sábado, 23 de junho de 2012

A antropologia na "Visão de Jogo"


Você fica sem graça quando está assistindo com amigos (ou sozinho) a um jogo de futebol, voleibol ou outra modalidade esportiva e não entende certas coisas feitas pelos atletas em campo e descritas pelos narradores e comentaristas? Não se preocupe, você não é um “caso perdido”. A antropologia está aí para explicar muito desses “fenômenos” ocorridos dentro dos campos e quadras esportivas. Em 2009, dois craques da antropologia, Luiz Henrique de Toledo (o “Kike” para os amigos) e Carlos Eduardo Costa, organizaram um livro imperdível sobre essas questões: “Visão de jogo – Antropologia das práticas esportivas” (Editora Terceiro Nome e Fapesp). Uma coletânea de estudos acadêmicos do mais alto nível e importantíssima para a bibliografia da literatura esportiva brasileira.

Sinopse (da editora):

Estilos de jogar, escolinhas de futebol, o fluxo de jogadores para o exterior, os torneios universitários, a sociabilidade esportiva: estes são alguns dos temas tratados neste livro que reúne artigos de 12 pesquisadores sobre diferentes esportes, singularizados pela experiência de campo vivida por e em cada um. A visão antropológica privilegiada neste livro torna mais evidentes algumas das categorias que estavam ocultas nas práticas, ou seja, que diziam respeito somente aos seus portadores em seus domínios. Descortinadas pela etnografia, poderão ser compartilhadas pelo conjunto mais amplo de pesquisadores e leitores interessados nos fenômenos relacionados aos esportes.

Luiz Henrique de Toledo, o prof. "Kike"
O livro, cuja produção contou com o apoio da FAPESP, faz parte da Coleção Antropologia Hoje, iniciativa resultante de entendimento entre o Núcleo de Antropologia Urbana da USP e a Editora Terceiro Nome com o propósito de divulgar ensaios, resultados de pesquisas, etnografias e propostas teórico-metodológicas da Antropologia voltados para a dinâmica cultural e processos sociais contemporâneos.

Artigos de: Carlos Eduardo Costa, Claudemir José dos Santos, José Guilherme C. Magnani, Juliana Affonso Gomes Coelho, Júlio César Jatobá Palmiéri, Lara Tejada Stahlberg, Leonardo Erivelto Soares de Oliveira, Luiz Henrique de Toledo, Reinaldo Olécio Aguiar, Sandro Francischini, Thiago Passos de Oliveira.

Apresentação
Por Luiz Henrique de Toledo & Carlos Eduardo Costa

A "sambadinha" de Ronaldinho
Saber assistir a uma competição esportiva requer algum treinamento do olhar. Se, porventura, escapar a compreensão das regras e seus meandros interpretativos, fundamentos necessários à apreensão da totalidade, faz-se necessário ao menos reconhecer alguma jogada, a intencionalidade de um golpe, determinada rotina dentro de campo, um movimento acrobático, uma ou outra técnica corporal, para produzir, do ponto de vista de quem vê, algum significado para fruir aqueles que estão em performance.

Não há bom jogo sem bom espectador, pois sem ele a grande jogada se perderia, seus significados não excederiam em representação o gesto corporal que a originou. O saque jornada nas estrelas, a folha seca, a sambadinha incluída na série da ginástica de solo adquirem a autonomia de assinaturas corporais individuais, mas que devem ser compartilhadas e compreendidas tanto pelos que as executam quanto por aqueles que as contemplam.

