domingo, 3 de junho de 2012

Carlos Said: O magro de aço


Para se entender a paixão do brasileiro pelo futebol, de norte a sul deste imenso Brasil, é preciso conhecer personagens que a famosa “grande imprensa” do eixo Rio x SP faz questão de deixar “invisíveis”. Alguns, por puro preconceito. Outros, por puro desconhecimento. E não estamos falando de craques dentro dos gramados de futebol, pois esses são eternamente esquecidos, mas de personagens da própria imprensa esportiva.

A região Nordeste do Brasil é pródiga neste sentido. De lá, parece existir apenas a seca, a fome e a miséria. Não é bem assim. Um dos maiores nomes da imprensa esportiva brasileira é um ícone do estado do Piauí, terra de campeonatos pouco ou nada divulgados para quem vive nos tais “grandes centros”.

Carlos Said
Seu nome é Carlos Said, uma verdadeira lenda na região Nordeste. No plano nacional o Pioneiro da Imprensa Esportiva Piauiense conseguiu figurar entre os mais importantes comentaristas esportivos do Brasil, no nível de João Saldanha, Rui Porto, Mauro Pinheiro, Mário Moraes, no Rio de Janeiro e São Paulo. No Nordeste formou no time dos astros do microfone, como Barbosa Filho, José Santana e Paulino Rocha.

E ele continua por lá, firme e forte, aos 81 anos de idade. No ano passado, ganhou um livro, “Como era bom aos Domingos...”, escrito pelo filho Gustavo Said contando sua rica história de vida dedicada ao esporte, ao Direito, à Filosofia, à Geografia, à História, pois é formado e lecionou sobre todas essas disciplinas, nas escolas e universidades do estado em que nasceu e cresceu. Ou seja, um homem apaixonado pela cultura. E pelo futebol...

Não é a toa que o Ministro dos Esportes, Aldo Rebello, convidou o professor e um dos mais importantes e respeitados cronistas esportivos do Nordeste, a participar do “Livro da Copa”, que será publicado pelo Governo Federal em homenagem à 20ª edição do mundial de seleções de países, pela segunda vez no Brasil,  em 1950 e 2014. Carlos Said escreverá sobre o futebol brasileiro com o olhar e o jeito nordestino de observar os 90 minutos da bola em jogo.

Mas por que tal reconhecimento a Carlos Said? As respostas podem começar a serem encontradas na síntese abaixo sobre o livro “Como era bom aos Domingos...”:

Sinopse:

"Como era bom aos domingos..." é a biografia do fundador da imprensa esportiva estadual, o professor e jornalista Carlos Said, conhecido como Magro-de-Aço. 

A obra relata a viagem de seus pais da Síria para o Brasil e, num estilo textual próximo do jornalismo literário, narra os acontecimentos desportivos que fizeram com que Said, ainda na infância, despertasse a paixão pelo esporte e pelo jornalismo e atuasse em vários clubes de futebol e em quase todas as empresas de comunicação do Piauí, depois de ter dado os primeiros passos na imprensa esportiva do Estado, ainda na década de 40. 

A obra descreve também como, num acidente automobilístico no qual se anunciou sua morte, foi construído o personagem que engendra o mito Magro-de-Aço, reconhecido pelo destemor com que luta pelas causas desportivas e pela linguagem e estilo radiofônicos recheados de gírias e bordões.

Carlos Said (centro), um ano após o acidente.
Carlos Said só, um nome curto para uma vida intensa. Em 1964, aos 33 anos, quando a dona da foice pensou em levá-lo, as mãos milagrosas do cirurgião Antônio Portela, a quem ele chamaria de pai pelo resto da vida, remendaram os ossos danificados pelo acidente de carro, sem importar-se com a precariedade dos recursos disponíveis à época. 

Foi como nascer de novo, driblando a morte anunciada no rádio pelos seus companheiros de profissão e antevista pela família no semblante dos médicos que o atenderam no Hospital Getúlio Vargas. Lá mesmo, no HGV, alguém - não se sabe quem - diria sem pretensões de adivinho, que aquele homem era de aço.

Carlos Said, o "magro de aço" e
Garrincha, do River.
Nascia o Magro de Aço, mito e referência do esporte piauiense, apelido que ele assumiria por inteiro, homem e personagem integrados numa vida só, herói de muitas pelejas, intérprete de muitas audições, traduzindo na linguagem do povo a emoção dos gramados.

