esteve no Real Madrid e foi sacaneado pelo Di Stefano, que lá era o rei. O argentino não passava a bola para ele, dizendo que não gostava de jogar com o Didi, que ele não sabia jogar bem. Portanto, aquela era a oportunidade do revide. ‘Hoje, vou mostrar para aquele safado que sei jogar futebol’, soltou, sem querer, o Didi perto de mim. Achei que era melhor conversar com ele. Então, falei: ‘Você não tem e não vai provar nada a ninguém. Está numa seleção e tem que jogar para o grupo, não por você. Vamos ser campeões e outro dia eu ajudo você ir à forra contra esse cara’.
Na entrada do campo percebi que Didi ainda estava nervoso. Encostei nele e disse: ‘Olha crioulo, eu estou de olho em você. Estou com a impressão que você vai fazer um jogo de merda. Ainda pensa no Di Stefano. Pense mais na gente, hein?’.

O jogo com a Espanha começou duro. Eles ganhavam de 1 a 0. Em determinado momento, a bola saiu e eu fui bater o lateral. Ouvi quando o treinador deles, Helênio Herrera, em pé na pista, recomendava ao jogador Collar que partisse sempre em minha direção: ‘Olha a cara dele Collar; ele é um velho decadente, não tem mais futebol nenhum’. Por eu já estar com 37 anos, ele escalou esse ponta esquerda, jogando pela direita. Eu escutei aquilo, e me limitei a apanhar a bola e a bater o lateral. Collar quando atacava, podia até me ganhar no pique, mas não cruzava com a perna direita. Eu o deixava correr até a linha de fundo, quando voltava eu tomava a bola dele. Só deu para mim o jogo todo.


Numa dessas, eu o raspei e fiz um pênalti, que, por sinal, só me convenci de que havia feito quando assisti o teipe. Mas, como senti alguma coisa no ar, pelo sim, pelo não, dei um passo à frente e levantei os braços. O juiz, que estava longe do lance, quando chegou, marcou a falta onde eu estava. Aí começamos a ganhar o bi. A Espanha não poderia nunca ter feito 2 a 0.
Durante todo o jogo, principalmente depois desse lance do pênalti, fiquei mais atento ao Didi. Toda vez que ele ameaçava passar a bola entre as pernas de Peiró, eu gritava: ‘Joga sério, crioulo mascarado. Deixa a firula pra quando estivermos ganhando de quatro. Aí, eu juro que faço firulas com você, eu também sei fazê-las, mas agora jogue sério’.

O beijo de Nilton Santos em Amarildo após o jogo.
O jogo continuou nervoso, Garrincha resolveu jogar por ele e pelo Pelé que estava fora. Estava endiabrado e, em duas jogadas dele, dois gols de Amarildo. Era o início da conquista, com o Botafogo à frente. Quando terminou a partida, corri para o Amarildo e dei-lhe um beijo na testa.

Confira o primeiro artigo da série no link abaixo:

http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/06/especial-copas-1-o-epico-brasil-6x5.html

Um comentário:

  1. Não é que o cara seja meu amigo e parceiro. Mas "Literatura na Arquibancada" é, com certeza, uma das melhores coisas produzidas na internet brasileira.

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