sábado, 2 de junho de 2012

Afrânio Peixoto: "Para vencer no futebol"

Afrânio Peixoto

O que há de mais prazeroso neste resgate da literatura esportiva que o Literatura na Arquibancada procura fazer é quando encontramos algum texto produzido, em passado distante, por um grande nome da literatura brasileira.

E é incrível como o tempo não interfere em praticamente nada nas análises do autor. Afrânio Peixoto, um dos maiores nomes da literatura brasileira, além de médico legista, político, professor, crítico, ensaísta, romancista e historiador, escreveu em 1916 uma crônica sobre os significados do futebol para uma sociedade como a brasileira. O mais curioso é o relato de sua primeira experiência em um jogo de futebol disputado, provavelmente, no estádio da Rua Paysandu, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Para Afrânio Peixoto, pouco importa revelar quem eram os times em campo. Seu olhar estava atento ao estilo e comportamento dos jogadores brasileiros e como o futebol poderia ensinar muito mais do que o povo pudesse imaginar.

Apesar da distância do tempo em que tudo aconteceu, é incrível como ao ler seu texto, vemos semelhanças no estilo de jogo praticado pelo futebol brasileiro até hoje. 

Principalmente, a falta de sentido de equipe, solidariedade, cooperação e disciplina, termos utilizados, inclusive, na chamada da crônica, publicada no Almanaque Esportivo do jornalista Thomaz Mazzoni, no ano de 1945. 

Mais curioso ainda é saber que dois anos depois, Afrânio Peixoto morreria, tornando o resgate desta crônica, fundamental para o acervo histórico da literatura esportiva brasileira.

“Vencer no futebol...

Significa disciplina, cooperação, solidariedade eficaz.

Reprodução Almanaque Thomaz Mazzoni, 1944/1945, com
artigo de Afrânio Peixoto.
Em 25 de outubro de 1916, portanto, há quase 30 anos, o antigo Jornal do Commércio publicava a belíssima colaboração que transcrevemos, assinada por Afrânio Peixoto. Não se trata do nome de um técnico de futebol e nem de um diretor de clube futebolístico. Afrânio Peixoto além de médico de valor, é um escritor que honra as letras brasileiras. Esta sua página, que o Almanaque reproduz, além da finura literária, tem significado especial. É preciso não esquecer que há muita gente por aí que fala mal do futebol, sem nunca ter assistido a um jogo...

Por Afrânio Peixoto

Não há infelizmente neste profundo e culto país um só homem, de grandes ou pequenas responsabilidades, que não tenha um sorriso superior, de benévolo ceticismo, talvez até de piedade, para cogitações tão fúteis...

Afrânio Peixoto
“Sports”, distração de rapazes, atrativo de moças, uns a mostrarem formas de atletas, outras a exibirem os últimos figurinos... Divirtam-se...há de lhes aproveitar bastante.

Confesso que tenho o meu fraco por essas festas da força: a gente distrai-se e pensa, o que, às vezes, é instrutivo...

Lembra-me agora, por exemplo, a primeira vez que fui aqui a um campo de “foot-ball”. 

Povo garrido e entusiasta, a rebentar as arquibancadas, para assistir a um “match” de patrícios, desafiados por um “team” estrangeiro, que atravessara os mares para se bater conosco. 

A honra já era uma vitória; certo que a Europa, uma vez mais, como a canção popular, ia curvar-se ante o Brasil!



Estádio da Rua Paysandu, RJ.
O jogo começou, com aplausos de animação e delicadeza, aos vencedores, aos vencidos, disposição muito mais amena que o julgamento final, em que há muita veemência e algum despeito, a mesclar entusiasmo.

Mas, começou, e os aplausos continuaram, apesar dos nossos não fazerem um ponto, embora, um por um, os estrangeiros nos “vasassem” o “goal”.

Ganharam? Que importa, ganhavam sem glória. Faziam “passes” sucessivos, cada um ocupado com a modesta posição que lhe cabia no concerto, estranho à assistência, sem contar por si, mas apenas consigo para os outros, para o “team”, por isso constantemente vencedor. A vitória era deles, não há dúvida, 4 a 0, mas era uma vitória a dividir por onze, como bilhetes de uma loteria: undécimos sorteados...

Estádio da Rua Paysandu
Os nossos, não tinham bravura, contavam por si, e só consigo. Já na atitude, voltados para a assistência, quando podiam, lobrigavam sem dúvida nas mil cabeças curiosas, que os fitavam admiradas, uma cujos olhos brilhassem mais inquietos, denunciando um coração, mais apressado, como a insistir num voto de triunfo. Desempenhavam-se em posturas de atleta, sempre corretos e preocupados, até o momento da intervenção. Quando a bola vinha, um “shoot” elegante, que soltasse as asas à revoada dos aplausos, ou a perícia do jogo pessoal difícil, não obtido sempre, mas honroso para cada um, desses “driblings” em que a gente faz bonito, embora perca o “team”!

