segunda-feira, 25 de junho de 2012

Anos 40: Viagem à década sem Copa


Um dos maiores jornalistas do país, Marcos de Castro, definiu com precisão absoluta o que representa o livro que Literatura na Arquibancada destaca agora. “Anos 40 – Viagem à década sem Copa” (Editora Bom Texto, 2004), de Roberto Sander, é “um verdadeiro achado”, na história da literatura esportiva brasileira.

Escrever e publicar livros sobre personagens famosos, ídolos, grandes conquistas nacionais ou internacionais, é, relativamente, fácil, mas escrever e publicar uma obra sobre um período praticamente esquecido do futebol mundial por conta de uma Guerra Mundial é um desafio. Por que um leitor iria se interessar por um período em que nem mesmo Copas do Mundo foram disputadas? Campeonatos locais esfacelados pelas dificuldades impostas do pós-Guerra?

Roberto Sander
Mas é exatamente por conta de tudo isso que o livro de Roberto Sander se tornou uma referência na literatura esportiva brasileira. Um período negro na história do futebol mundial que pouquíssimos ou quase nenhum jornalista, escritor ou pesquisador, se atreveu a mergulhar com o devido rigor. Sander, não. Deixou para a história uma obra obrigatória para amantes ou não da literatura esportiva.

Quer entender a razão? Leia o prefácio assinado por Marcos de Castro.

Um achado
Por Marcos de Castro

“Ao prefaciar um livro do grande Alceu Amoroso Lima, Otto Lara Resende disse, no fecho de suas palavras, que o prefaciador é apenas uma espécie de porteiro: não lhe compete mais do que o singelo ato de abrir a porta. É o que tentarei fazer aqui, com a consciência de que o bom porteiro tem que trabalhar discretamente. Isso não me impede, porém, de dizer logo que este livro é um achado. Um grande achado.

No mundo do futebol, vivemos bombardeados de quatro em quatro anos pela menina dos olhos desse grande mercado, a Copa do Mundo. A televisão despeja em nossos olhos e em nossos ouvidos, vários meses antes de começar a competição, uma cascata colorida sobre os encantos das Copas que se foram, e as maravilhas que nos aguardam na Copa que virá. As editoras parecem acreditar – e creio sinceramente que se trata de um equívoco mercadológico (ou de marketing, perdão) – que a Copa do Mundo é o único grande filão na área da literatura do futebol. E tome livro sobre Copa! Pois se esquecem que as Copas do Mundo não se fazem por si mesmas: são feitas nesses períodos quadrienais que estão por trás delas. E o grande encanto do futebol está precisamente nessa zona de bastidores, na qual tudo nasce, cresce, vive e pulsa sempre com grande intensidade.

Página de "Anos 40"
Aí é que entra este livro do nosso Roberto Sander, cheio de revelações impressentidas, pois ninguém ainda tinha se lembrado de fixar seu foco de luz exclusivamente sobre esse período, por todos os motivos o mais rico no crescimento do futebol brasileiro. Isso mesmo, o período da adolescência do nosso futebol, com todas as crises próprias da idade. Vivemos nos esquecendo disso, dessa riqueza inerente à fase que une a infância à juventude – e nesse sentido é que este livro é um achado. Trata-se simplesmente de um mergulho nos anos 40. E que mergulho! Nele você vai descobrir a verdade um tanto negligenciada de que a raiz do nosso futebol de sonho está toda ali. Que tudo começou nos anos 40, sim, senhor. Que a mágica do nosso futebol moldou-se naqueles dez anos.

Por causa da Segunda Guerra Mundial, nos anos 40 não houve Copa do Mundo – por isso mesmo esses dez anos são um tanto desprezados, pelo menos como visão de conjunto. E, no caso do Brasil, distante da guerra europeia, foram os dez anos formadores por excelência do nosso futebol. Neles está a passagem do romantismo para o profissionalismo (embora oficialmente o profissionalismo começasse nos anos 30, essa data na verdade é apenas um registro burocrático), com o lado dramático que isso pressupõe, encarnado na figura simbólica de Heleno de Freitas – hoje a elite dos meios de comunicação preferiria dizer “emblemática”.

