quinta-feira, 28 de junho de 2012

Especial Copas (10): "O Marechal da Vitória"


No dia 29 de junho de 1958 o Brasil conquistava o seu primeiro título mundial em Copas do Mundo. Um capítulo importante na longa trajetória da seleção brasileira que teve, dentro de campo, protagonistas inesquecíveis como Pelé, Garrincha, Didi e companhia.

Contudo, fora das quatro linhas, jamais o futebol brasileiro (e quiçá mundial) produziu um dirigente esportivo com tamanha notoriedade e respeito, como se ele mesmo fosse um dos onze titulares do gramado.

Bellini e Paulo Machado

Não foi à toa que Paulo Machado de Carvalho acabou ganhando o epíteto de “O Marechal da Vitória”. Não somente pela conquista inédita do título mundial, mas pela liderança e comando exercidos ao longo da trajetória de preparação até o dia da final contra a Suécia, em 1958.

Um dos maiores empresários do ramo de comunicação, Paulo Machado soube como ninguém lidar com os bastidores complicados do futebol brasileiro, especialmente no que diz respeito à política e jogo de interesses, e ainda, com sensibilidade extrema, administrar até mesmo problemas pessoais dos atletas.


Em 2005, a dupla de jornalistas Tom Cardoso e Roberto Rockmann publicou a biografia de Paulo Machado de Carvalho, “O Marechal da Vitória – Uma história de rádio, TV e futebol” (Editora Girafa). Vale a pena conferir a série especial, aqui mesmo no Literatura na Arquibancada (ver links no final deste artigo) a homenagem ao dirigente esportivo que nos deixou há 20 anos.

E sobre o dia da conquista na Suécia, a obra de Tom e Roberto traz passagens que ilustram bem o estilo diferente e divertido de Paulo Machado de Carvalho. A pergunta que todos deveríamos nos fazer é: será que um dia o futebol brasileiro terá um dirigente esportivo tão festejado como o Marechal da Vitória?

“King, that is the boss”
Por Tom Cardoso e Roberto Rockmann


(...)

“No dia 29 de junho, diante de quase trinta mil suecos, Paulo Machado, certo da conquista do título, esperou a execução dos hinos nacionais para passar um recado ao massagista da seleção:

– Mário Américo, meu filho, quero que você pegue a bola do jogo de qualquer maneira. Esse será um troféu importante, não falhe.

O massagista combinava a armação com Mário Trigo, quando Paulo Machado e Feola tomaram um susto: logo aos três minutos de jogo, Liedholm fez 1 a 0 para a Suécia. Seis minutos depois, Garrincha driblou até a linha de fundo e cruzou para o gol de empate de Vavá, jogada que os dois repetiram com a mesma precisão minutos depois. Enquanto isso, o ponta Hamrin, aquele mesmo que o técnico George Raynor e Ernesto Santos juravam ser melhor que Garrincha, era facilmente anulado pela categoria de Nilton Santos. A goleada seria selada com dois de Pelé – um deles, um lençol no zagueiro, entrou para a história das copas – e um de Zagallo, que, com o time ganhando de 3 a 1, se encorajou a passar do meio de campo.


O Brasil conquistava o primeiro título mundial com uma vitória histórica de 5 a 2 sobre os donos da casa.

Tão logo Maurice Guige apita o fim do jogo. 

Mário Américo corre como um maluco em sua direção. 

No momento em que o massagista cumprimentava o juiz francês, orgulhoso por levar debaixo do braço o troféu tão cobiçado pelos torcedores, Mário Trigo chegou por detrás e deu um soco na bola, fazendo-a quicar pelo gramado direto para as mãos de Mário Américo, que sumiu no meio da multidão rumo ao vestiário brasileiro.


Mário Trigo abraça o rei da Suécia

Do outro lado do campo, Paulo Machado abraçava a comissão técnica e, quando se preparava para cumprimentar um por um todos os jogadores, foi interrompido por Mário Trigo. 