Ver e jogar participam de uma mesma dinâmica, embora alguns os tomem por instâncias separadas em léguas no fruir de um jogo e volta e meia algumas interpretações repisem o caráter alienante daqueles cujo acesso à pratica se dê somente pela faculdade do olhar. Pois jogar é também deixar-se ver, ser avaliado, daí todo o imenso volume de escores e estatísticas, avaliadores, especialistas, testes, enfim, uma massa de opiniões que julga o tempo todo e que mobiliza tanto quem joga quanto quem assiste. E mesmo para aqueles que se encontram entregues à atividade, saber enxergar a dinâmica da performance com algum distanciamento possibilita antecipar melhor as evoluções da disputa, a conduta dos adversários, medir, enfim, seu próprio desempenho, nem que para isso sobrem apenas poucos segundos. Não são pequenas, portanto, as tarefas daqueles que almejam, gostam ou necessitam enxergar um evento esportivo.

Ter visão de jogo seria imprimir uma outra qualidade aos fatos; seria produzir outra versão sobre os acontecimentos, distinguir-se, ou ter a possibilidade de ler uma narrativa em grande parte exuberante, porque corporal, na chave de outros recursos discursivos e simbólicos. Dentro do campo esportivo, tão falado quanto jogado, tais tarefas são incumbidas aos técnicos e aos grandes atletas, destacados também por essa qualidade de “ver” para além do ato de “jogar”. Fora dele, são os especialistas da crônica esportiva que produzem tais narrativas, interpretações, interpelações e decodificações do jogo. Torcedores também veem sob vários prismas, a depender do cálculo investido, se está em jogo o time do coração ou o dos adversários, se a nação, a cidade, o time de bairro ou a universidade, e também não ficam de fora da dinâmica cúmplice entre o ver e o jogar.

O saque "jornada nas estrelas
de Bernard.
Há décadas as ciências sociais, particularmente a antropologia, olham o esporte e o movimento daqueles que se aventuram no jogar. Este olhar acumulado produziu inúmeras versões do fenômeno esportivo e continua a produzir, pois mudam as maneiras de jogar, mudam as visões de jogo. Esta coletânea tem um pouco este espírito, pois reúne pesquisadores em vários estágios da formação acadêmica que produziram olhares singularizados pela experiência de campo vivida por e em cada um.

À exceção do trabalho de Francischini, que vê pelas lentes da reconstituição histórica, todos os outros capítulos são frutos do olhar imposto pelo exercício etnográfico. Exercícios que se prolongaram para alguns, pois mantiveram os recortes empíricos, dando continuidade às investigações em nível de pós-graduação, como é o caso de Oliveira e Palmiéri, ou subsidiários para outros, como Passos, Coelho e Costa que, mesmo mudando de objetos ou migrando para outras áreas dentro da antropologia, saíram estimulados pela prática etnográfica, cujo primado do “ver” como recurso metodológico suporta parte da relação pesquisador e pesquisados e faz entrever novos recortes e possibilidades de abordagem para o objeto esporte.

Mascote do América do RJ
Por meio da soma das experiências e trajetórias pessoais e intelectuais de cada um e da perspectiva etnográfica, nossa visão de jogo, privilegiada aqui, traz um recorte que alinha todos os trabalhos por tornar mais evidentes algumas das categorias que estavam ocultas nas práticas, isto é, que diziam respeito somente aos portadores em seus domínios. Descortinadas pela etnografia, poderão ser compartilhadas pelo conjunto mais amplo de pesquisadores e leitores interessados no olhar antropológico sobre alguns fenômenos relacionados aos esportes.

A temática canônica que aproxima identidade nacional com futebol foi tratada de modo original pelo referido trabalho de cunho mais historiográfico, mostrando as aproximações entre o simbolismo esportivo e a política. Ele retornará nas discussões feitas por Santos sobre a lógica da prática nas escolinhas de futebol na reprodução do estilo à brasileira de jogar. Outras etnografias trazem abordagens mais pontuais e contribuem com novos recortes e aproximações temáticas, tal é o caso das “religiões esportivizadas” descritas por Olécio, ou a revisão conceitual via etnografia feita por Costa para os conceitos de festa, jogo e esporte no tratamento dos esportes universitários. A guerra santa totêmica descrita por Passos na disputa entre moderno e tradicional, transfigurada nos mascotes do clube América carioca é outra aproximação interessante entre esporte, religião e sistemas classificatórios.