Leônidas da Silva
Encarnado nos desencontros permanentes de Leônidas com seu dono, na realidade que nascia, o clube (no caso, especificamente o Flamengo), e na longa lua-de-mel que se seguiu com o novo dono, o São Paulo. Em Jair, que sai do seu clube, no Rio, num doloroso momento de crise típico dessa época, para continuar sua caminhada de glórias em terras paulistanas. Em Zizinho, que projetou sua carreira ímpar até o fim dos anos 50.

De todas essas coisas tínhamos vasta informação específica, aqui e ali. Mas uma visão de conjunto não tínhamos. Pois veio este livro e nos deu essa visão. Você leitor, vai se deliciar com o mergulho total nos anos 40. E descobrir que o jeito de ser do nosso futebol se formou lá, quando se agregou de uma vez por todas o negro a um esporte até então muito branco (Gilberto Freire, vai-se ver, dizia que jogamos futebol sob a influência da capoeira e do samba). Você vai descobrir que nossas glórias se enraízam todas lá, que está tudo lá, nos anos 40.

A derrota para o Uruguai, na Copa de 1950.
É verdade que saímos desse período de formação para o fracasso que foi a derrota na Copa de 1950. Mas, afinal, não é nas derrotas que se forjam as grandes vitórias? Isso quer dizer que nos anos 40 é que está a gênese de toda a nossa história de colecionadores de títulos mundiais.
Aberta a porta, leitor, comece a descobrir, pelas mãos de Roberto Sander, o encanto dessa década sem Copa, berço de todo o esplendor do nosso futebol campeão de cinco Copas”.  

Como toda essa história surgiu? É o próprio Roberto Sander quem nos revela.

Apresentação
Por Roberto Sander

Soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB)
“Desde que me entendo por gente, a década de 1940 me fascina: a guerra que mudou os rumos do século, o cinema em preto e branco e o futebol visto por fotografias amarelecidas e filmes corridos de pouca nitidez. Nasci no fim da década seguinte e comecei a acompanhar futebol no auge da era Pelé. Cheguei a ver o seu milésimo gol. Tinha 11 anos e estava com meu pai, na arquibancada do Maracanã, bem atrás da baliza onde foi cobrado o pênalti quase defendido pelo goleiro argentino Andrada. Hoje, quando revejo esse gol, registrado sem cores, do jeito que tanto gosto, custo a acreditar que estava realmente lá; que era personagem, como todos os presentes, do ritual em que se transformou aquela cobrança.

O fato é que fui mal-acostumado. Afinal, vi ali, bem na minha frente, o maior gênio do futebol no momento mais fulgurante da sua carreira. A partir de então – talvez pela experiência de tão jovem ter presenciado um marco histórico do futebol – passaram a instigar a minha imaginação craques de quem os mais velhos contavam incríveis façanhas. Leônidas, Romeu, Zizinho, Tim, Jair Rosa Pinto, Perácio e Heleno eram nomes que soavam misteriosos e que me faziam indagar: como teria sido o futebol dos anos 40, da chamada “Era Pré-Maracanã”?

Menino, porém, tinha muito mais com que me ocupar: os estudos, as peladas de rua, o mar de Ipanema, as primeiras paixões, o fascínio do Maraca, o rock’n’roll começando a bater na alma...Com toda a volúpia, se escancaravam as portas dos anos 70. No entanto, aqueles tais anos 40 permaneciam lá, intactos, volta e meia atiçando a minha curiosidade. Curiosidade que só aumentou quando fui percebendo a indiferença com que são tratados esses 12 anos que separam as Copas de 1938 e 1950 – uma lacuna inexplicavelmente não preenchida pelos livros que contam a história do futebol brasileiro.

