terça-feira, 26 de junho de 2012

Telê e a Copa 82: "Da arte à tragédia"


Há 30 anos a seleção brasileira comandada pelo mestre Telê Santana que, mesmo derrotada na Copa do Mundo de 1982, encantou o mundo com o futebol de Zico, Sócrates, Falcão e companhia ganhou em 2012 mais uma obra fundamental para a literatura esportiva.

Trata-se do livro de Marcelo Mora, “Telê e a seleção de 82 – Da arte à tragédia” (Editora Publisher). Não é “mais” um livro sobre a seleção mais falada na história do futebol brasileiro em Copas. Além de uma pesquisa minuciosa a obra traz novas informações, importantes para aqueles que ainda querem tentar compreender como aquela seleção acabou voltando para casa antes da hora.

A escalação feita por Marcelo Mora para os textos que apresentam seu trabalho é “a la Telê”: a orelha é de Luís Augusto Simon, o Menon; o prefácio, de Marcelo Tieppo e a apresentação do craque Alberto Helena Jr.

Orelha
Por Luís Augusto Simon, o Menon


“A história é verdadeira, dou minha palavra, apesar de alguns esquecimentos a respeito de nomes e pormenores, espero que perdoáveis, considerando-se que quem vai contá-la já não é um garoto, como o Marcelo Mora, autor deste fundamental livro.

O ano era 93, disso tenho certeza. Estava em Cuenca, uma agradabilíssima cidade equatoriana, cobrindo a Copa América. O Brasil de Parreira estava no mesmo grupo que Chile, Paraguai e Peru. Em um dos jogos – não me lembro qual – conheci o senhor Estigarribia (será mesmo este o nome correto?) que se aproximou com a indefectível pergunta que ouvimos por toda América do Sul. Brasilero? Si señor, respondi em meu perfeito portunhol.

E ele começou a falar. Contou que acompanhava a Copa do Mundo desde 1950 e que estaria nos Estados Unidos no ano seguinte, para o Mundial de 94. Seria sua 12ª copa, sempre ao lado do Brasil. Era um garoto em 50, sofreu com o Maracanazo, mas criou, a partir dali um vinculo amoroso com o futebol brasileiro. Até então, o Equador nunca havia ido a um Mundial. A estreia seria em 2002 e é muito difícil que o velhinho tenha conseguido ir.


Estigarríbia, ótimo papo falou de Ademir, Julinho, Pelé, Garrincha,Tostão, Jairzinho e tantos outros. Com respeito, com admiração, até paixão, mas tudo isso se tornou esmaecido quando ele começou a falar de Telê Santana e da seleção de 82.

Foi uma transformação física e emocional, como se um crente recebesse mensagem da Virgem de Fátima. Lembrava a partida lance por lance, contava em voz alta da sua alegria com os gols de Sócrates e Falcão, gritava palavrões ao se lembrar do pênalti – ele não tinha nenhuma dúvida – de Tardelli sobre Zico. Cada grito era seguido de um cutucão. Até que me abraçou firme, como se estivesse me confortando pela morte de um ente querido e... chorou, antes da pergunta: “Por que o Junior não saiu, não deu um passo à frente?”


Confesso que não entendi. Ele falava do terceiro gol de Paolo Rossi, legitimado porque Junior, lá na esquerda, dava condição de jogo ao carrasco italiano. Fiquei com vergonha de Estigarribia por não me lembrar dos lances e do jogo com a riqueza de detalhes que ele exibia.

Foi uma aula que usei em toda a minha vida como repórter: percebi ali como o futebol é importante para o Brasil. Mais do que um esporte, ele é importantíssimo traço cultural deste país que amamos. É o futebol e não a missa de domingo e nem o macarrão da mamma que nos une a cada domingo, do sul ao norte, do leste ao oeste.


Mas por que a seleção de 1982, eliminada nas quartas-de-final? Por que Telê Santana, derrotado em 1982 e 1986? Por que esse time tornou-se objeto de culto em todo o mundo? Por que, quando buscamos escolher os melhores times de todos os tempos, invariavelmente os derrotados de 82 têm mais votos do que os campeões de 1994?