Duas autoras, Stahlberg e Coelho, resvalaram na complexa questão de gênero e trabalharam o futebol e o voleibol dentro de chaves analíticas que desconstroem as unidades biologizantes que fundamentam o senso comum sobre a problemática, ou ao menos se aproximam dessa perspectiva ao problematizarem o modo com essas modalidades podem ser vistas como nichos de determinadas expressões variadas e alternativas ao pretenso universalismo masculinizante historicamente imposto às práticas esportivas.

Três trabalhos, Oliveira, Palmiéri e, novamente, Santos, discutem algumas das dinâmicas internas às modalidades futebol e voleibol. Oliveira desce aos fundamentos para mostrar a produção das formas de jogar no voleibol, problematizando as comparações com o futebol. Palmiéri centra-se na circulação de jogadores entre culturas esportivas diferenciadas, associando simbolismo e economia esportiva, e Santos observará o apuro da noção de estilo de jogo dentro dos processos lúdico-pedagógicos de aprendizado da prática nas chamadas escolinhas de futebol.

Optamos por usar o subtítulo antropologia das práticas esportivas em vez de antropologia dos esportes para ganhar mais mobilidade temática, por assim dizer. Antropologia dos esportes parece circunscrever-se às atividades propriamente esportivas e, como o leitor observará, nem todas as etnografias estão focadas exclusivamente em modalidades esportivas de alto nível, pois remetem também a variadas práticas que conjugam certos princípios simbólicos híbridos, para usar um termo caro a autores como Archetti, mencionado por Toledo num ensaio comparativo no último capítulo, e que não necessariamente estão circunscritos ao domínio esportivo. Entre o jogo e o esporte, o lúdico e o competitivo, encontram-se performances e representações que não poderiam, sem correr o risco sempre presente em qualquer generalização, se enquadrar em um ou outro desses termos.

Torcida em Jogos Universitários
Fluidez e sincretismo são marcas características reveladas pelas pesquisas e permitiram pensar as práticas esportivas a partir de um modelo que, embora parta do futebol profissional, tal como estabelecido em Lógicas no futebol (Toledo, 2002), abre caminho para outras modalidades e representações.

Desse modo, o recorte empírico de cada uma das pesquisas delineia seus próprios profissionais, especialistas e torcedores numa trama que é constituída a partir da correlação de forças internas aos grupos analisados. Os estilos e performances, ou numa síntese, as formas-representações, levam em conta as particularidades etnográficas observadas de modo sistemático, o que possibilita o exercício comparativo pretendido.

Isso é claro, mais uma vez, no campo religioso, nas festas universitárias, nas análises sobre o voleibol, na discussão sobre o totemismo esportivo. Mas é também, inclusive pelos estágios dos pesquisadores, um norte para o desenvolvimento de uma linha de pesquisa voltada para os fenômenos esportivos, nossa visão de jogo.

O domínio das práticas, portanto, deve ser visto sob os olhares deslocados a partir dos próprios agentes que esgarçam os significados da categoria esporte a ponto de subvertê-la. A tarefa da visada etnográfica e justamente correr atrás desses ajustes de significado, sem corrompê-los pelo formalismo ou pelas reificações de certas definições seguras.

Cabe ressaltar que, excetuando a pesquisa de Santos, todos os outros trabalhos foram financiados pela Fapesp nas modalidades iniciação científica (Coelho, Sthaberg, Palmiéri e Oliveira), mestrado (Costa, Passos e Francischini) e pós-doutorado (Olécio). A maioria esteve vinculada ao projeto jovem pesquisador, intitulado “Das formas simbólicas e natureza social dos esportes coletivos: perspectiva comparada em antropologia do esporte”, desenvolvido entre os anos de 2005 e 2009, supervisionado por Toledo e também financiado pela referida instituição. 

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