O dentista levava pelo braço, como se fosse mais um de seus pacientes, nada menos do que o rei da Suécia, Gustavo Adolfo. 

Aos berros, Trigo pedia ao rei que cumprimentasse o chefe da delegação:

Come here, King, that is the boss! (Venha aqui, Rei, esse é o chefe)

O dirigente nem se constrangeu com a quebra de protocolo de Mário Trigo. Cumprimentou o rei Gustavo, deu um abraço forte no dentista e consolou Pelé, que chorava compulsivamente nos ombros de Gilmar.


Aquele era o dia mais feliz da vida de Paulo Machado. Nem a Rádio Record dos tempos da Revolução de 32, de Carmen Miranda e Almirante, nem o São Paulo de Bauer, Rui, Noronha e Leônidas da Silva, nem a TV Record das transmissões impossíveis tinham lhe dado tanto orgulho como aquela conquista inédita.

As empresas de Paulo Machado pegaram carona no prestígio do chefe. Desde a noite de domingo, os técnicos da Rádio Panamericana, junto com a gravadora Odeon, produziram o long-play “Brasil na Copa do Mundo”, uma coletânea de gols e dos momentos mais emocionantes nas narrações de Geraldo José de Almeida e Waldir Amaral. 


O disco, um grande sucesso comercial, abria com a marchinha Campeões do Mundo, de Alfredo Borba, cantada por Osvaldo Rodrigues, e era ilustrado com uma foto dos 22 jogadores ao lado de Feola e Paulo Machado.

Enquanto a marchinha dos campeões do mundo tocava exaustivamente nas rádios das Emissoras Unidas, uma multidão acompanhava um enterro simbólico no Vale do Anhangabaú. O clima era de festa. No enorme caixão, em letras douradas, dava para ler o nome do “homenageado”: o jornalista Geraldo Bretas. O sentimento de revolta era tão grande contra o dono do jornal O Mundo Esportivo e principal crítico da seleção brasileira, que o seu escritório, na rua Sete de Abril, teve a porta de vidro quebrada por torcedores mais exaltados, exigindo que o cronista cumprisse a promessa de carregar nas costas os 22 jogadores caso a “seleçãozinha” fosse campeã.


Na segunda-feira, quando a delegação preparava a viagem de volta ao Brasil, Joelmir Betting, então redator do jornal paulistano O Esporte, editava um caderno especial sobre a festa brasileira na Suécia, com reportagens do correspondente Flávio Iazetti. A foto escolhida para a capa, que ocuparia toda a primeira página, seria a de Paulo Machado de Carvalho, uma homenagem do jornal ao dirigente que enfrentara a oposição ferrenha da imprensa carioca e, com um plano meticuloso, conseguira ajudar o Brasil a conquistar o primeiro campeonato mundial. A poucos minutos do fechamento da edição, Joelmir ainda precisava bolar a manchete. O jornalista de 22 anos jamais imaginara que de um simples título feito às pressas sairia o epíteto que, a partir dali, acompanharia Paulo Machado de Carvalho por toda a vida: “O Marechal da Vitória”.

Sobre Tom Cardoso e Roberto Rockmann:

Tom Cardoso, nascido em 1972, no Rio de Janeiro, é jornalista desde 1994, quando ingressou no Jornal da Tarde. Trabalhou nas redações do O Estado de S. Paulo, Valor Econômico e colaborou na Folha de S. Paulo, sempre em cadernos de cultura. É autor de 75 kg de músculos e fúria” (Planeta), perfil do jornalista Tarso de Castro e “O cofre do Dr. Rui” (Editora Record) sobre a história do roubo do cofre de Adhemar de Barros, duas vezes governador do estado de São Paulo.


Roberto Rockmann, nasceu em 1977, em São Paulo, e se graduou em Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP) EM 1999. Trabalhou na editoria de Internacional do InvestNews e no Valor Econômico, cobrindo a área de infra-estrutura.

Série especial sobre Paulo Machado de Carvalho, no Literatura na Arquibancada:



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