Guerra na Iraque
Os anos voaram e, após assistir a incontáveis jogos, primeiro como torcedor e em seguida como repórter esportivo, decidi finalmente resgatar esse tempo perdido, fazendo uma viagem à década escondida sob as mais remotas reminiscências da minha meninice. O estalo se deu quando soube que o Campeonato Mundial Sub-20, que seria realizado em março de 2003 nos Emirados Árabes, havia sido cancelado por causa do iminente ataque norte-americano ao Iraque. Fiz uma ligação imediata com o que aconteceu nos anos 40 quando dois mundiais não foram disputados por causa da Segunda Guerra Mundial.

O belicismo de Hitler, sem exagero, parecia encarnado em Bush e o futebol novamente virou alvo, sendo atingido em cheio pelo insano gatilho do imperialismo. A partir daí, parti resoluto em busca da década sem Copa. Nela, não havia televisão para registrar os grandes feitos e o rádio cumpriu esse papel com inegável competência. Não havia também Maracanã, Morumbi, Mineirão ou Beira-Rio, mas o futebol já estava se tornando a segunda pelo do brasileiro e, por isso, esses grandiosos palcos acabariam erguidos – o Maracanã ainda dentro da década.

Alguma experiência como pesquisador me ajudar a fazer, no decorrer de quase um ano, uma varredura nos jornais da década. Assim, as imagens fragmentadas de um tempo de sombras foram ganhando forma, como o papel fotográfico depois de banhado pelo líquido revelador. Desse modo, pude imaginar tabelas, dribles e gols de craques que, infelizmente, a nossa amnésia esportiva crônica relega a um segundo plano. Assim, também avaliei com mais precisão a pujança de um esporte que deitava raízes em todo o mundo, que já se tornava o mais popular entre todos. Entendi como a guerra deixou a bola de luto e dimensionei o quanto as cidades brasileiras, mesmo distantes do conflito (nem tanto porque em nosso litoral vários navios da frota nacional foram torpedeados por submarinos nazistas), viviam sobressaltadas pelo medo de um ataque alemão.

O que proponho é um encontro com a década esquecida. Para saber mais das pugnas – que muitas vezes não tinham mais que dez faltas, mas que, não raro, terminavam numa monumental pancadaria –, dos grandes craques, suas conquistas, dramas e decepções.

Pedro Amorim e Heleno de Freitas
Saber de um football que brotava tão espontaneamente nas pessoas que acabava se manifestando como uma espécie de fervor religioso e que, por isso mesmo, foi ardilosamente manipulado pelos artífices do Terceiro Reich. Saber, enfim, de um Brasil que ainda lutava para se livrar das marcas de uma pesada herança escravista e que, ao mesmo tempo, passava por profundas transformações políticas, sociais e econômicas.

Para finalizar, devo dizer que fiz o possível para relatar o que de mais importante aconteceu nesse período. Mas, evidentemente, dado o universo quase infinito contido em dez anos, em nome de uma certa concisão, dolorosamente, precisei abrir mão de alguns episódios, além de deixar de estender em outros. Espero que isso não tenha comprometido o essencial: a percepção de todo o encanto da década sem Copa. Portanto, como nos sugere Ari Barroso em Aquarela do Brasil, o estrondoso sucesso que ganhou o mundo a partir de 1939, estão abertas as cortinas do passado. Só nos resta então viajar para desvendar um pouco da face mais oculta de um certo esporte chamado futebol”.

Sobre Roberto Sander:
É formado em jornalismo, publicidade e pesquisa em comunicação pela PUC-RJ. Foi pesquisador-bolsista do CNPq. Integrou a equipe de reportagem geral na TV Record e SBT. Na área esportiva, trabalhou no jornal O Globo, na TV Globo e no canal Sportv da Globosat. Foi apresentador do telejornal Sportvnews durante a Olimpíada de Sidney, em 2000. Trabalhou como editor de projetos especiais no Jornal dos Sports. Atualmente, comanda a Editora Maquinária.

Um comentário:

  1. Anônimo16:17

    PORQUE NÃÕ FALAM SOBRE O TECNICO QUE ATUOU NESSA ÉPOCA

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