Quer saber? Leia o livro do Marcelo Mora. Você vai entender tudo. Vai saber que Cerezo, Zico e Sócrates não queriam Falcão. Que Zico reclamou inclusive com a Copa em andamento. Vai saber muito. Vai saber tudo. E nem precisa gostar da seleção como o Estigarribia gostava, para se emocionar com a mais perfeita descrição do futebol de Toninho Cerezo. Foi o Marcelo que fez. Não foi o Telê”.

Prefácio

Brasil, Barcelona, Sarriá, sarro dos deuses da bola
Por Marcelo Tieppo


“5 de julho de 1982. A Itália eliminara a maior seleção brasileira que aquele adolescente vira jogar e ele mal sabia que outra daquelas não apareceria nas próximas três décadas.

Ele prometera que nunca mais choraria por causa do futebol, depois daquele fatídico dia e não foi difícil cumprir a promessa, porque o Brasil nunca mais foi Brasil dentro de campo, depois da tragédia no estádio Sarriá, em Barcelona.

Trinta anos depois, o amigo Marcelo Mora mostra com riqueza de detalhes porque aquela seleção nunca foi esquecida. Para a garotada que hoje se delicia com o Barcelona de Messi e companhia, os vídeos no Youtube, cujos links aparecem no fim do livro, podem mostrar de onde veio tanta inspiração. Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. Nunca mais teremos um meio de campo como aquele e ainda é difícil acreditar que perdemos aquele jogo para a Itália por 3 a 2.


Era o início da tal abertura lenta e gradual, proposta pelos generais. A campanha pelas Diretas Já! ainda ia pegar fogo nas ruas, mas aquela seleção já respirava os ares da liberdade, que viriam tardiamente, mas viriam. Um futebol alegre, solto, o futebol brasileiro que estava esquecido depois do tricampeonato, no México.

O retrato de uma geração que se encantou com aquele time montado por Telê Santana e descobriu a amargura da derrota. Descobriu que nem sempre o melhor vence, que o mocinho do filme nem sempre vai levar a melhor.

A derrota do Brasil na Espanha foi a derrota do futebol. A Itália virou referência para os burocratas da bola, os tais defensores do futebol de resultados, que deram o veredicto: é impossível jogar bonito e vencer. Ou você vence ou joga bonito.


Felizmente, há sempre os que fogem à regra. Ver hoje o ex-técnico do Barcelona, Pepe Guardiola, dizer que o futebol brasileiro sempre foi sua fonte de inspiração é a prova de que aquela seleção, que perdeu em Barcelona, não fez a cabeça apenas dos brasileiros. Guardiola decidiu deixar o clube, depois de perder a Liga dos Campeões, mas saiu reverenciado, apesar da derrota, porque deixou um legado e alegrou corações e mentes no mundo inteiro nos últimos quatro anos. 

Os deuses do futebol tiraram sarro no Sarriá, no dia 5 de julho de 1982, mas hoje é um sarro ver o Barcelona jogar e encantar na mesma Barcelona que me fez chorar pela última vez por causa do futebol”.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo um pequeno trecho do capítulo inicial de ““Telê e a seleção de 82 – Da arte à tragédia”.

Bons ventos o trazem
Por Marcelo Mora


“O pontapé inicial de uma das maiores correntes pra frente dentre tantas que este país já viu e que embalaram as distintas seleções nacionais em Copas do Mundo pode ter sido dado em 17 de maio de 1979. A data pode parecer pouco adequada para quem acompanha a história da seleção brasileira, mas é de grata lembrança para quem admira o futebol tido e dito como arte na sua mais pura essência. Naquele dia, em pleno Maracanã, o templo sagrado do futebol, os brasileiros foram apresentados ao embrião do que viria a ser um time mágico e que encantou toda uma geração de amantes deste esporte em todo o mundo.

Ressabiados pelas participações na Copa da Alemanha, em 1974, e na da Argentina, em 1978, os torcedores presentes ao estádio puderam presenciar o nascimento de um esquadrão que reunia uma constelação de craques comparável ao das seleções de 1958, 1962 e 1970 – e, por que não, de gerações anteriores. Na data citada, em 17 de maio de 1979, o Brasil, ainda sob o comando do técnico Cláudio Coutinho – o mesmo Cláudio Coutinho que se auto-intitulou, de forma prosaica, “campeão moral” por ter levado a seleção a um terceiro lugar no Mundial da Argentina de forma invicta -, entrava em campo para fazer um amistoso contra o Paraguai, então à época um vizinho sempre solícito e disposto a ajudar o selecionado tupiniquim a levantar seu moral, dada a sua fragilidade. Uma época na qual ainda havia bobo no futebol, como diriam os cronistas esportivos.