Vinte anos depois, a indesejada mulher da capa preta iria à forra num lance de Maquiavel. A voz, velha companheira do Magro de Aço, instrumento de seu labor e de seu talento, resolveu abandoná-lo. Era como morrer em vida, mas ao aço se dá consistência mergulhando-o, ainda candente, num banho de água fria. No tropel do disse-me-disse, espalhou-se a notícia da morte iminente e a 'viúva' chegou a receber visita de pêsames. Até que num dia de domingo os microfones da Rádio Pioneira vibraram outra vez ao som estridente do aço retorcido das cordas vocais do Magro de Aço. Carlos Said estava de volta. 

Até hoje, completados oitenta anos de vida, Said esbanja inspiração e entusiasmo quando fala ou escreve sobre qualquer assunto, relembrando fatos e nomes com tamanha facilidade, que faz crer que a memória, essa sim, é de aço - temperado e inoxidável. Como são bons os domingos quando têm bilinguinguins!”

Carlos Said tem um dos maiores acervos de livros esportivos do país. Para quem é assíduo leitor do Literatura na Arquibancada irá se lembrar do depoimento de José Reinaldo Pontes, o livreiro de Campinas da “Livraria Pontes”, pioneiro batalhador dos livros esportivos no Brasil, quando mencionou Said como um de seus “top five” compradores das raridades encontradas pelo país.

Para conhecê-lo um pouco melhor neste breve espaço, Literatura na Arquibancada resgata o texto de outro autor consagrado no Piauí, amigo pessoal do mestre Said, o poeta Elmar Carvalho publicado em seu blog www.poetaelmar.blogspot.com .

“...Nasceu em Teresina, em 14.01.31. É um oitentão. Formou-se em Direito, Filosofia e em Geografia e História. É jornalista esportivo desde 1943, quando tinha apenas doze anos de idade. Foi professor de Geografia e História em quase todos os colégios da capital. Exerceu o magistério na Faculdade de Filosofia (FAFI) e na Universidade Federal do Piauí. Nesta, por falta de professores em seu início, lecionou várias disciplinas, em virtude de sua cultural geral.

No tempo em que a rádio Pioneira ficava no ar durante 24 anos horas, cunhou o slogan “a emissora que não para”. Quando, em serviço de reportagem, em 02.03.64, sofreu um acidente, reza a lenda que ele próprio narrou o episódio. Por esse fato e talvez por causa de sua natureza resistente e quase incansável, surgiu o seu epíteto de Magro de Aço, a que eu acrescentaria as palavras inoxidável e inolvidável, caso o apelido original já não fosse demasiadamente forte.

Em 1948, ingressou na rádio Difusora, a mais antiga de Teresina, como narrador e comentarista de futebol. Em 1958, fundou a Associação dos Cronistas Desportivos do Estado do Piauí (APCDEP), tendo sido o seu primeiro presidente. Em 1º de março de 1946, juntamente com outros colegas do Colégio Leão XIII, dirigido pelos professores Moaci Ribeiro Madeira Campos e Antilhon Ribeiro Soares, fundou o River Plate Club, em homenagem ao time homônimo da Argentina, porém teve que modificar seus estatutos, pois o autoritário presidente da Confederação Piauiense de Futebol, Raimundo Ney Baumann, que foi titular da Delegacia Regional do Trabalho e interventor de Campo Maior, não aceitava nomes estrangeiros, pelo que a agremiação futebolística passou a denominar-se River Atlético Clube. De 1946 a 1951 foi titular ou 1º reserva, na posição de golquíper riverino. Nos anos de 52, 53 e 54 foi campeão piauiense pelo River, na condição de titular absoluto. A partir de 1955 até a data do acidente (02.03.64) continuou a jogar no RAC, mas só atuando quando convocado.

Crédito: Gervásio Castro
Casou no dia 14.07.56, com a senhora Rochelene, barrense, das família Fernandes e Fortes, com quem teve cinco filhos (duas mulheres e três homens). Dois deles, Fernando e Gustavo, seguiram-lhe os passos no jornalismo e no magistério universitário. Em plena lua de mel, mais precisamente um dia após o casamento, foi defender a meta do River, na decisão do campeonato de aspirantes, em que esse time se sagrou campeão invicto.