Quatro a zero...não valeram palmas, “poses”, olhos votivos, corações apressados, milagres do individualismo. .. perdemos. Os passes, o jogo conjugado, de todos para o grupo, a associação das parcelas, deram resultados. Procurássemos desculpas, melhor adestramento, treino continuado, talvez até uma falaz delicadeza aos hóspedes...não importa, tínhamos perdido.

Com o “zum-zum” da multidão que se dispersava pelos portões abertos, vinha caindo a cinzenta melancolia da tarde. Por Paisandu afora, andei triste, à procura de razões.

Devia ser assim...Já o era, com os nossos antepassados; não os nossos avós, mas os donos desta terra que no-la deram com os seus defeitos, dela recebidos. Um calor exaustivo, que impede a aproximação, uma pequena caça que dispensa a colaboração, a tocaia atrás do pau, a solidão à beira do rio, educaram, através de séculos, os primeiros brasileiros, no individualismo daninho, em que cada um fila somente de si, e não pode, porque não tem em quem confiar.

Os latinos que para aqui vieram, seriam, como todos os latinos, desapegados uns dos outros, incapazes de cederem, na independência de cada um as quotas, que somadas dão a vantagem do povo, a vitória nacional.

Recepção dos torcedores no RJ,
a seleção Brasileira que disputou
a Copa Roca 1914.  
Os outros não...germanos – por instinto, anglo-saxônicos – por educação, são disciplinados...Um homem  não vale senão como fração da sociedade; um jogador não existe, mas apenas parcelas do “team”. E essa longa colaboração, na raça e no indivíduo, fazem constantemente o êxito final, de todas as suas empresas.

No “sport”, como na vida...

Vencem nela os que sabem vencer no outro. De um professor francês que lhes ia ensinar cultura latina, os rapazes de Harvard, a grande universidade americana, queriam saber, para avaliar de tal cultura, se os rapazes de Paris eram fortes no “football”. 

Um “trustes” bilionário declarava que só se convenceria da capacidade dos latinos para os negócios, no dia em que um “team” da Europa meridional vencesse os campeões de Yale.

Por quê?  Porque vencer no “football”, vencer nos “sports”, significa disciplina, cooperação, solidariedade eficaz.

Fluminense de 1919. Ao fundo torcedores nos morros.
Tão eficaz assim? Lembrai-vos de um pequeno incidente na história do mundo.

Os cristãos primitivos, das mais baixas classes e mais humildes condições, perseguidos, martirizados, vilipendiados...venceram, finalmente, o mundo antigo, bravo e forte contra eles, pelo milagre da associação...

Não há quem rompa um feixe de varas, ainda quando, uma a uma, até crianças delas possam dar cabo.

O socialismo, a maior revolução econômica da história, está aprendendo e, talvez, domine a sociedade contemporânea, desprevenida e desagregada contra ele.

Só isto. 

Ao “sport”, pois, que ensina disciplina moral e dá saúde à vida!

Quando cheguei à Beira Mar, estava decidido a voltar nos outros domingos; e não me tenho arrependido. Já não saio tão triste, como na primeira vez. E às vezes, exulto; entrevejo um Brasil de amanhã, mandando um “team” vitorioso a Yale ou a Harvard...”.

Para saber mais sobre Afrânio Peixoto, acessar o site da Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual foi membro: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=127

Suas principais obras literárias são:
Rosa mística, drama (1900); Lufada sinistra, novela (1900); A esfinge, romance (1911); Maria Bonita, romance (1914); Minha terra e minha gente, história (1915); Poeira da estrada, crítica (1918); Trovas brasileiras (1919); Parábolas (1920); José Bonifácio, o velho e o moço, biografia (1920); Fruta do mato, romance (1920); Castro Alves, o poeta e o poema (1922); Bugrinha, romance (1922); Ensinar e ensinar (1923); Dicionário dos Lusíadas, filologia (1924); Camões e o Brasil, crítica (1926); Dinamene (1925);
Arte poética, ensaio (1925); As razões do coração, romance (1925); Uma mulher como as outras, romance (1928);Sinhazinha (1929);Miçangas (1931);Viagem Sentimental (1931); História da literatura brasileira (1931); castro Alves - ensaio biobibliográfico (1931);

Panorama da literatura brasileira (1940); Pepitas, ensaio (1942);Amor sagrado e amor profano (1942);Despedida (1942); Obras completas (1942); Indes (1944);É (1944);Breviário da Bahia (1945);Livro de horas (1947);Obras literárias, ed. Jackson, 25 vols. (1944); Romances completos (1962);Trovas brasileiras (s.d.); Autos (s.d.).
Além dessas, publicou obras de outros autores e numerosos livros de medicina, história, discursos, prefácios.

Nenhum comentário:

Postar um comentário