Com a camisa amarelinha, para enfrentar os paraguaios, lá estavam reunidos pela primeira vez Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates, todos destaques em seus clubes de origem e já aclamados como craques incontestáveis. Naquela ocasião, ainda não se tratava de um “quadrado mágico” a formar o meio-campo da seleção, já que um dos ‘vértices’ – no caso, Sócrates – atuava mais à frente, então como um legítimo centroavante. A mesma posição na qual ele se destacara nos tempos de Botafogo, de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

Com seus gols e uma categoria em campo sem similar, o Doutor, como viria a ser conhecido após a conclusão do curso de Medicina em Ribeirão Preto, despertou o interesse de grandes clubes, como Corinthians e São Paulo. Ao menos nos jogos em que atuou – contra Paraguai, Uruguai, Ajax da Holanda, Bolívia (16/08/1979, pela Copa América), Argentina (23/08/1979, Copa América), Paraguai (24/10/1979, Copa América) e, novamente, Paraguai (31/10/1979) – nesta função pela seleção correspondeu plenamente às expectativas: assinalou ao todo seis gols, média de quase um por jogo.


A foto oficial do Brasil capturada antes dos jogos no dia citado, no entanto, ainda não pôde exibir o tal “quadrado mágico”. Toninho Cerezo havia iniciado a partida na suplência e substituiu a Paulo César Carpegiani no decorrer do jogo. Outros jogadores que viriam a ser destaques em 1982, como o lateral Júnior e o ponta Éder, também já despontavam naquele esquadrão. A seleção entrou em campo com Leão; Toninho, Amaral, Edinho e Júnior; Carpegiani e Falcão; Nilton Batata, Zico, Sócrates e Éder. Roberto Dinamite e Zezé também viriam a entrar no decorrer da partida, nos lugares de Nilton Batata e Éder, respectivamente”.

Sobre Marcelo Mora:

Cronista esportivo de 1991 a 2007. Atualmente se dedica a resenhas policiais e de outros fait divers relacionados a São Paulo, um mundo à parte e inesgotável, pelo G1, o portal de notícias da Globo. Formado e pós-graduado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), teve a honra de trabalhar com profissionais inesquecíveis nas redações dos extintos A Gazeta Esportiva e Notícias Populares. Passou ainda por Globo.com, Folha Online, Diretotal BBN (marketing de relacionamento) e Agência Placar. Fã de carteirinha do Sócrates (dentro e fora de campo), é apaixonado pelo futebol arte - apesar de distribuir caneladas certeiras nas tardes de sábado nos companheiros do Racha do Sabadão.

15 comentários:

  1. Anônimo18:53

    Foi a pior derrota do futebol mundial. Ela representou a morte do futebol arte.

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    1. Graças a Deus naquele dia o futebol se tornou mais PROFISSIONAL!

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    2. Anônimo18:51

      Burro.

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    3. Profissional???
      Talvez mercenário. Hoje temos um futebol de resultados com o intuito de satisfazer a ganãncia de cartolas, empresários e conglomerados que financiam o que, outrora, foi um belo esporte.

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  2. Carlos18:14

    Foi a minha primeira copa....talvez a única copa do mundo de verdade que assisti...pois...como disse o anônimo...foi a morte do futebol arte.

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  3. Anônimo21:13

    foi pra mim a unica seleçaõ brasileira, que realmente encantou uma geração de torcedores,azar da copa que não viu essa seleção ser a campeã mudial....