Em 1955, foi fazer, em Fortaleza, a cobertura de dois jogos em que o River enfrentaria as equipes do Calouros do Ar, no sábado, e do Ferroviário, no domingo. Na primeira partida, os dois goleiros do River, Afonso e Xavante, não puderam jogar, pelo motivo prosaico de que estavam acometidos de uma forte diarreia. Diante dessa situação, Carlos Said foi convidado a defender a equipe do Galo, e o fez com tanta garra e brilhantismo, que sua atuação foi comparada ao discurso inflamado, entusiástico e arrebatado do integralista Plínio Salgado, também de compleição franzina, que então se encontrava na capital alencarina.

Foi diretor de jornalismo e esporte da Rádio Pioneira, fundada pelo arcebispo Dom Avelar Brandão Vilela, em 08.09.62. Iniciou sua atividade de comentarista esportivo de televisão, em 1992, na emissora Antena 10. Atualmente, exerce essa atividade na TV Cidade Verde. Tem coluna no jornal Meio Norte, na qual escreve sobre história, literatura e esporte. Continua em atividade na rádio Pioneira. Foi comunicador social da Previdência Social no Piauí durante quarenta anos.

Dídimo de Castro, "o pequeno polegar".
Na década de 70, nas transmissões esportivas, Carlos Said e Dídimo de Castro reinavam absolutos, o primeiro com seus comentários judiciosos, e o segundo, como narrador. Geralmente, suas previsões analíticas se concretizavam, tanto que muitos técnicos o ouviam, e seguiam as “sugestões” radiofônicas de suas análises. Várias palavras, consideradas “bonitas” e “difíceis”, com que ele enfeitava seus comentários, com certa dose de humor, como energúmeno, apedeuta, pacóvio, bilinguinguim do inferno, etc., se transformavam em verdadeiros bordões, repetidos por todos os ouvintes. Gostava de usar a expressão “raios me partam”, se determinada situação não acontecesse. Um amigo meu, ouvinte dele, amiúde a usava; porém, cautelosamente, trocava o pronome “me” por “te”, pelo que nada sofreria se as coisas dessem errado.

O Carlos Said continua a ser, oitentão, o mesmo homem incansável e inquieto de sempre, de forma que permanece sendo o eterno Magro de Aço – aço inoxidável e inolvidável, porque ele deixou de ser apenas professor de História para entrar na História, pelos serviços que tem prestado ao jornalismo, à cultura, à historiografia e à literatura do Piauí.

Sobre Gustavo Said, autor de “Como era bom aos Domingos...”:
Gustavo Said possui graduação em Comunicação Social Jornalismo pela Universidade Federal do Piauí (1992), mestrado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1998) e doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2006). Atualmente é professor titular - da graduação e do mestrado - da UFPI. Tem experiência na área de Comunicação, atuando principalmente nos seguintes temas: jornalismo, comunicação e cultura, estudos culturais, identidade cultural, subjetividade e mídia, jornalismo e história e comunicações no Piauí.
Além da história do Magro-de-Aço, o pesquisador publicou outros livros, dentre os quais "Jornalismo e História: uma análise do tempo histórico da notícia" (APECH, 1997), "Mídia, Poder e História na Era Pós-Moderna" (EDUFPI, 1998), "Comunicações no Piauí" (APL/BAnco do Nordeste, 2001); "Comunicação: novo objeto, novas Teorias?" (EDUFPI, 2008). Gustavo também foi professor visitante nas universidades de Nebraska-Lincoln e Ole Miss-Mississipi, nos Estados Unidos.

Sobre Elmar Carvalho:
Nasceu em Campo Maior – PI, em 09/04/56. Poeta, cronista, contista e crítico literário. Juiz de Direito. Bacharel em Direito e em Administração de Empresas. Membro da Academia Piauiense de Letras.

2 comentários:

  1. Anônimo10:04

    Vi a sinopse na revista da ESPN. Li e gostei. É um personagem e tanto! Só deu trabalho para adquirir, pois tive que entrar em contato direto com o autor pelo facebook.
    Paulo Marins - Brasília

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  2. Anônimo11:04

    O Carlos Said, magro-de-aço, é um dos maiores personagens aqui de teresina-PI! Um comentarista de futebol com uma super-memória. Uma figuraça. Sou seu fã!
    Daniel Lemos, de Teresina

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