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  4. Não vejo nada demais nessa derrota... O povo enche a bola de um time que venceu um time soviético por um placar apertado de 2:1. Goleou a fraca Escócia por 4:1 e venceu um time de amadores da Nova Zelândia por 4:0. Na segunda fase, o povo brasileiro, que não sabe nada de futebol, viu o Brasil fazer 3:1 na Argentina que perdeu pra Bélgica por 1:0 e fez apenas 2:0 em Honduras na primeira fase... E, finalmente, enfrentou aquele que estava subindo de produção e se tornou o melhor time daquela Copa, a Itália. Simples, porque venceu! Ela foi a vencedora, foi a melhor. O Brasil perdeu... E como pode um time que perde uma Copa ser considerado um dos melhores de todos os tempos?

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    1. Meu amigo, vpcê não deve entender nada de futebol pra falar uma besteira dessa... VOCE^FALAR QUE NÃO VIU NADA DEMAIS NESTA DERROTA..... OU NÃO GOSTA DE FUTEBOL OU NÃO TEM CORAÇÃO... DEPOIS DAQUELA SELEÇÃO EU CREIO QUE O ÚNICO ESPORTISTA A ARRANCAR LÁGRIMAS DE UM PAÍS INTEIRO FOI APENAS AYRTON SENNA..

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    2. Anônimo14:49

      Vc não consegue ver porque vc nao entende de futebol de verdade, nao entende de futebol arte, ofensivo, bem jogado, elegante. Para começar a URSS tinha uma seleção forte sim, sempre teve nas copas. A Escócia era um time com uma defesa muito bem montada. Ambos os times abriram o placar sobre o Brasil mas foram derrotados pela seleção de 82 devido a força de superação daquele time. Nova Zelandia era um time de amadores mas isso nao tira o brilho nem a beleza daquela bela goleada de 4 x 0 ( não estou certo se vc sabe o que é isso ). A Argentina era a campeã do mundo e tinha um time forte sim. O que aconteceu naquela copa foi uma injustiça contra o belo futebol. Foi muito triste. Mas o que é mais triste é ver gente como vc falar coisas deste tipo.

      Grandes seleções não foram campeãs e mesmo assim entraram para a história das copas ( Hungria/54, Holanda/74, Brasil/82, Dinamarca/86 ). Por isso é fácil entender porque o Brasil de 82 é considerado um dos melhores times de todos os tempos.

      Deixo aqui um antigo provérbio chines para vc refletir: "Quando as palavras não foram melhores do que o silêncio, é melhor ficar em silêncio.".

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    3. Anônimo15:06

      o futebol como em tudo tem cargas negativas , aquele dia Valdir perez e Cerezo estavam com ela . se na volta do segundo tempo.um dos dois tivecem saído o resultado seria outro , é só analizarem o jogo

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    4. Entendes tanto de futebol quanto eu de Física Quântica.
      Essa seleção, pouco antes da copa, fez uma excursão pela Europa e VENCEU TODOS OS JOGOS COM MUITA PROPRIEDADE. Ganhou da Alemanha em Berlim, França em Paris e a Inglaterra em Wembley.

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  5. Anônimo17:43

    A mídia querendo mudar a história. Só porque , pela primeira vez, a seleção tinha como protagonistas um corintiano e um flamenguista.Comparar essa seleção com as de 58,62,70,94, 50 e 02 é muita cara de pau.

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    1. Em termos de talento e qualidade técnica não há comparação. Talvez só a seleção de 70 teria a mesma qualificação.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. O livro "O guia politicamente incorreto do futebol brasileiro" traz com lucidez os possíveis motivos que causaram a derrota do Brasil, ou melhor, a vitória da Itália, pois se eles conseguiram triunfar diante a dita "melhor seleção da copa", eles por méritos deveriam (e foram) os legítimos campeões.

    A bola cruzada pelo meio da zaga brasileira resume bem que apesar da seleção ter sido brilhante, ela errava e que quando errou, tinha um adversário que soube aproveitar as oportunidades.

    Uma pena, mas é história.

    Talvez, se essa seleção tivesse vencido a copa, não seria tão lembrada e idolatrada como é hoje, pois muitas seleções que foram campeãs e venceram, não são tão cultuadas e lembradas como outras que foram grandes e perderam.

    Por fim, essa é a magia de uma Copa do Mundo, trazer pela memória momentos inesquecíveis pra quem viu e viveu e até mesmo aqueles que sequer estavam vivos.

    Luís Sérgio
    FuteAki.com.br

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